DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...
4 Capítulo 4: INIMIGO MEU

Após andar algum tempo, Camus deparou-se com uma espécie de galpão abarrotado de toras gigantescas de madeira. Escavadeiras e serras jaziam cobertas com uma lona grossa na parte externa, também tomada por toras que ainda mantinham parte dos galhos da árvore original. Com seu conhecimento, o ruivo sabia que se tratava de uma madeireira clandestina e por mais que fosse tentador pedir ajuda, ainda assim era arriscado. Os madeireiros não arriscariam perder seu negócio e poderiam, inclusive, matá-lo.
Olhou em volta vendo se havia algum movimento. Como estava tudo em silêncio, tomou o caminho de volta o mais rápido que pode.
Enquanto o ruivo se deslocava com agilidade por entre as árvores, uma cena tensa se desenrolava entre o grego e uma estranha figura surgida do emaranhado verde da floresta...
– Ei! Aponte essa arma prá lá. Eu não estou armado. – disse Milo, enquanto o homem barbudo o encarava.
– Omar! Venha cá! Olha só o que eu encontrei! – gritou o barbudo mantendo o grego sob a mira de um rifle.
Rindo entre dentes, outro homem mais jovem surgiu entre as árvores. Os dois eram altos, tinham olhos escuros e fundos, a pele um tanto curtida de sol. Usavam macacões de brim escuro, botas de cano alto e carregavam uma pequena mochila às costas.
– O que um homem bonito como você está fazendo sozinho por aqui? – perguntou o homem mais jovem e Milo deu-se conta que ele falava com um inglês carregado de um estranho sotaque.
Porém, antes que o grego respondesse, Camus surgiu atrás do homem mais velho agarrando-lhe o pescoço e torcendo um dos braços do homem para trás, apertando-lhe a mão entre as omoplatas. O rifle de caça do desconhecido tombou ao chão.
– Afaste-se dele e largue o rifle ou eu quebro o pescoço do seu amigo. – disse Camus ao surpreso homem mais novo que o olhava como se ele fosse uma entidade mágica, surgida daquela imensidão verde.
Até mesmo Milo se surpreendeu com a intervenção do ruivo. Não havia medo, nem hesitação nos olhos rubros e aquela aparição fora mesmo digna de um Rambo.
– Falei para se afastar! E jogue esse rifle no chão, agora! – repetiu Camus.
O mais jovem se afastou dois passos, mas permaneceu com o rifle.
– F-Faça o que ele disse Omar.
Relutante, o mais novo jogou o rifle de caça no chão e, gradualmente, Camus reduziu a pressão no pescoço do homem mais velho.
– Quem são vocês? – perguntou o ruivo fingindo não saber quem eram. Estava na cara que tinham tudo a ver com a madeireira clandestina.
– Sou George Calloway e este é Omar. Temos um pequeno negócio de caça. Não precisam ter medo de nós.
Camus ficou encarando-o, sabendo que não era verdade. Porém, era mais sábio desvencilhar-se deles fingindo ignorância.
– Eu me chamo Camus. Ele se chama Milo. Nós sofremos um acidente e caímos na floresta. Queremos chegar a qualquer cidade próxima. – disse o ruivo.
O homem coçou a cabeça sob o gorro que usava.
– Um acidente?
– Sim. Não ouviram falar? – interviu Milo.
– Prá falar a verdade, não. Nosso rádio pifou e estivemos ocupados com os negócios.
– Vocês não são brasileiros. – deixou escapar, Milo.
O homem barbudo olhou para o companheiro mais jovem.
– Verdade. Eu sou americano e Omar é metade americano, metade árabe. Resolvemos fazer uma viagem doida e acabamos gostando do país. Podemos caçar à vontade e fazer negócios com os índios. É divertido.
– Não é ilegal? – indagou Milo.
– Isso não nos interessa, Milo. – cortou Camus, antes que os homens ficassem desconfiados e tentassem algo. – Senhor George? Pode nos indicar uma via de acesso a algum lugar civilizado? – indagou com casualidade.
– Mas é claro. No entanto, vejo que o seu amigo se machucou. Nós temos uma cabana aqui perto. Podem comer e descansar um pouco. Não é sempre que temos companhia, não é Omar?
Milo olhou, esperançoso, para Camus que permanecia com uma máscara impenetrável sempre atenta aos dois homens.
