Círculo de Fogo
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Capítulo 15
“Quando eu estiver louco, subitamente se afaste.”
181
Rukia sentiu uma sensação extremamente desconfortável. O quanto ele tinha escutado? Há quanto tempo ele estaria ouvindo a conversa? Se fosse antes, ela não teria que se preocupar com isso. Um revólver resolveria tudo. Ponto final. Mas agora, não tinha como fazer isso.
Os olhos azuis estavam fixos no ruivo a sua frente, parado somente há alguns metros de distância de onde ela estava. De certa forma, a morena estava um tanto surpresa, em quase vinte dias convivendo com o mesmo, não vira uma única vez aquela expressão dura em sua face, até mesmo quando haviam discutido aquela expressão não estava em seu rosto.
E por que ele estava daquele jeito? O que ele sabia sobre ela? Masaki?
— Não sei do que está falando. — Ela disse em voz baixa o encarando. Seja lá o que ele havia escutado da conversa entre ela e Shinji, não falaria nada. Os segredos morreriam com ela e iriam para o túmulo com ela. Poderia ser uma assassina, mas isso não queria dizer que era desleal.
— Não minta para mim Rukia. — Ichigo praticamente grunhiu com ela.
— Já disse que não sei do que está falando. — Repetiu sem deixar se abalar com o tom que ele usara. A morena notou o ruivo cerrando os punhos com força.
Não demorara mais que alguns segundos para que ele tivesse quebrado a distância que os separava e a agarrado bruscamente pelos ombros e a posto de pé para depois sacudi-la.
— Você está mentindo! Não pode parar de fazer isso! — Falou em voz alta e Rukia manteve a expressão impassível, mas por dentro estava rezando para que ele soltasse seus ombros, pois provavelmente aquilo deixaria marcas. Em contrapartida, não sabia exatamente do que ele estava falando. Seria realmente sobre aquela maldita da Masaki? Preferia achar que não.
— Você é surdo? — Ela sibilou — Não sei do que está falando e já disse isso. E mesmo que soubesse, não faria nada. — Rukia o sentiu apertando seus ombros com mais força e soltou um grunhido de irritação.
O ruivo estava tão fora de si que não estava vendo que estava a machucando. Também não percebeu quando duas mãos pálidas investiram contra ele e fizeram-no soltar Rukia e cambalear para trás. Shinji manteve-se na frente da morena com as mãos no bolso do uniforme branco de cozinheiro — agora encardido pelo tempo daquele lugar — e com a expressão neutra.
— Controle-se sub-xerife Ichigo Kurosaki. Você estava a machucando. — Informou o fitando com seus olhos opacos e acinzentados — Ela já disse que não sabe do que está falando. — Rukia ficou levemente surpresa com a intervenção de Hirako e tentou não demonstrar isso.
As palavras do loiro foram o suficiente para que Ichigo acordasse e notasse o que estava fazendo. Os seus músculos relaxaram e seus olhos perderam aquele brilho ameaçador. Ele abaixou a cabeça um pouco acanhado e envergonhado pelas suas ações anteriores.
— Sinto muito. — Disse engolindo todo o seu orgulho — Desculpe por isso. — O ruivo enfiou a mão no bolso e lançou a chave das correntes para Shinji que a pegou no ar e depois retirou-se indo para o quarto deixando-os a sós.
— Mais que merda foi essa? — Shinji murmurou com um sorriso quase sarcástico retomando o humor anterior — Ele é sempre assim? — Perguntou.
— Para falar a verdade, até agora nunca tinha o visto assim. — Respondendo estendendo os braços para que ele a soltasse. Ele soltou os pés e os braços dela — Vamos para o quarto, assim, poderemos conversar melhor — Uma pausa e ela massageou os pulsos — Conte-me as novidades. — Disse com um sorriso perverso.
Enquanto isso, um Ichigo deprimido estava deitado em sua cama. Pegou o travesseiro e socou sobre a própria cabeça pensando o quanto era estúpido! Fechou os olhos com força, tentando afastar a angústia que ameaçava alastrar-se por todo o seu corpo. Estava prestes a sucumbir aquela dor que devastava seu coração.
Por quanto tempo ele achou que estaria preparado para enfrentar aquele fantasma do seu passado? Porém, havia bastado que tivesse ouvido o nome do assassino de seu pai e da mulher que deveria ter sido sua mãe, que praticamente surtara. Machucara Rukia por causa de sua loucura temporária. Naquele instante estava tão ensandecido...
Bufou mais uma vez e virou-se na cama mais uma vez irritado consigo mesmo. Esperaria aquela angustia terrível passar para então falar com Rukia e desculpar-se de verdade — se ela não fugisse, claro.
Centro do Arizona
O sol já estava baixo quando Orihime chegara a seu atelier com inúmeros tipos de tecido na mão. Havia saído cedo com o cocheiro Sado para uma província próxima para aproveitar o mercado daquele lugar. No Arizona, esse tipo de mercadoria não era de qualidade. Orihime Inoue era uma renomada costureira e era muito boa no que fazia.
