DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...

6 Capítulo 6: OS KUPARANÃS


Notas iniciais
*** Gente amada, a linguagem indígena eu inventei, certo? * risos Dei uma pesquisada em nomes indígenas e imaginei uma fonética viajante, nada a ver com a realidade. * risos

A porta da cabana se abriu e Camus deu de cara com seis índios de estatura mediana. Um deles exibia a pintura vermelha no lado direito do rosto, identificando o chefe daquela expedição. Três permaneciam ao lado do líder, enquanto dois preparavam a onça que haviam trespassado com suas lanças.

Deoka mawari.( Eu o saúdo)— disse Camus.

— Mawari tepaio (Homem branco fala minha língua)

— Atê.(Sim)

— Matuio koti. Mawari tonowaio ateká? ( São amigos dos homens desta casa?)

— Notê. wonoí temo kupaiti (Não. Eles matam a floresta e tentaram nos matar. Tivemos que nos defender)— respondeu o ruivo.

Um sorriso se abriu na boca do chefe.

Mawa koti!.( Vocês nossos amigos!)

Logo amanheceu e o chefe convidou Camus e Milo para irem até sua aldeia. Para que fossem mais rápido, os índios improvisaram uma padiola para carregar o grego e assim dispensar as muletas.

Chegando lá, uma pequena população de crianças, mulheres e animais se aproximaram dos dois, ignorando a caça que vinha sendo trazida por dois índios e olhando-os com curiosidade, principalmente para os cabelos de ambos.

Atari kawá!(Ele tem o sol na cabeça), diziam ao olhar para o grego.

Atari mokaí (Ele tem o fogo na cabeça), diziam ao olhar para o francês.

A aldeia, cercada por uma flora verdejante e densa, possuía pequenas choupanas e havia uma mistura de elementos indígenas com elementos trazidos pelo homem civilizado. Uma grande choupana central sinalizava que ali eram feitas as festas e grandes conselhos.

O chefe se chamava Pakui e, ao adentrar a grande choupana, recebeu um cachimbo das mãos de uma mulher. Em seguida, sorriu para os dois, sinalizando para que sentassem.

— É uma estranheza encontrar homem branco que fale tão bem a nossa língua. Como aprendeu? – perguntou ele.

— Tenho um amigo que esteve por aqui durante muito tempo. Seu nome é Shion ele veio estudar as tribos pertencentes á Amazônia. Hoje ele tem uma ONG que visa preservar e proteger as culturas indígenas.

— Ah! Seu amigo deve ter conhecido meu pai, o segundo cabeça da Anaconda. Foi na época dele que muitos tiveram permissão para conviver com nossa tribo.

— Sim, ele contou-me sobre um chefe que sonhava com a união dos povos. Mas, vejo que isso parece ter mudado.

— Homens vem matar a floresta e trazer a fome para nós. A caça está diminuindo e temos que mudar, constantemente. Não somos mais tão confiantes como era no tempo de meu pai. Mas fale, o que trouxe vocês aqui?

— Um acidente. Nosso avião caiu no meio da floresta e só nós dois sobrevivemos. Estamos tentando achar uma cidade para poder pedir ajuda.

O índio franziu o cenho como se pensasse em cada palavra dita por Camus.

— Homens que matam a floresta têm muitas estradas que se ligam ao grande caminho. Mandarei que meu filho os leve até lá. – disse o chefe gesticulando para uma das mulheres que estava próxima, observando tudo em silêncio.

Camus sorriu em agradecimento e Milo percebeu que aquela era uma rara ocasião. Nunca tinha visto o ruivo sorrir daquela forma e, sem perceber, ficou irritado. Por que ele nunca lhe sorrira daquele modo?A resposta era clara: porque o achava superficial e indigno até de uma transa!

Logo, um índio alto e com cabelos curtos se aproximou deles. Não era propriamente bonito, mas possuía uma altivez e olhar que chamava a atenção, assim como um corpo esguio e bem proporcionado. Não vestia roupas civilizadas como alguns da tribo e mantinha uma pintura corporal que o identificava como parte de um clã hierarquicamente superior.

— Eu sou Makawe, filho de Pakui. Eu vou levá-los, amanhã até o grande caminho. – disse ele olhando para Camus e, em seguida, para Milo.

— Nós agradecemos a sua gentileza, Makawe. – falou Camus.

Milo apenas sorriu e o índio retribuiu estendendo a mão.

— Prazer. – disse o grego apertando a mão forte e os olhos negros de Makawe brilharam.

