Círculo de Fogo
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10
“Como você pode ver dentro dos meus olhos como portas abertas, direcionando você até meu interior, onde me tornei tão entorpecida sem uma alma. Meu espírito dorme em algum lugar frio até que você o encontre e o leve de volta pra casa.”
Bring me to life — Evanescence
Rukia
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Depois de ouvir a análise daquele projeto de mulher ruiva, decidi que iria mudar de postura. Afinal, todo esse tempo aquele idiota deve ter ficado pensando que eu estava mal por causa dele... Ah tá.
Aquelas malditas vozes que insistiam em me atormentar, jogando na minha cara o meu fracasso, haviam voltado depois de anos. E dessa vez eu não tinha a Nell ou a Yoruichi ou até mesmo o Ulquiorra para me ajudar a lidar com elas. Eu estava sozinha e nem preciso dizer o modo que estava tentando lidar com tudo, e como estava funcionando terrivelmente mal.
Mas eu iria erguer a cabeça e seguir em frente. Como sempre fiz.
Já era noite, uma noite estrelada e refrescante. Estava sentada em uma pedra do outro lado do rio — tinha conseguido passar sem me molhar pulando umas pedras — bebendo um horroroso chá verde que tinha na dispensa e fumando meu cigarro.
Espreguicei-me, sentindo aquela sensação deliciosa dos ossos estralando. Fechei os olhos por um tempo, respirando aquele ar fresco e puro. Não sei por quanto tempo fiquei assim, porém fui interrompida de meus pensamentos quando ouvi meu nome.
Olhei para os lados, para frente e nada. Agora estava ficando doida também? Que ótimo! Franzi o cenho de irritação. Meu nome havia sido chamado de novo. Que diabos... Uma pedra acertou minha cabeça.
— Ai — resmunguei, massageando o lugar atingido e ficando irritada. — Que porra é essa?
Ah, okay. Estou ficando doida. Muito bem. E o melhor: Minhas alucinações me atacam.
Qual será a próxima surpresa?
— Rukia. — Grunhi.
— O que é? — murmurei nervosa. Peraí! Estou falando com uma alucinação?
— Olha para cima. — Fiz como pedido e quando olhei minha boca foi ao chão em questão de segundos.
— Kaien? — Ele abriu um sorriso de orelha a orelha. — O que você está fazendo aqui? Enlouqueceu? — O sorriso não sumiu.
— Espere que eu vou descer aí. — Ainda tentei impedi-lo, mas só pude observar Kaien escalar as pedras do penhasco com destreza, equilibrando-se com muita agilidade e em questão de minutos já estava de pé do meu lado. — Rukia! — E com a alegria de sempre, me puxou para um abraço acolhedor e reconfortante, que admito que estava precisando e não pude fazer nada além de retribuir. — Senti tanto sua falta!
Abracei-o com mais força e senti sua respiração em meus cabelos. Permiti-me sorrir um pouco, até lembrar da situação em que me encontrava. Afastei Kaien — que ficou confuso com minha atitude — e olhei na direção da casa maldita. Tentei ver se o xerife estava me espiando — como o habitual — para poder saber por que diabos o Kaien está aqui!
— Chega do momento saudade. Agora me diz: O que você está fazendo aqui? Não. Como você achou esse lugar?! Você ficou doido? — Tentei controlar meu tom de voz ao máximo, pois se pudesse, estaria aos berros com o imprudente do Kaien.
— Calma Rukia — pediu, colocando as mãos na frente do corpo em uma postura defensiva. — Não foi muito difícil achar esse lugar, as pessoas do Arizona não param de falar disso, acho que no momento, você é o assunto de todos os Estados Unidos. — ele pareceu orgulhoso ao dizer isso e ergui as sobrancelhas. — Não fiquei doido, eu vim fazer você desistir desse desafio doido. — Encarei-o incrédula e não pude evitar rir um pouco. — E não sou só eu que acho isso. Todos acham isso. — Fiquei um pouco surpresa e provavelmente ele percebeu.— É sério. Não acredita em mim?
— Sinceramente? Não — admiti com sinceridade. — Se é verdade, cadê os outros?
