Dad's Boyfriend

17 A Mulher de Capuz


Notas iniciais
Olá leitores sobreviventes! Muito obrigado por continuarem acompanhando! Espero que estejam gostando, eu tenho todo um desfecho preparado e acho que vão gostar muito. Estou aos poucos concluindo todas histórias restantes, numa reviravolta incrível. Isso não significa que não vão ouvir mais um pouquinho de como ficaram as coisas pra WoodWolf, Mulan ou Belle. E espero que não estejam ficando malucos com o quanto mudo a forma de escrever. Começou com narração do David, depois viram a narração ser intercalada, logo a forma com que eu organizava isso mudou e agora estou escrevendo em terceira pessoa, narrador observador. Bom, tudo que faço é pro bom desenvolvimento da história. Estou ansioso para terminar, mas não gosto de fazer as coisas às pressas, de qualquer jeito. Em terceira pessoa posso dar mais detalhes onde quero e prosseguir com a história sem interrupções. É isso, espero que gostem do capítulo. Boa leitura!

— Achei que tinha parado de me chamar dessa forma. Como assim foi real?

— Esse é seu nome. Eu tenho uma longa história pra te contar.

— Eu sei meu nome, David, e não é esse. Meus pais escolheram o nome Christopher porque... Bom, eu não lembro agora, mas tem um motivo. Espera. Kristoff como “Kristoff” naquele filme idiota que é Frozen? – David não pôde evitar o riso ao ouvir isso.

— Sim, exatamente como naquele filme idiota que é Frozen.

— Isso é ridículo.

— Eu sei. E tudo que eu vou dizer a seguir vai parecer ridículo. Mas é verdade. Você precisa saber. – Chris não respondeu nada, dando margem para que o namorado continuasse a falar. – Ok, bom, como eu dizia, Kristoff é seu nome. Hã... sobre aquele filme “idiota”... Bom, aquilo praticamente conta um pouco da história da sua vida, apesar de que não seja o foco. Nós somos o que naquele mundo em que estávamos, chamariam de “personagens de contos de fadas”. Existem muitas realidades, entende? Sua mente é de alguém que teria crescido cético naquele mundo, então acreditar em magia, fadas e animais falantes pode ser um pouco demais pra você, mas eu juro, é real.

— Ok. Eu acredito. – o mais novo respondeu com os braços cruzados e uma expressão terrivelmente séria.

— O quê? Você acredita?! – David jamais esperaria tal reação.

— Sim, eu acredito. Olha, eu acabei de ser sugado por não sei, um portal de luz, criado por um cara de uns dois metros com duas cabeças grudadas olhando em direções opostas, o que quase me fez cagar nas calças de medo. E se você diz que aquilo foi real, o resto é fichinha. Mas pra ser honesto, se quer me convencer que sou um personagem de histórias infantis, vai ter que fazer um pouco melhor que isso, porque querer que eu engula isso de ser um personagem de “Frozen”... aí já é demais, pensei que fosse mais criativo.

— Kristoff!... Christopher. Eu estou falando sério. Se eu tivesse assistido aquilo antes de te conhecer, não acreditaria também, mas eu te conheço há muito, muito mais tempo que imagina. E ainda que pareça coincidência demais, fizeram um filme com você sim senhor.

— Você não está entendendo. Eu li o conto da Rainha do Gelo. – ele ergueu as sobrancelhas e firmou seus braços cruzados, olhando em outra difereção. – Bom, na verdade eu não li o conto, mas eu li sobre ele. É quase a mesma coisa. Você sabia que na versão original não tem Kristoff, Elsa ou Anna, certo? Existe, hã... Kai. O mocinho. Tem a namoradinha dele que eu não lembro o nome e a bendita rainha do gelo, que é malvadona. A Disney simplesmente jogou a história fora e criou uma baboseira com personagens inventados. O autor deve estar se revirando no túmulo até hoje.

Ele descruzou os braços e deu as costas para Nolan, andando como se soubesse aonde estava indo. Este o seguiu.

— Eu sei que parece loucura. Mas não queira que eu explique isso, eu simplesmente não sei como foram acabar escrevendo um filme que conta sobre pessoas como você e não do livro que dizem ter inspirado o filme. Ei! Me espera. Tá ouvindo a gente? O quanto parecemos idiotas? Estamos discutindo sobre um filme Disney! Um filme que aparentemente ambos desgostamos. – ele soltou um risinho. – Podemos voltar ao que interessa?