– Obrigado. Desculpe o mau jeito. Também somos estrangeiros e não conhecemos nada aqui. – falou o ruivo recolhendo as espingardas e devolvendo-as aos dois homens.
Os dois sorriram e tomaram a dianteira. Quando estavam um pouco á frente, Camus murmurou junto ao ouvido do grego:
– Fique junto de mim. Onde está a faca que eu lhe dei?
– Está na minha cintura. O que foi Camus?
– Nada. Apenas fique atento.
Milo assentiu, notando que o ruivo parecia desconfiado. De certo era o procedimento usual para um ex-combatente, desconfiar de tudo e todos.
– Precisa de ajuda? – perguntou Omar para Milo, vendo que ele andava devagar com as muletas improvisadas com galhos.
– Não, obrigado. Já estou me acostumando com elas. – respondeu o grego.
Camus direcionou o olhar para o jovem e para Milo que sorria. Omar adiantou-se um pouco e foi falar com George. O ruivo aproveitou e sussurrou novamente.
– Não hesite em usar essa faca, caso um destes dois se meta a engraçadinho.
– O que foi ruivo, tá com ciúmes agora? – brincou Milo.
– Ouça o que eu disse e fique alerta. Esses homens não são o que dizem ser.
– Ah, isso até eu percebi. Um americano e um árabe no meio do nada com um “pequeno negócio”. Não sou burro, nem ingênuo.
– Ótimo. Então fique esperto e procure não falar muito sobre nós.
– Discordo. Quanto mais importantes formos prá eles, menos perigo vamos correr. Vou deixá-los saber quem eu sou.
O olhar de Camus se estreitou. Não havia considerado o fato, porém Milo tinha razão. Se pudessem tirar proveito daquela situação, aqueles dois os ajudariam de bom grado.
– Certo. Mas faça com cuidado.
– Pode deixar. – falou o grego com um discreto sorriso.
A frente dos dois, George e Omar também conversavam. Levariam aqueles dois homens para a sua cabana do outro lado da madeireira e dariam um jeito de se divertir, já que não o faziam há muito tempo naquele fim de mundo. Os dois eram, apenas, parte de um esquema de desmatamento ilegal, uma espécie de capatazes que cuidavam da madeira até que estivesse pronta para ser vendida. Ambos haviam deixado seus países por conta de negócios ilícitos e encontrado, no Brasil, gente disposta a pagar por seus serviços.
– Não gosto daquele ruivo. – disse Omar.
– Ele é francês, reconheço o sotaque. Tem jeito de ex-combatente. Temos que ser discretos e cuidadosos. O outro é europeu, também e parece um daqueles modelos famosos. Aproxime-se dele e arranque algumas informações. Ele pode ser útil quando nos livrarmos do ruivo. – falou George com um olhar malicioso.
– É... Ele é bonito prá cacete e está ferido. – completou Omar, sentindo uma corrente de excitação percorre-lhe o baixo ventre.
Os dois riram baixinho e logo a pequena cabana no meio da floresta, despontou.
– Sejam bem – vindos ao nosso humilde lar. – disse George.
– Deixe-me ajudá-lo, Milo. – adiantou-se Omar, enquanto abria a porta.
O interior da cabana parecia uma toca de animal com objetos amontoados. As pequenas janelas não possuíam vidros e sim telas finas para evitar a entrada de insetos. Havia um fogão a lenha, uma mesa de madeira com duas cadeiras feitas de tronco de árvore e duas redes, ao invés de camas. Um lampião a querosene produzia uma iluminação fraca e havia um cheiro de sujeira e gordura animal no ar.
– Desculpem a bagunça, mas não ficamos muito tempo aqui para arrumar as coisas. – disse George. – Devem estar com fome. Omar fez um cozido, ontem à noite.
Do outro lado da peça, Omar erguia a tampa de uma caçarola fumegante e sorria orgulhoso.
– O guisado está quente, já vou servi-los.
Milo olhou para Camus e os dois pareceram pensar a mesma coisa: Se a cabana está nessa sujeira, os utensílios da cozinha não devem obedecer às mínima condições de higiene. Mas... não podiam recusar comida.
– Obrigado pela hospitalidade. Têm café? – disse o ruivo.
– Oh, sim! Omar aproveite que já está por aí e coloque água para ferver e fazer o café.
