Notas iniciais
Olá de novo, simpáticos leitores! Se vocês chegaram até aqui, antes do último capítulo tenho que me desculpar pelo final da fanfic. Saibam que eu não queria que terminasse desse jeito e tentei de várias maneiras fazer com que ele parecesse "menos pior", mas, como a proposta desde o princípio foi escrever dentro do cânon, não tive outra saída. Talvez vocês encontrem uma ou outra enrolação aqui em contraste com cenas corridas e secas. Entendam que não foi por mal, a intenção era "açucarar" um pouco o capítulo e omitir o que ele tinha de pior. A revisão fiz meio "nas coxas". Perdão por qualquer erro crasso. Ainda há um epílogo...mas conversaremos sobre ele no final do texto. Boa leitura!

IX. Calvário

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Minhas mãos correm pelos lençóis, tateando a sua falta. A cama continua larga quando rolo de um lado para o outro, mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu acordei feliz. Abro os olhos na direção da luz filtrada pelas cortinas, bendizendo o novo dia. Inafortunadamente, Hipólita não vai estar me esperando na arena quando eu descer, porém, agora tenho uma razão para sair da cama — a velha motivação de sempre, renovada ontem.

Há pouco a me sustentar. Todavia, este pouco é meu tudo. Jamais quis usar o manto do Patriarca e nem ter a pretensão de me tornar além do que eu podia ser...Mas quis amar, e reconheço que talvez pedi demais.

Ter uma família e um amante não é exatamente o que se recomenda a um cavaleiro de Ouro — por definição, ausente de laços que prolonguem sua estadia na Terra.

E já que hoje estou me reconstruindo, permito-me cinco minutos de ócio antes de me entregar aos treinos solitários. Fugindo à decadência do despertar solitário, contemplo os porta-retratos na mesa de cabeceira do quarto. Vejo pinceladas de tudo que se passou até aqui.

Num retrato, Aiolia e eu posamos como meninos comuns, em preto e branco, nalguma das feiras anuais de Rodório. Meu irmão não deve ter mais que seis anos na foto; vários dentes lhe faltam no sorriso e ele segura, vitorioso, o leãozinho de pelúcia que ganhei em um jogo de tiro ao alvo.

Lembro-me de como os moradores insistiram gentilmente para que eu participasse do desafio, mesmo sabendo que eu poderia acertar todos aqueles patinhos de olhos vendados. Algo assim era demasiado trivial para um cavaleiro de Atena, mas Aiolia ainda estava naquela fase em que seu cosmo permanecia adormecido e incerto, e não logrou sucesso em suas tentativas de acertar as bolas na mira. O próximo passo foi chorar alto e apelar pela minha ajuda, mesmo já tendo sido alertado de que era indelicado tirar vantagem de habilidades especiais no mundo dos civis. Embaraçado, vi-me em dilema moral diante dos cidadãos. Estes, muito amáveis, me encorajaram a fazer as vontades do caçula. Três bolas certeiras depois, Aiolia recebia seu prêmio com olhinhos verdes cintilando, uma recompensa injusta para a desfeita que havia armado.

O dono da barraca fez questão de registrar o momento e arrastou para diante de nós o velho fotógrafo que circulava pelo local com uma máquina obsoleta, com direito a tripé e aspecto sanfonado. O flash nos cegou temporariamente, mas a foto ficou para sempre.

Já crescido, Aiolia achava que tínhamos fotografias melhores para ocupar o nobre espaço, contudo, nenhuma me divertia tanto quanto aquela. Enchia-me de uma nostalgia alegre, um sopro gentil de um passado feliz.

Com um sorriso pintado no rosto, passo ao próximo retrato: os onze cavaleiros de ouro solenemente reunidos no gabinete do Patriarca. De Áries a Peixes, com Shion ocupando o lugar de Libra, sustentávamos uma postura quase militar, devidamente trajados em nossas armaduras e transmitindo toda a austeridade e a altivez que o momento pedia. Esta foto era até que bastante recente, tirada há cerca de seis meses. No entanto, parecia tão distante da realidade atual, que era como se fosse um vestígio de outra vida. O rosto sulcado de Shion transparecia todo o orgulho que sentia por sua tropa completa e me trazia uma saudade inexplicável.

