— A senhorita de novo. – o homem exclamou para Lucy.

— De novo? – repetiu Anthony.

— Eu estava aqui quando ele acordou – explicou Lucy. – ele se assustou com a minha presença.

— Foi uma graciosa surpresa. – o homem respondeu.

— Apenas quis verificar seu estado de saúde – explicou novamente Lucy para Anthony que balançou a cabeça em um sinal de que ela não tinha motivos para se desculpar.

— Não se lembra de nada mesmo? – Anthony perguntou.

— Não. É frustrante. – o homem bufou, o que era improprio de ser feito na presença de damas – há um vazio em minha mente. Tudo branco como se nada tivesse existido antes.

— O médico virá vê-lo em breve – Lucy o tranquilizou. — Eu agradeço a hospitalidade.

— Não há o que agradecer. – Lucy cutucou o noivo.

— Eu o vi ontem à noite no palácio, mas não fomos apresentados formalmente. – Anthony se aproximou da cama e estendeu a mão – Anthony St. Clair, duque de Manchester.

— É um prazer conhece-lo. – disse apertando a mão de Anthony – Eu diria meu nome, se eu soubesse.

— Descobrirei quem é. Desejo melhoras.

Anthony foi pra casa com a promessa de descobrir a identidade do novo hóspede dos Kress. Ele o viu no palácio conversando com o pai na noite anterior. Mais tarde, depois que se despediu de Lucy o viu novamente, desta vez conversando com o marquês Carlos e o duque Simon – justamente as pessoas que não eram de confiança do príncipe. De qualquer forma, ele parecia um nobre. Se não possuía um título, muito provavelmente era rico e tinha posses, o que Anthony fez questão de frisar à condessa para que ela não ficasse tão preocupada.

Enquanto voltava para casa em sua carruagem, Anthony refletia sobre todos os acontecimentos da noite. Ele não poderia dizer jamais que sua vida era monótona. Estava acontecendo tanta coisa em tão pouco tempo que ele chegava a ficar tonto.

Ele segurou a caixinha com o anel de noivado que pretendia dar a Lucy aquela noite. Eles não tiveram tempo, o momento simplesmente não apareceu e talvez seja melhor assim. Ele poderia surpreendê-la ou dar no baile em que planejavam. Ele suspirou frustrado. Ele ouviu demais para uma noite na qual ele só pretendia surpreender sua noiva.

Ele não conseguiu não ficar chateado com seu pai. Sempre soube que o velho conde era ambicioso, mas jamais pensou que seu pai pretendia chegar ao trono. Ou melhor, pretendia que ele chegasse ao trono. Ora, ele nunca quis isso. Só queria uma vida normal. Casar-se, ter filhos e uma vida tranquila no campo onde pudesse desfrutar da companhia de sua esposa. Herdaria o titulo de seu pai quando ele não estivesse mais aqui e teria a rotina normal de um conde. Mas agora ele era um duque – coisa que jamais pensou em ser na vida – e seu pai ainda assim almejava o trono.

Quando chegou em casa estava disposto a confrontar o pai, mas soube pelo mordomo que sua mãe teve um mal estar e eles se retiraram mais cedo, sem querer ser incomodados. Amanha, Anthony pensou, amanhã ele lhe perguntaria sobre toda aquela história. Anthony pegou uma dose de conhaque e subiu para o quarto e tentou relaxar.

Ele havia conversado com Nathan que autorizou a viagem para Manchester, obviamente na presença de uma dama de companhia e uma das mães deles. A condessa de Kress se animou com a possibilidade, mas Anthony sem querer ser indelicado deixou claro que sua mãe poderia acompanhá-los feliz. Lady Catherine seria muito menos constrangedora e os daria a privacidade que Anthony gostaria de ter. Não que sua mãe permitisse um comportamento libertino, ela jamais faria isso e ele nem pretendia, mas se ele quisesse que essa viagem fosse perfeita como ele planejava teria que prever os contratempos e sem dúvidas contar com a futura sogra não era uma medida de segurança.

De qualquer forma, ficou acordado que dentre três dias eles partiriam para Manchester. Ele sentia cada vez mais vontade de estar perto de Lucy, e que Deus o ajudasse, estava louco para se casar logo com ela e tê-la por perto em todos os momentos. Ele a queria em sua cama, embaixo dele para uma noite de paixão e ao seu lado para descansar em seus braços. Ele queria sua companhia para as refeições e para tomar as mais difíceis decisões. Ora, ele a queria e pronto. Talvez um noivado longo, mesmo que seja do agrado do príncipe, não seja o ideal. De qualquer forma a viagem o proporcionaria tempo para entender e decidir se aceleraria o processo ou não, mas ele já suspeitava qual seria sua resposta.

Quando se deitou, o rosto de Lucy foi sua ultima lembrança e ouviu sua sogra dizer: “ela é nosso milagre”. A condessa nunca esteve tão certa. Lucy era de fato um milagre, tanto para os pais quanto para ele e ele sabia que somente ela poderia salvá-lo. No dia seguinte, Anthony despertou cedo com uma terrível dor de cabeça. Ele sempre foi fraco para bebidas. Mas ele suspeitava de que a dor não era pelo conhaque e sim por tudo o que descobriu na noite anterior. Quando foi tomar café da manhã viu que sua mãe estava um pouco abatida e enjoada. Decidiu não falar nada sobre o acordo com os pais de Lucy. Haveria, certamente, outro momento para que ele pudesse falar sobre isso. Mas depois que seu pai leu o jornal, como fazia todas as manhãs, ele perguntou sobre o desconhecido hospede de Lucy.

— Vi o senhor conversando com ele no palácio. Um homem de estatura mediana, olhos verdes com o cabelo meio comprido.

— Ah, deve ser Berkley.

— Quem?

— Ele é um representante irlandês.

— Mas a Irlanda e a Inglaterra não são aliadas.

— Justamente por isso. O rei estava tentando uma aproximação antes de sofrer o atentado. Ele veio para uma reunião, mas só chegou depois que George assumiu o comando da Inglaterra.

— E como ele faria essa aproximação?

— Não sei meu filho. Era uma coisa entre ele e o rei.

— Mas que poder ele teria na Irlanda se é apenas um representante?

— Ele é rico. Isso basta. Tenho certeza que seja lá o que for que ele estivesse tramando com Sua Majestade, envolvia milhares de libras.

— George deve conduzir tudo agora.

— Não creio que o rei tenha dividido esses pormenores com George. Ainda não era um acordo sólido. De qualquer forma Berkley deve esperar o rei se reestabelecer para tentar resolver tudo.

— Uma pena que ele perdeu a memória.

— Como?

— Ele sofreu um acidente. Bateu a cabeça e perdeu a memória. Nathan Kress o encontrou na estrada e o abrigou em sua casa.

— Ah, agora ele não tem nenhuma serventia ao rei.