— Na verdade, eles nem sabem que eu vim — falou coçando a cabeça, claramente sem graça. — Mas antes, eles estavam comentando que só não vinham te buscar porque estavam com medo de você jogar eles de um penhasco ou atirar em algum deles. — Kaien deu uma gargalhada gostosa e tapei sua boca.
— Se controle homem. — Fiz um gesto com a cabeça na direção da casa. — Se ele escutar você, não vai ser legal. — Tirei a mão de sua boca depois dele assentir. — Então quer dizer que aqueles covardes não vieram porque estavam com medo?
Ele assentiu mais uma vez e dessa vez fui eu que gargalhei, Kaien tapou minha boca.
— Se controle mulher. Se ele escutar você, não vai ser legal. — Comecei a rir ainda mais, a expressão da Kaien ao tentar ficar sério era totalmente hilária. — Realmente senti sua falta Rukia — murmurou quando consegui me controlar. — Todos nós queremos que volte. Desista desse desafio bobo, nós já sabemos como é corajosa. Não precisa provar isso para ninguém.
E Kaien ficou lá, me olhando com aqueles olhos verdes persuasivos.
Fiquei em silêncio por um instante e Kaien pegou minha mão, deixando-a entre as dele e continuou a me olhar fixamente, com um grande “desista” praticamente estampado em sua face.
Era isso que eu deveria fazer não é? Ir embora? Mas por que parecia tão errado se eu simplesmente fosse? Senti algo muito estranho no peito. Engoli em seco e as palavras saíram em um sussurro:
— Eu não posso simplesmente fugir, Kaien. Se eu fugisse... Não seria eu se eu fizesse isso.
— Oh Rukia! Não seja teimosa, só venha comigo! — resmungou irritado. Ele realmente parece o Ichigo.
— Não vou Kaien. Irei fazer como o combinado e fugirei no dia marcado! — insisti sem dúvidas do que eu queria e ele bufou derrotado.
— Você adora me fazer sofrer, isso sim!
Torci os lábios de frustração. Já sabia o que daria esse assunto. E eu não gostava do resultado. Respirei fundo.
— Kaien... Já conversamos sobre isso — disse, tirando minha mão de entre as suas. — E já sabe no que isso vai dar.
— Rukia, por que você não pode simplesmente aceitar o meu amor? — Ele estava claramente magoado, massageei minhas têmporas prevendo uma grande dor de cabeça a caminho. — É verdadeiro.
— Kaien... — murmurei me sentindo cansada. — Eu já disse milhares de vezes que eu não sou a pessoa adequada para você. Eu admiro e respeito seus sentimentos, mas não devem ser direcionados a alguém como eu. Você é jovem, muito novo...
— Eu tenho vinte e dois anos Rukia! Vinte e dois! — Não pude evitar sorrir.
— E eu trinta e cinco! — rebati. — Você é jovem e ainda tem muito o que viver, o que aprender. — Segurei sua mão e apertei levemente. Continuei no meu tom mais gentil: — Você sabe o porquê de eu ter aceitado você no meu bando.
— Sei sim — confirmou baixinho e abaixou a cabeça em seguida.
— Certo. Agora vá embora antes que o sub-xerife te veja — sussurrei e ele assentiu. — Avise os outros que estou bem e que o tempo passará mais rápido do que imaginam. — Dei uma piscadela e ele soltou um sorriso triste e me abraçou novamente.
— Sentirei sua falta.
— Também sentirei, de todos — confessei ainda no aperto do seu forte abraço e enfim ele me soltou.
— Estaremos esperando por você.
Assenti e o observei se afastar, em seguida, tão rápido como chegou, se foi. Escalando o paredão com agilidade até chegar a ponta do penhasco e sumir na escuridão.
Suspirei novamente e me deitei na terra árida começando a refletir sobre minha escolha. Não seria melhor se eu simplesmente fosse? No que eu estava pensando? Kaien estava certo, eu deveria voltar para minha família, só assim eu ficaria bem, só assim as vozes iriam embora, então... Por quê?
Mais que merda! Voltei pra “casa” e dei de cara com o Ichigo na escada. Tentei passar direto, mas ele segurou meu braço impedindo-me de passar. Levantei os olhos para ele em uma ordem silenciosa para que me soltasse.