Não me demoro neste e desvio rapidamente para o último porta-retrato, que está em local privilegiado, destacado de todos. Eu já recorrera e ele em diversas noites e ultimamente o vinha castigando — com certa infantilidade, confesso — a permanecer virado contra superfície do criado-mudo, como se assim pudesse me vingar de quem ele representava. Só fui endireitá-lo definitivamente ontem, mas assumo que me traí por algumas vezes, nas quais me rendi, suspiroso, a espiá-lo.

A fotografia — na verdade, uma "montagem" de várias fotografias — me brinda com múltiplas faces de Shura. Uma delas, um recorte de uma foto, não cabia em si de glória no dia da cerimônia da sua posse da armadura de Capricórnio. Éramos um bocado mais jovens e nem tão próximos ainda, mas acontece que estávamos enfileirados lado a lado na ocasião do retrato e até que saíramos algo simpáticos. Eu gostava de fantasiar que aquele era nosso primeiro registro juntos, o que talvez fosse verdade. Pelo menos era o mais antigo a que eu tive acesso.

Atrás desta, outra foto maior e em plano de maior evidência ocupa quase toda a dimensão do porta-retrato. A qualidade dela era bastante questionável, a começar pelo fato de não estar bem centralizada. Nela, Shura e eu surgíamos em roupas de treino do tórax para cima e olhando por sobre nossos ombros com a naturalidade de alguém surpreendido por uma câmera. Shura ainda tivera tempo de franzir levemente a testa, mas eu não escapei de aparecer com uma expressão boba de susto. Aquela brincadeira havia sido promovida por Saga e a Polaroid que, sabe-se lá como, Kanon havia traficado para dentro do Santuário. Vale dizer que Shion a confiscou pouco depois de receber a notícia de que um tarado– no caso, Máscara da Morte — havia invadido a vila das amazonas no intuito de fotografar seus rostos desprotegidos.

A última foto, num dos cantos, é uma tira com várias capturas, típico de uma máquina instantânea. Remetia a um dia de folga especial, em que nos prestamos a ir até a cidade grande mais próxima para assistir a Rocky¹, o filme que era febre na época dos meus dezenove anos e de cuja existência eu ficara sabendo através da prosa de um viajante perdido, que acabou sendo acolhido em Rodório. Suas impressões sobre o cinema e a estória heroica de Rocky Balboa me fascinaram ao ponto de infernizar o cavaleiro mais obediente de todos com ideias de escapulir dos limites do Santuário, contra as proibições do mestre, somente para viver essa experiência. No final das contas, Shura perdeu uma aposta viciada que armei para ele e para a qual ele havia me dado sua palavra. Por mais que fosse todo certinho, meu amigo sempre se mostrava muito rígido com as promessas que fazia, e viu-se obrigado a lidar com as consequências da derrota.

Àquela altura, eu já nutria um amor mais que fraterno por ele, só não tinha ainda me permitido aceitar. Mas, depois de percorrer quilômetros de ônibus em disfarces civis, nos perdendo em todo canto e ouvindo impropérios da gente apressada com quem esbarrávamos nas ruas movimentadas, finalmente nos sentamos na última fileira de um cinema pulguento — os únicos ingressos que nossos dracmas puderam comprar — e eu percebi que Shura era a companhia certa para estar ali comigo, aproveitando aquela glória de objetivo alcançado.

As memórias têm uma nitidez típica dos momentos marcantes.

Na penumbra do início da matinê, eu me virei para pedir-lhe que me passasse o refrigerante e me deparei com seu rosto colorido pelo reflexo em movimento da tela, totalmente encantado. Jamais vou me esquecer da maneira como me cativaram seus olhos puxados, mais vivos e abertos do que nunca, e sua boca entreaberta em muda admiração. Aquele guerreiro capaz de cortar montanhas havia se reduzido a uma criança maravilhada, adorável.

Dali em diante, não parei de reparar nas reações dele. É claro que eu também gozava do impacto do meu primeiro filme, mas vez ou outra conseguia despregar minha atenção das cenas que se desenrolavam só para checar se Shura também vivia aquele deleite.

