Cá entre nós
9 Armadilha
Notas iniciais
VIII. Armadilha
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De repente, os gemidos se tornam soluços e então duas lágrimas abrem espaço para uma choradeira copiosa. Aiolos encontrou alívio, mas inesperadamente entrou numa crise emocional digna de susto. Todavia, ela vem tarde demais para me conter; mesmo que eu tentasse desacelerar o frenesi, não conseguiria. O que há entre nós é como a queda de um penhasco — excitante, irrefreável, sem volta.
Clímax e anticlímax se antagonizam em nosso abraço.
Comprimo mais seu corpo contra a parede, olhos lutando para permanecerem abertos — a imagem de Aiolos em solavancos e aos prantos tornando-se turva e esbranquiçada -, enquanto o fim se aproxima em rápida escalada, a galope. Então, meu coração explode e sinto meus nervos em deliciosa fervura...e logo estou arfando quase no mesmo ritmo que meu amante, esgotado.
Pouco a pouco, solto suas pernas ao redor do meu quadril, livrando-me — mas não totalmente — de seu peso. Os pés de Aiolos tocam o chão com dificuldade, trêmulos, e sou obrigado a firmar sua cintura quando ele perde o apoio da parede contra a qual o tomei. De golpe, ele se aninha em meu peito, abraçando-me o torso em abandono e choramingando sílabas indecifráveis. Penso ter escutado algo como "amor", mas não tenho certeza.
Fazemos uma cena estranha: estamos de pé num canto da sala, na penumbra, despidos e agarrados um ao outro, Aiolos chorando a plenos pulmões como nunca antes vi.
"Por que nós sempre estragamos tudo?", ele fala a primeira coisa inteligível desde a nossa briga. Em resposta, eu somente esfrego meus olhos contra seu ombro, depositando ali alguma umidade.
Não adianta pedir desculpas, mesmo porque elas não servem de nada. Elas não vão limpar as manchas em nossa reputação, absolver nossos crimes e nos tornar outra vez cavaleiros dignos de nossas armaduras. Não vão apagar o que aconteceu no décimo terceiro templo e revogar nossas punições...
Tão irônico, mas eu achava que os nossos problemas fossem diminuir. Aiolos parecia estar melhor com a presença de uma nova aprendiz, que lhe foi confiada depois das reclamações dos outros cavaleiros, sobrecarregados com a ausência de Saga, Camus e Mu, além da existência apenas virtual do cavaleiro de Sagitário. Todos treinavam com afinco novas fileiras de soldados e jovens cavaleiros para o que o mestre Ares chamava de reforço nas tropas de Atena; isso, além das obrigações com a guarda, as missões externas e a rotina extenuante de exercícios. Assim, a impressão de que Aiolos estava sendo beneficiado com o preterimento do mestre logo sobrepôs-se aos sentimentos de piedade e injustiça pelo veterano. Vieram a indignação e os pedidos para que o Patriarca considerasse a possibilidade de reintroduzir Sagitário na escala das atividades habituais, incluindo o treino de aprendizes, que era considerado um dos pontos fortes dele.
Foi desse modo que foi concedida a Afrodite permissão para entregar aos cuidados de Aiolos uma aprendiz de amazona, sobre quem as companheiras segredaram a Peixes ser demasiado feia.
Apesar de julgar o motivo da transferência torpe, Aiolos aceitou com entustiasmo ensinar a mascarada — uma menina miúda, pré-púbere ainda e de postura encurvada. Ela trazia os cabelos loiros e ralos sempre desgrenhados, e tinha uma voz fina e fraca, que acentuava seu ar de fragilidade. Passava a impressão de que se partiria ao menor golpe de seu mestre quando treinavam juntos, na arena, sob olhares debochados. Aiolos não ligava. Estava feliz em ser preceptor outra vez, muito embora todo o resto de sua vida continuasse em situação de desprestígio.
Eu acompanhava a evolução da menina por sobre o ombro, enquanto eu mesmo disciplinava na arena os novos soldados, com a ajuda de Milo. Presenciava o quanto o ofício de tutor estimulava meu amigo não só em campo, como também na nossa privacidade. Aiolos sorria com mais frequência e se permitia passar cada vez mais noites longe do vinho.
E eu agradecia intimamente por aquilo, muito embora alheio ao fato de que tal bênção fosse durar pouco.
Numa das tardes em que ele se ocupava com a referida aprendiz, fui convocado pelo grande mestre a comparecer em seu salão. Deixei a arena para ter com Ares, presumindo se tratar de mais uma missão cheia de segredos e motivações nebulosas. Em todas as minhas últimas tarefas fora do Santuário, havia executado indivíduos classificados como traidores, porém sem obter outras informações além da necessidade de eliminá-los. Tal função de mercenário me incomodava, apesar de aceitável para a minha profissão. Fazia parte da estratégia de defesa o ataque, eu compreendia...Só que gostaria de saber mais sobre os crimes daqueles homens e mulheres que imploravam por suas vidas antes de receberem minha Excalibur.
Cheguei ao meu destino com a cabeça às voltas e encontrei o Patriarca de pé, conversando com seu conselheiro em tom conspiratório, de maneira que estranhei a ausência de guardas ou o mínimo de privacidade naquela reunião. Parei diante da porta aberta do recinto em sinal de respeito.
