Círculo de Fogo
7 Capítulo 06
Notas iniciais
Capítulo 06
“Somos quem podemos ser. Sonhos que podemos ter.”
Somos quem podemos ser – Engenheiros do Havaí
Ainda era manhã quando um homem com seus setenta e poucos anos entrou em um dos bares do Texas. Como sempre, o sol queimava infernal sob o céu, mas nada disso impedia que vários homens ficassem enfurnados dentro dos bares com uma música animada e alta, enquanto as mulheres da vida os rodeavam e soltavam sorrisos sugestivos.
Então, o homem sentou-se em uma cadeira próxima ao balcão e pediu uma caneca de cerveja.
Não muito longe do senhor, um grupo conversava animadamente enquanto bebiam seus enormes copos de cerveja.
— Já ficaram sabendo da nova? — um homem moreno de cabelos negros falou em voz alta, atraindo a atenção dos demais.
— O que é? — mais um pronunciou-se com curiosidade, enquanto os outros esperavam ansiosos.
— A ceifadora foi pega pelo xerife Kuchiki!
O senhor quase cuspiu a cerveja que tomava e automaticamente olhou na direção do homem com mais interesse no rumo que a conversa levaria.
— Pare de mentir, Shuuhei. Até parece que conseguiriam. Todos nós sabemos que é impossível pegá-la! Aquela mulher é o diabo na terra!
— Não estou mentindo, senhores. Um dos oficiais do Arizona é meu amigo. Ele disse que já faz mais de uma semana. — Um silêncio alastrou-se no salão e todos olhavam perplexos para Shuuhei Hisagi. — E creio que todos sabem da fama do xerife Kuchiki e do sub-xerife. Acho que dessa vez, a ceifadora não escapa!
O senhor levantou-se da cadeira apressado e jogou algumas moedas pelo balcão, antes de retirar-se rapidamente do bar. Um rapaz o esperava do lado de fora e olhou sem entender para seu superior, que mantinha a face em chamas de tanta raiva.
— O que houve, governador? — o rapaz loiro perguntou, temendo a resposta que viria.
— Algo horrível! Horrível! Não posso tirar quinze dias de folga e um desastre acontece! — reclamou com sua voz grave, que soava extremamente irritada. — Kira. Voltaremos para o centro imediatamente! Imediatamente! — praticamente rugiu, enquanto o assistente se apressava em auxiliá-lo a subir no cavalo.
— Tudo bem, Governador Yamamoto. Estaremos lá em quinze minutos.
Yoruichi
As coisas andavam muito paradas para o meu gosto. Necessitava urgentemente de um pouco de ação! Algo como roubar um banco! Seria perfeito para animar as coisas, o único problema é que não dá para roubar sozinha e parecia que ninguém estava disposto a fazer qualquer coisa além de dormir, comer, e mofar. Ficava tão chato sem a Rukia!
Olhei para Grimmjow — o único acordado — e assobiei para chamar sua atenção. Os olhos dele voltaram-se para mim, interrogativos.
— Vamos fazer alguma coisa — disse em um pedido e ao mesmo tempo aberta a sugestões.
— Okay. O quê? — sussurrou de volta, parecendo um pouco mais animado.
— Eu não sei — admiti com sinceridade e o ouvi bufar. Tentei conter uma risadinha. — Que tal praticarmos um pouco de tiro ao alvo? — sugeri depois de ficarmos um tempo em silêncio, pensando em alguma coisa.
— Estamos sem munição — respondeu claramente irritado. — Ontem aquele inútil do Kaien se meteu naquela confusão no bar e o resto você já sabe. Estamos sem munição e nossa comida e dinheiro estão acabando.
Estalei a língua em um claro sinal de irritação.
— Que tipo de bandido nós somos? Sem munição, sem comida e sem dinheiro! Francamente... — Rimos e logo continuei: — Vamos resolver isso agora, antes que algo aconteça. Vamos passar na loja do Urahara para dar uma olhada nas novidades e pegar munição.
