DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...
10 Capítulo 10: NUNCA DEIXAR O AMOR PARA TRÁS!

A chuva cerrada impedia de ver a pista. A bandeira suspendendo, temporariamente o treino, foi levantada e Milo, apenas olhou para o horizonte, lembrando outros momentos em que aquela manifestação da natureza foi bem vinda e permitira que ele ficasse com Camus em plena intimidade.
– Estamos na frente! Andrews queria continuar, ou seja, ele está desesperado para reconquistar a vaga.
A voz entusiasmada de Saga ecoava no Box, enquanto os mecânicos faziam os ajustes e verificavam os últimos detalhes. O grego continuava olhando para a pista, o olhar perdido entre o presente e o passado.
Já havia se passado cinco meses... Então porque continuava com aquela expectativa no fundo do coração? Por que não aceitava que Camus nunca mais iria procurá-lo, que ele não o amava e nunca tinha amado?Química, Milo. Da parte do ruivo era só isso! Aceite!
– Milo? Está me ouvindo?
O jovem piloto olhou para o seu patrocinador.
– Estou.
– Ainda sente dor na perna?
– Não, eu estou bem.
A pergunta lembrou-o das primeiras semanas, após sair do hospital quando foi acometido por uma dor fantasma que era inexplicável, já que, quando abandonara a aldeia dos Kuparanãs, sentia-se muito bem e o ferimento estava cicatrizando rapidamente.
Kanon lhe indicara um psicólogo, mas acabou descartando a sugestão e aceitando os conselhos de Afrodite. “Humm... isso me parece dor de amor! Para esquecer um antigo amor, só um novo”. Dissera o sueco e ele tentara voltar a ser o velho Milo.
Festas regadas a muita música e bebida foram providenciadas. Muitos esperavam a chance de pular em sua cama, mas na hora H, era ele quem pulava fora com as mais variadas desculpas para a sua falta de interesse.
As tentativas de resgate do Milo extrovertido e passional redundaram em fracasso e ele continuou naquele estado de celibato físico e emocional que começava a chamar a atenção de quem o conhecia.
– Milo, tenho notado que você anda diferente. Acho que devia aceitar a sugestão de Kanon e procurar um...
– Eu estou bem, Saga. A chuva tá passando, eu vou para a pista. – disse Milo levantando e interrompendo a conversa.
Saga olhou o grego mais jovem caminhar a passos largos e suspirou. Milo andava triste, quase apagado. Só brilhava nas pistas, quando parecia voltar a ser ele mesmo. E, mesmo vencendo, já não comemorava como antes e também se esquivava das festas dadas em sua homenagem, gerando muitas indagações.
Na pista molhada, Milo acelerava perigosamente. Andrews o seguia, mas ainda mantinha a cautela, enquanto o grego parecia exorcizar seus demônios com a alta velocidade, o corpo quase tocando o chão quando fazia as curvas fechadas e perigosas.
Em um trecho da pista, na curva acentuada, Milo encostou o joelho no asfalto e pareceu se desequilibrar, causando uma comoção nos mecânicos e observadores. No entanto, nada aconteceu e ele acabou fazendo o melhor tempo, para alegria de Saga.
Deixou o treino, sendo cercado por alguns repórteres que insistiam em retomar velhas lembranças...
– Sr. Milo! Observamos que voltou a correr no mesmo estilo agressivo que o caracteriza. Isso tem a ver com o que lhe aconteceu? Com a sua permanência na selva brasileira?
Acostumados com a irreverência do grego e o seu bom humor, os repórteres ficaram mudos quando viram o gesto obsceno acompanhado de um “Vão se foder”. Era assim que se sentia e não conseguia evitar. Queria esquecer, mas ninguém colaborava.
Saga franziu o cenho e pegou o celular. Do outro lado, Kanon concordou com as colocações do irmão e tratou de tomar certas providências para tentar trazer o grego de volta. Milo teria de se tratar com um psicólogo ou arriscaria sua imagem e sua carreira.
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Enquanto decisões eram tomadas na pista de corrida, em Barcelona, no Brasil, Shion tamborilava os dedos na escrivaninha, olhando para o ruivo que continuava lendo os relatórios e cercado de anotações.
Eram quase sete da noite, e o sol se punha em Manaus entre os edifícios cercados por árvores, até juntar-se à linha dos rios, criando um espetáculo alaranjado na cidade úmida e quente. Os últimos reflexos do sol batiam na janela da sala ampla onde Shion dividia o escritório com Camus.