"Entre!", Ares chamou-me com sua voz estrondosa por cima da careca do homenzinho, o qual dispensou com um gesto. O conselheiro me olhou dos pés à cabeça ao passar por mim, lançando-me um sorriso medonho no processo. Aquilo me pareceu nada apropriado para um homem de sua idade e posição, e fiz uma anotação mental de que deveria lhe ensinar algo sobre etiqueta a qualquer hora.
Assim que me ajoelhei diante do mestre com o elmo da armadura debaixo de um braço, ele deixou uma risada suave preencher meus ouvidos. "Você se constrange com uma facilidade impressionante."
O que aconteceu na sequência me deixaria confuso por anos. Devo reforçar, antes de registrar o ocorrido, que entre eu e o mestre não havia nada além de uma relação impessoal de prestação de serviços. Ele ordenava e eu obedecia, simplesmente. Se ele me tratava ligeiramente melhor do que a maioria, até ali, era um mero detalhe sem propósitos especiais, ao meu ver.
Por isso, naquela tarde, ergui meus olhos num estalo ao sentir a mão do grande mestre pousando sobre meus cabelos. Sobressaltado, senti quando ela encontrou caminho fácil até meu queixo numa carícia delicada. O Grão-Sacerdote se inclinava sobre mim, suas vestes compridas e seu capacete vermelho bloqueando a luz natural do sol — uma figura terrível e ao mesmo tempo majestosa. Ele estava muito próximo e falava-me de um jeito estranho e manso: "Homens como você deveriam estar acostumados a provocar esse tipo de reação".
"Mestre, de quê está falando?", balbuciei ao sentir que seu polegar deslizava perigosamente por meu pescoço.
"Me refiro à sua boa aparência, cavaleiro de Capricórnio", ele sussurrou em tom rouco e jocoso.
Fiquei a fitar os detalhes intimidadores de seu capacete, emudecido de susto, enquanto quase podia sentir seu olhar me perfurando por detrás do disfarce. Tomado de golpe por mal estar, meu corpo inteiro paralisou com os dedos que desceram do meu pomo de Adão até as margens do metal da armadura de Capricórnio.
Não sabia como reagir àquele assédio inesperado; não era o repulsivo conselheiro que me elogiava e alisava a pele sensível do meu pescoço, mas sim Ares, meu superior. Era uma situação humilhante e de desvantagem, e me vi a pior de todas as criaturas no momento em que adivinhei por que o mestre me dedicava certa simpatia.
Seus dedos viajaram até minha nuca e enxerguei com pavor a máscara azul cada vez mais perto. Pensei que ele fosse vencer a pouca distância que nos separava e colar seus lábios de metal nos meus, e apertei as pálpebras, todas as minhas feições se franzindo em rejeição.
Contudo, apesar do assombro que aquele quase-beijo me causou, não fui forçado a nada. Do mesmo jeito que aquela provocação começou, teve um fim abrupto. A mão do mestre, coberta por uma pele firme e branca, voltou a abrigar-se no comprimento das mangas, e quando reabri os olhos, vi somente seu manto sacerdotal sendo arrastado no mármore.
Sem mais patifarias, o regente se distanciou vários passos, dando atenção ao horizonte árido por entre as colunas, e passou a discorrer sobre a agenda do mês. Era como se eu tivesse acordado de um pesadelo. Cheguei mesmo a duvidar se havia sido uma ilusão.
"Ainda estou insatisfeito com o trabalho dos cavaleiros de ouro, mas vejo o quanto correm de um lado para outro, atulhados de tarefas. Pensei que poderíamos incrementar nosso contingente", ele se portava formalmente, como se nada houvesse ocorrido. Aos poucos, consegui me desligar do estado de alerta e me concentrar no que o grão sacerdote dizia. O mestre comentava algo sobre repatriar os dissidentes do Santuário.
"...Aldebaran foi enviado atrás de Mu, mas Áries se recusou a retornar e apresentou a justificativa de que já está arrebanhando aprendizes em sua terra natal."
Aquilo não me surpreendeu. Mu havia deixado o Santuário tão magoado quanto revoltado com as atitudes de Ares.
"E, também, convoquei Camus através do correio, mas não obtive resposta. Milo acha que cartas não podem chegar até onde ele vive atualmente. Escorpião me contou que Aquário está em treinamento intensivo num local inabitado, na região mais inóspita da Sibéria..."
Milo ainda tinha contato com Camus? Aquilo, sim, me causou algum espanto. Camus já era extremamente antissocial antes mesmo de abandonar a casa de Aquário.
"...E temos Dohko. Porém, ele não pode deixar os Cinco Picos Antigos, então está descartado. Assim, resta-me um último soldado fora de atividade a ser convocado: Saga de Gêmeos". O Patriarca virou-se um tanto teatralmente para mim, assustando-me com os movimentos bruscos de suas vestes.
"Eu quero saber sobre o paradeiro deste cavaleiro. E você, Capricórnio, irá investigar sua localização e convencê-lo a retomar seu posto. Nossas bases na Cornualha¹ e na Ilha Sable² notificaram sinais de uma energia poderosa em pontos distintos nas águas do Atlântico Norte, que poderiam corresponder ao cosmo de um guerreiro da elite dourada. Não descartam que seja Saga ou até mesmo seu irmão, o que não faz diferença para nós, já que ambos foram treinados para vestir a armadura de Gêmeos..."