— Honestamente... – Chris continuou andando sem olhar pra ele enquanto falava. – Eu prefiro Tinker Bell. O Neal também. – Houve silêncio por alguns segundos. – Desculpe. Nós vamos achá-lo. Vai ficar tudo bem.

David ignorou. – Kristoff. Eu sou o príncipe da história da Branca de Neve. Ela é a Mary Margaret lá no outro mundo. A Emma é realmente nossa filha. Eu vou te explicar tudo com calma depois. O que importa é... uma rainha muito má mandou todos nós pra aquele mundo. E lá nós perdemos nossas memórias de quem realmente éramos. Alguns, como eu, recuperamos isso. Você...

— Então é culpa de uma bruxa que eu não lembre disso?

— Sim. – mentiu. – Ela levou todos nós com uma maldição há muitos anos atrás. Ficamos presos no tempo por anos, até que Emma, que envelheceu lá fora, veio nos salvar.

Um barulho estrondoso de pancadas no chão aproximou-se deles. Algumas árvores há uns dez metros de distância foram sacudidas. – Você está ouvindo isso? – Chris murmurou, finalmente virando-se para olhar para outro.

— Sim. Estou, claro que estou. Se for o que estou pensando... precisamos nos esconder! Rápido, por aqui! – ele desviou do caminho que faziam, entrando na mata mais densa à sua direita e Chris fez uma careta sem entender nada.- Vem! – David voltou e puxou-o pelo braço, no exato instante que uma criatura enorme apareceu diante deles. Parecia um homem, mas tinha dentes pontiagudos pra fora da boca e seus olhos não tinham pupilas. Ele era careca, gordo e vestia roupas extremamente sujas. Tinha mais ou menos a altura de uma casa.

A criatura rugiu raivosa e atingiu uma árvore com uma espécie de bastão com pregos que segurava em uma das mãos. Mesmo mata a dentro, a criatura os seguia, dilacerando árvores ou o que encontrava no seu caminho, para alcançá-los.

— Eu acredito em você! Eu acredito! – o mais baixo gritava, suando frio e apertando a mão do seu namorado enquanto corriam. – Por favor, me diz que você tem moral com o Shrek ali e resolve logo isso!

David olhou para trás, a criatura estava mais perto deles que imaginava. – Não, não é o Shrek... ele não existe e... eu nem tenho certeza se isso é um ogro ou um orc!

Chris pareceu abalado com a resposta. – Isso foi uma piada! Uma referência! Estou tentando quebrar o gelo por aqui, ok? Há! Acabei de perceber... “Kristoff”... “quebrar gelo”!

— Cala a boca, Chris!

Eles chegaram a um penhasco e Chris pensou que estariam acabados. De relance viu que haviam muitos galhos e árvores tortas por todo penhasco e lá embaixo havia um rio. O monstro resmungava em “ogrês” e já podia acertá-los com seu bastão se quisesse.

— Nós vamos pular. – disse o xerife, puxando Christopher pela mão.

— O quê!? Nã... – ele não teve tempo de responder.

Mas para a surpresa dele, não caíram num abismo sem fim. Fora rápido demais pra ele entender qualquer coisa, mas sabia que estavam escorregando pelo interior de um grande tronco, para sabe-se lá onde. O ogro certamente não passaria por lá.

“Crec!”, ouviram quando todo o tronco tremeu. Um grande pedaço atrás deles quebrou e viram o monstro se pendurando por cima do enorme tronco. A medida que ele ia se esgueirando lentamente, pedaços do tronco iam se quebrando atrás deles. E o mais preocupante é que uma enorme rachadura os alcançava.

— Isso diabos é lugar pra nascer uma árvore? Aliás, um tronco oco desses? Não que eu esteja reclamando, claro.

David riu. – Não é um simples tronco. É um portal, construído pelos anões e pelas fadas. Já estamos chegando.

— Ah. Anões e fadas. Entendi. Muito louco.

