DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...

3 Capitulo 3: FEBRE DA SELVA!


Enquanto comiam, os dois permaneciam em silêncio. Milo observava o ruivo agir como se fosse um verdadeiro chefe de acampamento. Enquanto isso imaginava se Camus teria alguém... Bonito como ele era, seria difícil não ter, ao menos, um amante.

— O que foi? – perguntou Camus com o cenho franzido. — Seus olhos estão parados. Deixe-me ver se ainda tem febre. – falou o ruivo pressionando a mão sobre a testa do grego.

— Eu estou bem, só estava pensando...

— No quê?

— Nada, só divagações.

— Coma e descanse. Amanhã voltaremos a andar.

— Vamos dormir aqui?

— Sim, vamos. Vou improvisar um abrigo.

Milo tornou a olhar para os olhos de Camus. Apesar de serem rubro acastanhados, tinham a aparência de uma lâmina cintilante que o cortava, mas, ao mesmo tempo, o atraía como nenhum homem ou mulher tinha conseguido, até então.

— Cuide do fogo, mas não fique vagando por aí. Vou verificar o perímetro. – disse Camus.

Sim, senhor! Respondeu o grego em pensamento.

Minutos depois, Camus voltou e ajudou Milo a levantar-se. Trouxe também um par de muletas improvisadas.

— Deixe-me ver como está sua perna. Firme-se nas muletas. – disse o ruivo.

Milo observou, enquanto ele removia o curativo devagar. A costura estava perfeita e não havia sinal de pus ou sangramento, apesar da pele estar escurecida na fileira de pontos.

— Bem, parece que está tudo correndo bem. Não faça excessos, nem movimentos bruscos. Tome mais um destes comprimidos.

Obediente, Milo tomou o remédio com água e suspirou, fechando os olhos. O ato resultou em um incômodo no baixo ventre de Camus. Por alguma razão absurda, o simples fato do grego respirar o estava excitando... Merde! Tenho que parar com isso! Ordenou a si mesmo, mentalmente.

— Já volto. – disse ele, se afastando antes que Milo notasse algo.

Logo, estavam em uma espécie de toca de galhos. Camus havia improvisado um abrigo usando um frondoso visgueiro que possuía uma conformação em forma de caverna em seu tronco largo.

— Que árvore estranha... – falou Milo.

— Esta floresta tem a maior diversidade de espécies do mundo. – observou Camus.

— E é claro que você conhece várias delas. – disse Milo sem sarcasmo.

— Algumas. Sou formado em biologia e me especializei em Gestão ambiental. Mas gosto muito de Botânica e Biologia Vegetal.

— E como se tornou oficial do exército?

— Eu descendo de uma família de militares. Meu pai lutou no Vietnã e fez questão que eu fizesse carreira no exército. Acabei me graduando como tenente, mas depois que meu pai morreu eu pedi baixa e me tornei um pesquisador. No entanto, meu país foi um dos que integraram a força de ataque na guerra do Iraque quando a diplomacia falhou e todos nós fomos convocados para ajudar. Era para ser uma guerra curta e muitos acharam que era apenas uma exibição tecnológica. Como pesquisador, eu fui integrado ao grupo para estudar a geografia do lugar, apontar falhas e... Bem, foi tudo menos tecnologia. Acabamos enfrentando uma resistência motivada e sedimentada em valores com os quais não estávamos acostumados.

— Você chegou a ir a campo?

— Sim, embora eu acreditasse que não fosse a intenção do grupo ao que estava inserido.

— Quer dizer que você teve de matar?

A expressão de Camus endureceu.

— Sim.

— Bem, guerra é isso, não?

— Guerra é algo irracional e selvagem. Acabou que nada foi comprovado e muitos inocentes morreram em nome do que foi dito e não de provas fundamentadas. Agora, vamos descansar. O sol vai se pôr daqui a duas horas. – falou o ruivo cortando aquele assunto e estendendo dois casacos sobre algumas folhas cruzadas entre si.

— Deite-se. – disse para Milo.

— E você?

— Eu durmo sentado. Assim fico alerta contra qualquer ruído estranho.