A menção a Kanon obrigou-me a torcer o nariz. Já não bastavam Afrodite e Máscara da Morte nas doze casas, agora o mestre queria também um traidor?
"Como vossa Santidade já deve saber, Kanon foi condenado ao Cabo Sunion", tentei fazê-lo enxergar o perigo daquela aliança. A imagem de sua máscara a centímetros do meu rosto não saía de minha mente.
"Não me interessa! Estamos em situação de urgência; traga-me qualquer um dos irmãos de Gêmeos!", ele foi categórico. Pôs-se a circundar-me feito um predador, em meio às suas ordens. "Você vai se ausentar daqui durante todo o tempo necessário para consegui-lo, e vai partir hoje mesmo."
"Hoje?", engasguei, enquanto seguia a movimentação do mestre através do salão. Não estava preparado para uma viagem tão precipitada e sem planejamento algum. Todavia, o Patriarca tinha pressa para aquela tarefa — ditava-a maniacamente, como se fosse a maior das prioridades do Santuário no momento.
"Sim. E não deve falar sobre sua missão a ninguém". Seus círculos me tonteavam. Fechei os olhos, fugindo de seu cerco por um segundo fugaz. O mestre continuou a me bombardear: "Isso inclui todos os seus colegas, especialmente Sagitário. Entendeu?"
Engoli em surpresa, mas contive meu alarme. "Entendido", respondi em tom insuspeito.
Meu coração só parou de acelerar quando Ares me levou a outra instalação, onde um subordinado do setor de inteligência nos esperava com mapas e gráficos. A missão não era tão simples. Eu teria que me deslocar até as Ilhas Sorlingas, na Escócia, e ficar de tocaia até que a cosmo-energia reaparecesse. O problema é que isso poderia acontecer tanto no dia seguinte à minha chegada, como também uma semana ou um mês depois. Meses, talvez. Eu deveria manter meu cosmo inativo e não tinha permissão para me comunicar com outrem, à exceção do pessoal de apoio na base da Cornualha. Aquela era uma busca totalmente sigilosa, pelo alto risco de fracasso.
Privado de alternativas, parti com a roupa do corpo e a caixa da armadura de Capricórnio, sem avisos ou despedidas. Eu só conseguia pensar em Aiolos e em quanto minha fuga o abalaria. Por certo, desestabilizaria também nossa frágil relação. Estava deixando meu amigo íntimo para trás, cheio de dúvidas e à mercê de seus fantasmas. Assim que eu retornasse, ele me atacaria com perguntas e cobranças, para as quais eu não teria respostas.
Apesar de jamais ter feito nada do tipo, parei numa fonte, no meio do caminho para a marina na Cornualha, e atirei nela uma moeda. Rezei para que a aprendiz de meu amante lhe desse bastante trabalho com que se ocupar, para que Aiolia lhes fizesse companhia nas horas vagas, e para que todos os três não se metessem em encrencas. Eu sabia da improbabilidade do último pensamento se concretizar, mas o mentalizei mesmo assim. Nem me atrevi a incluir nesse pacote de desejos o perdão de Aiolos por aquele tempo ausente e sem notícias. Apenas pedi às divindades da fonte para que tornassem minha missão mais fácil e curta — o que definitivamente não me concederam.
Foram quatro semanas numa maldita ilha deserta, com provisões limitadas e parcialmente saqueadas pelos soldados responsáveis por abastecer a precária cabana onde fiz meu esconderijo. Quatro semanas da mais irritante calmaria, ilhado do mundo inteiro pelo Mar Celta. Aquela praia me deprimia no lugar de alegrar-me, já que não tinha com quem dividir as belezas de sua paisagem e as horas intermináveis de tédio. Sentia-me como um náufrago. Odiava a vida de eremita que levava e a monotonia da natureza ao meu redor. Sair à luz da primavera me produzia fobia, e tocar com os pés aquelas águas, repúdio. Passava os dias lendo os jornais velhos que vinham com as provisões e jogando paciência com um baralho vendido por um soldado.
Eu achava que eram o ócio e a falta de resultados da missão que me enlouqueciam aos poucos. Meu inconsciente, no entanto, sabia da verdade: nas madrugadas claras, em que me deitava sob a única proteção das constelações, sonhava com o representante de Sagitário. Via seu rosto bronzeado e de bochechas rosadas a sorrir para mim, com olhos cheios daquele sentimento proibido, a provocar-me os despertares mais frustrantes possíveis, completamente só e preocupado consigo. Fui assolado por todo tipo de delírio — desde pesadelos em que ele me rechaçava pelo modo como eu o abandonara, passando pelos sonhos eróticos, até uma vez em que acordei tomado por um pavor estranho, uma sensação agridoce, por sonhar que ele me declarava um amor predestinado pelas estrelas.
Na realidade, era a ausência de Aiolos que me consumia a sanidade. Como estar perto do mar e não relembrar da missão no Caribe? Como passar as noites de lua cheia sem o conforto dos seus abraços? Como ter sequer vontade de treinar, sem sua companhia enérgica a me dar forças?
Eu suprimi meu cosmo ao máximo, e ainda assim, vi os efeitos de minha tristeza nas águas, que sempre me traziam peixes mortos e buquês de algas lamacentas.