Todas as vezes em que o casal principal protagonizava um momento romântico na tela, instintivamente buscava meu amigo com olhares de esguelha, percebendo-o bastante à vontade. Apesar de reservado, ele nunca se impediu de ter encontros casuais com serventes do Santuário — tudo que estivesse conforme as leis e que envolvesse apenas a carne, obviamente. Shura já tinha se deitado com um número considerável de mulheres naquela época e, diziam os boatos, era bom amante. A cada beijo cinematográfico, eu mirava seus lábios finos e me perguntava que bicho tinha me mordido, que não parava de procurar Shura, e de pensar em Shura, e de fazer comparações com Shura...

E quando nossas mãos se encontraram acidentalmente no balde de pipoca, senti um calor estranho...gostoso.

Uma percepção nova sobre ele se afirmava aos poucos naquela tarde, moldando em amor romântico os contornos abstratos de um carinho que sempre existira.

Ao final do filme, quando a luz se acendeu, nós nos procuramos. Então, ele abriu um sorriso lindo e até me agradeceu por tê-lo trazido ali. Aquilo me tocou tanto...quis segurar sua mão, de verdade desta vez, mas me contive e nos apressei em sair dali.

Fora do ambiente aclimatizado, tivemos contato novamente com o calor da cidade, e meu amigo despiu seu casaco, enquanto não parava de tagarelar sobre a luta entre Rocky e Apollo. Notei com inédita lascívia os braços à mostra na camiseta preta um pouco justa, assim como seus jeans escuros. Não eram roupas que usávamos com frequência, portanto, duravam anos no armário e nem sempre se ajustavam bem à forma física da ocasião. No caso de Shura, estavam tão pequenas, que toda vez que ele levantava os braços ao gesticular, uma faixa do seu abdome musculoso se revelava — e me deixava ainda mais confuso. Já tinha visto-o de todas as maneiras possíveis, inclusive nu, mas jamais tão perturbador.

Eu o achei tão incrivelmente bonito, animado daquele jeito, que, de impulso, o empurrei para dentro de uma cabine fotográfica na rodoviária. Usei as moedas da viagem de volta naqueles flashes– sem que ele soubesse — e eternizei nossos rostos felizes, a aparência de rapazes normais da nossa idade e as lembranças das primeiras fagulhas de uma paixão que muito me atormentaria.

Depois, quando Shura descobriu o que eu tinha feito com todo o nosso dinheiro, quis me matar. Completamos o caminho de carona e à pé, ao som de seus resmungos. Nem assim conseguimos chegar a tempo de evitar um atraso fatal e uma bronca homérica do Patriarca. É fácil adivinhar que o espanhol temperamental brigou comigo e que ficamos quase uma semana inteira sem comunicação. No fim, foi ele próprio quem acabou propondo — exigindo– trégua.

Meus dedos tocam uma das pequenas imagens em que estamos tão espremidos dentro da cabine, que quase nos abraçamos. A alegria da foto é contagiante. Penso mesmo que consigo reconhecer amor em meus olhos.

Suspiro. Quem diria que, após tantos percalços, você continuaria voltando para mim, Shura?

Alinho os porta-retratos e me levanto, pronto para encarar a manhã. Já de saída, vejo que as rosas vermelhas na sala perderam algo do seu viço ao longo da noite e que algumas pétalas se desgarraram, caídas na mesinha de canto e no chão. Ainda assim, continuam absolutamente deslumbrantes.

Com ânimo revigorado, salto os degraus de dois em dois, rumo ao refeitório. Lá, encontro a constante das minhas fotografias, sentada à mesa com uma xícara de café vazia. Apesar disso, sua cabeça se apoia precariamente numa mão fechada, entregue ao sono.

Sirvo dois pratos com omelete e pão — seu favorito dentre as horríveis opções diárias de desjejum — e arranjo minha própria caneca de café puro antes de ocupar o lugar ao seu lado. Shura pisca um par de vezes, encontrando dificuldade mesmo para pôr-se em estado de alerta.

