DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...

5 Capítulo 5: PERIGO IMEDIATO


Milo piscou duas vezes, sentindo uma espécie de sobressalto. Omar estava sentado à mesa enchendo sua caneca pela terceira vez...

– Eu passo. Já bebi demais. – disse Milo.

– Pode beber à vontade, você está em casa. – falou Omar.

– Camus disse que o álcool desidrata.

– Seu namorado não está aqui. Eu estou. – disse o meio árabe levantando-se da mesa.

Omar se ergueu, a temperatura dentro da cabana pareceu aumentar e Milo sentiu-se cansado, fechando os olhos por alguns segundos. Um sorriso estampou-se na face curtida de sol ao contemplar o corpo vigoroso do grego. Devagar, foi levando a mão calejada até a coxa machucada do outro, que se mostrava exposta.

Os olhos de Milo se abriram quando Osmar o tocou. O homem estava ajoelhado em frente a ele, acariciando próximo da ferida.

– Os índios tem uma argila que ajuda na cicatrização...

O tom de voz era suave e amigável, mas os olhos pareciam os de um demônio pronto para atacá-lo. Milo sentiu a textura da mão na sua pele e se levantou, quase de imediato.

– Não tenha medo... Nós podemos nos divertir muito! – falou Omar e antes que Milo respondesse, ele o puxou pelo braço, encostando os corpos.

No mesmo instante, Milo levou a mão ao peito de Omar e o empurrou, perdendo o equilíbrio e batendo com as costas na parede.

– Estou apenas tentando ajudá-lo. – disse Omar continuando a olhá-lo com aqueles olhos de predador.

– Não preciso de ajuda, obrigado. – falou Milo sem afastar os olhos do homem.

– Não precisa? Não é isso que parece... – continuou Omar se aproximando novamente.

– Escute aqui, Omar. Vamos deixar claro uma coisa...

O homem não esperou que o grego concluísse a frase. Avançou sobre ele, aproveitando que Milo estava sem as muletas.

– Eu desejei você desde que o vi na floresta... Sabe o que eu imaginei? Seus cabelos tocando a minha virilha, enquanto você chupava o meu pau... – falou Omar sorrindo, exibindo os dentes amarelados e tentando beijar o grego.

– Pare com isso ou eu enterro essa faca na sua barriga! – disse Milo apoiando-se na perna machucada e sentindo uma fisgada dolorida que o fez franzir o rosto.

Omar sorriu.

– Você? Enterrando uma faca em mim? Sou eu que vou me enterrar em você e bem fundo!

Ditas as palavras, Omar tomou os cabelos longos do grego nas mãos, puxando-os e forçando-o para perto de si de modo a sentir-lhe o hálito de cachaça e a respiração alterada.

A reação de Milo foi instintiva. Ele levou a faca de caça à frente do corpo com uma rapidez estranha para si. Em seguida, viu o cabo da faca de Camus no meio do peito de Omar. A lâmina se enterrou por completo entre as costelas do homem que exibia uma expressão perplexa, enquanto fechava os dedos em torno do cabo da faca e caía de joelhos.

Tudo não durara mais de trinta segundos, mas para Milo o tempo pareceu congelar até que Omar tombou de cabeça no chão. Um tremor percorreu o corpo do grego ao observar o corpo inanimado e o sangue que se espalhou pelo piso encardido.

Foi nesse momento, que Camus irrompeu pela cabana com o rosto suado e um olhar preocupado. Os cabelos ruivos cobertos por folhas e espinhos. As mãos exibiam pequenos arranhões e seu colete estava salpicado de sangue.

– Você está bem? – perguntou ele, aproximando-se rapidamente e desprezando o morto a sua frente.

Milo estava com os olhos parados, as mãos tremendo.

– Eu... o matei. Eu matei um homem. – disse ele.

– Milo, escute. Foi em legítima defesa. Esses homens planejavam me matar e estuprar você. Já estava tudo combinado.

Fechando os olhos, Milo sentiu o corpo pesar e o ferimento doer. O choque cedia lugar à realidade. Grossas lágrimas lhe escorriam pela face.

– Foi minha culpa, eu não devia ter aceitado a bebida... Mas, eu pensei... eu achei que se aceitasse ele não iria me achar fraco.

–Escute aqui! Omar ia se aproveitar do seu ferimento! Só Deus sabe o que ele faria com você. Esses homens eram contraventores. O tal George apontou uma pistola para mim e atirou. Tive a sorte de levar o rifle e erguê-lo a tempo, atrapalhando a mira quase à queima roupa daquele calhorda. Lutamos, a arma disparou e ele caiu morto.