Ficava ansioso à espreita de qualquer sinal de Saga e Kanon, muito embora eu não acreditasse no retorno espontâneo deles. Ninguém sabe do paradeiro de Saga; Gêmeos está vazia desde o funeral de Shion, assombrada por sua armadura peculiar. Também, no Cabo Sunion, mesmo com a maré baixa, não se pode ver ninguém atrás das grades.
Creio que Saga tenha libertado o irmão e com ele fugido para o mundo dos civis.
O gêmeo mais velho andava como louco na semana em que nos ocupamos com a morte de Shion, falando sozinho e exibindo uma aparência deplorável. Na ocasião do enterro do antigo mestre, Saga comportou-se de modo excessivamente afetado. Brigou com Mu para segurar o caixão na frente de todos e se debruçou sobre ele por longos e constrangedores minutos antes de ser descido ao túmulo. Por fim, fez muitas perguntas ao conselheiro-mor sobre Ares de Altar, retendo o pobre homem ali até depois da cerimônia. Em dado momento, durante as orações, notei que um de seus ouvidos vertia sangue. Quando questionado sobre o ferimento, Saga respondeu-me alucinadamente que só queria parar de ouvir seus pensamentos.
Estava descontrolado, como nunca achei que o veria. O cavaleiro mais forte do Santuário também era humano, afinal: sucumbiu ao fracasso de não ser escolhido o próximo Patriarca e à culpa de ter condenado Kanon.
Lembro como seu sumiço causou-nos primeiro espanto, então reprovação, e depois — muitos dias depois — compreensão. Saga vivia sob o holofote das maiores expectativas e pressões. Construíra para seu público um castelo de areia que veio abaixo com uma maré de azar. No final das contas, ele não soube lidar com a calamidade e desistiu de tudo.
A única coisa que não consigo racionalizar é como Kanon, ambicioso e ressentido do jeito que é, aceitaria voltar às boas com o irmão e desistir dos seus poderes para conviver com gente comum.
Naquele exílio, tive bastante tempo para matutar sobre os fugitivos. E, mesmo cheio de dúvidas, esperei pelo cosmo dos gêmeos durante o período de um ciclo lunar. A base na Ilha Sable também não reportava novidades, e tudo era demora e enfado. Até que, quando eu riscava o vigésimo nono traço na areia onde minha cabana estava assentada, recebi a visita dos soldados da base na Cornualha. Eles não traziam comida, nem roupas limpas, nem água potável, apenas uma carta timbrada com o báculo de Atena — o selo do qual o mestre abusava, conferindo importância máxima a quase todas as suas correspondências. Abri-a sem o alarme que tal simbolismo pedia, e encontrei uma dispensa da missão e a convocatória para o retorno à casa de Capricórnio.
Aquilo punha um fim nas esperanças de reencontrar Saga e Kanon.
Voltei para o Santuário com um misto de alívio e derrota. Por mais que, no fundo, eu não quisesse localizar os irmãos, aquela tinha sido a primeira tarefa em que eu havia malogrado. Tais preocupações eram secundárias, no entanto. Logo que pisei nas terras sagradas outra vez, armadura nas costas e cosmo aceso, me deparei com um novo desafio: reestruturar minha vida depois de ser dado por fugitivo por meus colegas por quase um mês.
Aiolia foi o primeiro com quem tive contato, ainda em Rodório, e nosso encontro foi uma prévia do que me esperava nas doze casas. O garoto respondeu à minha saudação com uma careta de surpresa, e, após segundos de pesado embaraço, acertou-me com um tapa no rosto.
"Não tem vergonha de voltar e me cumprimentar desse jeito, depois de desertar do Santuário?", ele me atacou a plenos pulmões.
Ao ver que os civis no olhavam com curiosidade, arrastei o menino até um beco apertado, abaixo de protestos do mesmo. O pouco espaço nos obrigou a uma proximidade terrivelmente desconfortável, na qual não nos restava outra alternativa além de nos encararmos — meus olhos quase grudados nos olhos verdes de Aiolia, que luziam com indignação.
Tentei explicar várias vezes que estava em uma missão secreta, mas ele se recusou a acreditar, meneando continuamente as faces coradas de raiva.
"Quer que eu acredite num absurdo desse? Por que não nos avisou? Pelo menos Aiolos..."
"Eu não podia contar nem a Aiolos! O mestre não permitiu-" Aiolia me calou com um olhar inflamado.
"Meu irmão foi se humilhar àquele canalha do Ares por notícias suas! Pensava que pudesse estar em apuros! Ele chegou a implorar pelo envio de uma equipe de busca...", Leão cerrou os punhos. "...E veja só: você voltou com o rabo entre as pernas e a desculpa mais esfarrapada de todas! Missão secreta?!" o garoto bufou, exasperado.
Não me importava o que Aiolia pensasse. Estava preocupado com Aiolos, e foi por ele que perguntei, sedento por mais fatos ocorridos em minha ausência.
"Eu não vou te contar nada sobre o meu irmão. Você é uma péssima companhia para ele. Enquanto o resto do Santuário queria expulsá-lo, o que você fazia? Ficava parado, olhando Aiolos ser ridicularizado embaixo do seu nariz. É essa a retribuição por anos de companheirismo? Aiolos faria tudo por você!", ele disparava rancores velhos. Parecia mesmo algo enciumado — não sei precisar -, sua voz adolescente oscilava em tom de mágoa. Aquilo foi muito pior que um tapa em meio à feira movimentada de Rodório; e eu não podia nem argumentar, porque ele estava certo. Eu me tornara o vilão de nós dois.