— Me solte — falei bruscamente, puxando meu braço de volta, mas Ichigo não o soltou, olhei-o com fúria. — O que você quer?
— Precisamos conversar. — Revirei os olhos e sorri cinicamente. Lembro do que aconteceu quando ele disse essas palavras.
— Não tenho nada pra falar com você, tudo que tínhamos que conversar, já conversamos no nosso último agradável diálogo — rebati sarcasticamente. — Agora me solte.
— Não até você me escutar. — Era só o que me faltava mesmo!
Ichigo
Os olhos de Rukia praticamente faiscavam de raiva, provavelmente eu estaria em chamas se fosse possível materializar o sentimento que os olhos dela demonstravam. Respirei fundo e continuei segurando seu braço. Eu precisava me desculpar pelo que eu tinha dito, eu tinha sido extremamente tolo e insensível ao pensar que só porquê ela era/é uma criminosa ela não poderia ter tido pessoas importantes.
— Me desculpe pelo que eu disse. Não deveria ter dito nada daquilo. — Por um momento vi a surpresa passar diante de seus olhos, mas foi algo que durou apenas alguns segundos, logo em seguida, ela parecia bem mais furiosa do que antes.
— Oh xerife, que meigo da sua parte. — Uma das sobrancelhas estava arqueada e um brilho desafiador estava presente em seus olhos. — Mas por que está se desculpando se tudo que disse era verdade? Lembre-se que eu não sinto nada. Sou uma assassina fria e cruel. — E puxou seu braço do meu aperto, libertando-o e pisando com força até o quarto.
Suspirei.
Iria ser mais difícil do que eu pensava.
I&R
A noite era fria e obscura. Digna de uma noite no deserto do Arizona. O sub-xerife Ichigo Kurosaki ainda mantinha-se acordado, mesmo já sendo madrugada. Não conseguia pregar os olhos por nada e isso o estava irritando muito.
Queria muito que Rukia o perdoasse, depois de uma bela reflexão percebeu que estava errado, que tinha errado, e estava arrependido. Novamente tinha a julgado pelo que era passado através das pessoas e não pelo que ele sabia sobre ela, o que era quase nada.
Suspirou pela milésima vez naquela noite e virou-se novamente na cama ficando de barriga para baixo. Enterrou a cabeça com força no travesseiro para amenizar — ou tentar — sua frustração, na verdade, queria mesmo era dar um tiro em alguém. Fechou os olhos com força na tentativa falha de adormecer. Precisava pensar em uma maneira de fazer Rukia perdoá-lo.
Cada vez que as palavras dela voltavam em sua mente, sentia como se uma faca estivesse sendo cravada em suas costas e depois de observar aqueles olhos azuis tão magoados, percebeu o quão idiota tinha sido e como tinha a ferido.
Por isso, precisava se desculpar!
Rukia estava enrolada nos lençóis macios de “sua” cama enquanto tinha uma noite perturbada de sono. Estava suando frio e tremia levemente. De tempos em tempos soltava um gemido de agonia. Não conseguia acordar e isso era simplesmente terrível.
“Tudo era negro, não conseguia ver nada. A única coisa que enxergava era e escuridão. A única sensação que tinha era de seus pés pequenos e descalços tocando o chão frio e úmido do lugar desconhecido. Continuou a andar, a seguir em frente no meio do escuro. Depois de andar muitos metros, Rukia podia sentir seus pés doloridos, mas finalmente chegara a um lugar que tinha luz.
Os seus olhos grandes não demoraram muito para se adaptarem a forte claridade. Um arrepio percorreu toda sua espinha e percebeu que estava nua e que tinha dez anos. De repente, tudo virou um clarão de luz e encontrava-se em sua antiga casa.
Continuava nua.
Estava em seu quarto — um quarto horroroso, diga-se de passagem — encolhida em um canto da parede. Rukia chorava aos soluços com a cabeça entre os joelhos. A porta tremia a cada batida de sua furiosa mãe.
— Abra essa porta imediatamente sua vadiazinha! — sua mãe gritava do outro lado da porta, enquanto esmurrava a mesma com força demonstrando sua fúria. — Você me ouviu, Rukia? Abra essa porta! Se não abrir, será muito pior sua desgraçada!
