Anthony abominava a forma como seu pai se referia as pessoas.

Quando foi ao palácio, Anthony encontrou um George completamente desesperado. Ele foi comunicado que a rainha sucumbiu a gripe e havia falecido na madrugada. Para piorar ainda mais, o estado de saúde do rei se agravou e os médicos não disseram que ele não teria muito tempo de vida. Anthony entrou na sala do trono e viu o amigo encarando a coroa do pai.
— George, eu soube do que aconteceu. Sinto muito meu amigo.
— Obrigado. Devo preparar minhas irmãs, meu pai não deve durar muito.

Anthony gostaria de ser otimista e dizer que o amigo estava errado, mas as notícias não eram animadoras. Desta forma ele ficou em silêncio, prestando sua solidariedade.

— Sempre soube que um dia eu seria rei. Mas nunca pensei que fosse estar tão despreparado para isso.
— Se dê o crédito George. Você é um grande príncipe, será um grande rei.
— Por que eu tenho a sensação de que vou falhar?
— Porque provavelmente vai. Todos erram.
— Milhares de pessoas dependem de mim… eu nem aprendi tudo o que preciso saber para governar um país.
— E há alguém que de fato aprendeu tudo? — filosofou Anthony.
— Não. Mas eu sei de uma coisa.
— Já é alguma coisa — brincou Anthony — o que é?
— Um rei não governa sem uma rainha.
— George…
— Você sabe que é verdade. Quando será seu baile de noivado?
— Ainda não definimos uma data, mas creio que em breve.
— Ótimo. Não será apenas o seu casamento que será anunciado.
— Tem certeza disso?
— Que escolha eu tenho?

Não havia argumentos, não havia nada que Anthony pudesse fazer para confortar o amigo. Ele assumiu, então, a tarefa de realizar o enterro. Pode-se dizer que foi o enterro mais digno e bonito que já se viu na Inglaterra, se é que algum enterro possa ser bonito.

Todos os súditos compareceram, dentre eles, Lucy, sua família e o tal Berkeley. Foi decretado uma semana de luto oficial, e nessa mesma semana o rei também faleceu. A Inglaterra precisava de um novo rei. Como George não era casado, não podia ser coroado. A Inglaterra seria governada pela corte.

Anthony agora ocupava o mais alto posto da corte, as decisões dele eram as mais observadas e as de mais impacto. Foi como se Anthony fosse o rei. Sem a coroa, um palácio e o título propriamente dito. George o guiava e eles fizeram um bom trabalho. Pelo menos foi o que Lucy afirmou ao noivo.

Com os últimos acontecimentos, a viagem de Lucy e Anthony teve que ser remarcada. Ela, obviamente não se incomodou. Lucy passa seus dias tendo aulas de etiqueta e ajudando Berkeley a tentar recuperar a memória. Ela descobriu que ele é um jovem muito espirituoso. Sarcástico, sincero, que não se apega as tradições e vive a vida intensamente.

Eles fizeram vários passeios a vila para tentar fazer um reconhecimento, como se Berkeley pudesse recuperar a memória. Não havia dado certo. Mas eles criaram um hábito. Sendo assim, dia sim, dia não, eles pegavam uma carruagem a companhia de um criado e de uma dama de companhia para passear.

Obviamente isso foi motivos de mexericos. Anthony não estava completamente a par de todos esses acontecimentos na vida de sua noiva. O tempo na corte estava tomando conta demais dele. Ele chegou a ficar três dias inteiros sem ver Lucy e, quando via, Berkeley não era o principal assunto deles.

No final de uma semana, aconteceria o baile. Que seria organizado as pressas. As condessas decidiram por uma decoração padrão, que poderia ser alocada em qualquer propriedade de Manchester.

Lucy, Anthony, Lady Catherine e vários criados partiram para Manchester três dias antes. Anthony deixou o futuro sogro no comando da corte, o que deixou seu pai aos nervos. Eles ainda não haviam tido a oportunidade de conversar sobre tudo o que aconteceu. Anthony se questionava de algum dia teriam esse momento.

Ao chegar em Manchester, logo na primeira tarde Lucy, Anthony e Lady Catherine foram conhecer as propriedades e o patrimônio do novo duque. Lucy não esperava por tanta riqueza. Ela se perguntava se alguém acaso confundiu os bens do rei com os de Anthony.

Mesmo com todas as mansões luxuosas, Lucy e Anthony decidiram que o novo lar de sua família seria a propriedade mais simples. Ela era rodeada por um rio, cuja água era tão limpa e cristalina que se não fosse pela pequena correnteza, Lucy diria que era um espelho. Anthony adorou o lugar pela proximidade com a natureza. Seria perfeito criar seus filhos ali por aqueles jardins.

E por falar em jardins, Anthony não havia se esquecido da brincadeira que fez com Lucy sobre o jardim da rainha. Na ocasião, Anthony havia dito que o jardim do palácio era um presente do rei para a rainha, o que ele mesmo assumiu que era uma mentira. Mas ele deu ordens aos criados para encontrarem o melhor jardineiro da cidade e construir o mais lindo jardim para Lucy.

O baile ao seria realizado ali, havia alguns reparos a se fazer na residência antes do que firmar moradia fixa ali, sendo assim os preparativos para o baile aconteciam a pleno vapor na residência no coração da cidade de Manchester. Lucy afirmou que esse reconhecimento dos bens seriam de grande valia e faria Anthony ganhar pontos com a corte.

Anthony precisava de alguns instantes de calma. E Lucy os proporcionou de forma maravilhosa. Eles passearam, tomaram chá, leram livros juntos, discutiram… ah como discutiram. Mas não era uma questão de briga, era mais pelo prazer de um importunar o outro.

As noites, depois do jantar, Lady Catherine se retirava e deixava o casal desfrutar um da companhia do outro. Enquanto Lucy tocava piano, Anthony tomava licor e observava a noiva. Todas as noites, quando aqueles momentos aconteciam, ele tinha a mais completa certeza que havia sido agraciado.

Cada um dormia em uma ala oposta do outro. Apesar de deixá-los a vontade, Lady Catherine não permitiria certas liberdades antes do casamento. Mas Anthony acompanhava Lucy a porta de seu quarto todos os dias, roubava um beijo e marcava um novo encontro no mundo dos sonhos.

E Lucy o encontrava, todos os dias. Ela sonhava de dia e de noite, dormindo e acordada. Ela só não esperava acordar nunca mais desse sonho real.