"Noite difícil?", pergunto-lhe o mais neutro possível e com um sorriso mínimo, enquanto lhe passo um dos pratos.

"Oh, obrigada!", ele boceja e separa uma fatia de pão para besuntar de manteiga. "Tirando o fato de que eu e os soldados perseguimos um perigosíssimo coelho no terceiro templo, posso dizer que foi uma noite bastante agradável..."

Trocamos um discreto olhar cúmplice antes de darmos a devida atenção à comida. Foi quando Shura notou o abrasão em meu cotovelo.

"O que foi isso no seu braço?", quase inaudível, entre duas garfadas.

"Acho que foi ontem. Sabe, no tapete..." contenho meu ímpeto de soar malicioso, sem êxito. Vejo que suas bochechas ganharam alguma cor.

"Está feio. Vamos colocar um esparadrapo aí antes que alguém perceba", então ele desconversa e se levanta para completar sua xícara com mais café.

Terminamos a refeição sem outras provocações. Shura, no entanto, insiste na estória de cobrir o ferimento no cotovelo e ele mesmo afana um curativo do kit de primeiros socorros do alojamento dos soldados vizinho ao refeitório.

O espanhol me carrega até Áries, deserta, e nos escondemos atrás da coluna mais longínqua de todas. Seguros, Capricórnio beija-me o rosto inteiro, alisando-me a cintura com devoção.

"Não vou mais te machucar", ele repete junto ao meu pescoço o que me jurou ontem. À essa altura, estou explodindo de felicidade, de encanto...de amor. Naquele momento, acredito que ele está finalmente entregue ao feitiço em que eu primeiro caí, tão desgovernado, tão irremediavelmente apaixonado quanto eu. Conquistei aquilo que julgava ser mais impossível: seus sentimentos. Eu poderia chorar, se agora não fosse só sorrisos.

Voltando à razão, depois de poucos minutos de abraços, separamo-nos e ele se apossa do meu cotovelo. Não há antisséptico, nem nada com que possamos limpar a escoriação, e ele simplesmente pressiona os lábios contra a pele esfolada, como se aquilo pudesse acelerar o processo de cicatrização. Remédio ou não, estremeço, deliciado. Afinal, ele substitui sua boca precisamente com gazes e arremata o curativo com esparadrapos.

"Preciso ir. Não dormi nada esta noite, tenho que descansar para a próxima ronda", Shura esfrega uma pálpebra e me pego ainda o admirando. Caminhamos sorrateiramente até o patamar entre as escadarias, onde ele toma a direção oposta à minha.

"Cuide-se", ouço-o sussurrar, olhos fixos nos meus enquanto nos separamos.

E, pela primeira vez, nos reencontramos ao olhar simultaneamente para trás uma última vez.

E, pela primeira vez, acredito que não vamos mais nos ferir com nosso relacionamento.

Não me surpreende que eu desça à arena e consiga quebrar meu recorde de tempo de corrida na pista. Sinto-me leve, quase um balão de gás. Aiolia e alguns colegas vêm me felicitar, espantados com o desempenho. O dia começou bem hoje.

É ainda contente e grato pelos sentimentos correspondidos que me dirijo ao décimo terceiro templo logo que o treino na parte da manhã se finda. Pretendendo ver a Atena, como planejado na véspera, peço com delicadeza aos soldados que me ponham em contato com quem organiza a agenda de visitas da pequena divindade. Desse modo, o conselheiro-mor vem até mim e me informa, burocraticamente, que a deusa está em horário de repouso. Impersuadível, orienta-me a retornar depois das seis se eu mantiver a intenção de uma audiência. Eu o acato, afinal, e treino mais um tanto com Aiolia até a hora indicada.

Faço conforme as instruções, todavia, quando tento uma segunda vez me acercar da deusa, também sou dispensado por outro conselheiro de menor importância, que me recebe com aborrecimento e retifica o período de visitas: das três às seis. Além disso, acrescenta que não há nenhuma previsão de horário livre nas próximas duas semanas. Indignado, quase arranjo uma confusão ali mesmo, contudo, me resigno a voltar à Sagitário de mãos vazias.