Recebia muitas encomendas por mês, o que facilitava a ter uma vida razoavelmente luxuosa, já que seu irmão Sora era proprietário de um movimentado bar e com o dinheiro que conseguia, os mantinha em uma vida que não tinham o que reclamar.
O irmão da ruiva nunca tinha se casado, achava que a mulher certa não tinha chegado ainda em sua vida. Porém, estava satisfeito e feliz pelo “compromisso” da irmã com o sub-xerife. Ele era um homem dedicado e honesto, com certeza seria um bom marido para a sua irmã.
Para a ruiva, era um dia especialmente feliz. Estava muito animada com o que tinha conseguido no mês, haveria um baile na cidade e por isso várias moças haviam encomendado novos vestidos, já tinha terminado todos — em uma rapidez quase inacreditável — e só faltava fazer o dela, e claro, capricharia muito no seu. Era uma pena que Ichigo não poderia acompanhá-la, mas iria com seu irmão.
Só faltava os retoques finais, e para isso, tinha ido comprar tecidos especiais para que tudo ficasse perfeito. Passou umas duas horas ali, terminando seu vestido e o enfeitando até que ficasse do jeito que tinha imaginado. Quando terminou, guardou o vestido em uma caixa e depois a colocou debaixo do guarda roupa.
Passou mais algum tempo costurando luvas longas e brancas. Seu irmão chegou no atelier e a viu sentada costurando.
— Ainda está aqui Hime. — Sora sorriu ao chamá-la pelo apelido e deixou o chapéu de couro marrom em cima de uma das mesas — Está ficando tarde, não é bom que fique aqui até essa hora. Há pessoas má intencionadas em toda parte.
— Desculpe irmão, mas eu estava tão empolgada em costurar meu vestido que não vi o tempo passar. — Desculpou-se e devolver o sorriso carinhosamente — Não estão lindas? — Perguntou colocando uma das luvas que iam até o final de seu antebraço. Sora fez uma careta.
— Está sim Hime. — Soltou um suspiro.
— Você não gostou! — Choramingou desanimada.
— Não é isso querida. — Respondendo com sinceridade — Eu só acho que não é uma boa ideia que você vá a esse baile sem a companhia do Ichigo. O que as pessoas vão achar?
— Eu não ligo. — Inoue falou de súbito, mudando totalmente sua personalidade — Eu vou de qualquer jeito. Não é o pensamento ignorante de alguns idiotas que irá me fazer ficar em casa em quanto todos se divertem.
Se Sora Inoue não estivesse tão acostumado com a mudança de personalidade da irmã — e não fingimento — ele ficaria assustado. Mas ela sempre tivera esse problema, desde pequena. Apesar da maioria das vezes ser doce e gentil, às vezes ela subitamente mudava e ficava fria, sarcástica, agressiva e com um humor muito, muito, — muito — negro e cruel. Por isso, ele agradecia por a personalidade do “bem” se manter por mais tempo.
Sora suspirou e andou até a mesa em que tinha deixado o chapéu e o pegou.
— Tudo bem Orihime. Faça como quiser. — Decretou indo na direção da porta quando a ruivo o chamou.
— Irmão, quem sabe você não encontre a mulher que tanto espera? — Disse com um sorriso e a Sora devolveu o sorriso de modo carinhoso.
— Estarei te esperando lá fora. Não demore. — E saiu deixando-a sozinha.
— Estou com um pressentimento bom sobre esse baile. — Inoue sussurrou para si, totalmente imersa em pensamentos.
I&R
As coisas na casa de confinamento estavam quietas. Shinji e as criadas já haviam ido embora há algum tempo restando apenas Ichigo e Rukia. O silêncio dominava todo o ambiente. Ichigo ficou deitado na casa a tarde inteira e acabou por dormir, Rukia ficara conversando com Shinji até ele ir embora pouco antes de escurecer e depois disso refletiu um pouco sobre tudo que estava ocorrendo.
O que era para ser apenas divertido tornara-se cansativo e muito problemático. E justo agora que ela estava ali, várias coisas importantes começaram a acontecer. Que problemático aquilo estava ficando.
A morena aproveitou que estava sozinha e saiu para nadar um pouco, isso sempre a acalmava e a ajudava a por os pensamentos no lugar. Andou calmamente até o rio enquanto observava as poucas estrelas que estavam no céu e as nuvens que mesmo no céu escuro poderiam ser vistas. Anunciando uma rara chuva. Quando chegou na margem, pulou as pedras para chegar até o outro lado. Tirou as roupas e entrou na água que para sua surpresa, estava morna. Manteve-se na parte rasa por alguns instantes apreciando a água antes de nadar verdadeiramente.
Parando para pensar, ela era suficiente burra para estar ali enquanto deveria cuidar dos assuntos que tinha pendente. Apesar de tudo, por que estava ali? Essa era a pergunta que ficava martelando na sua cabeça seguido de “Será que já gostava dele o suficiente para segurá-la ali?”
