Curtametragem

1 Conhecendo O Meu Mundo


Notas iniciais
Espero que gostem :)

Meu nome é Ayla. Moro em Merlin, uma cidade pequena e tranquila. Vivo com minha família em uma casa simples e cheia de amor, também cheia de brigas. Somos pessoas comuns que vivem nessa bela cidade. Minha história pode ser um pouco similar com alguma que você conhece; e isso é natural já que acontecem milhares de histórias no mundo. Talvez você se identifique com a minha, ou talvez não.

Era dia de aula pratica na UME (Universidade de Merlin). Não poderia esquecer de comprar os materiais na CiaArt antes de chegar no centro. Eu nunca deixava minhas responsabilidades de ultima hora, mas a semana estava um caos. Meu avô no hospital, minha madrasta atrás de mim, pois não sabe resolver nada sozinha; e as cobranças infinitas de relatório da professora Helena. Nunca estive tão paranoica.

Ainda eram 9h da manhã e eu deveria saber como estava o vovô. Liguei para Luiza, minha irmã mais nova, que dizia estar tudo bem, a noite todos estariam em casa. Meu avô Ênio fumava bastante, desde os quinze anos, por isso com o tempo adquiriu bronquite e rinite alérgica. Então, de vez em quando, ele tem pequenos ataques. Eu cuidava da casa desde a noite passada, enquanto Luiza e sua mãe Laura ficavam com ele no hospital.

Cuidei do almoço e das tarefas domésticas para que estivesse tudo pronto quando todos os outros chegassem. Aproveitei para lavar o acolchoado da cadeira de Ênio que há muito tempo não se era limpo, um móvel bem antigo, mas muito bem preservado. Vovô não nos deixa mexer nas coisas dele, no entanto, aquele em especial estava precisando. Ficará uma fera quando souber do feito, mas todos irão me agradecer, pois já exalava um odor desagradável.

Quase meio dia e eu já estava almoçada. Deixei comida na geladeira para a janta e saí da casa. Fui até a residencia ao lado buscar Lana, minha vizinha. Ela tem apenas seis anos, eu e Luiza cuidamos dela desde quando era um bebê, já que sua mãe Tarsila é enfermeira chefe e seu tempo é sempre curto. Lana é curiosa e encrenqueira, talvez por sua convivência com Luiza; tento lhe impor regras, mas sempre saio como a irmã chata.

Andei com a menina até o ponto de ônibus mais próximo. Eu deveria deixá-la na escola, que é bem perto da UME, não poderia me atrasar e ainda tinha que comprar o material. Ficamos esperando o Barão Vermelho por quase uma hora até que ele chegou e pudemos seguir nosso percurso. Descemos perto da CiaArt e tive que ouvir reclamações de Lana por termos que andar até lá. ‘’Acho que está na hora de você comprar um carro, Ayla.’’ — Dizia ela impaciente. Encheu-me até quase o meu limite. Enfim chegamos à loja e comprei tudo o que precisava. Estava tudo bem, até eu dizer a Lana que tínhamos que ir andando até sua escola.

Conseguimos chegar até lá em paz, pois enquanto andávamos eu mostrava para ela a minha nova coleção de desenhos, talvez a única coisa que ela gosta em mim, o meu talento. Ela sorria enquanto passava a mão suavemente sobre as linhas. Se ela não tivesse a idade que tem diria que era uma grande mulher refinada, não uma criança. Deixei-a na porta da Sete Estações e segui meu caminho. Uma caminhada dessas fazia até bem para as pernas, era isso que eu pensava pra não ter que reclamar.

Entrei na UME e logo dei de cara com Tamires e Esther. As duas são minhas colegas de turma e amigas. Sempre estamos juntas, seja na faculdade ou fora dela. Fomos até o segundo andar onde teríamos aula de História da Arte e logo após Expressão Gráfica. No intervalo nos direcionamos para o refeitório e enquanto fazíamos nosso lanche íamos tendo nossa pequena conversa.

— Seu avô está melhor, Ayla? — perguntava Esther.

— Sim, chega em casa a noite. — respondi enquanto mastigava meu hambúrguer.

— Você poderia ser menos porcalhuda! — dizia Tammy. Esther sorria de canto de boca.

— E você devia prestar mais atenção no seu lanche. — eu apontava para o prato vazio de Tammy enquanto Esther mordia um pedaço do cachorro da Tantam¹.

— Estheeer! — Ela gritava em tom agudo, com raiva.

Enquanto Tammy brigava com Esther, por aquela simples brincadeira, eu apenas me divertia vendo o quanto as duas eram bobas.

Voltamos pra aula e eu finalmente pude usar meu material na aula de Restauração da professora Helena. Eu me esforçava muito para não ter que voar em cima dessa professora, chata é apelido, megera seu nome do meio. Finalmente chegara a hora de ir para casa, peguei minha mochila, me despedi das meninas e me dirigi até a escola Sete Estações. Apressei o passo, pois a aula havia atrasado e consequentemente tivemos que ficar na sala por mais tempo.

Lana estaria à flor da pele me esperando no portão, mas o pior é que ela é uma criança e eu sou sua responsável, estaria certa ao me reprimir dessa vez. Quando cheguei ao ponto não encontrava a menina. Perguntei ao porteiro e nada de Lana, entrei e saí do colégio, procurei aos arredores e nem sinal. Já estava muito perto de escurecer totalmente, eu já estava ficando nervosa e muito preocupada achando que ela havia pegado o ônibus sozinha.

Quando de repente ouvi uma voz ao longe, era de Lana, acenando com a mão enquanto atravessava a rua. Meu coração acelerou como nunca antes, eu assistia ao filme em uma câmera lenta em um momento de estagnação, a menina vindo em minha direção, com um sorriso rapidamente desfeito quando se dava conta de que uma moto se aproximava, tão rápido como uma bala. Eu não ouvia e nem via mais nada, nem mesmo tive tempo de gritar. Até perceber que havia algo atrás dela, mãos que empurravam seu frágil corpo para o lado oposto, o lado em que eu estava. Mãos salvadoras.

Tantam¹ = Apelido que Ayla dá a Tammy, que, veja bem, já tem um apelido.