Então a queda acabou e pararam de escorregar. O tronco se estendia a frente deles e tinham que andar engatinhando se quisessem passar. O monstro atrás deles finalmente quebrou o resto do “escorregador mágico”. “ROAAARGH!”, ele fez enquanto enfiava a mão dentro do pedaço na horizontal, tentando pegar os dois.

— Depressa! – David gritou. – Vamos!

Ele engatinhou o mais rápido que pôde e Chris fez o mesmo, embora estivesse muito escuro e não parecesse ter um final. Até que bum! David bateu a cabeça.

— Tá brincando? Acabou?

— Calma. É aqui. Chegamos.

O monstro lá fora continuava gritando raivoso e a cada segundo ele fazia mais força para enfiar o braço, trincando o tronco.

— Chegamos aonde? Ele vai nos alcançar!

— Quase, quase! Olha! – ele apontou para um buraquinho no chão. Nele dava pra ver um rio com a água agitada e provavelmente bem fundo. O mesmo que vira lá de cima.

— Se nós cairmos agora, nossas chances de morrer só aumentam.

— Não. – David disse tão somente. O buraco foi se tornando maior e maior e Chris foi se afastando com medo de cair. – Não volte, idiota! — Então a criatura conseguiu agarrar uma das pernas do garoto por entre seus dedos indicador e médio. Ele e David faziam cabo de guerra com o pobre coitado, enquanto o buraco ia ficando maior no chão.

Chris conseguiu livrar-se dos dedos do monstro sacudindo a perna, mas perdeu seu sapato na luta.

— Droga! Eu realmente preciso parar de perder sapatos! É seguro pular aí?

— Vem logo.

Chris achou que caíam rumo a morte certa, mas a medida que seu corpo atravessava o buraco, um brilho amarelo aparecia e fazia o mesmo som que uma caixinha de música. Ele se sentiu vendo aquilo em câmera lenta. Foi a experiência mais gay da sua vida.

Storybrooke, dias antes

Eu posso falar com o senhor um minuto? – duas vozes ecoaram por trás de Spencer ao mesmo tempo.

— Por favor, me mandem suas dúvidas por e-mail, realmente não é uma boa hora. – o homem respondera virando-se antes mesmo de ver o que julgava ser alunos seus da Universidade de Storybrooke. – M-mas que...

Diante dele havia não exatamente duas pessoas mas sim o corpo de uma pessoa com duas cabeças, cada uma para um lado, na horizontal, coladas pela parte de trás do crânio e nuca. Ambas eram mal formadas e uma das cabeças possuía uma densa barba, enquanto outra parecia até mesmo mais jovem. O corpo que compartilhavam, vestia um elegante terno cinza de risca de giz, mas nenhuma gravata. Apenas uma camisa branca por baixo.

— Poupe-me de sua ignorância, mortal. – as vozes disseram juntas outra vez e aquele ser levantou uma de suas mãos e tocou a testa do homem careca que estava aterrorizado. – Isso pode te provocar devaneios.

Durou alguns segundos, mas na cabeça de George pareceram longos minutos. Ele se sentiu revivendo o primeiro momento em que notou Christopher Black em sua classe de Direito Penal, na Universidade. O mesmo Christopher Black que acabara de descobrir que estava “namorando” seu filho. Por mais que ele respeitasse, ele tinha levado um susto com a informação.

— Sr. Spencer? Sr. Spencer? – o garoto o chamava em voz alta, no meio de uma fileira de carteiras na sua lateral esquerda. – Posso perguntar uma coisa?

— Pois não, senhor...?

— Black, Christopher Black. Professor, se o código penal do país define o estupro como a penetração sexual de um homem em uma mulher, que não seja sua esposa, mediante uso de força e sem consentimento da ofendida mas não aplica a regra dessa forma por ser omissa ao homem que estupra a própria mulher, favorecendo o crime para ele, além de ignorar completamente a existência de estupros contra indivíduos do sexo masculino, mesmo que esteja em desuso já que se aplica como estupro qualquer violação à vontade sexual de uma pessoa, independente de sexo ou matrimônio... Digo, depois de tanto tempo, se já notaram o teor machista e primitivo do texto, por que não alteram a redação? Pra quê diabos continuar com essa definição de certa forma ofensiva? Eu também gostaria de entender o motivo de existir a palhaçada do crime de “sodomia” sendo que há milhões de filmes eróticos onde as mulheres praticam coito anal e bom, nunca ouvi falar de uma sendo presa por isso. N-Não que eu assista muitos, é claro... Aliás, não estou dizendo que assisto. E se a “copulação oral” é crime somente quando cometida sob ameaça ou violência, por que não é simplesmente incluída no crime de estupro? Ao meu ver, se uma pessoa é forçada a praticar sexo oral, ela está sim sendo estuprada.