A conversa entre os três se dava com Camus falando com Makawe e traduzindo para Milo. Aos poucos, o povo da aldeia se aproximou dos dois estranhos, inserindo-os nas atividades do grupo. Naquele dia haveria uma cerimônia de troca, quando os Karapanãs receberiam outros grupos em uma grande festa. Nesta cerimônia, as tribos se reuniam para trocar produtos utilitários, carne por cestos, banquinhos por peixes e assim por diante.

Milo foi cercado pelas crianças e mulheres encantadas com os cabelos da cor do sol, enquanto Camus tentava se situar geograficamente com as falas de alguns jovens guerreiros. O grego sorria e, ao mesmo tempo, observava a movimentação do ruivo. Camus nunca descansava, estava sempre ouvindo, aprendendo e questionando. Por isso o ruivo o evitava, porque eram muito diferentes, dois estranhos unidos pela fatalidade.

Awatê? Indagou um menino cercado por outros dois, puxando a camiseta do grego.

— Hã? – disse Milo sorrindo.

O menino olhava-o com aqueles olhos negros e brilhantes exibindo um sorriso amplo. Depois, pegou o grego pela mão e levou-o até uma pequena choupana. Quando Milo entrou, o menino buscou algo debaixo de uma rede e, sorrindo, mostrou uma revista de esportes cuja capa era o próprio Milo.

— Takatê Misawee, otakaww misantê!! (Presente de um missionário que passou por aqui)— falou o menino estendendo a revista para o grego.

Tomado por uma forte emoção, Milo riu, depois tomou a revista nas mãos e folheou, vendo que era a edição de 2012 quando havia ganhado o Grande Prêmio de Mônaco. Foi uma agradável surpresa saber que, de alguma forma inédita, publicações mostrando a sua vida, acabaram ali, tão longe.

Tornou a olhar para o menino que o reconhecera e percebeu que as surpresas não tinham acabado...

Makawe olhava seu pequeno tesouro, uma motocicleta que havia resgatado em uma das enchentes quando sua tribo se deslocava para o alto. O artefato aparecera nas margens do rio como uma mágica feita pela grande Anaconda e foi, para ele, o mais valioso dos presentes quando completara vinte e cinco invernos.

Tanauê entrou com Milo pela mão, enquanto ele tornava a cobrir seu tesouro.

Makawe! Makawe! Watêma waremo tokaua (ele é o homem da revista)— disse o menino.

— Otaêri, Tanauê. (eu sei, já tinha reconhecido) — respondeu o filho do chefe.

Milo não entendia as palavras, mas conseguia perceber o clima da conversa e, ao olhar a moto, compreendeu o que se passava. Foi então que notou o olhar de Makawe e o esforço que ele estava fazendo para falar.

— A-Apren..di...um pou-co...de...in-glês.

Um sorriso franco e emocionado foi a resposta imediata do grego ao esforço de Makawe. Logo, os dois estavam conversando e se entendendo. O índio mostrou a moto para Milo, orgulhoso do que havia conseguido preservar. Surpreso, Milo gesticulou se oferecendo para ajudar no que pudesse.

De longe, Camus percebeu a movimentação em torno de Milo e viu quando o filho do chefe colocou algo na coxa do grego e ambos sorriram um para o outro. Não conseguiu controlar a ira instantânea que se traduziu em um gosto amargo na boca.

— O que ele está fazendo? – perguntou baixo, para si mesmo, mas acabou sendo ouvido por um jovem que o estava acompanhando.

— Makawe gostou do seu amigo e quando ele gosta de alguém, a pessoa não escapa da sua rede... – respondeu o jovem rindo baixinho.

O olhar de Camus endureceu.

— O que está dizendo?

— Makawe vai casar com filha da tribo Tucuna e ter muitos filhos. Mas, ele também gosta de tomar para si homens bonitos. Na nossa tribo isso é permitido, mas é preciso dar algo valioso em troca para o homem que lhe der prazer. É a lei.

Camus olhou, novamente, para Makawe e Milo. Os dois riam e o filho do chefe continuava com a mão na coxa do grego... Tinha de acabar com aquela cena deprimente!

— Milo, temos que conversar! – disse o ruivo chegando perto do grego e de Makawe.

— Agora?

— Agora.

O índio olhou para Camus, depois para Milo. Então sorriu e se despediu.

— Então, o que quer falar de tão urgente? – perguntou Milo.

— Nós iremos embora logo, então, peço que freie seus instintos e não crie constrangimento para nós dois.

— Do que você está falando?

Camus lançou-lhe um olhar cáustico, mas ao perceber que Milo estava sendo sincero, pigarreou e mudou o tom.

— O filho do chefe está cortejando você.