"Concordo com cada palavra do que disse, Aiolia. Mas eu não fugi do Santuário. Você sabe que não sou do tipo que anda fora da linha."
O jovem deu-me um sorriso enviesado, incrédulo. "Todos já sabem a verdade sobre quem você é, Shura. Poupe-nos de suas mentiras."
O cinismo em suas palavras me era totalmente novo. Havia algo por detrás delas, algo sórdido, algo polêmico.
"Que verdade?", perguntei.
Leão olhou para a entrada do beco antes de diminuir o volume:
"Que você foi amante do mestre."
Senti meus olhos saltarem nas órbitas e meu sangue ferver, deixando minhas bochechas. Lívido, permiti que minha boca se entreabrisse, porém nenhuma resposta dela saíu. Mal podia acreditar no que aquela criança, que tinha crescido ao meu lado e do de Aiolos, podia ser capaz de fantasiar sobre mim.
"Que absurdo é esse que está dizendo, Aiolia? Meça o que diz! Que calúnia!", rebati, indignado.
Leão franziu as sobrancelhas. "Não é invenção minha. É o que estão dizendo nas doze casas: que você fugiu porque descobriram seu caso com Ares. Fugiu por causa da possibilidade de um escândalo."
Meu estômago deu um volta completa. Era a primeira vez que eu era vítima de um boato — um caso à parte, já que aqueles eram bastante frequentes no Santuário, vila pequena. Apesar de viver no meio de falatórios, não me lembrava de ter escutado outro mexerico tão infundado, tão utrajante! Assimilei aquela inverdade contra mim, tentando buscar no passado algo que pudesse justificar mesmo uma mera suspeita, mas sem sucesso. Que dissessem que eu era demasiado próximo de Aiolos; mas amante do mestre? Isso só podia ser fruto da mente do mais cruel e ardiloso inimigo.
E recordei da tarde em que o mestre quase me beijou. Alguém nos espiara....
"Quem te disse isso?", destemperado, apertei um braço seu.
"Me solte! Tenho nojo de você, pária!"
Era o pesadelo da minha vida tornado real.
"Aiolia, por favor! Eu estava em missão!", insisti.
O menino se livrou do meu aperto com um safanão e correu para fora do beco. Parou quando alcançou a luz da praça, voltando-se para mim. Era tão parecido com Aiolos! O ódio e o preconceito nos seus olhos me feriram quando me mirou uma última vez, num aviso, antes de ir embora.
Eu estava arruinado, e pelo motivo errado. Era amante de Aiolos, fato; mas jamais tinha me oferecido ao Patriarca! Meu verdadeiro crime ficava pequeno perto do que insinuavam sobre mim. Aquele era o maior dos tabus: o Grão Sacerdote se deitar com soldados de Atena. Era o ápice da imoralidade.
E foi como um sacrílego que fui recebido em meu lar.
Chegando às casas, Aldebaran não permitiu que eu passasse por Touro antes de dar-lhe explicações. Sem mencionar os objetivos da missão, coloquei o ocorrido em pratos limpos e o gigante pareceu entender. Era mais velho que Leão e bem mais complacente que a maioria dos cavaleiros, assim, acreditou em minha variante dos fatos.
Já Máscara da Morte me tratou com estranha amistosidade. Perguntei-lhe se estava interessado na verdade, mas ele não fez questão de escutar-me, apenas alisou-me um ombro com um convite de que eu viesse contar-lhe minha versão assim que eu quisesse. Nauseado, apressei-me atravessar sua casa. Câncer enxergava-me como uma prostituta de luxo e provavelmente tencionava tirar algum proveito disso.
Leão, Virgem, Libra e Escorpião estavam vazias. Estranhei mesmo quando atravessei a casa de Sagitário e não encontrei seu defensor. Segui adiante, rumo à décima terceira casa, parando apenas em Peixes, onde seu defensor freou-me com uma rosa lançada na escadaria, a poucos degraus adiante de onde eu pisava.
Fitei a flor, que eu sabia ser muito mais perigosa do que aparentava, e então o ser venenoso que a cultivara. Afrodite estava encostado displicentemente no pórtico de sua casa, capa esvoaçante, cabeça baixa e lábios pintados munidos de outra rosa vermelha. Somente o olhar zombeteiro dele se voltava para mim e fritava-me a pouca paciência. Dentre todos os doze cavaleiros, Afrodite era o último a quem eu devia qualquer tipo de explicação.
Eis que ele prendeu o caule espinhoso da rosa entre dois dedos, num gesto fluido e sedutor, preparando um novo golpe.
"Peixes, preciso falar com o Patriarca. Peço permissão para passar", disse sem nem fitá-lo, um pé avançando mais um degrau.
O cavaleiro andrógino abriu um sorriso indecifrável. "Você tem certeza disso? Não prefere entrar e me contar o que esteve fazendo todo este tempo?"
Ergui a cabeça em resposta: "Não tenho nada a esclarecer a você! Permissão, ou luta de mil dias!"
Afrodite recolheu sua rosa, rindo um riso envolvente, que me deixou desnorteado. "Pois vá...Seu namorado o espera no décimo terceiro templo."
Antes que eu pudesse revidar, ele sumiu por detrás de uma coluna.