O grego obedeceu, embora se sentisse incomodado com a dureza do chão. Entretanto, procurou não demonstrar. Afinal, nem sempre tivera o luxo e o conforto conquistado na vida adulta. Por alguns minutos, se remexeu e custou a acomodar a perna machucada. A noite era um pouco mais fresca que o dia, mas mesmo assim fazia calor e, embora a febre tivesse baixado, ele se sentia quente.

— Camus...

— O que foi?

— Não consigo dormir.

— Tente. Se não dormir não vai aguentar a jornada de amanhã.

— Estou com calor...

— É a febre.

— Quero tirar a camisa, mas preciso de ajuda.

Com um suspiro exasperado, Camus foi até o grego. Com um movimento rápido, segurou a bainha da camiseta e a arrancou pela cabeça de Milo. O movimento brusco fez os cabelos longos e loiros ficarem despenteados, fazendo o grego resmungar.

— Ei, não precisa me deixar careca!

Sem se importar com a reclamação, Camus se deparou com uma visão completa do torso do grego, iluminada, em parte, pelo sol que entrava pela fresta entre os galhos do abrigo. A resposta ficou presa em sua garganta quando seus olhos se depararam com o peito definido e os músculos perfeitamente esculpidos sob a pele bronzeada. Os mamilos eram escuros e se encontravam enrijecidos. Tudo, tentadoramente coberto por uma camada fina e brilhante de suor naquela luz fugidia, como se ele tivesse feito sexo há instantes atrás...

— Muito bem, agora durma. – disse o ruivo um tanto ríspido, se afastando daquele corpo.

— Você não sente calor? – perguntou Milo, notando que a testa do ruivo estava suada.

— Durma. Se eu sentir calor sei cuidar de mim.

— Tá bom, eu só perguntei! — respondeu emburrado.

Quando o grego fechou os olhos, o ruivo se acomodou, deixando sua faca de caça junto do corpo.

Horas se passaram até que o ruído da floresta anunciasse um novo dia.

— Milo!

— O que é?

— Acorde. Temos de levantar.

— É muito cedo. Está escuro. – gemeu o grego.

— Vamos, achei uma fonte com uma pequena cachoeira. Podemos nos banhar para despertar o corpo.

— Banho?

— Sim. A fonte de água é limpa e pode lavar seu ferimento. Pegue roupas limpas e vamos.

Milo estava com sono àquela hora, seu corpo doía e não estava a fim de conversa. Levantou-se com a ajuda de Camus e o acompanhou em silêncio.

Os dois andaram alguns metros e pararam nas margens de um córrego de águas transparentes que serpenteava entre arbustos verdejantes, cipós e árvores com troncos grossos.

Milo já conseguia firmar melhor a perna com as muletas improvisadas por Camus e, quando chegou junto de um filete d’água que pertencia à pequena cachoeira, enfiou a cabeça na água. Apesar do clima quente, a água da cachoeira era gelada e ele estremeceu, deixando escapar um rosnado. Logo em seguida, ergueu-se e suspirou, profundamente. Os cabelos molhados caíram em cachos sobre o seu rosto e ele os jogou para trás, fechando os olhos e recebendo a luz matinal em seu rosto.

Camus observava o grego com olhares breves e discretos. O incomodava o fato de sentir-se atraído por aquele homem. Não era somente a beleza sensual que parecia ser acoplada ao grego, como se fosse a sua segunda pele. Era algo estranho e exasperante, porque ameaçava a escolha feita de não apegar-se a ninguém.

Já tendo despido as suas roupas, Camus se preparava para entrar na água, enquanto Milo permanecia com a calça esfarrapada. Os dois se olharam e Milo percebeu que o ruivo possuía um corpo tão trabalhado quanto o seu, mas era diferente. Parecia que cada músculo tinha uma história... O abdome era reto, rijo, continha algumas pequenas cicatrizes e parecia pronto para receber fortes golpes, enquanto as coxas eram musculosas e o sexo... o sexo era muito interessante e admirável, despontando por entre um triângulo escuro de pelos pubianos.

— Vai tomar banho com a calça? – perguntou o ruivo.

— Hã... não, mas...

— Sei, precisa de ajuda para tirá-las. Acertei?

— Depois do que você fez com a camiseta... Não quero arriscar ficar sem genitais. – respondeu Milo em tom de brincadeira.

