DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...

2 Capitulo 2:TURBULÊNCIAS


A floresta parecia um grande carrossel verde girando e girando... Milo estava nauseado e sentia a garganta arder. De repente, todo o seu corpo doía, da ponta do dedão do pé até os fios dos cabelos. Lembrou-se de um dos muitos acidentes que sofrera e conhecia os sintomas que antecediam ao desmaio. Mas, pelo amor de Deus, tinha que mostrar-se frágil na frente do ruivo? Forçou-se a mover o corpo.

– Isso não é nada... – disse tentando passar convicção.

– Calma. – falou Camus segurando-o pelos ombros e deitando-o no chão. – Deixe-me ver a extensão disso. Deve ter se ferido em algum galho espinhoso no caminho.

– Como eu não senti dor?

– Adrenalina. Sofremos um acidente e, em casos como esse, a descarga no sangue é enorme e nos deixa em estado de alerta. Só quando relaxamos um pouco é que sentimos o desgaste ou ferimento.

Milo fez uma careta de dor quando Camus pressionou um ponto próximo da coxa.

– Terei de limpar o sangue para que possa ver se é algo superficial ou mais profundo. Sorte sua não ser um cipó venenoso.

Arrancou a mochila improvisada que o grego viera carregando e o fez encostar a cabeça nela. Com sua faca de caça, cortou mais da calça jeans que Milo usava. Depois, retirou uma camiseta de algodão da sua mochila e a rasgou. Em seguida, buscou uma garrafa de vodca e embebeu o tecido com ela.

– Vai arder... – disse ele, antes de pressionar o tecido sobre a ferida.

Puta que pariu! – xingou Milo ao sentir o álcool entrar em contato com o ferimento.

Camus observou bem a ferida na coxa grossa do grego. Era um corte profundo que deixava à mostra carne e músculos.

– O corte foi feio. Vou ter que desinfetar.

Milo franziu o cenho, mas não ia dar uma de fraco.

– Faça o que tem de fazer.

Sem demonstrar nenhuma emoção, Camus verteu parte da bebida no corte, enquanto Milo mordia o lábio inferior para não gritar, sua face se contorcendo de dor.

– Não tranque a respiração. Tente respirar devagar e pausadamente ou vai sentir náuseas.

– F-Fácil prá você dizer isso, seu sádico de merda! – xingou Milo, enquanto o ruivo continuava a desinfetar a ferida sem expressar nenhuma compaixão.

Camus continuou sua tarefa e começou a rasgar a camiseta em tiras. Pegou a tira mais grossa e amarrou-a em torno da coxa de Milo com certa pressão.

– Isso irá resolver, por ora. Vamos ter que acampar por aqui.

– Eu posso andar. – disse Milo.

– Não, não pode.

– Claro que posso! – insistiu o grego.

No fundo, temia que Camus o deixasse ali. O homem não parecia a fim de ter alguém atrapalhando. Ele havia dito que estava acostumado à situações extremas e tinha um porte físico bem desenvolvido, apesar de ser esguio. Pela forma como conduzia as coisas, o ex- combatente devia ser um agente das Forças especiais ou algo semelhante.

O ruivo inspirou fundo e sua expressão era de quem estava analisando aquela nova situação. Olhou em volta e enxugou o suor da testa com as costas da mão. Fez uma careta quando roçou o inchaço na têmpora e Milo lembrou-se que ele estava ferido também.

– Olha, eu não serei um peso, eu posso...

– Vou ver se tem outro analgésico no estojo de primeiros socorros. Aspirina é um forte analgésico, mas, também, é anticoagulante, o que não é bom no seu caso. – disse Camus cortando a fala do outro.

– Obrigado. – disse Milo.

Estancando a ação, Camus encarou o grego, aceitando o agradecimento com um rápido aceno de cabeça. Vasculhou o estojo achando um vidro de Tylenol. Abriu o frasco e depositou dois comprimidos na mão de Milo.

O grego pegou a garrafa de vodca e tomou os dois últimos goles da bebida com os comprimidos. Ao ver que o ruivo o olhava sério, falou:

– Sei que não se toma medicamento com álcool, mas não consigo engolir nada sem líquido.

– Está escurecendo. Vou acender uma fogueira. – disse o ruivo.

Milo olhou em volta e toda a floresta parecia adquirir vida. Sons de insetos e outros animais rastejantes o deixavam com uma péssima sensação. Porém, a dor progressiva na coxa não lhe dava tempo para fantasiar. Camus conseguira acender a fogueira e a protegera para que não houvesse perigo de incêndio. Abriu um dos muitos zíperes do colete que usava e tirou algo de lá, estendendo à Milo.

– Tome, coma isso.

– Uma barra de cereais?

– Sim, eu sempre trago algumas comigo. Vai manter a sua glicose estável.