Peixes e eu nunca fomos próximos: eu sempre havia sido um bom rapaz, enquanto ele era escória. "Colegas" era uma palavra muito íntima para definir nossa relação, já que mal nos cumprimentávamos. O jeito mordaz dele também não me agradava em nada, preferia me manter longe dos seus comentários ácidos, enquanto ele, arrogante, me ignorava por completo. Curioso: Afrodite me atacara deliberadamente. Era como se ele tivesse passado a me enxergar, e eu não tinha um bom pressentimento sobre essa visibilidade.
Irritado, venci o último lance de degraus até o salão do grande mestre. Um conflito de cosmo-energias se fazia perceber de longe, denotando a presença de mais de duas pessoas ali. Não ousei retirar o elmo ao ver que guardas e cavaleiros se aglomeravam ao redor de uma pessoa, numa tentativa de afastá-la do Patriarca. Logo, apressei o passo, pronto a intervir também.
Só não esperava que o indivíduo a ser contido fosse Aiolos.
Milo e Shaka seguravam cada um de seus braços, enquanto ele projetava o tronco teimosamente na direção do mestre. As asas da armadura de Sagitário estavam eriçadas e seu rosto, vermelho de ódio. Lembrou-me inevitavelmente de Aiolia e da discussão de momentos atrás.
"Aiolos!", chamei-o com a voz grave, em tom de advertência, ao que ele virou-se para mim com a face desfazendo-se de todo o rancor para abrir caminho a uma expressão de surpresa. E então, a vitória se estampou em suas feições.
A distração foi suficiente para que Virgem e Escorpião se descuidassem e Aiolos se livrasse deles com um safanão. Lançou-se contra mim em completa felicidade, nossas armaduras se chocando com o abraço que ele apertou ao meu redor. Senti suas manoplas geladas em minha nuca e as tentativas dele de tentar ultrapassar o metal para me fazer mais próximo.
Êxtase e pavor dividiram-se dentro de mim. Enquanto eu lutava contra a vontade de finalmente deitar em seu ombro e me render ao seu carinho, via meus colegas e o Patriarca assistindo à cena em sepulcral silêncio. Milo parecia de alguma forma tocado, mas Shaka e os soldados traziam aquela mesma expressão de censura de Aiolia.
Ao mesmo tempo em que eu compartilhava com Aiolos as saudades de um mês de distância, não conseguia aceitar que minha imagem fosse esfregada na lama além do que já estava, por conta de boatos. E foi assim que o empurrei um tanto secamente, cerrando o cenho: "comporte-se, homem!".
A decepção em seu rosto me partiu o coração e me arrependi de imediato. Ao que estendi a mão para tocar a dele em sinal de desculpas, no entanto, fui atrapalhado por uma movimentação periférica.
"Que bom que chegou, Shura", o Patriarca saiu do abrigo da fileira de guardas que o protegiam e desfilou pelo salão. "Pode explicar ao seu amigo que eu não lhe fiz nenhum mal. Que não o sequestrei e que também não negligenciei sua segurança. Pode contar a ele que saíu em missão sigilosa e, infelizmente, não pôde dar uma festa de despedida."
Aiolos e os outros fitaram-me à procura de confirmação.
"É verdade", assenti.
Ares emitiu uma risada tétrica, dirigindo-se ao meu amante. "Agora vê, cavaleiro de Sagitário? É por isso, por sua falta de confiança no Santuário e na figura do seu Grão Sacerdote, que não pode lhe ser atribuída função nenhuma! Hoje você levantou a voz para mim e me acusou de ignorar o desaparecimento do cavaleiro de Capricórnio. Deu tamanho chilique, que foi necessário que seus colegas o segurassem!", Ares apontou-lhe um dedo. "É um herege!"
"Mestre", Milo interveio educadamente. "Creio que Aiolos só o fez porque estava preocupado com o bem estar de um outro cava-"
"Ninguém me interrompe!", o Patriarca gritou, e Escorpião calou-se, encolhendo os ombros. O mestre continuava acercando-se de sua vítima favorita. "Agora, imagine que tipo de ideias revolucionárias você, como mestre, não colocaria na cabeça de um cavaleiro em formação? De modo algum posso aceitar que tenha aprendizes, Aiolos de Sagitário! Sua punição será a perda da guarda de Hipólita³."
Eis que Aiolos se agarrou ao meu braço, segurando lágrimas de frustração. Numa epifania, entendi que Ares havia aguardado o tempo necessário para que ele se apegasse à pequena pupila, para então arrancá-la dele. Foi quando decidi que aquilo já estava chegando às raias do inaceitável; não podia permitir que Aiolos perdesse sua única aprendiz por minha causa e do mal entendido que o próprio mestre havia perpetuado com aquela missão bizarra.
"Mestre, por favor!", supliquei-lhe. "Hipólita está desenvolvendo suas habilidades tão rápido...e é uma menina obediente, será uma amazona forte e fiel, tenho certeza!"
Ares veio até mim, doando-me toda a sua atenção aterrorizante. Rememorei a tarde em que tinha sido designado àquela missão infernal e recuei um passo, involuntariamente. "Cavaleiro de Capricórnio, você questiona minha decisão?"
Seria muita estupidez fazer isso...e era exatamente o que eu estava fazendo.