A ONG chamada Forest Protection ocupava um dos prédios mais altos de Manaus e contava com vários jovens estudantes brasileiros engajados na proposta de proteger a fauna, flora e também as comunidades indígenas que viviam no interior da floresta.
O principal foco era estabelecer áreas geográficas que precisavam contar com maior apoio e vigilância sem intervenções criminosas como o das madeireiras clandestinas. Era aí que entrava a participação de Camus e do próprio Shion que usava a sua fortuna para contratar serviços de satélites e engajar pessoas na preservação e cuidado na mata brasileira.
– Podemos deixar isso para amanhã cedo. – disse o antropólogo.
– Pode ir, Shion, eu vou ficar mais um pouco. – respondeu Camus sem tirar os olhos do material.
– Camus, eu sei o quanto esse projeto é importante para você, mas... é bom parar um pouco, descansar. E você não tem feito isso. Há cinco meses que você fica aqui, trancado o dia todo, sete dias por semana.
– Temos um prazo a cumprir.
– Sim, mas estamos adiantados, meu amigo. Você pode muito bem relaxar um pouco, sair, ver o mundo lá fora. Mu já está chegando. Quem sabe você e ele não vão dar uma volta, espairecer?
– Eu agradeço a preocupação, mas prefiro ficar.
Um suspiro escapou dos lábios de Shion. Quando Camus viera procurá-lo, ele ficara bastante satisfeito. Conhecia a competência do amigo e colega de universidade. Temera pela vida dele quando o viu engajar-se na guerra do Golfo e torcera para que tudo acabasse bem e o mundo não fosse privado da inteligência de um homem como ele. As pesquisas de Camus incluíam a biodiversidade da floresta e seriam de bastante ajuda no projeto que visava preservar a cultura e o habitat dos índios .
No entanto, se preocupava com a saúde do amigo. Camus sempre fora sério e determinado, porém, agora parecia melancólico em demasia. Sentia que havia algo mais que os resquícios da guerra ou até mesmo do acidente que sofrera. Camus parecia ter perdido algo muito importante, algo que nem mesmo o trabalho parecia preencher e que o estava tornando um workaholic sombrio.
– Bem, faça o que achar melhor. – falou Shion desistindo de convencer o francês. – E antes que eu me esqueça, Chegou esta encomenda para você. – completou o antropólogo entregando um envelope ao ruivo.
Camus apertou o canto interno dos olhos e estendeu a mão para pegar o envelope. Nesse meio tempo, Mu chegou e Shion ainda tentou convencê-los a deixar o trabalho e aproveitar a vida.
– Tenho algumas coisas para aprontar, vovô. Mas prometo não chegar tarde, hoje. Me espere para o jantar. – disse Mu.
– Vocês dois! Quando chegarem à minha idade vão desejar ter sido menos teimosos e aproveitado melhor a vida. – falou Shion exasperado.
Mu sorriu e Camus tratou de abrir o envelope, retirando três revistas de dentro dele. Sem querer, Mu espichou os belos olhos verdes para as revistas e perguntou:
– Por acaso, você assina a New Science?
Um ligeiro rubor brincou no rosto alvo de Camus.
– Assino, mas essas aqui não são revistas científicas.
O jovem tibetano sorriu malicioso, mas parou quando viu as capas. Eram revistas esportivas, mais especificamente de motovelocidade. Em todas elas, além das motos potentes, havia um homem loiro, muito bonito que se destacava na capa.
– Esse piloto... Milo Stephanopoulos. Não foi ele quem sobreviveu àquele acidente junto com você? Me lembro do meu avô ter falado sobre isso.
– Sim, é ele. Bem, acho que vou acatar a sugestão de Shion e vou descansar um pouco. Já terminei por aqui. – falou Camus.
Mu teve a nítida impressão que Camus ficara constrangido e cortava a conversa para que o assunto não fosse adiante. Dotado de uma personalidade tranquila e empática, o jovem percebeu que, atrás daquela máscara impassível, Camus guardava um grande sofrimento e o trabalho era uma forma de suportá-lo.
– Está bem. Boa noite, então. – disse o jovem.
Camus se despediu. A lua cheia já se elevava no céu, criando uma deliciosa polaridade com o sol que se punha. Os sons da noite, abafados pelos ruídos urbanos, cantavam a sua sinfonia primitiva e era nessa hora que o ruivo caminhava pelas ruas tentando não ser vencido pelo vazio.