Após franzir o cenho, Milo riu.

— Não está falando sério...

— Ninguém é cego, nem ingênuo aqui. Todos o viram colocar a mão em sua coxa. Não diga que é mentira ou que estamos imaginando.

— Não, não vou dizer. Makawe tocou mesmo em mim, mas foi para colocar uma argila que o xamã usa para curar ferimentos. Veja. – disse o grego mostrando a coxa.

— Hã... – os olhos rubros pareceram desconcertados. – Mesmo assim, um jovem disse que ele costuma presentear quem deseja levar para a cama.

— Para o mato, você quer dizer... – brincou Milo se divertindo com a expressão do ruivo.

— Você se diverte com tudo, não é grego?

— Assim como você vê malícia em tudo, não é ruivo? Acha que sou um vadio que sai seduzindo tudo o que encontra pela frente em plena selva!

— Não disse isso.

— Do jeito que falou, foi isso que pareceu! E, sinceramente, eu não entendo porque isso o incomoda, afinal, disse que não sente nada por mim. Se eu quiser trepar com o índio, com o cachorro do índio ou com a fantástica Anaconda, você não tem nada com isso!

— Tem razão. Faça o que quiser. – falou Camus com um tom frio e dando as costas para Milo.

Milo tinha se calado quando o ruivo o dispensara, mas agora, sentia-se, novamente, humilhado pelas observações do outro e não ia deixar passar.

— Não dê as costas pra mim! – falou Milo puxando Camus pelo braço.

— Quer fazer uma cena? – murmurou o ruivo entre dentes.

— Chega de ouvir você falar merda e ficar quieto. Você foi interromper a minha conversa, agora vai me ouvir.

Arikawa Sakari.— disse o mesmo menino que reconhecera Milo na sua revista, interrompendo a discussão.

— Nossa conversa vai ter que esperar. O chefe mandou nos chamar. – falou Camus como se nada tivesse acontecido.

— Você tem mais sorte que juízo. – murmurou Milo.

— Você também. – respondeu Camus, fuzilando-o com aqueles olhos.

O sol baixava devagarinho, enquanto a pintura corporal era cuidadosamente feita, cobrindo os corpos e definindo cada hierarquia. Os visitantes foram convidados a se “vestir” como os anfitriões e receberem a honra de festejar como “iguais.”.

Milo aceitou de imediato. Era próprio de a sua natureza vivenciar intensamente cada experiência nova e excitante. Mesmo não entendendo a língua dos índios, comunicava-se, facilmente por gestos e também por manter-se perceptivo e aberto àquele novo mundo.

Camus tomava aquela situação como mais uma forma de firmar vínculos com aqueles que poderiam tirá-lo da selva e mantinha-se respeitoso e sem arroubos de entusiasmo. Conhecia a linguagem e um pouco dos costumes graças à sua amizade com Shion, um estudioso de tribos primitivas com quem convivera antes de embarcar para a guerra.

O jovem sorriu para Milo ao terminar seu trabalho. O corpo escultural do grego exibia duas listras vermelhas na vertical no lado esquerdo do tórax e duas pequenas listras na horizontal no lado direito da face. Um tapa sexo cobria o essencial destacando as coxas grossas, longas e bronzeadas e uma faixa colorida impedia os cabelos de cair sobre o rosto, acentuando os olhos azuis e também a beleza do rosto.

Camus também fora preparado, a pele alva resplandecendo sob a pintura igual a do grego. O corpo esguio, porém forte do ruivo também surpreendia e chamava a atenção dos demais, assim como a expressão séria que permanecia estampada na face bonita.

Anedé kaue kariwa...

A voz baixa e rouca do velho índio fez Camus voltar o rosto na sua direção. O índio cravou os olhos nos seus e repetiu:

Anedé kaue kariwa...

Com o cenho franzido, o ruivo sustentou o olhar do ancião. O índio era o xamã da tribo e parecia ser cego. Os olhos esbranquiçados permaneciam parados, entretanto, Camus jamais se sentira tão observado em sua vida.

— Dois estranhos, um destino. – traduziu o ruivo.

— Sim, você e cabelo de sol estão ligados... Mas você se recusa a ver. Sua cabeça tenta dominar seu coração. Enquanto fizer isso, será um homem triste e incompleto. – falou o velho tocando o ombro do ruivo e colocando um pouco de argila no pequeno inchaço ainda visível.

Em silêncio, Camus aceitou a medicina e ouvia as palavras do xamã sentindo-se impotente para rechaçá-las. Em parte, o que o velho índio dizia era verdade. Recusava-se a deixar-se seduzir por Milo, porque temia envolver-se além do que era seguro. Emoções fora do controle nunca terminavam bem.