Somente em duas semanas teria uma chance real de me encontrar com a deusa. O problema é que estou estranhamente determinado a colocar-me em sua presença e sei que não vou sossegar enquanto não o fizer.

Num arroubo, tenho a mais estúpida e abençoada ideia de todos os tempos — invadir os aposentos divinos apenas para espiar a criança. Nada formal, somente um aceno e uma oração, depois vou-me embora como se não tivesse acontecido. Que mal tinha? Havia tanto tempo desde a última vez que me fora permitido estar com Atena, que aquilo me era devido.

Esse plano louco fica a martelar-me a cabeça o dia inteiro até a noite, quando janto sozinho, ruminando minha própria ousadia.

Qual é a dúvida de que eu acabaria cometendo mais essa infração? Só que o que está em jogo dessa vez é que eu me tornarei um criminoso de verdade se for flagrado no ato. Para minha sorte, Aldebaran seria o responsável pela guarda no primeiro período da noite e não me daria tantos problemas. Também joga a meu favor o fato de que conheço a rotina da troca dos soldados, ou seja, sei o momento em que a câmara da deusa está mais vulnerável. Não tem como dar errado, eu penso, prepotente e ingênuo.

Não tem como dar errado.

Os guardas fazem a troca no exato instante em que Aldebaran vigia a câmara de Atena. Assim, tenho que esperar até a próxima troca, que acontece quando...Shura assume a liderança da defesa.

São três horas da madrugada e estou espreitando no telhado da décima terceira casa há mais tempo do que o idealizado, agora incapaz de desistir. Só vou conseguir sair daqui no rodízio seguinte, então é melhor que eu faça valer a pena o sono perdido.

Vejo Shura passar a metros de mim e mirar o céu com um ar sonhador. Em que será que ele pensa? Antes que eu pudesse tirar uma conclusão, ele se afasta e ordena aos guardas recém-chegados que assumam as posições desguarnecidas.

É hora de agir. Súbito, sinto-me um assaltante naquela situação, mas não hesito em executar meu plano.

Deslizo para dentro da câmara através da falha que me atentara durante todas aquelas horas: uma janela destrancada. Silenciosamente rastejo até um corredor largo, onde tinha entrado apenas uma vez na vida, quando Shion anunciou o renascimento da deusa. Faz pouco mais de um ano, não deixo de notar. Foi o gatilho para uma porção de celebrações de todos os povos e seitas associados a Atena, inclusive aquela festa promovida no Santuário pelos fiéis de Dioniso. A farra do vinho, que libertou interesses aprisionados, estopim de uma guerra de dor e prazer entre meu melhor amigo e eu.

Mas a paz — ah, sim -, essa compensava todas as perdas e danos. Uma rendição de ambos os lados, uma vitória sem vencedores; apenas a supremacia daquele que quer o bem do outro a qualquer custo: o amor.

Até quando duraria? Não importa. Para mim, é o agora que vale.

Venço a escadaria em espiral num passo rápido. Os archotes projetam minha silhueta contra as paredes de pedra, quase uma catacumba. Eu me aprofundo nas sombras e na verdade delas.

Então ouço um resmungo infantil. É para lá que me encaminho, bem a tempo de perceber que não sou a único a visitar Atena.

Uma figura fantasmagórica, parada à beira do berço divino, ergue um braço no ar. A lâmina de um punhal se insinua para fora de uma manga comprida e reflete a luz das constelações lá fora, mudas testemunhas do maior sacrilégio dos últimos séculos.

Que sorte a minha — pontual para impedir um assassinato.

Com um salto, a infante Atena vem parar em meus braços pouco antes que a lâmina seja cravada no seu leito. Eis que o rosto desvelado do herege se volta para mim em susto: queixo afilado, olhos injetados, cabelos longos e grisalhos. Saga, por algum motivo, está usando os trajes do grande mestre e portando uma adaga.

E, de repente, o pavor de tal reencontro faz minha mente virar do avesso.

E, de repente, eu compreendo.