— Ande logo, não podemos ficar a manhã inteira aqui. Vou ajudá-lo. – falou o ruivo.

Quando as mãos de Camus roçaram as suas, Milo engoliu em seco, mas controlou-se. No entanto, todo o tempo o ruivo o ajudava com uma expressão desinteressada que o confundiu um pouco e o deixou decepcionado. Às vezes parecia que o ruivo o observava com outros olhos. Mas, nesse exato momento, ele parecia estar despindo um manequim de loja.

— Pronto. Mais adiante tem uma pedra grande com uma saliência. Pode firmar-se mais, sem ter o perigo de escorregar.

— Quer me afastar por medo de não resistir aos meus encantos, ruivo? – brincou Milo.

— Até parece... – disse Camus franzindo o cenho e fazendo uma expressão de indiferença.

Milo riu.

Quem desdenha, quer comprar. Não sei aonde eu ouvi isso... Ah, já sei, foi aquele brasileiro simpático da pousada em Porto de Galinhas.

— Ocupe-se com coisas, realmente, importantes. Não há espaço para brincadeiras.

— Ah, Camus! Não seja tão ogro. Você é tão bonito que não fica bem esse excesso de mau humor.

O ruivo exibiu um sorriso de escárnio.

— Apesar de ter se ferido, ainda não caiu a ficha que está em uma floresta repleta de armadilhas naturais e mortais. Fala em bom humor... Quero ver se conservará esse sorriso quando enfrentar o perigo real.

— Terei você para me salvar! Então... acho que posso continuar de bom humor. – devolveu o grego se afastando.

Camus não respondeu, não queria levar a discussão adiante. No fundo, admirava pessoas como Milo que conseguiam manter-se acima das agruras da vida. Talvez ele também pensasse assim se não tivesse vivenciado a experiência da guerra. As táticas de sobrevivência ensinadas aos destacamentos especiais eram duras e, por muitas vezes, inescrupulosas. Era matar ou morrer, a regra principal que despertava o pior nos homens.

Tradicionalmente, ficava longe de pessoas como aquele grego. Não tinha paciência para arrogância, superficialidade e tolice, características muito comuns em astros esportivos. No entanto, apesar das piadas, Milo não poderia ser enquadrado dentro deste perfil. Observara-o, algumas vezes na pousada. Ele era gentil e sorridente com todos, desde os fãs que o reconheciam até os funcionários. Ali mesmo, mantinha-se sem reclamar, aguentara muito bem a dor lancinante do ferimento profundo e possuía uma visão esclarecida de muitas coisas.

Com um suspiro profundo, Camus encerrou o banho e também as considerações sobre Milo. Tinha de focar em sair da selva e chegar até algum lugar civilizado. Quando chegou à parte onde o grego estava, viu que ele observava a ferida com atenção, o corte suturado salientando-se na coxa torneada...

— Vai ficar uma marca, mas em vista das condições, você fez um bom trabalho. – disse Milo ao notar a presença do ruivo.

— Tenho certeza que um bom cirurgião plástico poderá desfazer essa cicatriz.

— Não me importo.

Camus franziu o cenho com uma expressão um tanto incrédula.

— Um astro como você?

— Nem sempre fui um astro. Não pense que só porque sou um sujeito de bem com a vida, sou superficial. Existem coisas mais importantes no mundo. Pode me alcançar a minha roupa, por favor?

— Veja se consegue vestir outra calça. – disse Camus.

Milo fez uma careta.

— Minhas calças são justas, não sei se consigo.

— Vamos ver nas roupas que pegamos. Talvez haja uma calça mais folgada.

Após vasculhar a bagagem e achar uma calça para Milo, os dois caminharam ao longo do leito do rio por centenas de metros. Em outra situação, Milo estaria aproveitando mais aquele passeio, pois gostava do ar livre.

A água do córrego que, na nascente era cristalina, agora adquiria outra coloração mais escura. As copas das árvores altas se entrelaçavam entre si formando ornamentos naturais de um verde intenso. Cipós gigantescos se apresentavam tanto nos troncos, quando no chão, criando sombras e desenhos interessantes. O som das aves e de alguns animais da floresta enchia o ar deixando Camus alerta, mas satisfeito, porque na selva, a ausência de sons é que sinalizava problemas.