— Não daria certo, nós dois somos muito diferentes. – deixou escapar, tentando terminar aquela conversa.

— Vocês precisam um do outro... Não existe diferença quando o amor acontece.

— Amor...? Não existe amor, existe desejo. Só isso.

O velho sorriu.

— Você sabe a verdade, mas tenta mentir para si mesmo. Sua vida não será completa sem ele, assim como a dele também não será completa sem você. Serão como duas cabaças vazias à espera do preenchimento.

Um grito, seguido do som de uma espécie de berrante cortou o ar e a conversa entre Camus e o xamã foi interrompida. A cerimônia de troca estava começando. Logo, outras tribos se juntariam aos Kuparanã quando chegasse o amanhecer. À noite, a festa seria apenas entre os integrantes da tribo que realizariam pequenas trocas, comeriam, dançariam e fariam consultas com o velho xamã.

A dança em volta da fogueira unia homens e mulheres, enquanto as crianças trocavam bonecas e brinquedos feitos de palha sob o olhar de anciãs que sorriam e brincavam junto.

Alegre, Milo aceitou o convite para dançar, dando-se conta que sua perna não doía e que o corte estava bem fechado. A argila havia acelerado a cicatrização de modo milagroso e ele se movia sem nenhuma dor.

Por alguns segundos, enquanto a dança girava como se fosse uma ciranda, os olhos do grego encontraram os de Camus que permanecia ao lado do chefe. O olhar que trocavam era quase palpável e o ruivo relembrava as palavras do xamã. Aquela conexão durou uma eternidade e o encanto foi envolvendo-os como se fosse uma corda invisível amarrando-os um ao outro.

Segundos depois, Camus também integrava a ciranda e estava posicionado frente ao grego. Os sons dos pés batendo na terra, sincronizados com os tambores, o ritmo dos corpos, a luz dourada do fogo emoldurando músculos e pele... Tudo criava um momento único e deixava tanto Camus, quanto Milo possuídos por uma necessidade que ambos teimavam em manter aprisionada, mas que agora gritava para ser liberada. Desejavam estar juntos!

Quando a dança parou, ambos estavam ofegantes e ainda conectados ao olhar um do outro. Os índios começaram a ir em direção a choupana central onde a festa continuaria com comida à base de frutas, pirão e carne assada.

Quando a maioria já adentrava o lugar, Camus colocou-se a frente de Milo, antes que ele entrasse também.

— Eu... quero me desculpar por hoje. – disse ele.

Apesar das ofensas que o ruivo lhe lançara, Milo continuava desejando enredar os dedos nos cabelos ruivos e tornar a beijá-lo com vontade. Observou os lábios finos, contraídos e não pode evitar a lembrança daquela boca na sua, a língua quente serpenteando e excitando... No entanto, tinha o seu orgulho e agarrou-se à ele, quando respondeu:

— E por quê? Não acho que tenha mudado o seu pensamento. Aos seus olhos, eu sou promíscuo e estou sempre pronto para seduzir qualquer um, menos você, porque você não se envolve com gente como eu. Eu já entendi, então não precisa se desculpar.

Ditas as palavras, o grego continuou caminhando.

— Milo... Por favor. – disse Camus segurando-o pelo braço. – Vamos conversar um pouco.

— Caso não tenha percebido, não sou homem de muita conversa, Camus.

O ruivo olhou-o bem dentro dos olhos. Apesar de a iluminação prover, apenas da fogueira e tochas, ele percebeu um brilho de raiva e mágoa no olhar de Milo.

— Eu menti quando disse que não queria transar com você.

As palavras saíram sinceras, pegando Milo desprevenido. E enquanto ele olhava surpreso para Camus, o ruivo continuava:

— Você mexe comigo, mas não seria prudente um envolvimento entre nós. Por isso neguei e menti sobre isso. Somos muito diferentes.

— Está bem. Era só isso?

O tom de descaso de Milo fez Camus sentir-se um imbecil.

— Então...

— Então, boa noite, ruivo. Pela parte que me toca, eu tenho uma festa para aproveitar e quero conviver com pessoas que não têm preconceitos idiotas sobre diferenças.

Ao término da fala de Milo, ambos se encaravam como dois boxeadores prontos para desferir o primeiro golpe. A animosidade gravitava na atmosfera. Camus foi o primeiro a virar as costas, dando de ombros, irritado. No entanto, como se tivesse surgido do nada, o xamã apareceu entre os dois, oferecendo a cada um, uma pequena cuia.

Potewa! (bebam)