DOIS ESTRANHOS, UM DESTINO...
1 Capítulo 1: O ACIDENTE
Notas iniciais

Todos estavam mortos...!
O cheiro, o calor... o metal retorcido que rangia como se fosse um lamento. Não sabia quanto tempo ficara encolhido com a cabeça sobre os joelhos em posição fetal. O ato fora automático, era assim que se fazia em uma queda para preservar articulações e ossos. O fizera muitas vezes quando caía da moto.
Ergueu a cabeça. Os cabelos, os ombros e as costas se encontravam cobertas por estilhaços de plástico que antes cobriam parte das janelas. Vagarosamente, forçou-se a abrir os olhos e o que viu deixou-o com vontade de fechá-los, novamente. No entanto, não era covarde, mesmo no esporte, já vira cenas aterrorizantes de acidentes graves e fatais. Porém, nada se comparava a isso...
Os dois homens que ocupavam os assentos à sua frente estavam mortos. Um deles tinha o pescoço quebrado e os olhos abertos. O outro estava com um lado do rosto afundado e com uma poça de sangue ao redor de si. A senhora simpática que tricotava uma meia para o neto, também jazia de bruços, com parte do tórax esmagado pela fuselagem...
Do outro lado do corredor, outro homem parecia dormir. A cabeça estava apoiada no acolchoado do assento. Provavelmente, estava morto também, o que era uma pena já que o sujeito era bonito e sensual de um jeito que não tinha explicação. Desde que pousara os olhos nele, imaginara mil e uma maneiras de dar uns pegas naquele corpo.
O ruivo, como ele o rotulara desde que o encontrara na pousada, se mantivera sempre separado dos outros hóspedes. Até mesmo quando era educado, parecia exalar um ar de superioridade. E fora essa característica que o atiçara a tentar seduzi-lo, mas se revelara extremamente frustrante, já que ele nunca estava à vista. O homem parecia uma esfinge de gelo, distante e nada amigável.
Dirigindo um olhar à cabine da frente, constatou que os pilotos também estavam mortos. Haviam morrido por causa dos galhos grossos de uma árvore que cortara a cabine como se a mesma fosse feita de manteiga e os deixara quase irreconhecíveis.
Merda! O que eu vou fazer agora? Pensou ao ver-se como o único sobrevivente naquele mar de corpos.
Em um ato desesperado, lutou para soltar o cinto de segurança. Quando conseguiu, caiu para frente, batendo com a cabeça no assento próximo. Esgueirou-se pelo corredor apertado, indo em direção ao rombo maior no meio do avião. Evitando tocar nos mortos, ergueu o olhar para o metal rasgado e vislumbrou o céu enegrecido. Nuvens pesadas e cinzentas davam a impressão que o mundo ia desabar e ainda tinha aquele calor abafado que dificultava sorver o ar.
De repente, um movimento.
Voltou a cabeça para a direção onde o ruivo se encontrava. Era impressão sua ou ele se mexera?
Arrastou-se de volta para o interior do avião, esbarrando em braços e pernas que pendiam ensanguentadas das vítimas. Deus meu, permita que ele esteja vivo! Pediu, fervorosamente, lembrando as orações que sua mãe lhe ensinara quando menino e que depois de adulto, só as fazia antes das corridas.
– Ei... você pode me ouvir? – perguntou esperançoso.
O ruivo gemeu, porém não abriu os olhos.
Nunca um gemido lhe parecera tão bem-vindo como aquele
– Vamos, acorde! – insistiu.
Nenhuma reação. Só então notou o inchaço na testa do homem. Era um “galo” enorme bem próximo da têmpora esquerda. Deixando escapar um suspiro, mais uma vez deu palmadinhas leves no rosto alvo, admirando de perto a compleição bela e clássica da face do ruivo. Ele devia regular de idade consigo, os cabelos ruivos, amarrados em um rabo de cavalo baixo, eram um tanto longos e ondulados. A pele era clara e exibia pequenas sardas, a boca era bem feita e havia uma pequena cicatriz no supercílio esquerdo.
Camus acordou com uma terrível dor de cabeça e a primeira coisa que viu foi aqueles imensos olhos azuis cravados em si.
– Nós caímos... – gemeu ele. – Há quanto tempo?
– Não sei ao certo, não uso relógio e não sei onde meu celular foi parar.
Grunhindo de dor, Camus levou a mão à têmpora e se ergueu, usando a outra mão como alavanca.