— E como iremos pagar aquele maldito contrabandeador de armas miserável? — Grimmjow indagou e tive que revirar os olhos para ele. — E aliás, se pegarmos fiado vai ser uma fortuna, aquele safado cobra uns juros do inferno! E nem vendendo a alma de todos nós, iremos conseguir pagar.
— Amorzinho — comecei com uma pitada de cinismo —, como você mesmo já disse, estamos sem nenhum tostão. Para conseguirmos dinheiro, de duas uma: roubamos um banco ou vendemos nossa pureza. — falei com sarcasmo e ele logo riu da forma que eu disse “nos prostituir”. — E eu prefiro a primeira opção, não é qualquer um que pode ter esse corpinho aqui. E se me recordo bem, precisamos de armas para roubar alguma coisa.
— Ok. Já entendi. E como ficarão os juros?
— Deixa essa parte comigo. — Sorri maliciosa. — Kisuke nunca cobrará juros da gatinha aqui.
— Com toda certeza. — Grimmjow concordou com a mão no queixo.
— Acorde os outros e mande Kaien arrumar os cavalos — pedi e levantei-me do chão empoeirado da cabana suja. Limpei minhas calças e arrumei o cabelo e o chapéu. — Vou arrumar o resto das coisas. Quando todos estiverem prontos, me encontre lá fora para acertamos os detalhes da nossa pequena missão.
— Beleza. Mas não se acostume a dar ordens por aqui, gata idiota — resmungou O arrogante do grupo.
— Faça logo o que mandei ou pagará mais tarde, periquito azul.
Ele chiou, mas no final acabou indo.
Doido mesmo.
Ichigo
189
Acho que encontrar uma palavra que defina o turbilhão de sentimentos que estão me corroendo é impossível. Mas desde ontem, sinto-me muito estranho, como se eu tivesse feito algo de errado, era culpa o que eu sentia. Porém, ficava perguntando para mim mesmo: Ter alguém é um motivo para sentir-se culpado?
Tudo bem que não era alguém que eu amava, mas era alguém que eu apreciava a companhia.
Com certeza não é um motivo para me sentir culpado. Então por que diabos estava me sentindo assim? Que merda!
Por conta disso, achei que seria melhor aliviar toda essa tensão, nadando um pouquinho no rio nos fundos da casa. Afinal, estava sempre preocupado sobre Rukia fugir ou não, então não tive a chance de aproveitar esse pequeno luxo que a casa oferecia, se bem que não estava de férias! Todavia um mergulho não mataria! Ainda mais com o maldito calor que faz no Arizona!
Aproveitei que Rukia ainda dormia e fui nadar um pouquinho. Por algum motivo, estava me sentindo bastante ansioso com o próximo “encontro” com ela. O que eu diria? O que ela diria? Não fazia a mínima ideia, mas não estava muito empolgado para descobrir. Ela aparentava estar muito decepcionada e isso cortou meu coração.
Tirei a roupa e caí na água me deliciando com sua frieza. Fiquei uns bons minutos nadando e logo sai, afinal, não poderia deixar Rukia sozinha por muito tempo, não porque achava que ela poderia fugir — afinal de contas, com a minha santa imprudência, já tinha dado essa chance várias vezes e ainda assim ela continuava aqui —. mas porque ela simplesmente precisava de mim.
Voltei para a pequena casa mais ansioso do que antes. E se ela já tivesse acordado? Oh céus, estou virando boiola, só pode. Eu sou homem não sou? Então!
Entrei na casa ainda um pouco molhado e ouvi o barulho vindo da cozinha. Olhei e lá estava ela, atrás do balcão de costas para mim. Fiquei parado, esperando que ela percebesse minha presença, passou alguns segundos e nada, esperei mais um pouco e nada.