– Tenho fome de um bom bife acebolado com bastante batata frita. – falou Milo passando a mão na testa suada e olhando sem muito entusiasmo para a barra de cereais.

– Acostume-se com a ideia de comer até insetos, se assim precisar.

Puta merda, mas você é um desmancha prazeres, heim Camus?

O ruivo desviou o olhar e ficou em silêncio, como se estivesse ouvindo a floresta. O fogo manteria os animais selvagens à distância e deixaria o ambiente menos assustador. Quando amanhecesse, traçaria uma rota possível de encontrar algum posto ou até mesmo uma madeireira naquele trecho da selva.

– Vamos dormir, amanhã veremos como estará sua perna. – disse Camus atirando mais alguns gravetos às chamas.

Milo olhou em volta. A escuridão era tão densa que parecia ter corpo. Como aquele ruivo podia estar tão à vontade ali? Fechou os olhos, sentindo a coxa latejar, mas abriu-os de imediato ao ouvir passadas leves que estalavam no chão coberto de folhas e gravetos.

– Não se preocupe, deve ser uma cobra ou um lagarto. – falou Camus vendo o susto expresso nas atitudes do grego.

– Sei que quer me acalmar, ruivo. Mas, prefiro que não diga o quê pode estar nos visitando essa noite. – falou Milo retirando uma garrafa de conhaque da mochila e entornando no gargalo.

– Cuidado com a bebida. O álcool pode ajudar a relaxar, mas desidrata e nós ainda não achamos uma fonte de água potável. – disse Camus.

– Ué! Você é o entendido por aqui. Já vi em documentários que se pode tirar água de certas árvores. – rebateu Milo.

Com o cenho franzido, pela primeira vez Camus prestou atenção nas palavras do grego. Na maior parte do tempo ele o xingava ou fazia piadas. No entanto, agora parecia alguém com algum conhecimento, afinal.

– Tem razão, mas deixemos essa possibilidade por último. A Amazônia tem muitos rios e cascatas. Vou encontrar uma fonte de água potável para nós.

Rambo 2014 versão ruiva na selva amazônica! Isso dá mesmo um filme, sabia? – brincou Milo já alegre por ter bebido uma boa dose de conhaque.

Sem se dar o luxo de responder, Camus ignorou a brincadeira e recostou-se ao tronco de uma árvore, fechando os olhos. Milo continuava a provocá-lo, mas ele estava cansado e sabia que devia dormir um pouco, nem que fosse apenas vinte minutos. Pequenos tempos de sono deixavam o corpo em alerta, mas também descansado. A guerra lhe ensinara muitas coisas, afinal...

Milo despertou de um sono agitado. Abriu os olhos e viu que Camus o observava com um vinco entre os olhos, o cenho franzido explicitando uma preocupação tensa. Tudo parecia nublado e longínquo. Sua boca estava seca, extremamente seca.

– O que foi? – perguntou sentindo o corpo inteiro molhado de suor.

– Está com febre. – respondeu Camus.

– Não... É apenas o calor... Eu estou bem. – falou o grego sentindo arrepios de frio, apesar da temperatura elevada.

Os carvões incandescentes da fogueira ainda cintilavam. Como eram vermelhos e brilhantes... As imagens e pensamentos iam e vinham, deixando-o com a boca mais seca e o corpo mais quente.

– Seu corte infeccionou. Há uma cartela de antibióticos no estojo de primeiros socorros. Depois do procedimento que vou fazer, vai ter de tomá-los e... sem álcool para não cortar o efeito. – disse o ruivo, de modo áspero.

Milo nada disse e assentiu com a cabeça. Sabia do que Camus estava falando e deu uma olhada na coxa. O tecido amarrado estava com uma coloração amarronzada e, quando o ruivo o retirou, a pele estava avermelhada e o corte cheio de pus. Passou a língua os lábios, mas não surtiu efeito.

– Isso está muito feio... Tem risco de eu perder a perna?

– Ainda não. – respondeu Camus. – Mas vou ter que cauterizar o ferimento e suturá-lo.

Milo se fixou na profundeza dos olhos rubros, tão diferentes, tão seguros... Por mais estranho que parecesse, por mais problemático que fosse a convivência, ainda assim confiava naquele homem.

– Faça o que tiver de fazer. – disse, simplesmente.

Camus concordou com a cabeça e foi colocar a faca de caça sobre as brasas da fogueira. Depois vasculhou a mochila onde tinha pegado um kit de costura de uma senhora. Voltou para o lado do grego e estendeu-lhe a garrafa de conhaque.

– Beba. Agora pode beber bastante. Vai diminuir a dor.

– Está bem...

Os olhos azuis de Milo estavam aquosos pela febre e, naquela floresta verdejante, oscilavam entre o azul e o verde profundo, deixando-o extremamente atraente. Quando ele aceitou a garrafa e levou-a aos lábios grossos, o pensamento tomou Camus de assalto e ele tratou de concentrar-se na esterilização da linha e da agulha com o restante da vodca. Assim que terminou, voltou para o grego:

– Preparado?