Quando parava de trabalhar, sua mente e seu coração se uniam num complô cruel para atormentá-lo. Era a hora em que sentia a falta dele.
Parou em um dos bares noturnos com suas mesinhas ao ar livre e colocou as revistas sobre a mesa. Devagar, passou o dedo pelas fotos de cada capa e deixou que seus pensamentos e sentidos ficassem à deriva, enquanto acariciava o rosto estampado de Milo.
Ah, como ele continuava lindo, intenso... Há essas horas, certamente já teria um novo amante. Tanto ardor, tanta sensualidade... Ele não ficaria preso a lembranças! Não depois de ter sido magoado e abandonado. Doera deixá-lo e ainda doía, terrivelmente. Sentia-se como o lendário Quíron e sua ferida incurável...
Folheou a revista, encontrando uma reportagem sobre a volta do grego às pistas. Leu e releu a matéria, sentindo um misto de culpa e alegria, ao ver que Milo mudara muitas coisas em seu comportamento. Já não havia notícias de noitadas e festas regadas à bebida e... sexo. Ele parecia amadurecido, mas também mais triste e isso desagradou o ruivo. No princípio, quando foram os únicos sobreviventes do acidente, o julgara frívolo, mas descobrira que o grego era dono de uma generosidade e alegria capaz de fazê-lo acreditar no ser humano. Não queria que ele perdesse isso, não por sua causa.
A madrugada chegou e Camus permanecia ali, sentado, insone, mesmo estando cansado de trabalhar no ritmo incessante que mantinha desde que chegara. Sentiu vontade de pedir uma cachaça, lembrando-se da primeira bebedeira que tomara na companhia de Milo. O grego o fizera avançar terrenos nunca antes desbravados. E isso não se aplicava, somente à bebida, mas à tudo!
Às três horas da manhã, a TV do bar, sintonizada no canal de esportes, começou a mostrar o GP de motovelocidade em Barcelona. A diferença no fuso horário oportunizando que assistisse a corrida que se iniciava no adiantado da manhã, na Espanha.
O dono no bar fazia menção de trocar de canal, quando Camus pediu para que não o fizesse. Era assim que tentava matar aquela saudade, sendo um voyeur de tudo que se relacionava à Milo. Por isso, começara a assinar as revistas esportivas que traziam as últimas notícias das corridas de motovelocidade e agora, assistia ao espetáculo do qual o grego era um dos protagonistas e, certamente, venceria.
Os boêmios remanescentes da noite bebiam cachaça ou cerveja, alguns riam ou discutiam sobre outros esportes, enquanto as imagens na TV iam se alternando entre os pilotos, pista e arquibancada do grande Prêmio de Barcelona.
O som característico das motos arrancando e, em seguida, zunindo na pista fazia disparar a adrenalina... Cada equipe movia-se como abelhas em uma colmeia buscando oferecer aos seus pilotos de tudo o que fosse necessário para um ótimo desempenho.
Milo ainda não parara no Box e era seguido por Andrews que acelerava tentando ultrapassá-lo. Ali ma pista, o grego parecia ser o seu adversário mais ferrenho.
De repente, um pequeno erro acarretando um acidente horrível. Andrews não conseguiu estabilizar a moto e a fatalidade aconteceu.
Houve uma profusão de comentários e imagens mostrando diversos ângulos do que acontecia. Camus sentiu o coração disparar quando a câmera focou no belo rosto do grego e na ação que ele empreendeu para a surpresa de todos.
A grande promessa deste prêmio acaba de parar, senhores e senhoras! Milo Stephanopoulos desistiu da corrida e foi ao encontro do adversário acidentado!
A voz do repórter era clara e o tom de incredulidade também. Assim que as imagens foram se alternando e as mais variadas opiniões se somando a elas, Camus se deteve no close dado no rosto do grego e na resposta que ele dera ao questionamento do jornalista sobre o porquê de ter parado... Por que aprendi com alguém que eu amo que não se deve deixar ninguém para trás.
Ao ouvir o grego dizendo aquelas palavras, Camus deu-se conta que todas as tentativas de negar que também o amava duravam, somente, enquanto se enterrava no trabalho e acabavam rápido quando se via só com as lembranças e sensações assombrando-o.
Nesse exato instante, sentia suas entranhas experimentarem um aperto e as palavras do velho xamã ecoarem em sua mente... Você sabe a verdade, mas tenta mentir para si mesmo. Sua vida não será completa sem ele, assim como a dele também não será completa sem você. Serão como duas cabaças vazias, a espera do preenchimento.