O meio árabe não tirara os olhos de Milo desde que entrara. Camus percebeu e o encarou, fazendo-o desviar. O homem pegou uma lata de alumínio com pó de café e colocou num bule. Depois derramou água quente sobre o pó e verteu o resultado em duas canecas escuras. Levou-as para a mesa e, em seguida, serviu Camus e Milo com dois pratos cheios de guisado.
Milo deu uma garfada, sentindo o gosto forte da carne, mas não ousou perguntar que animal fora abatido para tal iguaria. O café era tão forte que parecia uma tintura, mas também bebeu tudo sem reclamar.
Camus comia com naturalidade, parecendo estar apreciando a refeição. Sabia que estavam sendo observados, então fingia não perceber as segundas intenções.
– Vocês dois são amigos? – perguntou Omar quebrando o silêncio.
– Não. Somos namorados. – mentiu o ruivo com naturalidade. – Algum problema para vocês?
Milo quase engasgou, enquanto engolia a última garfada. Namorados?!
– Hã... não! Não somos preconceituosos, não é Omar?
– Não, não somos. – se apressou a responder o mais jovem.
– Vocês dois parecem ser muito diferentes um do outro... Dizem que opostos se atraem, não é mesmo? – disse George.
– Pois é, eu e Milo nos conhecemos em uma viagem e, como estamos fazendo cinco anos de relacionamento, voltamos à pousada em que nos conhecemos. Conte prá eles a nossa história, Milo.
O grego teve vontade de esganar o ruivo. Por que não tinha dito que faria isso? Teria tempo para criar uma história mais convincente.
– Na verdade, eu sou piloto de MotoCross e... Camus e eu nos conhecemos em uma corrida. Eu ganhei o grande prêmio naquele dia e ele veio me pedir um autógrafo. Foi... amor à primeira vista.
– Ah... interessante. Mas... ele não disse que se conheceram em uma pousada? – falou George.
– Sim! O grande prêmio de MotoCross foi aqui, no Brasil. Depois da corrida minha equipe foi relaxar em uma pousada em Porto de Galinhas e, quem estava lá à postos para pedir um autógrafo? O meu ruivo delícia. Nem preciso dizer o que aconteceu depois, não é amor? – falou Milo atirando um beijo na direção de Camus.
Camus sorriu e terminou a refeição, empurrando o prato e a caneca para o lado, antes de olhar ao redor do interior da cabana.
– Onde lavam a louça?
– Num riacho aqui perto. Mas não se preocupe com isso. São nossos convidados.
– Você disse que seu rádio pifou. Posso dar uma olhada? – perguntou Camus.
– Omar teve um ataque de raiva quando ele pifou e jogou fora. Sinto muito. – respondeu George.
– Pena... Bem, nós caímos há dois dias. Há esta hora já enviaram equipes de busca. Pode nos deixar em algum lugar onde tenhamos acesso a algum tipo de comunicação?
– Amanhã, pela manhã os deixaremos próximos da terra dos Awá. Eles têm um posto da FUNAI e podem pedir ajuda. – falou George.
Camus sorriu agradecido.
– Bem, se nos dão licença, vou verificar como está o ferimento do meu namorado.
A palavra namorado parecia fluir natural dos lábios do ruivo e Milo começava a gostar daquela farsa. No entanto, sentia que aqueles homens pareciam não acreditar que os dois estivessem juntos. Então, resolveu apimentar a representação...
– Prefiro fazer outra coisa, amor... – falou Milo se aproximando de Camus e enlaçando-o pelo pescoço.
Dentro de um segundo, Milo cobria a boca do ruivo com a sua. Os lábios possessivos cobrindo os dele em um beijo que o incendiou até a alma. Camus surpreendeu-se com o ato e também com a reação do seu corpo. O desejo que vinha se acumulando sobrepujou o rígido controle que possuía. Viu-se buscando a língua do grego com a sua, sentindo a calidez e a umidade, assim como a ereção se avolumando...
– Chega... não queremos dar espetáculo, não é? – falou Camus se afastando.
Omar olhava a cena com os olhos vidrados até George lançar-lhe um olhar desafiador.
– Vamos deixar os pombinhos às sós, Omar. Temos algumas coisas prá fazer. – falou, malicioso.
Quando os dois saíram, Milo estendeu a perna e sorriu, enquanto percebia o rubor na face alva de Camus.
– Então... fui convincente, amor?
O ruivo não respondeu. Olhou o ferimento e estendeu mais um comprimido ao grego.
– Tome e fique preparado. Esses dois estão tramando algo.
– Camus...
– O que é?