Milo olhou para o ruivo.

– Porque voltou? Podia ter partido sem mim.

– Como eu disse antes, grego... Não vou deixá-lo para trás.

– Eu sou e me sinto um... assassino. – disse Milo levando a mão aos cabelos fartos.

– Não diga isso. Você fez o que devia. Foco, Milo! Temos que reestruturar os nossos planos, agora. Vou enterrar o corpo, depois vamos dar um jeito de limpar esse buraco para aguentarmos uns dias aqui.

– Como? Por que faremos isso? Está pensando em ficar?

– Vamos ficar aqui até sua perna aguentar a jornada nesta selva. Pelo que eu observei, George e Omar estavam apenas vigiando a madeireira. Aqui sempre chove, porém estamos tendo sorte por estarmos no início de julho, um mês de poucas chuvas, pelo que eu sei. A madeira cortada será deixada para secar por um curto período. Até lá, ninguém virá até aqui.

– Você sabe tanta coisa sobre este lugar.

– Eu sou um pesquisador, no mínimo devo ser bem informado, não acha?

– Bem informado...

Milo repetia as frases tentando colocar a cabeça em ordem, até Camus sacudi-lo pelos ombros.

– Milo! Ouça... É normal se sentir assim, mas tente não ficar pensando no assunto. Ocupe-se em fazer alguma coisa. Limpe aquele fogão ou lave a louça. Eu vou varrer este chão e ver o que têm naquelas caixas.

– São suprimentos. Foi dali que Omar tirou a garrafa de cachaça.

– Ótimo. Faça um inventário. Depois de enterrar Omar, vou limpar o chão.

O grego obedeceu, encontrando uma boa quantidade de enlatados e bebida alcoólica. Aproveitou a poeira sobre parte da mesa e escreveu a quantidade de cada item com o dedo. Depois, pegou uma garrafa de conhaque e começou a beber.

Camus percebeu, mas não interferiu. Lembrou-se da primeira vez que matara um homem. Fora logo no início da sua participação na guerra. Algo brutal e inesperado que aterrorizou seus sonhos durante muito tempo.

Matar nunca era fácil, nem sem consequências. Guardaria para sempre, na memória, a expressão do jovem que carregava um cinturão de bombas em volta do quadril. Ele devia ter uns 16 anos e pertencia a Al Qaeda, acreditando fervorosamente estar lutando em nome da Jihad.

Tivera de matá-lo antes que ele tivesse a chance de destruir o acampamento. Fora a decisão mais difícil e traumática da sua vida. Era apenas um menino...

Às vezes sonhava que tinha a chance de voltar atrás, mas quando acordava sabia que aquela decisão jamais terá volta e tinha de seguir em frente.

A cor macerada da morte já se instalara na pele suja, quando Camus terminou a cova e enterrou Omar. No caso de George, o serviço fora mais rápido, pois não queria demorar-se para voltar. A verdade era que a segurança do grego passara a ser sua prioridade e quando George o atacara, sabia que Omar aproveitaria o ferimento de Milo e tentaria algo.

Quando a noite caiu sobre a selva, a cabana já estava com outro aspecto. Camus varrera o chão e depois lavara o piso manchado de sangue. Descobrira a fonte de água próxima, onde as louças e roupas eram lavadas e trouxera baldes de água para dentro de casa.

No inventário feito por Milo, acabaram descobrindo um suprimento de enlatados e isso tranquilizou o ruivo. Não teria que caçar, apenas pescar alguns peixes e a refeição estaria garantida. Ainda havia guisado na panela e Camus tratou de misturá-lo com uma lata de ervilhas, servindo-o em dois pratos.

– Não quer comer? – perguntou Camus, notando que Milo estava em pé, próximo da janela.

– Estou sem fome.

O ruivo levantou-se da mesa e foi até ele.

– Não vai ser de grande ajuda se ficar fraco. Coma e descanse. – disse Camus num tom rude.

O olhar de Milo passou de perdido à raivoso.

– Não precisa de mim para sair daqui. Pode fazê-lo a hora que quiser e sem peso na consciência!

Camus inspirou fundo. Tentava tirar Milo daquele estado, porque de nada serviria alguém deprimido no momento atual. Aproximou-se do grego e despiu a camiseta e o colete, arrancando um olhar espantado.

– O que aconteceu com você? – falou Milo arregalando os olhos azuis.

– O tiro disparado por George me atingiu de raspão.