Ela parecia muito entretida com o que fazia. Pigarreei para chamar sua atenção e ela deu um pulinho de susto. O ato mais feminino que veio dela até agora. Ela virou-se para mim e começou a falar.
— Oh, boa tar... — E ficou em silêncio de repente antes de terminar o cumprimento.
Fiquei a olhando sem entender nada e de repente seu olhar mudou, suas pupilas estavam dilatadas e Rukia abriu e fechou a boca várias vezes antes de seus lábios formarem um lindo sorriso.
— Boa tarde? — sugeri e ela continuou calada. — Está tudo bem? — Observei ela se inclinar sobre a bancada e sorrir mais uma vez.
— Sim e não — respondeu, deixando-me confuso. — Sim, porque gosto da sua presença, ainda mais assim. — Ah, molhado. Que pervertida. Arqueei as sobrancelhas esperando que ela continuasse, mas a morena sedutora não o fez.
— E por que não está bem? Está se sentindo mal? — perguntei preocupado.
— Na verdade, estou me sentindo ótima. Muito mais que ótima. — Oh sim, Rukia realmente parecia melhor do que a noite anterior.
Sua face estava mais corada e até o cabelo negro estava mais brilhante. Ela mordeu o lábio inferior e se meus ouvidos não me enganaram, ela emitiu algo como um gemido.
— Tem certeza que está tudo bem? — indaguei novamente para ter certeza.
— Claro, só me sinto injustiçada. Você não acha injusto uma regra se aplicar a mim e a você não? — Olhei-a ainda mais confuso e ela sorriu maldosa. — Pelo que me recordo, muito bem, aliás, é proibido andar sem roupas pela casa.
Oh não. Oh não! Olhei para mim mesmo e percebi que estava na condição em que vim ao mundo: Totalmente pelado.
Respirei fundo. Não conseguia levantar a cabeça. Queria virar um avestruz e enterrar minha cabeça no chão, desaparecer, ser dizimado ou qualquer coisa parecida com isso. Como um ser esquece de vestir as roupas e nem se dá conta disso?
Bem, eu não faço a mínima ideia, mas de algum modo eu consegui. Será que eu merecia uma salva de palmas? Cerrei os lábios e não sei por quanto tempo fiquei assim, ao menos alguém estava se divertindo na história. Tomei coragem e ergui a cabeça para encará-la. A criminosa tarada continuava com um sorriso — irritante — estonteante.
— O que achou? — murmurei sarcástico.
— Esqueceu de se vestir não foi? — Como a maldita sabia disso? — Como eu descobri? — Seus lábios formaram um sorriso encantador e ela continuou: — Quando acordei, vi você no rio pela janela, mas decidi não te incomodar. Você... Você parecia muito tenso e distraído, e seja o que for que estava pensando, fiquei curiosa sobre isso. Porque tal pensamento fez o xerife fazer a proeza de se esquecer de se vestir. — O olhar de Rukia percorreu o meu corpo e tive que respirar fundo mais uma vez. Se ela soubesse que era nela que estava meu pensamento. — E além do mais, você jamais ficaria nu de propósito na minha frente, a visão que você tem de mim é perversa demais.
Com o que sobrara do meu orgulho, virei-me devagar dando as costas para ela e indo na direção do meu quarto.
— Belo traseiro. — Ouvi-a gargalhar e sem querer, acabei sorrindo. Dei graças por ela não ter visto. — E achei o presente maravilhoso. Nota 15 de 10!
— Aprecio sua opinião. — Tentei ser o mais irônico possível, mas falhei miseravelmente já que minha voz simplesmente tinha vida própria e decidiu que sairia com um tom mais divertido do que deveria.
— Sempre ao seu serviço — murmurou ainda rindo. — Pense mais vezes no que estava pensando.
— Com o maior prazer — sussurrei para mim mesmo.