"Não. Vossa Santidade sabe o que faz", consertei. Todavia, vi que Aiolos murchava ao meu lado e isso me afetou. Enchi-me de uma rebeldia totalmente nova para mim. Não importava o que fosse acontecer comigo, eu discordava das opiniões do Patriarca e necessitava deixar isto bastante claro. Quando o mestre se preparava para voltar a condenar meu amante, tornei a falar: "Só acho que é uma injustiça privar Hipólita de um treinamento de primeira categoria! Aiolos é um excelente mestre, meus colegas aqui podem confirmar isto. Aiolos ensinou a todos os cavaleiros da nova geração alguma coisa especial, um golpe diferente ou um conselho valioso..."
Ao nosso redor, Milo e Shaka se entreolharam, e pôde-se notar algo de nostálgico no jeito como se mostraram reticentes. Todos haviam sido novatos, ainda nos tempos de Shion, e foram recebidos com presteza pelo honrado cavaleiro de Sagitário.
Ares, no entanto, não havia vivido nada daquilo. Não sabia quem realmente era o veterano diante de si e nem procurava saber. Somente pretendia testar, humilhar, embrutecer...
"Shura, tenho sido muito leniente com você. Nesta semana, os plantões do segundo horário na guarda noturna serão seus. E está mantida a decisão de mandar Hipólita para a ilha onde Milo foi treinado", o mestre sentenciou.
Um burburinho se instalou até que Escorpião se atrevesse a falar outra vez:
"Mestre! A aprediz é muito jovem ainda, uma iniciante! Este é um destino para treinamento avançado..."
O Patriarca mandou-o calar-se pela segunda vez naquele dia. Milo, o soldado perfeito, estava tão ou mais revoltoso do que eu — um sinal de que eu tinha alguma razão.
"Mais alguém quer ser punido?", Ares gritou, silenciando as conversas paralelas. Ninguém ousou contrariá-lo. "Ótimo. Estamos conversados por hoje. Com licença."
Saímos do décimo terceiro templo praticamente expulsos. Shaka e Milo permaneceram para dar continuidade à reunião que acontecia antes de Aiolos se rebelar e invadir o salão do mestre exigindo explicações sobre meu desaparecimento.
Meu companheiro mal esperou que trancassem a porta atrás de nós, logo fez menção de entrelaçar sua mão na minha. O problema é que eu estava no limite da estafa mental, praticamente uma bomba prestes a explodir de péssimo humor. A consciência da minha inglória começava a se instalar. Tudo se somou: o mês de reclusão, as fofocas, a discussão com Aiolia, os confrontos com Máscara da Morte e Afrodite, a indiscrição de Aiolos, os desmandos do mestre. A penalidade de cumprir ronda no horário da madrugada a semana inteira ecoava em minha cabeça.
Assim, fugi de seu gesto, mesmo sabendo que era um pedido mudo de apoio.
"Já chega, Aiolos! Não foi suficiente para você o circo de hoje? Quer piorar minha situação com mais boatos?"
O outro fitou-me com incredulidade, e então rompeu numa série de acusações e cobranças.
"Você não sabe pelo que passei nesses dias! Um soldado espalhou por aí que você tinha um caso com o mestre, que o viu sendo assediado por ele...e que achava que você tinha fugido por vergonha! Um absurdo! Sabia que você jamais se envolveria com Ares, mas morri de ódio só de pensar nele tentando te tocar", Aiolos tomou fôlego. "E depois suspeitei que era só uma tentativa de me despistar do seu desaparecimento! Alguma coisa horrível devia ter acontecido, mas veja só: você simplesmente saíu em missão. Será que não podia ter deixado sequer um bilhete avisando?"
"Eu não podia", deixei-o para trás, contando até dez.
"Tem certeza?", ele galgava os degraus atrás de mim. "Não percebe que Ares está brincando conosco? Ele quis me provocar ciúmes, afastou você de mim e não desmentiu nenhum dos rumores...! Eu acho de verdade que ele gostaria de ter um caso com você!"
Esqueci minha contagem e cheguei ao limiar: "Cuidado com o que fala! Pode perder mais do que a sua aprendiz!"
Silêncio precedeu a reação de Aiolos, que me segurou pelo ombro.
"Adivinhe só? Você pode ficar com Ares se quiser. Estou farto!"
Quando fui forçado a encará-lo, vi que seus olhos estavam tintos de vermelho e que resistiam às lágrimas. Sua voz saiu descontrolada e gutural: "Estou farto de ter que me esconder! De ter que engolir seu egoísmo sem poder reclamar. Cansado de ter que viver com migalhas, de não receber o mínimo de consideração sua.."
Ele me empurrou com violência, quase me fazendo desequilibrar. Irado, empurrei-o de volta. Em pouco, estávamos rolando e trocando socos na escadaria de Peixes.
Afrodite interveio, puxando-me pela cintura e mandando-me parar.
"Você é um traidor!", bradei, com o nariz sangrando.
"E você não é?", caído nas escadas, Sagitário riu um riso debochado.
Afrodite impediu-me de avançar outra vez sobre ele. Recomponha-se!, ele sibilava em meu ouvido, inutilmente. Eu estava cego de ódio de tudo, até de mim mesmo, por ter permitido que minha vida tivesse virado um inferno.
Por fim, Sagitário levantou-se, dando-nos as costas com frieza. Parecia decidido a não voltar atrás, e isso acordou em mim aquela parte sensível e que era totalmente louca por ele.
"Aiolos...Aiolos!", chamei, tentando me soltar das garras de Peixes, mas não consegui me libertar e tampouco obtive a atenção do meu amante.