Spencer estava espantado com tamanho interesse pelas questões éticas que envolviam a matéria que estudavam aquele dia. O garoto nunca tinha se destacado na aula dele antes por qualquer motivo. Na verdade, Spencer nem sabia como a voz dele era. Lembrava de tê-lo visto em suas aulas, mas sempre quieto e não muito interessado. Era provavelmente um dos alunos nota média que não se destacava. Mas depois daquele dia, Spencer nunca esqueceu seu nome.

— George! George! – as vozes o trouxeram de volta a tona. – George. É seu verdadeiro nome, não é? – o homem apenas concordou com a cabeça. — Você iria lembrar-se de qualquer forma daqui trinta minutos, eu só adiantei o processo. Você era o próximo a perder o efeito dessa magia catastrófica pairando sob a cidade. Eu sou Jano. Deus dos inícios, mudanças e recomeços. Eu sou o deus das portas. Me escute, enquanto eu restaurava suas memórias originais, você viveu uma pequena alucinação, provavelmente de algum evento real que já aconteceu na sua vida. Eu não sei o que você vivenciou, mas tenho más notícias. Alguém esteve na sua cabeça. Com quem você falou, George?

— C-Com um de meus alunos... Sr. Black. Estávamos em uma sala de aula e...

— Entendo. Então a pessoa viu através dos olhos dele nesse momento. Mas não se preocupe, eu senti que a invasão era fruto de algum feitiço barato. Seja lá o que esperavam encontrar, não viram mais que um borrão de você na sala de aula. E não ouviram um só som. Mas você está correndo risco. Estou bastante seguro de que Regina, o xerife e outros estarão atrás de você logo. Você sabe quem eles são, não sabe?

— Sim. A Rainha Má e... o outro é o sujeito que substituiu meu filho.

— Exato. Eles provavelmente vão procurar por você em um ambiente parecido com sua sala de aula, então a Universidade é o último lugar que quer estar, senhor promotor. Você precisa de um recomeço, eu posso sentir. Não precisa?

As vozes juntas já não davam calafrios em Spencer. Ou George. Aliás, nem mesmo as cabeças em direções opostas o incomodavam, embora nenhuma olhasse pra ele enquanto falavam.

— Na verdade... sim. Mas se você for algum malandro metido a espertinho como aquele Rumplestiltskin oferecendo um acordo mágico que sempre vem com um preço, eu...!

— Não, George. Como lhe disse, sou um deus. Eu posso lhe dar literalmente o que quer, sem desvios. De fato, há um preço. Mas não é nenhum sacrifício que tenha que fazer, apenas quero um favor em troca.

George olhou por todos os lados, procurando outra pessoa na rua, pra saber se mais alguém estava vendo a figura estranha que ele via. Mas não havia mais ninguém ali. Ele arrumou a gravata. – Um deus grego, hã? Eu já envolvi com sua gente. A última vez que tentei negociar com alguém da mitologia grega, huh, não tive muita sorte.

— Eu posso afirmar que nunca esteve na presença de uma divindade antes. – a figura estranha hesitou por alguns segundos. – Midas. Você negociou com Midas. Senhor, posso garantir-lhe que ninguém irá impedir de acontecer seu recomeço se fizer com exatidão o que vou lhe pedir. Não como impediram de que tivesse êxito com Midas. E a propósito, não sou um deus grego. Romano. Alguns preferem acreditar que sou uma forma alternativa de Zeus e Hermes. Mas isso ofende minha particularidade. Como eu lhe disse, sou Jano.

O sujeito estendeu sua mão direita e George a encarou antes de pegá-la e sacudi-la. – Obrigado por devolver minhas memórias, Jano. Me diga, o que você quer para eu poder recomeçar logo?