— Sim. — Murmurou fazendo bolhas na água.
Ficou em silêncio por um tempo e ouviu passos vindo na direção em que estava. Conseguiu visualizar a silhueta de Ichigo e afundou-se ainda mais na água deixando apenas os olhos e o nariz de fora. Ela ficou parada olhando na direção da silhueta que estava tirando a roupa. Ichigo entrou na água sem saber o “perigo” que lhe aguardava.
— Eu sou um idiota. — Disse em voz baixa antes de afundar na água molhando toda a extensão de seu corpo. Voltou à superfície segundos depois — Será que a magoei? — Rukia surpreendeu-se um pouco com essas palavras e aguardou — Droga! — Praguejou — Logo agora que ela tinha me perdoado. Com certeza devo tê-la machucado com aquele apertão.
— Não seja estúpido Ichigo. — O ruivo quase morreu do coração quando ouviu a voz grave, mas ainda assim, suave de Rukia.
— R-rukia? — Gaguejou com a face em chamas em imaginar que ele e ela estavam nus no mesmo lugar. Ela o ignorou.
— Até parece que um simples apertão teria me machucado. — Falou aproximando-se de onde ele estava — Eu já passei por coisas muito piores nessa vida. E não se preocupe, não me machucou ou me magoou, todos têm problemas às vezes. — Aproximou-se mais e tocou-lhe o ombro nu fazendo-o se arrepiar.
— Eu realmente sinto muito por aquilo — Ichigo disse com os olhos fechados tentando ignorar o aglomerado de sensações que o atingiam — Eu não queria ter gritado com você ou ter te machucado.
— Eu já disse que está tudo bem. — Voltou a falar em voz baixa sentindo o coração bater fortemente contra o seu peito enquanto se aproximava ainda mais do sub-xerife — Se for te fazer sentir melhor, atrevo-me a dizer que você estava deliciosamente atraente.
Ichigo acabou por soltar uma risada de constrangimento realmente se sentindo melhor. Por que justamente Rukia era a pessoa que o fazia sentir-se melhor? Por que justamente a mulher que seria executada era a mulher que o deixava quase louco? O destino possuía métodos bem sujos de brincar com as pessoas.
— Você é uma pervertida Rukia. — Murmurou sem a habitual timidez, o que era esquisito, ainda mais na situação em que estavam — Mas eu já me acostumei com isso.
— Oh, é mesmo? — Seu tom saiu preguiçosamente malicioso. Ela pôs a outra mão no ombro dele — Eu não acho que deveria dizer esse tipo de coisa quando o sub-xerife está tão vulnerável... — A mão da morena deslizou dos ombros até o peitoral nu de Ichigo — E totalmente nu.
Ichigo poderia jurar que seu corpo estava em chamas. O rastro do toque de Rukia continuava ardendo em sua pele. A razão estava esvaindo-se aos poucos dando lugar apenas para a paixão, para o desejo. E naquele instante, ele percebeu que era inútil resistir, que era impossível resistir a Rukia e a atração mutua que os envolvia. Rukia era uma mulher irresistível e isso não poderia ser contestado.
Por Deus! Ele ainda era um homem! E como ele poderia ao menos tentar resistir ao errado quando ela estava nua tão próxima dele com suas mãos nem um pouco inofensivas em seu corpo?
Então...
Por que resistir se era inútil?
Ichigo retirou as mãos de Rukia de seu torso e virou-se para ela em uma velocidade quase inumana. Naquele instante, apenas a fraca luz do luar caia sobre eles, possibilitando a visão parcial de suas faces, e fora o suficiente para que o ruivo visse um brilho quase diabólico nos olhos inacreditavelmente azuis da morena. Os dois se encararam por um segundo.
— Há coisas que você não deve dizer para um homem nu ceifadora. — Ele disse em um tom aveludado, sensual, nunca escutado por Rukia antes, o que a fez arrepiar-se inteira. Os dedos masculinos desenharam seus lábios suavemente, em um toque excitante e lento — Mesmo que você seja a pior criminosa do país.
— Isso serviria para uma dama. — Ela sorriu sínica — Mas eu já te disse antes que não sou e nunca serei uma dama.
Ela sorriu, ele também. Os dedos dele entraram no emaranhado dos cabelos negros e molhados dela e a puxou para si. Os lábios se encontraram calorosamente, inicialmente lento, como se estivesse sido tudo ensaiado. Os lábios dele cobrindo os dela, as mãos masculinas a apertando contra si, sentindo toda a extensão do corpo nu da morena, os seios pressionados contra seu peito, era excitante.
O beijo evoluiu para um ato quase selvagem. A língua dela saboreando cada extensão dos lábios salgados de Ichigo enquanto ele saboreava o aspecto doce que os lábios dele possuía, tornando tudo uma experiência agridoce. Rukia passou as mãos pelos cabelos revoltos e apreciou aquele instante, querendo que ele durasse para sempre. Quando se separaram, ela murmurou com divertimento.
— Mãos para o alto, você está completamente rendido.
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