O velho índio tinha razão. Apesar da inteligência que guiava suas ações e a meta de não se deixar vencer pelos obstáculos, sentia medo quando a vida lhe exigia ouvir seu coração. Medo daquele sentimento intenso e inexorável capaz de subjugá-lo, de batalhar contra a razão que sempre o protegera e que agora, cedia passagem ao desejo mais íntimo e mais sagrado... Estar com Milo.
Todo o tempo em que ouvia a reportagem e observava as imagens, pareceu que tudo havia congelado ao seu redor. Não ouvia, nem distinguia nada além daquela necessidade!
Por fim, rendendo-se ao ímpeto de fazer o que seu coração gritava, pegou o celular e, enquanto a imagem de Milo ia desaparecendo de cena, disse com voz firme e segura:
– Por favor, quero fazer uma reserva para o próximo voo com destino à Atenas.
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Horas antes em Barcelona...
O dia da corrida chegara ensolarado, apesar das chuvas torrenciais ocorridas no treino dos pilotos. Na pista do GP, várias caixas para transporte de materiais de cada equipe já haviam chegado. As motos chegavam inteiramente desmontadas, garantindo que a revisão completa de todos os componentes e a certeza de que tudo que não for restringido pelo regulamento seria trocado, mostrava que a corrida não era apenas glamour e sim um intenso trabalho de equipe, onde mecânicos e pilotos buscavam um alinhamento importante.
Milo olhou para a pista e, em seguida, para o jovem mecânico que o acompanhava. Por alguns instantes achou-o jovem demais, mas ao sentir a vibração e a seriedade dele, resolveu deixar as dúvidas para trás.
– Seiya. Esse é o seu nome, não?
– Sim, senhor.
– Dispense o senhor e me chame de Milo. Eu senti que o motor precisa de ajustes. Quando for verificá-lo, eu quero estar junto. Ok?
– Claro, senhor! Quero dizer, claro, Milo.
O grego sorriu e deixou o Box, encontrando um casal de amigos.
– Oi, Afrodite, oi Ângelo.
– Olá, survivor. – disse o belo loiro, chamado Afrodite.
Milo fez uma careta, mas logo riu. Somente Afrodite podia tocar em assuntos nevrálgicos e ainda assim, deixá-lo à vontade.
– E você, Ângelo? Quando acha que volta a correr? – perguntou o grego.
– Assim que este pé maledetto se recupere. — respondeu o moreno de feições viris, piloto da Honda e um dos fortes adversários do grego.
– Sinto falta de competir com o Máscara da Morte. – falou Milo dando um soco no ombro do amigo.
Ângelo ou como era mais conhecido, Máscara da Morte, era um piloto irascível e muito destemido da categoria 500 cilindradas. Era um forte concorrente de Milo, mas sofrera um acidente que lhe deixaria fora das pistas por seis meses por ter quase esfacelado o pé esquerdo.
– Me aguarde. Assim que tirar essa tala, eu volto com tudo. – disse o italiano.
– Mas e você, heim? Recuperado da dor?– indagou Afrodite.
Milo não respondeu. Olhou para os dois e desconversou. Logo, seu mecânico veio chamá-lo e ele despediu-se dos amigos buscando esquecer a pergunta de Afrodite. Se fosse sincero, preocuparia o amigo. A verdade era que ainda sentia uma dor emocional filha da puta que teimava em permanecer em seu coração.
Houve momentos em que quase passara por cima do seu orgulho e comprara uma passagem para Manaus a fim de reencontrar Camus. Imaginara mil e uma maneiras de chegar nele, todas elas sem noção. Então refreara o desejo e passara a treinar mais, tanto a corrida, quanto o preparo físico, chegando à exaustão e breves esquecimentos do quanto se sentia frustrado e triste.
A voz grave se fez ouvir em todo o autódromo espanhol, iniciava o Grande Prêmio Moto-GP/500cc de Barcelona, Espanha. Os pilotos estavam alinhados na largada e a pista sinuosa de treze curvas parecia uma amante desejosa de fazer amor com seus pilotos. Quando o sinal foi dado, as motos arrancaram fazendo aquele som característico que levantava as arquibancadas e deixava escapar um murmúrio emocionado dos espectadores.
Milo venceu a primeira curva, sendo seguido de perto pelo italiano Andrews Vincenzo e pelo espanhol Shura. O grego mantinha o primeiro lugar, enquanto os outros tentavam ultrapassá-lo em pontos de menor velocidade.