— Agora está falando a minha língua. – ambas faces sorriram ao mesmo tempo, mas foi uma imagem desconfortável e um pouco perturbadora. – Ela. – ele tirou uma fotografia do bolso. — Você conhece essa mulher?

— Hm, de vista, eu acho que sim. Devo tê-la visto umas duas ou três vezes.

— O nome dela é Ursula. Aproveitando que citou deuses gregos, ela é filha de Poseidon. E estou aqui em nome do pai dela para levá-la pra casa. Eu posso criar portais para qualquer lugar no passado, presente ou futuro, desde que haja um propósito para fazê-lo. Eu criaria uma porta e a levaria para o pai dela se a tivesse aqui e pudesse fazer isso. Seria um teleporte eficiente se ela não tivesse sangue divino correndo em suas veias. Eu só posso mudar o destino de deuses e derivados destes pelas minhas portas, com o consentimento deles. Mas também tenho ordens para não tocá-la. Estou em uma missão de paz, mas ela não verá assim, entende? E eu realmente devo esse favor a Poseidon.

— Diga logo o que quer de mim. – o velho resmungou ranzinza.

— Pois bem. Não é uma tarefa possível pra mim sozinho. É onde você entra, querido George. Você vai sequestrá-la pra e levá-la a um galpão abandonado. Vou lhe passar mais instruções sobre isso depois. Você vai desacordá-la pra levá-la ao local. Se fizer o que eu mando, teremos tempo de tranquilamente mandá-lo para seu novo destino e eu cuidarei de Ursula depois.

— O que pretende fazer com ela?

Se as duas cabeças poderiam revirar de tédio de alguma forma, definitivamente estavam fazendo isso. – Ora essa, levá-la em segurança pra casa, como lhe disse. Sem Ursula acordada, sem necessidade de consentimento para viajar, simples assim. Eu adoro brechas. Você como um homem da lei não as adora também? – o homem não respondeu ao deus, apenas o encarou. – Já decidiu como vai recomeçar? Temos um acordo ou não?

O outrora reizinho olhou para o chão. – Temos. Eu quero me mandar pra bem longe daqui. Com meu neto.

As faces sorriram maliciosamente. – Interessante! Assim será, acredite. Ah, mas devo adverti-lo. Não será uma tarefa fácil. Veja, Ursula não é somente uma semideusa qualquer. Ela roubou grande parte do poder do pai dela. Ela se arrisca dizer mais poderosa que ele. Eu não o aconselharia tentar surpreendê-la perto de qualquer lugar com abundância de água ou animais marinhos. Ela pode manipulá-los. Se bem que ela pode fazer surgir água de qualquer lugar, mas realmente seria pior surpreendê-la quando ela estiver num ambiente em que tem vantagem. E claro, cuidado com seus tentáculos.

— Parecia bem mais fácil quando me convenceu a aceitar isso.

— Oh, não se preocupe. Você irá se suceder nesse trabalho.

De volta à Floresta Encantada...

“Aaaaaaaaah!”, David e Chris gritaram em coro ao atingir o chão duro e maciço.

— Ué, onde está toda água? – Chris se queixou.

— Eu te disse, era um portal. – olhe ao redor, não reconhece nada? Estamos em Arendelle!

O jovem olhou ao seu redor, estava em um vilarejo cheio de gente nas ruas. Uma feirinha se estendia por onde sua vista alcançava. Crianças corriam atrás de animais e brincavam com espadas de madeira e bonecos de pano em forma de dragão. Bem longe, no horizonte, havia um enorme castelo.

O momento emocionante em que ele apreciava a imagem do local e diria “Não, não lembro de bulhufas”, foi interrompido por um grunhido atrás deles. — Oh não! Shrek!?

Do mesmo lugar de onde tinham surgido e caído no chão, um nada na parede de uma das casinhas, duas mãos enormes rasgavam uma estreita passagem de brilho amarelo com som de caixinha de música.

Os dois rapazes se olharam e disseram em uníssono: “Corre!”

Os dois saíram em disparada e logo o monstrengo saiu atrás, derrubando barracas e atropelando tudo que via pela frente, deixando as pessoas aterrorizadas em completo caos.

— Vamos nos separar! – Chris gritou, virando à esquerda. – Eu já vi nos filmes, é o melhor a se fazer!