– Disse que somos namorados porque quer nos proteger ou porque percebeu como Omar me olha?
– Escute bem, Milo. Não estou a fim de joguinhos para a exaltação do seu ego, está bem? A tribo a qual George se refere, não tem nenhum contato com a civilização. Eles são nômades e não gostam da presença de estranhos. Ou seja, ele tem intenções de se livrar de nós, mas pelo olhar do tal Omar, sinto que ele quer você. Já se imaginou sendo feito de mulherzinha por estes dois? Não, não é? Então chega de brincadeiras.
Milo abriu a boca, mas descobriu que não tinha uma resposta apropriada e, então, se calou. Em seguida, os dois homens voltaram com duas cobras e a janta foi um ensopado igualmente estranho.
– Podem dormir nas redes. Eu e Omar estamos acostumados ao desconforto.
– Agradeço, mas minhas costas precisam de algo mais duro e Milo teria dificuldades para levantar-se da rede. Dormimos no chão. – falou Camus.
George elevou as mãos ao alto e tanto ele, quanto Omar ocuparam as redes. Milo dormiu com Camus, deitado de lado com a perna machucada pousada na esquerda. Pensou que o ruivo ia deitar com ele em concha, mas não aconteceu. Camus ficou de costas para ele, rígido e alerta.
Os roncos altos dos dois homens poderiam deixá-lo mais relaxado, porém Camus não iria arriscar. Passada meia hora, Milo falou:
– Estou com calor...
– Cale-se e durma. Não ouse tirar a camiseta aqui.
– Eles estão dormindo. Posso colocar antes que acordem.
– Não.
Exasperado, Milo suspirou e caiu em um sono profundo que durou pouco. Parecia ter se passado apenas alguns minutos. Ele apertou os olhos vendo que a cabana estava escura, embora o lampião estivesse acesso. Omar estava perto do fogão mexendo algo.
Camus se ajoelhou ao seu lado.
– Como está a perna?
– Dá para caminhar.
– Tem certeza?
– Sim, que saco!
– Levante-se e caminhe, quero ver a sua mobilidade.
Milo obedeceu, resolvendo ver o amanhecer fora da cabana. A luminosidade era intensa, mesmo àquela hora da manhã. A noite mal dormida o deixara irritado e com dores no corpo, mas a perna, apesar de tudo, doía menos, mas ainda incomodava.
Camus observou-lhe o andar e xingou entre dentes cerrados.
– O que foi? – perguntou Milo.
– A distância é imensa para você nesse estado e sua perna, ainda não está boa o suficiente. Se você forçar, temo que o calor e o cansaço façam a febre voltar e... levará muito tempo para chegarmos a algum lugar civilizado.
O olhar ansioso que Milo dirigiu ao ruivo o fez sentir-se desconfortável. Já havia presenciado a fibra do grego, sabia que ele aguentaria o sacrifício de andar na floresta mesmo que isso significasse dores e inchaços. Mas, mesmo sem ter culpa, ele causaria atrasos e os forçaria a sempre procurar abrigo, visto que não poderia correr caso necessitasse. Quanto mais tempo permanecesse na floresta, maiores seriam as chances de ter mais problemas.
– Tá, entendi. Vou ser um peso prá você do jeito que estou. Pode ir sozinho, Camus. Eu me viro por aqui.
– Não pense que vou abandoná-lo. Ontem à noite eu analisei a nossa situação, se existe uma madeireira aqui, não estamos muito longe de uma estrada ou rodovia. Eles têm de escoar a madeira, então acredito poder encontrar alguma via de acesso. Vou dizer ao George que pretendo voltar ao nosso abrigo antigo, invento que esqueci algo importante e que preciso da ajuda dele para achar o caminho. Assim verei as intenções reais dele. Nesse meio tempo, você permanece aqui e descansa o máximo possível, sempre de olho no Omar. Ele é alto e corpulento. Se ele tentar algo, use a faca. Entendeu?
– Entendi. – respondeu o grego sem muito entusiasmo.
Sem pensar, Camus segurou o rosto de Milo com as duas mãos, forçando-o a encará-lo. Quando os olhos azuis do grego mergulharam nos seus, ele cobriu os lábios grossos com sua boca, beijando-o com força.
A reação inicial de Milo foi de surpresa e, antes que ele se recuperasse, o beijo tempestuoso se aprofundou... Camus traçou com a língua o contorno da boca do grego e lhe sugou os lábios para, em seguida, invadir a cavidade quente e úmida, arrancando um gemido abafado e gemendo também.