Todas as cenas passam por minha cabeça como num filme de suspense: Saga disfarçadamente observando Shura e eu ao longe nas folgas, enquanto líamos livros por sobre o ombro um do outro, quando nossa relação ainda era de pura e simples amizade. Saga sentado só e sempre debaixo da mesma árvore, fitando sua copa interminantemente, como se aquilo fosse o melhor remédio do mundo para as dores do pós-treino. Em paralelo, eu convidando Shura para minha casa, a fim de bancar sua enfermeira. Gêmeos sempre esteve ao nosso redor como um espectro melancólico, e muito antes de percebermos o quanto estava desamparado.

Vejo Saga comendo no refeitório ao lado de um Shura pouco comunicativo, nos dias das nossas primeiras brigas; deparando-se comigo a alinhar os cabelos do espanhol. Saga observando-nos a cruzar a escadaria da sua casa; treinando desacompanhado na arena quando espanquei Shura vingativamente; avisando-me que assumiria o comando da guarda. Saga algum tempo antes da condenação de Kanon, pedindo passagem por Sagitário com o irmão gêmeo calado atrás de si. Saga esquivando-se por dias e dias depois da missão no Caribe.

Então, Saga enlouquecendo após entregar Kanon. Saga preterido por Shion, engolindo o choro porta afora; livrando-se do corpo de Ares; vingando-se de mim e de Shura das piores maneiras possíveis. Saga tocando Capricórnio e depois mandando-o para longe, enquanto espalhava boatos venenosos pela Acrópole; Saga entrando na câmara de Atena com o objetivo de acabar com a única ameaça à sua ditadura.

A chave de tudo é Saga, mas também Shura, Shion e eu. Nossos erros tão graves quase levaram Atena à morte e voltaram-se contra todos nós numa tragédia completa.

Shion não concretizou seus planos e faleceu, abandonando o Santuário à crise. Saga foi engolido pelo lado amaldiçoado de Gêmeos e tomou o poder da instutiução à força. Já Shura e eu...

O Patriarca — ou melhor, Saga — me atinge em cheio com um golpe desesperado. Com o impacto, atravesso as pedras no recinto e caio no seio da noite inglória. "Aiolos tentou matar Atena!", ele grita, recolocando seu capacete. Quando as sirenes soam, sei que estou perdido.

Atena, no meu abraço, ri e estende seus bracinhos, tentando acarinhar meu rosto cheio de poeira. Seu cosmo infinito toca a meu coração e me faz enxergar a realidade de que essa é a minha trilha — o lugar certo e as circunstâncias erradas. Meu caminho é o sacrifício. Todos os sermões de Shura sobre dever e fé jamais fizeram tanto sentido para mim quanto agora.

Obrigado, meu querido. Obrigado por me ajudar a me recolocar nos meus trilhos. E também adeus, porque agora é chegado o momento de eu cumprir meu propósito com a deusa.

Sinto muito por não ter sido você o cavaleiro mais fiel a Atena. Este, ironia ou não, serei eu, quando nosso calvário terminar.

Decidido a proteger a deusa do seu próprio Santuário e de Saga, disparo à distância. Corro, corro, corro — para onde vou? Vencendo os débeis soldados a cada investida, adentro o árido deserto além de Rodório. Se conseguirmos transpor esse pedaço de morte, haverá uma chance para Atena no mundo dos civis. Atravessando cânions, rezo por e para a deusa.

Oro, porque sei exatamente o que me espera.

Eis que você finalmente me alcança com aquela sua crueldade cega, decidido a me frear. Chega em sua armadura reluzente e lançando frases ácidas, que usa somente para acuar os inimigos. Não posso condená-lo totalmente por sua secura, porém, não consigo evitar a decepção de ser você o encarregado do meu fim. Frente a frente, somos ambos traidores e vítimas.

Ah, Shura! Se eu soubesse...! Não teria me desgrudado de seu abraço hoje cedo e imploraria pela sua companhia no treino.

Mas não mudaria o destino, de maneira alguma. Porque, nesta noite, eu vou morrer do jeito que todos os cavaleiros almejam — defendendo a honra de Atena. Hoje serei assassinado e virarei desertor. Hoje eu vou descobrir o melhor e o pior de ser eu mesmo, e dos caminhos que escolhi.