A pequena morena continuou imóvel e chorando em silêncio, encolhida no canto do quarto que mais parecia o inferno. As batidas na porta pararam de repente e Rukia tomou coragem de levantar e dar uma espiada, mas assim que se aproximou da porta um estrondo pior do que o anterior soou e a porta saiu das dobradiças, revelando a figura assustadora de seu pai, aquele que deveria lhe proteger.
Pela sua expressão tensa, percebeu que coisa boa não seria. Ele a ergueu com violência pelo braço, enquanto ela tremia e fechava os olhos com medo.
— Terei que punir você de novo, Rukia? — E um sorriso diabólico preencheu a face do homem.
— Não! Não! Mamãe! Mamãe! — ela gritava desesperada, enquanto ouvia o barulho do cinto ser aberto.”
— Não! Não! — Rukia continuou gritando presa ao pesadelo, sem conseguir acordar e debatendo-se violentamente como se algo a segurasse. — Não!
Do seu quarto, Ichigo ouviu os gritos de Rukia e sem pensar duas vezes, correu rapidamente até o recinto, abriu a porta com força e viu uma Rukia aos gritos e debatendo-se na cama. Inicialmente ficou horrorizado e depois sem hesitar, correu até ela.
— Rukia — chamou calmamente e segurou seus braços suavemente. — Acorde, está tudo bem. — Ele a sacudiu levemente na tentativa de acordá-la sem assustá-la. — Rukia — chamou de novo, enquanto Rukia continuava agitada.
— Não! Pare! — choramingou baixinho, as lágrimas descendo por seus olhos ainda fechados.
— Sssh. Acorde Rukia, estou aqui.
A morena acordou de supetão, toda desnorteada e enxergando pouca coisa na escuridão do quarto, mas percebeu que estava agarrada fortemente a algo quente, musculoso e cheiroso.
— Ichigo? — sussurrou, meio hesitante. Talvez ainda estivesse sonhando, ou talvez, só estivesse ficando louca, pensou.
— Sim? — respondeu em um tom gentil e ela ficou em silêncio.
Ele podia sentir que Rukia ainda tremia levemente, puxou-a para mais perto, fazendo com que ela se encostasse no seu peito nu.
— O que você... — começou a falar, mas ele a interrompeu.
— Não fale nada, estou aqui agora. — Rukia não resistiu, não reclamou, apenas deixou que ele a abraçasse. Precisava disso. Ela também rodeou o tronco dele com seus braços finos e encostou a cabeça em seu peito sentindo o calor que Ichigo emanava.
Ainda sentia seus olhos azuis úmidos pelas lágrimas e ainda sentia que mais viriam.
O ruivo a apertou com mais força entre seus braços e ela não conseguiu segurar, começou a chorar em silêncio, mas Ichigo sabia que Rukia estava chorando, as lágrimas dela estavam molhando seu peito, então, um pesar caiu sob seu coração.
Ele acariciou os cabelos da morena e percebeu que a apesar das coisas que as pessoas falavam sobre Rukia, ela não era uma assassina fria e cruel, a morena possuía profundos sentimentos. E pôde perceber isso, no auge da fragilidade que ela emitia.
Pigarreou um pouco e começou a falar baixinho próximo ao ouvido dela:
— Olhe Rukia. Quero pedir perdão pelo que eu disse. — Ela ficou em silêncio e por isso continuou: — Eu pensei muito no que eu disse para você, e percebi que eu estava errado. Cometi o mesmo erro de antes, te julguei sem realmente te conhecer e foi ainda mais errado presumir que você não sabe o que é perder alguém importante.
Rukia continuou em silêncio por um instante deixando Ichigo aflito. Depois, abraçou Ichigo com mais força o surpreendendo.
— Tudo bem. Apenas fique comigo esta noite — pediu, mostrando um lado dela que ele jamais havia visto.
— Durma. Estarei aqui quando acordar — Ichigo murmurou com carinho, deitando na cama e alinhando-a entre seus braços. Quando achou que ela estava dormindo, sussurrou: — Boa noite, querida.
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