— Que mané melhor a se fazer! – David o seguiu e o grandão atrás deles esbarrou em um monte de casas antes de acompanhá-los, derrubando muitas pedras e fazendo poeira. – Você não pode ficar perdido aqui!

Chris puxou um tapete de um varal acima deles e jogou na cara do ogro, que ficou mais irritado e saiu tropeçando por alguns metros até livrar-se do tapete.

Mas os dois já tinham desaparecido. O ogro olhou para todos os lados, mas não podia vê-los. Christopher tinha puxado David para um beco escuro e tinham se escondido dentro de gruta abandonada atrás de uma casa, num formato retangular vertical e que definitivamente não tinha sido feita para comportar duas pessoas.

— Eu te disse pra separarmos, não pra me seguir. – Christopher murmurou bufando.

— Pra sua informação, — respondeu o mais velho – nos filmes, quando as pessoas se separam, alguém sempre morre.

Eles riram. David chegou mais perto do rosto de seu amado e trocaram um beijo carinhoso. Fazia tempo que não se beijavam. Ele segurou delicadamente o rosto do outro rapaz com as mãos e continuou a beijá-lo. O xerife percebeu que seu namorado ainda estava com um cheiro gostoso de perfume, mesmo após correrem tanto e estarem suados e sujos. Quando se soltaram, Chris olhou pra ele e corou. – Sabe... me desculpe por ter duvidado de você. Eu não preciso de mais prova nenhuma. Eu te amo. E eu deveria ter acreditado desde o começo. Você jamais mentiria pra mim.

David ficou envergonhado. Ele não tinha sido totalmente honesto com Kristoff sobre um monte de coisas. – Na verdade, no seu lugar eu também não teria acreditado em mim. Porque né... “Frozen”? – ambos caíram novamente na risada. Mas o ogro os encontrou pelo som.

“RWAAAARGH!!!!”

— Heeeeey! – uma forte voz feminina gritou de algum lugar não muito longe. “Shrek” olhou para cima e logo várias flechas foram disparadas na sua direção. A maioria delas atingiu seus braços e pernas. Foi o suficiente para ele se afastar, dando espaço para os rapazes correrem da gruta. Do lado de fora, viram a mulher que estava em cima da construção, usando uma capa roxa escura com capuz e com um arco apontado na mão. – Venham! Subam em cima disso!

Chris ficou meio perdido, mas David entendeu. Ele subiu na gruta e puxou o outro para fazer o mesmo. De cima dela, alcançariam o parapeito de uma janela com um pequeno pulo. David foi primeiro e com um pouco de esforço, logo subiu na janela e ficou de pé. O ogro estava voltando e quase alcançou o outro sapato de Chris quando um barril desceu do céu.

— Venham logo! – a mulher gritou e jogou outro barril. Ambos acertaram a criatura na cabeça.

Já de pé sobre a janela, ele esticou uma das mãos tentando alcançar o telhado para subir no mesmo lugar que a mulher estava.

— Falta pouco!... agh...

— Me dê a mão. – ela disse firme, abaixando-se para estender a mão a ele. Pela posição do sol e com o capuz em sua cabeça, David não conseguia ver o rosto dela.

— Não! Não precisa. Eu consigo.

— Eu não tenho todo tempo do mundo! – ela gritou autoritária e aflita ao mesmo tempo.

— Não, então deixa ele subir primeiro que ele é mais leve. Você ajuda ele e então ele me puxa. – David insistiu, mas a mulher pegou-o pela mão e o puxou com toda sua força. Não foi fácil erguer todo o peso dele naquela posição, mas assim que ele percebeu que podia agarrar o telhado o fez para poupar a mulher e subiu depressa. – Vem Chris!

O segundo subiu também no parapeito da janela até com mais facilidade e estendeu seus braços para David, que o puxou para cima.

— Por aqui! – a mulher gritou e saiu correndo. Ela pulou do prédio e eles a viram cair num toldo do outro lado, onde há poucos metros havia um cavalo a esperando. Ela desceu e foi em direção a ele.

Ambos pularam de uma só vez e rasgaram o toldo, caindo fortemente de bunda no chão.

— Au! Seu idiota, por que não me esperou? – David disse numa expressão de dor.

— Não temos tempo pra isso, subam.