– Os outros passageiros... Viu se alguém sobreviveu?
– Estão todos mortos, só sobramos você e eu.
– Tem certeza?
– Acho que sim.
– Acha? Verificou se têm pulsação ou estão respirando? – perguntou o ruivo com uma expressão grave.
– Eu não!
Camus o encarou com olhar crítico por vários segundos e o grego viu-se pensando que aqueles olhos rubros eram frios e encerravam críticas duras que o faziam sentir-se desconfortável.
– Olha, meu nome é Milo e eu sou...
– Eu sei quem você é. Um piloto famoso que está muito longe das festas e excessos dos quais está acostumado. – cortou o ruivo fazendo esforço para andar.
O olhar incisivo e o tom de descaso fez Milo sentir-se ofendido. Afinal, quem era aquele homem para dar-lhe lições de moral naquela situação?
– Eu poderia tê-lo deixado e saído em busca de ajuda. Portanto, não se sinta superior só porque acha que...
– Me chamo Camus e sou um homem acostumado a situações extremas. Portanto, se fizer o que eu digo, teremos uma boa chance de sobreviver. Venha cá. – ordenou o ruivo em tom áspero.
Milo franziu o cenho resistindo um pouco, mas logo obedeceu. Camus lhe entregou uma lanterna que jazia no chão e disse:
– Direcione a luz diretamente para os meus olhos. Um de cada vez e diga o que acontece.
– As suas pupilas se contraem. – falou Milo olhando-o pegar um estojo de primeiros socorros no chão, abri-lo e retirar um frasco de aspirinas, engolindo em seco, três de uma vez.
– Pelo menos não sofri uma concussão, nem algo grave. É só uma batida na cabeça. E você? Sente algo ou se feriu?
– Oh, obrigado por perguntar. Não, não me machuquei. – respondeu o grego com sarcasmo.
– Tem certeza?
– Essa parece ser a sua frase favorita. Já disse que estou bem. – falou Milo
Experiente, Camus começou a pensar em um plano de ação. As bagagens estavam misturadas, mas o avião era pequeno. Trazia consigo uma faca de caça e usou-a para romper lacres e verificar com rapidez o conteúdo de malas e mochilas.
– O que está fazendo? – perguntou Milo.
– Vamos fazer uma seleção de objetos úteis e depois dar um jeito nos corpos.
O rosto bonito do grego transformou-se.
– Como assim dar um jeito nos corpos? Vamos enterrá-los depois de saquear a bagagem deles?
– Exatamente. – respondeu Camus, seus implacáveis olhos rubros acastanhados não permitindo discutir o assunto.
– Você só pode estar brincando.
– Escute aqui, senhor Milo. Nós vamos remover os corpos do aeroplano, enterrá-los e seguir em frente. Ou o senhor prefere ficar aqui no meio desta floresta selvagem cercado de carne putrefata à espera dos predadores?
O grego não sabia o que dizer. O contato com a morte nunca fora algo que o deixasse confortável, embora a desafiasse nas pistas o tempo todo. Perdera os pais quando era adolescente e há quatro anos, o irmão mais velho morrera de uma doença cardíaca. Em ambos os casos, a morte fora cercada de um cerimonial que a tornava um tanto distanciada do trágico e parecia algo surreal, como se aqueles corpos deitados em um caixão não fossem pessoas reais e sim réplicas do que tinha sido um dia.
No entanto, aqueles corpos ensanguentados e mutilados eram reais e um a um, tinham de ser retirados do avião e colocados em uma vala comum aberta no meio da selva.
Camus não demonstrava nenhuma emoção enquanto preenchia a vala com os corpos. Já vira e fizera coisas piores na guerra.
Ele empilhou algumas pedras sobre a sepultura comum quando tudo terminou como meio de marcar onde se encontravam.
– Não deveríamos rezar ou dizer algo? – perguntou Milo.
– Como o quê?
– Sei lá, uma passagem bíblica ou uma oração.
O ruivo deu de ombros e limpou a lâmina da faca na calça.
– Não sou religioso e há muito tempo não recorro a esse tipo de consolo.
Como um legítimo grego, Milo fez uma oração e pediu pelas almas, por ele e pelo ruivo irritante.
– O que vamos fazer, agora?
– Pegaremos o que pudermos e sairemos daqui.
– Achei que iríamos ficar no avião.