O grego fez uma careta. A ferida estava inchada, mas em nenhum momento Camus reclamara de dor. Só então se deu conta que ele estava todo desgrenhado, embora continuasse bonito e com aquela expressão fria e controlada.

– Está doendo?

– Bastante. Vou me lavar. Enquanto isso coma um pouco.

– Ainda tem aspirinas.

– Não é preciso, vamos poupar remédios. Você pode ter febre, outra vez.

– Eu estou bem. Tome duas delas. Não adiantará nada ficar com dor, Rambo.

Camus quase sorriu. Sim, esse era o Milo, provocativo e intenso, não aquele homem deprimido e sem reação.

– Tomarei, se você comer. – insistiu o ruivo.

Foi a vez de Milo sorrir e Camus percebeu que gostava de vê-lo assim.

– Já volto. – disse, antes de deixar a cabana.

Milo foi até o prato sobre a mesa. Comeu algumas garfadas sem nenhum prazer, mas mesmo assim o fez, por Camus e por si mesmo. Quando o ruivo voltou, apenas vestindo a caça jeans, Milo se deteve no tórax musculoso. Os dois se olharam e foi o grego quem tomou a primeira atitude.

– Sente-se aqui e tome isso. – disse o grego estendendo uma caneca e duas aspirinas para Camus.

O ruivo obedeceu e Milo observou melhor todos os contornos daquele corpo. A pele alva das costas possuía pequenas sardas que ficavam ocultadas pelo cabelo longo.

Sem pedir licença, aproximou-se do ruivo pelas costas e colocou uma compressa molhada sobre o ferimento no ombro.

– Obrigado. – disse Camus um tanto arredio.

– De nada. – respondeu Milo se afastando para pegar uma garrafa de cachaça.

– Não pretende beber tudo isso sozinho, não é? – questionou o ruivo.

– Não, você me fará companhia.

Minutos depois, o efeito do álcool já se fazia presente em ambos. No início, a aguardente parecia queimar tudo que encontrava pela frente, língua, esôfago, estômago. Porém, depois de um tempo, seu gosto se tornava agradável e libertador. Os olhos rubros de Camus se encontravam ardentes e não apenas pela bebida. Não possuíam o vazio que caracterizava os bêbados. As pupilas estavam faiscantes, ígneas...

– Satisfeito? – perguntou ele para Milo, depois de entornar o terceiro caneco.

Igualmente “alto” pela bebida, o grego sorriu.

– Plenamente, meu caro Rambo. Como se sente?

– Bêbado.

Uma gargalhada gostosa irrompeu da boca do grego.

– Estamos, meu caro!

Camus continuou a olhar para Milo. O sangue começou a correr-lhe nas veias, quente, grosso e violento, concentrando-se em seu sexo e lhe causando uma indesejada reação de intensidade dolorosa.

– Vamos parar...

– Por que? Tem medo de fazer algo... – provocou Milo.

– Não vou tocar em você... Se é isso que está insinuando. – respondeu Camus.

– E porque não? Não adianta mentir, ruivo. Aquele beijo... Não foi só encenação. Você me quer...

– Você gosta disso, não é? Gosta de saber o poder que tem sobre os homens... E creio ter sobre as mulheres, também pelo que falam a seu respeito.

– Sinceramente falando, gosto. Gosto de ser desejado e gosto de desejar. Qual o problema nisso?

– O problema é que a vida não é somente prazer. Existem coisas mais importantes.

– Você não transa? Não acha o sexo importante?

A rouquidão da voz do grego tornava as palavras quase inaudíveis, porém aliciantes... Camus fechou os olhos na esperança de bloqueá-las e terminar com aquele suplício.

– Minha vida particular não deve interessá-lo. Vá dormir.

– Não sou atraente o suficiente para você ou... você tem problemas? – insistiu Milo.

– Tenho certeza que sabe do seu poder de seduzir, grego. E não, eu não tenho problemas, apenas não quero transar com você. Fui claro? – mentiu Camus.

Mesmo bêbado, Milo recebeu aquelas palavras como um soco no estômago. A partir delas, não falou mais e serviu mais uma caneca de cachaça, ignorando o ruivo.

Camus se levantou e deixou a cabana. Mesmo estando bêbado, mantinha uma movimentação quase normal. Havia retirado as redes e estendido em um varal improvisado. Retirou-as, sacudiu-as e tornou a voltar para dentro.