Seus dedos contém a palavra "dever" quando se fecham para me socar.

"Não quer nem escutar a história?", reclamo, recebendo como resposta outro duro ataque.

Eu poderia passar um bom tempo lhe explicando, contudo, você tem pressa. O mestre quer resultados e você não tem intenção de se sujar com meu sangue de herege. Mesmo que você não dê cabo de mim aqui, sei que morri para você no instante em que aquele alarme soou.

Falamos muito pouco e o confronto não se estende por muito — eu aceito todos os seus golpes sem ter estômago para revidar. Você disse que nunca mais me machucaria e eu acreditei...

E é aí que você lança sua Excalibur contra meu peito desprotegido.

Ferido de morte, quedo num precipício. Daí, você decide encerrar o serviço sem concluir nada do que deveria ter feito: não me liquidou e nem à Atena. Você vai embora — foge– julgando aquele ataque suficiente para um ponto final. Meu amado me deixa para morrer no vale onde lutamos nossa última batalha.

Amor, você já me partiu tantas vezes. Tantas e tantas, que tenho n'alma e no corpo mais cicatrizes do que há estrelas no céu. O que o faz pensar que conseguiria me extinguir com apenas mais esse golpe?

Não posso ser parado. Sou pária, sou traidor. Sou mártir, sou herói. Sou cavaleiro de Atena.

Mesmo esgotado, escalo o rochedo, pintando-o de vermelho no processo. Atena me espera no topo — deidade, criança, vítima. Apanho-a no colo e penduro a urna de Sagitário nas costas, pronto a cumprir minha função.

E arrasto-me pela madrugada e pelo deserto. Quero me debulhar em lágrimas pela vida que deixei para trás, mas mantenho coragem para seguir adiante, até que eu não pense em mais nada. O relógio se estende mais um pouco para que eu chegue às bordas da civilização, ao raiar do dia. Então, um distinto senhor, entretido numa caminhada, acaba por divisar-me caído entre as rochas, na fronteira do deserto.

O resto da história, todos conhecem.

(Apenas uma coisa poderia ter sido diferente — você aqui comigo, em vez de meu algoz. Seria um belo fim para nós dois.)

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"O que está esperando? Vá logo!", o Patriarca se exaspera, apontando a direção aonde supostamente foi levada a falsa Atena. Há um buraco enorme na parede da câmara, um rombo do tamanho de uma pessoa, para onde olho atônito.

Ares convocou-me aos gritos após disparar o alarme de invasão. Quando vim até os aposentos da deusa, com meu exército de vigilantes em cobertura, imaginava que poderia ser qualquer um — de Poseidon a Hades — a atentar contra Atena.

Mas jamais você, Aiolos.

Foi zonzo que soube do seu crime...e do seu castigo, que eu deveria executar.

Você traiu o Santuário. Você me traiu. Tentando assimilar essa reviravolta, eu obedeço ao mestre e movo minha tropa no seu encalço. Sou o último a caçá-lo, circulando a esmo pelo deserto, rodando inutilmente, assim como meus pensamentos.

Não é possível que você tenha feito isso. É simplesmente inconcebível! E dizer que fui eu quem plantei a semente de tamanho horror ao sugerir que você fosse rezar na presença da deusa...Solto um soluço e diminuo a corrida, até parar com as mãos sobre os joelhos.

Não. Você não faria isso. Ou faria? Jogar tudo para o alto desse jeito, erguer o punho contra Atena...a troco de quê?

Vejo-me andando rumo à decima terceira casa, mesmo contra a ordem de Ares. Eu precisava ter certeza.

Que certeza? O mestre havia usado todas as palavras: Aiolos entrou na câmara na calada da noite para matar Atena e fugiu com o bebê falso. Graças a Zeus, não tinha levado a verdadeira deusa. Caiu na armadilha, entrou no quarto projetado para atrair invasores e tentou apunhalar uma impostora.

Resignado, dou meia-volta e retomo minha missão. Meus olhos estão quentes, tão quentes — e logo também meu rosto e meu pescoço. O ar do deserto enxuga minhas lágrimas e me fornece uma pista — sinto seu cheiro. E torno a duvidar.