Quando o grego chegava à décima primeira curva, seu adversário, Andrews Vincenzo, derrapou, sofrendo um acidente feio. A Desmosedici do italiano ficou completamente destruída, causando uma comoção nas arquibancadas e um espetáculo trágico frente às inúmeras câmeras que registravam o evento.
Acidentes sempre aconteciam, inclusive com ele próprio. No entanto, Milo não seguiu em frente como os outros pilotos. Ele parou e foi ver o adversário numa atitude inédita em corridas daquele porte.
Andrews estava com uma expressão de dor e gemia alto, a perna exibindo uma fratura exposta no início da tíbia, logo abaixo do joelho. A moto capotara para fora da pista e o piloto jazia no gramado próximo, após ter sido lançado por uns 30 metros.
– Aguente firme e não se mexa. – disse o grego tirando o capacete do piloto com cuidado e segurando-o para dar sustentação à cabeça.
– V-Você... estava vencendo... P-Por que... parou...? – perguntou o piloto entre dentes, lágrimas de dor escorrendo pelo rosto.
Milo não soube responder de imediato, fizera no automático. Após sua experiência com o acidente de avião, tornara-se mais atento ao sofrimento alheio. Agiu como Camus teria agido. O ruivo não deixava ninguém para trás e ele o amava por isso e por muitas outras coisas. Pena que o sentimento não era recíproco. No fim, ele o abandonara para sempre. Olhou nos olhos vermelhos de Andrews e sorriu.
– Acho que a corrida perdeu a graça sem meu inimigo favorito. – disse por fim.
Andrews quase riu, apesar da dor imensa. As estações de TV do mundo inteiro focaram na ação do grego. Alguns não acreditavam que ele tivesse desistido de uma vitória importante só para dar apoio moral ao adversário.
O espanhol Shura acabou vencendo a corrida, mas em respeito e consideração ao adversário ferido, comemorou discretamente e lamentou o ocorrido.
Milo foi escoltado e orientado a não dar entrevistas, apesar dos fotógrafos e jornalistas caírem sobre ele como se fossem gafanhotos em uma plantação. Um deles insistiu e o grego acabou falando.
– Milo, Milo! Diga, porque desistiu da vitória para ajudar seu maior adversário?
O grego olhou bem para o repórter e disse:
– Por que aprendi com alguém que eu amo que não se deve deixar ninguém para trás.
– Você está apaixonado? É alguma modelo, um companheiro de equipe, ou... Ele ou ela o deixou? Milo! Por favor, explique!
Milo deu as costas ao repórter afoito fazendo um sinal de despedida com a mão. Quando chegou ao Box, seu patrocinador o esperava, andando de um lado para o outro, tentando acalmar-se frente aquele trágico espetáculo.
– Mas onde você estava com a cabeça? – gritou Saga. – Porque foi parar? Você estava na liderança! Só faltavam duas voltas! Duas, Milo! E que porra é essa de não deixar ninguém para trás? Você enlouqueceu, só pode!
– Você não entenderia. – respondeu Milo suspirando.
– O que está havendo com você? Foi aquele maldito acidente! Eu disse a Kanon para trazer o psicólogo aqui, já que você se recusa a ir até ele. Você vai conversar com ele e vai ser agora! Esteja no meu escritório em dez minutos. – disse Saga deixando o Box.
Fechando os olhos, Milo soltou o ar. Ficou um tempo com os olhos cerrados, assimilando as mudanças que sentia dentro de si. Seu lema sempre tinha sido viver no limite, no máximo da excitação e agora nada disso tinha mais sentido em sua vida.
Afrodite e Ângelo o procuraram para dar apoio, sem muitas palavras, mas com muitos abraços apertados. O grego agradeceu e, em seguida foi chamado por Seiya para falar com o tal psicólogo que, para sua surpresa era uma mulher delicada, com um olhar penetrante e feições de adolescente.
– Olá, senhor Milo. Eu me chamo Saori e fui contratada para ajudá-lo. – disse ela estendendo a mão pequena e alva.
– Prazer. – disse Milo sem muito entusiasmo.
Saori sorriu e indicou a poltrona à frente da escrivaninha. Estava no escritório de Saga, improvisado em uma das salas que compunham a parte interna do autódromo.
– Bem, vamos começar com aquilo que o incomoda. Diga, senhor Milo, o que gostaria de fazer, neste exato momento e sente que é impossível.