Precocemente para Milo, o ruivo interrompeu o beijo, afastando a cabeça de modo abrupto e lhe deixando os lábios entreabertos, úmidos e ansiando por mais.
– Fique atento. – falou o ruivo.
Camus o soltou e girou em direção à porta. Naquele instante, Milo percebeu George e Omar dentro da cabana, mascando vagarosamente algo que parecia tabaco e os observando com a mesma sinuosidade de uma onça.
Fez bem o seu teatro, ruivo. Pensou ele, tentando sorrir. Em seguida, George veio encontrá-los e Camus colocou seu plano em prática.
– Mas é claro que posso levá-lo até reconhecer o caminho. Omar ficará com o seu namorado. Ainda é cedo e ele pode descansar bastante até você voltar.
– Ficarei muito grato. – respondeu Camus.
Assim que os dois se embrenharam na selva, Omar se aproximou do grego.
– Seu namorado parece estar com pressa... Nem tomou café. Vou servir um bom café prá nós dois...
– Obrigado. – disse Milo com um meio sorriso.
O grego não estava com fome, o nervosismo lhe corroia por dentro, afetando o estômago. No entanto, aceitara a oferta e se portaria como se nada demais tivesse acontecido. Pousou as muletas perto do fogão e sentou-se na cadeira de madeira. A bainha da faca colocada na cintura, por baixo da camiseta roçava em sua pele e ele notou que Omar a fitava, enquanto preparava o café.
– Não precisa se preocupar com nada. Pode se livrar disso aí, eu vou protegê-lo. – disse o homem, apontando para a faca.
– Essa faca é como um amuleto para mim. Camus usou-a para castrar um cara que me olhou e disse uma gracinha. – falou Milo.
– Verdade? – perguntou Omar com o cenho franzido.
– Brincadeira! – respondeu o grego, rindo.
Omar riu também e logo, ambos estavam com as canecas fumegantes nas mãos. De repente, o homem se levantou e foi até uma das caixas que ficava empilhada em um canto da cabana. Com um sorriso largo, retirou uma garrafa que continha um líquido azulado onde jazia um pequeno escorpião negro mergulhado nele.
– Cachaça da boa!
Milo mordeu o lábio, antes de comentar.
– Puxa... O que o pobre do bicho fez prá parar aí dentro?
– Os índios daqui acreditam que a “água que queima” tem o poder de aprisionar a força de certos animais. Prove com café. – disse Omar já colocando na caneca de Milo.
O grego ficou olhando antes de arriscar um gole. Entretanto, analisou que recusar o faria parecer frágil e isso não era bom. Afinal, os gregos também tinham o ouzo, a aguardente feita com anis e ele aprendera a beber com seu irmão quando fizera 14 anos. Com coragem, bebeu o café, sentindo o líquido descer queimando. Omar o seguiu, satisfeito em ver que Milo aceitara a sua oferta. Em sua mente, começou a traçar um plano para embebedar o grego e, finalmente, saciar o desejo que ardia dentro de si.
Já dentro da mata fechada, Camus e seu anfitrião não haviam percorrido um quilômetro, quando a conversa começou.
– O que você faz na vida, Camus?
A pergunta acentuou o estado de alerta que o ruivo cultivava desde que havia encontrado George e Omar ameaçando Milo com uma arma. Não costumava valer-se, somente do instinto, afinal era um homem racional e ligado à ciência. No entanto, sentia algo estranho e perigoso no ar, assim como o tom da voz do homem o desagradava.
– Sou instrutor de artes marciais. – mentiu tentando acabar com o assunto.
– Você parece entendido em sobrevivência...
– Um pouco. Acampei muitas vezes.
– Seu namorado é rico?
– Depende do que você considera rico.
– Vocês dois parecem água e vinho. Quem fica por cima, você ou ele?
A pergunta feita com malícia fez Camus estancar e encarar o homem.
– Qual o seu interesse no meu relacionamento? Omar não está dando conta do recado ou será que você quer ser fodido por mim?
Os olhos cinzentos de George brilharam de forma diabólica.
– Quem vai foder você, sou eu, ruivo maldito! – disse ele e girou, sacando uma pistola que trazia em um coldre embaixo do braço.
A ação que Camus esperara o fez reagir no mesmo instante. Ele ergueu o rifle, porém George disparou o primeiro tiro.
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