— Nós dois? No seu cavalo, com você? – Chris indagou confuso.

— Égua. Ela é forte, aguenta um peso extra numa emergência, vamos.

David montou rapidamente atrás da mulher encapuzada, mas Chris pareceu bastante inseguro.

— David eu... eu não sei montar nesse bicho.

Shrek” estava logo atrás deles, derrubando mais algumas pedras e finalmente conseguindo subir no alto prédio.

— Pelos deuses! – gritou a mulher – Suba logo!

O garoto deu um pulo sobre o animal, escorregou e caiu na primeira tentativa. David estendeu o braço para ajudá-lo e ele pulou mais uma vez. Desta vez conseguiu sentar-se no animal e não precisou segurar o braço de David para subir, mas agarrou-o inteiro e grudou-se a ele morrendo de medo.

“Hya!”, a mulher gritou sacudindo as rédeas do animal que saiu dali em disparada.

— Ele está vindo atrás de nós! – David gritou.

— Eu sei. Esse é o plano. – ela respondeu.

David teve que pensar por alguns segundos. Notou que cavalgavam rumo a uma floresta ali perto, onde o ogro não poderia fazer mal a ninguém se livrassem dele a tempo. Ela estava o tirando de dentro da cidade e de bônus, resgatando os rapazes.

De fato era o que ela estava fazendo. E o plano deu certo. Em meio à floresta, ela conseguiu despistar o ogro e sumir da visão dele. Eles desceram da égua perto de um riacho e viram as árvores se mexerem calmente na direção oposta, denunciando a desistência do ogro em conseguir seu lanchinho da tarde.

— Obrigado, moça! Obrigado mesmo por nos salvar! – Chris disse.

— Marian. – ela tirou o capuz. – Podem me chamar de Marian.

David sorriu de canto.

— Eu sou Ch... Kristoff. – ele piscou para David, sorrindo.

— David. É um prazer, Marian.

— Não, o nome dele não é David! É Charming! Ele não tem nome na verdade, é um príncipe!

David abaixou a cabeça e começou a rir.

— Hã... certo. Ei... esperem aí, eu conheço vocês! Sim, eu conheço! Vocês são os mesmos trapalhões que salvei hoje mesmo de uma manada de centauros furiosos num bosque da Floresta Encantada. Sim, são vocês mesmos! Eu me lembro. Bom, a algumas horas vocês eram mais magrinhos e cabeludos, mas... são vocês. Por que estão vestidos com roupas tão estranhas?

— Não... a senhora está eng... – começou Kristoff.

— Longa história. – David interrompeu, sorrindo. – Obrigado novamente, Marian. Não vamos mais criar problemas para você resolver. Pode ficar tranquila.

Ela fez um gesto com a cabeça. – Mantenham-se fora de encrenca, vocês dois. – ela abaixou-se enchendo um recipiente com água do riacho. Em seguida, se levantou e montou o animal novamente. – A propósito, gostei dos novos cortes de cabelo.

David ficou rindo e Chris não entendeu nada. A mulher foi embora dali com a mesma velocidade que chegou.

— Você conhece ela? – Kristoff perguntou arqueando a sobrancelha.

— Não. Mais ou menos. – ele sorriu. – Mas agora eu sei exatamente onde estamos. Não só onde. Quando estamos, inclusive.

— E-eu não entendi.

— Essa mulher? Marian? O que ela disse, é realmente verdade. Eu só não sabia que tinha sido ela que tinha nos salvado antes, então não sabia que a conhecia. Não me lembrava do seu rosto. É que ouvi sobre ela em Storybrooke.

— E como isso te leva a saber...? Ah... ah sim. Entendi.

— Entendeu? Ela disse ter nos visto hoje. Eu sei em que época estamos. Não fomos simplesmente jogados no mundo de onde viemos. Fomos jogados na época em que nos conhecemos pela primeira vez, Chris. Quando você ainda era Kristoff.

— E você Prince Charming.

— Ah sim, precisamos conversar sobre isso. Eu tinha um nome, sabia? – David caiu na risada. – Não saia por aí dizendo às pessoas que não tenho um nome. Eu realmente me chamava David. O lance do “Charming” foi um apelido que pegou. Na verdade eu usava outro nome, James. Mas meu verdadeiro nome sempre foi David.