Encontrou Milo com a cabeça sobre os braços apoiados na mesa. Ele parecia dormir e isso deixou o ruivo mais à vontade. Colocou as redes nos ganchos e tornou a observar o grego. Tocou-o no braço, mas ele não se moveu. Então, levantou-o, sentindo um breve desequilíbrio. Ouviu um murmúrio, mas Milo continuou com os olhos fechados. Devagarinho, colocou-o sentado na rede, depois o ajeitou com cuidado. Os olhos azuis se abriram pela metade, mas não pareciam enxergá-lo.

– Durma. – disse Camus e ele tornou a fechar os olhos.

Em seguida, deitou-se na outra rede com as mãos sob a cabeça. Sentia-se exausto, bêbado e, no entanto, o desejo despertado por aquele homem continuava a importuná-lo. Desde quando se sentira assim? Que raios de libido era essa que o desconcentrava a maior parte do tempo, embora não demonstrasse? O que tinha aquele grego para incendiá-lo deste modo? Sabia que devia manter distância ou acabaria cometendo um grande erro. Homens como Milo viviam para o momento, mas despertavam emoções poderosas capaz de enredar as pessoas ao ponto de fazê-las confundir as coisas. Sexo e paixão era um terreno perigoso, capaz de bagunçar a cabeça de um homem e desestruturar, emocionalmente. Não seria enredado nesse tipo de relação. Não mesmo!

Foi com todo um arsenal de perguntas e respostas preconcebidas que o ruivo acabou se entregando ao sono até ouvir um gemido...

– Milo...? — Camus acordou num sobressalto.

Mesmo somente com a luz fraca do lampião, pode ver que o grego tentava se levantar da rede sem sucesso.

– Preciso ir ao banheiro... — disse Milo.

O ruivo estendeu a mão para o grego, puxando-o, logo a seguir.

– Use aquele balde. – disse Camus.

Milo obedeceu e depois voltou para a rede. Camus ficou à postos para ajudá-lo, mas o grego apenas se deixou cair na rede com uma careta.

– Caralho! Isso doeu.

– Esqueceu seu ferimento?

– Minha perna está meio dormente...

Ainda que estivesse sob o efeito do álcool, Camus mantinha certa lucidez e a fala do grego o preocuparam. Levantou-se, de imediato, e pegou o lampião, aproximando-se de Milo.

– Deixe-me ver.

Milo encarou-o com os olhos semiabertos, enquanto ele aproximava a luz e verificava a sua perna machucada.

– Não está inchada. Deve ser efeito da bebida. Volte a dormir.

Nem bem Camus terminara a sua fala, ouviu o grego murmurar algo e dormir quase de imediato. Voltou então a sua rede e fechou os olhos até ouvir um rugido.

Inesperadamente, Milo também despertou do sono profundo. Sua respiração tornou-se ofegante sem que soubesse a razão.

– Que barulho é esse? – perguntou ele, sentindo um medo estranho e forte.

Antes de responder, Camus levantou-se da rede e escutou melhor.

– Deve ser algum animal selvagem.

Os olhos de Milo vasculhavam na semiescuridão da cabana.

– Será que é uma onça?

– É bem provável.

– M-Mas porque estão aqui?

– Sentiram o cheiro...

– Do corpo?

– Sim.

– Oh, Deus... – disse o grego levando a mão aos cabelos.

– Acalme-se, estamos abrigados. O corpo está enterrado e coberto com pedras. Daqui a pouco o animal se cansará e irá embora.

– E se...

Milo não teve tempo de concluir seu pensamento quando ouviu um vupt e um rugido estrangulado. Camus também escutou e se colocou de prontidão. Apagou o lampião e fez sinal para Milo ficar quieto.

Devagar, Camus deslocou-se até a porta, encostando o ouvido na madeira. Em seguida, buscou uma fresta na parede, aproveitando que era uma noite de lua cheia. Observou que havia movimentação fora da cabana e levou a mão junto à faca que recuperara para si. As armas não tinham munição e ele não procurara por elas.

Apai korá! Apai korá! As palavras pronunciadas em tom baixo foram ouvidas pelo ruivo que inspirou fundo e aliviado, gritando de dentro da cabana:

Orikaio, amawari Aiopá!

– O que está fazendo? – perguntou Milo.

– Dizendo aos homens lá fora que somos amigos e que sairei para conversar com o chefe deles.

– Você fala a língua deles! – disse Milo.

– Sim, eles são da tribo Kuparanã. Estudei-os bastante com um grande amigo, há tempos atrás.

– Ruivo, você não para de me surpreender...O Rambo, perto de você é um bebê!