Nada faz sentido.

Dessa vez, a dúvida é forte o bastante para que eu volte às doze casas em busca de mais explicações. Não posso matar meu melhor amigo, meu companheiro e amante sem saber como e por que ele nos abandonou.

Ares me recebe na câmara de Atena com xingamentos e...é só disso que conseguirei me lembrar. Ele argumenta algo incontestável, pois me convenço depressa de que a catástrofe é real.²

Agora não tenho saída. Aiolos, por que me colocou em tal caminho?

Um ódio, uma mágoa, uma desolação. Nada pode descrever o que sinto ao persegui-lo para executá-lo.

De volta ao deserto, meu avanço é firme e resoluto. Cada vez mais posso sentir seu cosmo. Os soldados o atrasaram para que eu pudesse me aproximar e, enfim, alcançá-lo.

E aí está você, quase inocente em suas roupas de treino, a armadura de Sagitário ainda estupidamente pendurada às costas. Seu rosto sujo de terra e sangue me comove, mas vejo a criança no seu colo e sei que jamais estarei apto a perdoá-lo; e nem a mim.

Jamais me perdoarei por ter participado da teia de acontecimentos que nos levaram ao início e ao fim. Afinal, não é como se eu fosse o santo da estória, não é mesmo? Nem santo, nem demônio, mas no papel de carrasco. E você, hoje desertor, já foi, um dia, um anjo. Um anjo que encantava toda a gente e que cometeu o erro de desejar o meu amor. Agora o anjo cai, corrompido pelo pecado. Nós chafurdamos na lama com nossas armaduras, como se fôssemos imunes a tudo. Essa é nossa punição.

Nada faz sentido, mas estranhamente consigo aceitar nossa sina. E me lembro do dia em que quase o matei na arena, em que você se ofereceu em sacrifício do mesmo jeito que aqui se entrega aos meus golpes. Eu não tive coragem de matá-lo naquela ocasião.

E ainda não tenho coragem de matá-lo, mas é o que faço ao condená-lo à Excalibur.

Então, o vejo ser engolido pelas sombras de um precipício, e minh'alma afunda consigo em dor silenciosa. Mas não sou capaz de ir atrás de você para certificar-me de sua morte. Não agora. Se eu não o finalizei, o deserto e os ferimentos o farão.

A falsa Atena engatinha até a beira do rochedo, atrás de Sagitário. Não vou me envolver com esta criança. É demais para mim — ter que assassinar também um bebê.

Ouço um trovão. Os deuses estão tripudiando de nós e nos amaldiçoando.

Eu não vou me queixar. Eu não vou me revoltar contra eles. Aprendi com meu erro e minha penitência. É da minha natureza ser um pouco fatalista, assumo. E, assim, carrego o peso da desventura nas costas quando volto ao Santuário com o sol nascendo entre nuvens pesadas atrás de mim. Mortificado, dou a notícia do sucesso a Ares e noto, amargo, que sua cúpula suspira em alívio.

"Agora a deusa ficará bem", um conselheiro ergue as mãos aos céus.

Talvez sim, mas eu não estou bem. Estou marcado para sempre por este amor terreno, amor de tragédia.

Cá entre nós, Atena, me perdoa. Me perdoa, por favor, porque não consigo odiar Aiolos e nem me arrepender de tê-lo amado...

Notas finais
¹Levei em consideração a década em que eles viveram e escolhi o filme de ação da época mais blockbuster de que pude me lembrar. Aaaadriaaaan! ²Sim, Saga desconstruiu a memória de Shura. Fiquei com a versão do Episódio G. Capítulo grande e...sei lá. Escrevi sem muito envolvimento, confesso. Não fui totalmente fiel às cenas do anime clássico, como vocês podem perceber, até porque Shura e Aiolos se comportam como verdadeiros inimigos nessa parte. Enfim... Ainda tem um epílogo, que não é muito mais feliz que esse capítulo aqui, e que devo colocar no ar depois do feriado. Aceito pedras, gente! Vou entender que o final foi decepcionante. Beijos e até o epílogo!