— Como isso é injusto!

— O quê?

— Você pode ter um monte de nomes pra escolher e eu tenho que ter justo o nome do personagem de Frozen?

David riu mais ainda. – Não me culpe!

Os dois decidiram passar a noite por ali. Estava escurecendo e não tinham bem pra onde ir durante a noite. Eles fizeram uma fogueira e se acomodaram debaixo de uma grande árvore. Eles ficaram vendo o céu estrelado, mesclado com as várias árvores ali em volta e conversando. David contou sobre tudo que se lembrava da sua própria história, para que seu namorado conhecesse mais dele. Contou mais detalhes sobre a maldição e sobre as pessoas em Storybrooke. Contou quem algumas pessoas eram no mundo dos contos de fadas e Christopher se divertia feito uma criança.

— Mas espera. Isso significa... que lá em Storybrooke tem uma “Princesa Anna”? É... é a Juliet, não é? — David ficou calado, apenas moveu a cabeça positivamente. Seus olhos encheram-se de lágrimas. – Ei. Fica calmo. – Kristoff pegou a mão dele. – Eu amo você. Só estou perguntando. Seja lá o que aconteceu entre eu e ela nesse passado... hã, e o que aconteceu entre nós lá também, que eu posso me lembrar, ficou pra trás. Eu vou continuar com você, ok? Nada pode mudar isso.

— Obrigado, K. Sério, eu nem sei se mereço você.

— Ah David. Para, que bobagem. Claro que merece. Afinal, você também abriu mão de uma princesa e ficou comigo, não? Não que tenha feito isso exclusivamente pra ficar comigo, mas você entendeu. Mas continua me chamando de Chris mesmo, eu não vou me acostumar com nada diferente.

O mais velho outra vez não disse nada por algum tempo, apenas virou pra ele e ficou observando seu rosto. Eles ainda estavam de mãos dadas. Com a mão livre, ele acariciou o rosto do rapaz. – Obrigado de novo.

— Para de agradecer. – ele respondeu. – Posso te fazer outra pergunta?

— Claro.

— Meus pais... – um vento frio os acariciou e quase apagou a fogueira. – Eles realmente nunca vão voltar da “viagem”, né?

— Não, Chris. Aquelas pessoas com você nos porta-retratos da sua casa em Storybrooke nunca te conheceram. São pessoas que morreram na última bagunça que rolou por lá e elas nunca vão voltar. Você é meio que órfão por aqui. Você se perdeu quando era pequeno e foi criado por trolls de pedra. Eles são a única família que você tem.

— Não a única. – Chris corrigiu.

— Tem razão. Não a única. Por isso, eu estou te convidando a morar comigo em Storybrooke. Quando nos voltarmos, vamos dar um jeito de recuperar o Neal do sociopata do Spencer e você vai se mudar pro meu cafofo. O que acha?

— Tá dizendo... vivermos juntos, tipo, como um casal? Assumir o nosso relacionamento pra todos?

— Uhum.

— Uau. Bom, David... É uma oferta tentadora, eu tenho que dizer. Mas é um grande passo, ok? Você não pode querer que eu decida isso agora, assim de repente. Mas eu prometo que vou pensar no caso.

David sentiu seu mundo desmoronar com as expectativas sendo cortadas pela raíz. – Tudo bem, Chris. Eu entendo você. Tome seu tempo. – ambos ficaram calados por um tempo. – Caramba, eu estou tão preocupado com o Neal... Será que ele está bem?

— Eu nunca imaginei que meu professor fosse fazer isso. Aliás, eu sei que não tem muito a ver, mas eu me sinto até um pouco responsável. Não sei, parece que atraí isso pra você. Eu realmente... sinto muito.

— Caramba! Era isso.

— O quê?

— Spencer. Ele além de promotor na cidade, é agora um professor na universidade. O feitiço de Regina onde ela viu algum professor... Não era o tal do Rogers ou sei lá como se chama o professor do Henry! Era o Spencer! Esse tempo todo. Ele sabia.

Notas finais
Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão. Chris e David quando você comenta, se pegam de jeito, meu irmão! (??????) Desculpem, a última vez que tentei rimar vocês curtiram, eu tinha que tentar de novo. Sem pedras! Sim aos comentários!