Milo arregalou os olhos, se sentindo devassado pela pergunta da psicóloga. Ela parecia saber da dor que sentia. E aqueles olhos... Nunca tinha visto um olhar daqueles!
– Olha, senhorita ou devo dizer, senhora? Eu estou bem, só quero ficar um tempo longe disso tudo.
– Pode me chamar, apenas, de Saori. Devo alertá-lo que fugir do problema nunca é e nunca será uma opção confortável, nem resolverá as suas questões. Fale-me sobre o acidente que sofreu.
O grego revirou os olhos e bufou. Saori deu um discreto sorriso, depois ficou séria e fitou Milo bem dentro dos olhos.
– O senhor se apaixonou, não foi? – disse ela com uma voz calma e suave.
– Como sabe? – disparou Milo, agora prestando, realmente a atenção, naquela mulher.
– Simples, o senhor se envolveu com o seu companheiro de infortúnio e crê estar apaixonado por ele.
– Lá vem aquela baboseira de síndrome de sei lá o quê. – disse Milo baixinho.
– Síndrome de Estocolmo. É comum entre pessoas que sobreviveram a uma crise juntas sentir-se perdido sem o outro. – falou Saori.
– Escute aqui, sei que está fazendo o seu trabalho, mas estou me lixando para as suas considerações sobre síndromes e comportamentos. Eu sei o que eu sinto e nada, nem ninguém vai me provar o contrário. Portanto, acho que já tomei demais o seu tempo. – disse Milo se levantando.
– Por favor, sente-se. – disse ela com a mesma calma de antes.
Milo franziu o cenho. Estava sendo educado, mas se ela insistisse acabaria mandando-a para a puta que o pariu. Inspirou fundo e obedeceu.
Ao contrário do que esperava, Saori retirou um pequeno baralho embrulhado em uma toalha lilás com uma bainha dourada que ele não viu de onde saiu. Calmamente, ela estendeu a pequena toalha sobre a mesa e espalhou o baralho sobre ela, para surpresa do grego.
– O que é isso?
– São cartas de tarô. Uso-as como auxiliares na visualização de processos emocionais. – disse ela sorrindo. – Tire cinco cartas.
Mesmo desconfiado, Milo obedeceu, entregando as cartas e olhando para a psicóloga com certa desconfiança. Assim que recebeu as cartas, Saori foi colocando-as em forma de cruz antes de virá-las no sentido anti-horário.
– Humm... – murmurou ela ao analisar os quatro arcanos maiores.
– O que isso mostra? – perguntou Milo com visível interesse.
– O primeiro arcano, o Imperador sugere que o senhor conhece alguém forte e protetor, mas que também possui um magnetismo intenso e dificuldades no campo amoroso. É o tipo de pessoa que quer se manter no controle. O segundo arcano, o Louco o representa, senhor Milo, indicando que o senhor possui muitas habilidades, é impulsivo, sexy e está pronto para largar tudo e recomeçar. O terceiro, Os Amantes, indica uma relação intensa e sensual entre o senhor e esse... cavalheiro. Mas que implica em decisões a serem tomadas. O Sol iluminando vocês prevê um reencontro que vai trazer muita felicidade. E, finalmente, a quinta... Hummm... Temos aqui O Mundo, a melhor carta do tarô! Isso quer dizer que, apesar das diferenças, a união entre vocês dois será muito afortunada e trará alegria não só ao casal, mas para muitas outras pessoas.
Com a boca aberta, Milo ficou olhando para Saori que sorria e recolhia o baralho.
– Bem, sessão terminada. Volte para casa, descanse e espere o desenrolar dos acontecimentos. – disse ela.
– Mas... espere aí. Você...
– A verdade, senhor Milo é que eu não sou psicóloga. Sou uma taróloga contratada pelo seu amigo Afrodite. Ele está muito preocupado com o senhor, mas depois dessa tirada de cartas benéficas, acredite em mim, o senhor não tem com o que se preocupar. Adeus!
A jovem deixou-o sem saber o que dizer ou pensar. Quando ia deixando o escritório, um homem pequeno com a pele num tom estranhamente arroxeado estendeu-lhe a mão.
– Senhor Milo? Eu sou Dohko, psicólogo contratado pelo senhor Saga para conversar com o senhor.
Zeus tenha piedade! Pensou Milo revirando os olhos, enquanto retornava para a poltrona onde tivera sua sessão com a taróloga maluca chamada Saori.
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