Milo estava ofegante, mas em nenhum momento pediu para parar. Quando chegaram a uma espécie de estrada, Camus estancou.

— Descanse um pouco aqui. Eu vou vasculhar o caminho em frente.

— Está bem...

Camus olhou para o grego. Milo suava e estava com as faces ruborizadas. A perna devia estar doendo, pois ele não fizera nenhuma brincadeira até então. O calor úmido aumentava com o avançar da hora. Não havia dúvidas que ele precisava de uma pausa, então era melhor deixá-lo descansar, enquanto verificava se o caminho era seguro.

Escorando-se em uma pedra, Milo sentia sua energia baixar, mas não queria mostrar-se frágil aos olhos de Camus. Quando o viu vir em sua direção, levantou-se o mais depressa que podia.

— Eu já descansei. Não vou ficar parado enquanto você se arrisca.

— Não precisa bancar o herói, Milo. Não vou abandoná-lo.

— Não estou bancando o herói. O Rambo aqui é você. Só penso que é melhor ficarmos juntos. Pelo menos é isso que acontece nos filmes.

Franzindo o cenho e soltando um suspiro exasperado, Camus pegou sua faca de caça e entregou à Milo.

— Eu só vou verificar se podemos avançar ou não. Em ambos os casos, eu volto. Está bem? Fique com a faca.

Também suspirando, Milo concordou e voltou a sentar, enquanto a silhueta do ruivo desaparecia entre a vegetação. Assim que se viu, completamente só, o grego olhou em volta contando vários tons de verde naquela floresta. Era incrível perceber as cores, tanto das árvores, quanto dos insetos. Eram abelhas, mosquitos, borboletas e aves que dançavam ao sabor da brisa úmida em uma luxuriante mostra de texturas exóticas.

Após alguns minutos, sentiu o estomago roncar e lembrou que, pelo caminho, haviam encontrado algumas frutas estranhas, mas saborosas. No entanto, continuava com fome e, nessas horas, as lembranças da infância, do café em família o faziam salivar. Sua mãe fazia um bom café forte, sempre acompanhado de pães doces e salgados...

A tristeza quase o invadiu ao lembrar que não tinha mais seus pais, nem seu irmão. Então tratou de pensar em outra coisa e beber um pouco da água que estava na térmica para enganar a fome. Depois escolheu um lugar para urinar. Verificou o chão, percebendo alguns insetos e pequenas lagartixas que se misturavam ao verde e marrom do tapete das folhas caídas.

Uma aranha enorme, preta e peluda deslocava-se, graciosamente, por entre as folhas, o que fez o grego dar um passo para trás. No entanto, assim que escapou do aracnídeo, deu de cara com uma imensa cobra sinuosamente enlaçada no imenso galho de árvore. O réptil e o galho eram quase da mesma cor, parecendo uma extensão viva da árvore. Seu sangue pareceu congelar com aquela imagem e, aos poucos, foi recuando sem tirar os olhos da enorme cobra, esquecendo até do latejar incômodo que sentia na coxa.

Seus amigos jamais o imaginariam naquela situação. Seu patrocinador, provavelmente, iria achar uma utilidade para essa experiência e, de preferência, algo bem rentável e visível na imprensa. Saga tinha esta capacidade, era algo tipo rei Midas, tudo o que ele tocava se transformava em ouro.

Estava fechando o zíper da calça quando ouviu um movimento próximo. Girando a cabeça naquela direção, tentou escutar e observar. Nada. Nenhum som...

Provavelmente é algum animal. Pensou. Ignorou outro farfalhar de folhas, ainda mais alto e próximo que o último e buscou um lugar onde pudesse se proteger, caso precisasse.

Determinado a agir com coragem e não se desesperar, Milo fechou as mãos com força nas muletas e tratou de se deslocar o mais rápido que suas pernas permitiam. Sentiu a respiração se alterar e lembrou-se do que Camus dissera, mantenha a respiração lenta... Entretanto, apesar do autocontrole, assustou-se quando uma forma se materializou entre os troncos grossos e apontou uma arma em sua direção.