Rukia
Assim que Ichigo retirou-se — deixando aquela deliciosa visão gravada em minha mente — voltei a fazer o que tinha iniciado: Cozinhar. Isso mesmo. Não é tão difícil me imaginar cozinhando, certo? Mas eu sei. A vida ensinou-me coisas surpreendentes — e a cozinheira de um certo hotel também — para que eu pudesse sobreviver por mim mesma. E uma delas, foi cozinhar. E claro, devo admitir que minha comida é maravilhosa.
Yeah.
Estava fritando ovos com carne seca. O que me surpreendeu foi o xerife não ter falado nada a respeito. Talvez nem tivesse notado, estava preocupado demais com suas roupas — ou a falta delas — para notar outra coisa. Terminei de fritar os ovos e separei a carne seca colocando em dois pratos que estavam em cima do balcão. Um minuto depois, Ichigo Kurosaki saiu do quarto — vestido — e olhou na minha direção.
— O que é isso? — perguntou de repente, parecendo meio incrédulo enquanto vinha na minha direção.
— Comida? — respondi com sarcasmo e ele revirou os olhos.
— Eu sei que é comida! Não foi isso que eu quis dizer! — Ele já estava do lado oposto ao meu, com as mãos apoiadas no balcão.
— Oh, sério? Desculpe por não saber interpretar todas as suas meias falas — murmurei de volta e observei-o franzir o cenho. — Por mais incrível que pareça, eu sei cozinhar. — Vi a pergunta escondida atrás daqueles olhos intensamente castanhos e já sabia o que era. — Não foi muito difícil achar o lugar onde você escondeu as facas.
— É mesmo?
Limitei-me a assentir e enfiar uma bela colherada de ovos fritos na boca, enquanto ele continuava me olhando.
— Não vai comer? — Ichigo ficou em silêncio. — Não? Então passa pra cá! — falei com a boca ainda cheia, já puxando o prato dele na minha direção. Quando estava na metade do percurso as mãos quentes e grandes de Ichigo seguraram meus pulsos suavemente.
— Não disse que não iria. — Sorriu e puxou o prato de volta sem soltar a outra mão do meu pulso. Ainda mantendo o contato, pegou a colher e enfiou nos ovos pegando uma bela colherada enfiando na boca em seguida. Não conseguia desviar meus olhos dos dele por nenhum segundo. — Vai esfriar.
Sorri e dei de ombros. Ele soltou meu pulso e continuei a comer minha refeição. Comemos em silêncio, um de frente para o outro, parecia até que estávamos nos analisando. Cada vez que meu olhar encontrava-se com o dele, parecia que ele conseguia enxergar minha alma, parecia que estávamos conectados de alguma forma.
Mas isso era totalmente errado... Espera aí! Desde quando comecei a me importar com esse tipo de coisa? O que diabos estava acontecendo?
— Rukia? — Levantei meus olhos para Ichigo, que me fitava com uma expressão preocupada. — Está tudo bem? — De início não entendi o motivo da pergunta, depois notei que ainda segurava a colher no ar.
— Ah claro. Apenas me distraí um pouco. — Tentei disfarçar meu desconforto repentino, levando rapidamente a colher a boca e mastigando exageradamente. — O que achou? — Comecei a tentar tagarelar para ocultar meu estranho nervosismo.
— Estava ótimo. Você realmente cozinha bem. — Agradeci com um leve aceno e parei quando os dedos do xerife tocaram levemente meus lábios. — Está sujo. — Os dedos dele roçaram por minha pele de uma maneira deliciosa. — Pronto.
Mas ao dizer isso, não retirou os dedos de onde estavam.
Ficamos nos olhando e percebi suas pupilas se dilatando, observei-o passar a língua nos lábios os umidificando e ele engolindo em seco. Minhas mãos estavam ficando suadas e senti o sangue ferver em minhas veias, minha respiração estava pesada e difícil e meu coração batia enlouquecidamente.
Estávamos perigosamente próximos. Isso era perigoso. Até para mim.
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