Foi desse jeito que terminamos. Um término curto e ridículo, confesso, mas que deixou suas marcas.
Afrodite me recriminou por minhas atitudes, brincou que era melhor que eu tivesse ficado e contado minhas peripécias, e ofereceu-me gelo e um lenço. Enquanto eu estancava a hemorragia nasal, Peixes colheu um buquê inteiro de rosas do jardim e entregou-me. Despido de sua arrogância habitual, me aconselhou a pedir perdão a Aiolos. Se eu não estivesse tão esbaforido, teria percebido que Afrodite estava tentando ser gentil. Lástima — fui embora para minha casa sem nem agradecer.
A raiva esfriou, e logo veio a vontade de rever meu amante — um desejo enorme, fomentado pela sua proximidade, a uma escadaria de mim. Eu não acreditava em desculpas, mas concordava que talvez aquele fosse o único jeito de trazer Aiolos de volta. Só precisava me acalmar e permitir-me enxergar que eu havia errado com ele. Eu sabia o que fazer, porém, minha teimosia me impedia.
Assim, atravessei os dois primeiros dias inteiros em solidão e agradecendo a Ares pelo castigo — pelo menos eu tinha algo com que me ocupar às noites. Durante as guardas, passava pela casa de Sagitário e sentia seu cosmo aceso, evidência de que também estava acordado. Eu já era calejado de outras brigas; sabia, com tranquilidade e amargor, que esta também não duraria muito. Mas me torturei um pouco; ainda não tinha coragem suficiente para entrar pela sua porta declarando as frases que eu ensaiava em minha cabeça.
As flores, deixadas na sala de Capricórnio, não haviam perdido nada de sua formosura na terceira noite de guarda. E foi com elas que me armei para descer até a nona casa, resolvido a reatar.
Aiolos me recebeu sem resistência. Toda e qualquer intenção de me repelir sumiu ao notar as rosas vermelhas. Eu não fazia um tipo romântico, então ficava evidente o quanto aquilo era um grande esforço para mim...O quanto eu estava disposto a melhorar, muito embora soubéssemos que não mudaríamos nunca.
Eu pedi que me perdoasse por minhas falhas e me aceitasse como sou, com todos os defeitos que ele já conhecia. Eu fui sincero: reafirmei meu propósito para com Atena, mas menti que achava que poderíamos fazer dar certo aquela coisa que existia entre nós.
O cavaleiro que já não tinha mais nada poderia refutar-me? Não. Ele se entregou com sofreguidão e implorou que eu nunca mais fosse embora.
"Promete que nunca mais vai me machucar desse jeito?", Aiolos insiste, o rosto enterrado em meu peito.
Lembro-me do que ele me disse na escadaria de Peixes. Sim, somos traidores. Pedir perdão não muda nada. É, no máximo, um meio de arrepender-se e, portanto, uma demonstração de fraqueza. Fora isso — a confissão da própria estupidez -, todo o resto continua igual.
Ah, Aiolos, como eu queria me livrar deste sentimento que nos subjuga! Todavia, me parece que, mesmo com a sensação constante de que estamos por um fio, toda vez que nós mesmos e o mundo tentamos nos apartar, algo conspira para que encontremos o caminho de volta um para o outro.
Uma piada de mau gosto ou um castigo? Sísifo foi punido com a repetição do mesmo trabalho inútil pela eternidade e Prometeu foi penalizado a ter seu fígado atacado diariamente por uma ave durante trinta mil anos*. Quanto a nós, fomos amaldiçoados com esse laço que nos ata: destrutivo, porém incapaz de ser desfeito. Se tentarmos nos afastar, a tensão nele se torna insuportável e culmina na necessidade de uma reaproximação para aliviá-la. Se nos reconciliamos, em pouco estamos sofrendo pressões externas próprias das nossas funções, que fazem de nós uma mistura explosiva.
E eu estou cansado disso tudo, de verdade. Mas não consigo viver com ou sem você, Aiolos, e já me conformei.
"Eu prometo", sussurro em seu ouvido. "Agora enxugue essas lágrimas. Você está com a fé muito abalada, Aiolos. Não pode viver desse jeito."
Seu nariz está enrubescido e ele funga alto antes de se justificar, choroso. "Não sou mais o mestre de Hipólita. Nada mais restou. Não sou mais um cavaleiro..."
"Não diga isso. Por que você não faz uma visita à Atena para reafirmar seus votos? Peça permissão para uma audiência e reze na presença da deusa", afago seus cabelos. "Tenho certeza que vai lhe ajudar a reencontrar sua direção."
"Acho que é uma boa ideia, Shura", ele repousa a cabeça em meu ombro. "É isso mesmo que farei."
Meu turno da guarda se aproxima e, quando nos separamos, Aiolos está mais leve, até sorri. Seu otimismo rebrota com vigor, e ele me enche de beijos na hora da despedida.
"Quer me acompanhar no meu encontro com Atena amanhã ?", ele me estende o elmo da minha armadura.
"Não, obrigado. Amanhã vou descansar, já é meu terceiro plantão seguido", recordo com enfado.
Quando o deixo deitado no sofá da sala, de relance vejo-o esticar os braços acima da cabeça e buscar no vaso da mesinha de canto uma das rosas vermelhas de Afrodite — o símbolo maior dos apaixonados. Céus, Aiolos, veja só no que você me tornou!
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