Milo confirmou com a cabeça.

– Morda isso. – disse Camus estendendo uma tira de tecido bem dobrada para o grego.

O ruivo encostou a faca incandescente no ferimento e Milo gritou alto, porém permaneceu firme, para surpresa de Camus.

Cuidadosamente, tratou a área infectada e a esterilizou com o que restara do conhaque, arrancando um gemido de dor do grego. Concluído o processo, era hora de costurar a ferida e ele o fez, juntando as bordas da carne lacerada e mantendo o ponto firme. Gotículas de suor escorriam da sua face, assim como da de Milo que apertava os dentes em meio à dor excruciante.

– Está me fazendo gritar, ruivo... quisera eu que fosse por outro motivo... – disse o grego já um tanto alto pela ação do conhaque.

Pareceu-lhe que o ruivo sorrira, mas não tinha certeza. Estava tudo meio desfocado e a dor... a dor parecia ter atingido um limiar que o deixava fora do ar, quase em transe.

– Está feito. – disse Camus.

O ruivo olhou para o rosto do grego, admirando-o pela coragem e fibra. Milo estava de olhos fechados e ofegava baixinho, sem notar a forma intensa com que era observado. A dor extrema, o efeito do conhaque, a febre alta. Todo o conjunto o fez ficar inconsciente por algumas horas.

Os sonhos vieram atropelando suas lembranças da tempestade e do ruído estranho vindo dos motores da aeronave, antes do acidente. O mergulho no caos, os gritos, a trepidação das paredes... Estamos caindo! Deus tenha piedade!

Quando o grego despertou, quase deu um salto ao perceber que estava, completamente, sozinho. Ao seu lado, somente a cartela de antibiótico. Camus! Ele havia partido e o deixado ali!

Os olhos azuis buscaram frenéticos, ao redor da clareira. Nenhum sinal, nada. Na fogueira, as brasas ainda estavam acesas, mas ao redor, não havia mais nada, nem mesmo a mochila que o ruivo carregava.

Tentou levantar-se, notando que a dor do ferimento arrefecera, mas se sentia fraco e com sede. Me costurou como um boneco de pano e me deu antibiótico só prá me deixar! Vou virar comida de onça! Aquele ruivo filho da puta, porque não me matou de uma vez?

Repetidamente, tentou se erguer, mas não conseguia. Ah, mas não ia morrer deitado como um fraco! Morreria lutando! Maldito ruivo traidor!

Fazendo um esforço hercúleo, apoiou todo o peso na perna esquerda e se levantou. A selva girava vertiginosamente. Buscou apoio na árvore que, horas atrás, o ruivo se recostara. Só então percebeu que, detrás dela, havia alguém.

– Que diabos pensa estar fazendo? – gritou Camus largando a pequena capivara que trazia às costas, assim como a mochila que carregava.

– Eu? Bem, eu... Você não estava e eu pensei...

O ruivo não o deixou terminar, colocando a palma da mão contra a testa do grego.

– A febre baixou. Fique quieto e não faça loucuras ou correrá risco de adoecer gravemente. Achei um riacho, aqui perto. Tem muitas capivaras lá. Cacei uma e trouxe um pouco de água. Sente-se!

Totalmente mudo, Milo observou quando o ruivo voltou em direção ao fogo e começou a atiçá-lo com gravetos e folhas secas. Em seguida, ele pegou a garrafa térmica que levara consigo, abriu-a e usou a tampa como copo, vertendo a água que conseguira.

– Beba, deve estar com a garganta seca. Mas beba devagar.

Milo tomou três goles, sentindo a água fresca umedecer seus lábios e garganta.

Assim que o grego bebeu, Camus foi até a capivara para prepará-la e colocá-la no fogo.

– Camus!

O ruivo olhou-o com o cenho franzido, a faca na mão.

– O que foi?

– Desculpe.

– Pelo quê?

– Achei que tinha me abandonado e te xinguei de tudo e mais um pouco.

– Nunca deixei ninguém para trás, grego.

– Agora eu sei.

Os olhos rubros esquadrinharam o rosto e o corpo de Milo, fazendo-o experimentar um calor intenso que nada tinha a ver com a febre.

Camus forçou-se a desviar o olhar para o fogo e para a caça que começava a assar. Na verdade, a convivência com aquele homem mexia com certos instintos que jaziam quietos dentro de si. Não costumava flertar, nem mostrar interesse amoroso. Suas experiências haviam terminado em rompimentos rápidos ou afastamentos silenciosos onde nenhuma das partes se dava conta que a relação tinha acabado. Por isso escolhera uma vida nômade e, até certo ponto, solitária. Fazia tempo que não se sentia responsável pelo bem-estar de alguém e também fazia tempo que não sentia um desejo assim, intenso e perigoso.