– Poderíamos ficar se tivéssemos caído próximo a algum rio ou fonte de água. Aqui não tem nenhum, nem outro.
– E como sabe disso?
– Não há rastros de animais por aqui e mesmo que chova e guardemos um pouco de água, ainda assim precisaremos de mais com esse calor.
– Me diga, senhor Camus que tipo de experiência tem para ser assim, tão assertivo?
– Sou um ex-combatente. Minha intimidade com a morte me fez aprender todos os mecanismos de preservação da vida. Portanto, quando eu falo algo, não é da boca para fora, senhor Milo. Eu sei do que estou falando.
Era só o que faltava, um ruivo metido a Rambo! Aquilo estava ficando cada vez mais insuportável!
– E eu sou um piloto de corrida, senhor Camus! Eu enfrento a morte em cada curva quando estou a 300 km por hora. Intimidade com a morte não é uma prerrogativa somente sua!
Camus girou em um impulso tão repentino que quase o fez cair para trás.
– Pensa que estou brincando ou disputando poder com você? – disse Camus segurando-o pelos ombros e sacudindo-o. — Olhe ao redor, sabe quais são as nossas chances nessa selva? Pouquíssimas dado o fato que o senhor nunca deve ter pisado em um lugar hostil como esse! Isso não é uma aventura, é sobrevivência.
O ruivo o soltou com um safanão e começou a recolher os objetos que selecionara como úteis.
Suprimindo a raiva, Milo se inclinou sobre as malas e começou a escolher o que considerava útil. Gostaria de nocautear aquele ruivo arrogante, porém não lhe daria o gosto de vê-lo perder a paciência. Se havia algo que um escorpiniano sabia fazer era esperar o momento certo...
– Acha que estou fazendo isso para afrontá-lo, não é? Sente vontade de me socar, mas teme a minha reação. – perguntou Camus, de repente.
– Não, não tenho medo. Acho que é um calhorda arrogante, mas não consigo sair daqui sozinho, então vou esperar o momento certo para mandá-lo longe.
Camus se permitiu um discreto sorriso e Milo vislumbrou parte dos dentes muito brancos que se mostravam no ato.
– Veja isso! Sabe manejar um desses? – perguntou o ruivo erguendo um rifle de caça.
Milo negou com a cabeça.
– Pois bem, isso é uma arma de caçador, mas pode muito bem servir de sinalizador. Coloque-o sobre o ombro.
Um último olhar para a fuselagem rasgada do avião e os dois começaram a andar. Milo sentia que sua energia ia baixando e perdia a noção do tempo. A floresta densa não ajudava e parecia adquirir braços monstruosos que tentavam arrancar-lhe as roupas, os cabelos e aprisionar suas pernas. Tropeçando em cipós grossos como serpentes, ele começou a sentir-se estranhamente tonto.
Em um gesto instintivo, segurou-se em um galho grosso, quando sentiu tudo escurecer. Porém, isso não impediu a queda forte e ruidosa que chamou a atenção de Camus. As folhas molhadas eram como um lençol e, mesmo que seu rosto experimentasse o choque, ainda assim, parecia uma benção...
Camus deixou escapar um xingamento, enquanto se livrava da mochila para amparar o grego. Notou que ele estava pálido e seus lábios estavam sem cor.
– O que houve? – perguntou, sério.
– Não sei... acho que estou cansado.
O ruivo tateou-lhe o corpo, pressionando, cuidadosamente, o abdômen trabalhado do grego,
– Ei, o que está fazendo? – perguntou Milo.
– Você pode estar ferido internamente. – respondeu Camus.
– Mas eu não sinto nada...
Camus continuou sua verificação, apesar da fala do grego. Foi então que notou que a coxa esquerda, coberta pelo jeans claro, estava coberta de sangue.
– Como você se feriu? – perguntou o ruivo.
Surpreso e com o cenho franzido, Milo o encarou.
– Eu... Eu sei lá. Bati em tanto galho e cipó, mas não senti dor nenhuma, até agora...
O ruivo retirou a faca da bainha, mais uma vez. Em seguida, usou-a para cortar a calça do cós até a coxa. Chocado, Milo inspirou e olhou nos olhos rubros de Camus e o ouviu soltar um profundo suspiro, enquanto lhe observava a perna, na parte posterior da coxa.
– Merde! – disse ele, em francês, enquanto Milo sentia a cabeça rodar...
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