Notas iniciais
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Eu estava no Centro Médico de Merlin, junto com a pequena Lana. Não houvera susto pior que aquele em minha vida. Felizmente tudo estava se normalizando, a menina não havia sofrido ferimentos graves, apenas pequenos arranhões. Sentou-se na maca, fiquei de pé ao seu lado. Eu sentia que ela estava apavorada, não queria falar nada, se dirigia a mim com o olhar triste e logo abaixava a cabeça.

— Está tudo bem, não precisa ficar desse jeito — eu passava a mão levemente sobre sua cabeça.

— Eu senti a morte —, ela dizia com a voz meio trêmula. Olhou em meus olhos e depois me abraçou. — Me perdoa por não te escutar. Talvez pensasse que eu a reprimiria por ter atravessado a rua sem prestar atenção e nem mesmo olhar para os lados. Eu constantemente brigava com ela e estava sempre estressada sem muitos motivos.

— Eu te perdoo se você me prometer que irá tomar mais cuidado — ela apenas acenou com a cabeça. — Muito bem! — eu estava prestes a chorar. Se algo acontecesse a Lana eu nunca me perdoaria.

O doutor chegou e receitou alguns medicamentos para ansiedade e para os ferimentos. Lana foi finalmente liberada e saímos do quarto do hospital. Liguei para um táxi e ficamos esperando na recepção do estabelecimento.

— Você avisou à Luiza? — perguntou Lana. Fiz que sim. — E a minha mãe?

— Todos já sabem Lana — respondi. Ela ficou apavorada, pensando na repressão que todos fariam. Sua mãe era muito rígida e a menina tinha muito medo dela. — Você não precisa ficar assim, vão ficar felizes por saber que você está bem e segura.

Fiquei tentando acalma-la até que fomos avisadas que o táxi havia chegado. Entramos no carro e seguimos até em casa. Depois que eu a levasse até a sua mãe, sairia para comprar o que precisava. O que importava naquele momento é que ela chegasse em seu lar, sã e salva.

Enquanto estávamos no veículo eu não parava de pensar em tudo que havia acontecido. O pânico de ver aquela cena bem a minha frente e o estalar de sinos em minha cabeça. O filme em câmera lenta que fazia um rápido conjunto de pensamentos pessimistas e enlouquecedores. Quando um vulto veloz, algo inexplicável até aquele momento, pôde livrar toda aquela terrível tragédia se concretizar. As mãos de um jovem, um herói aos meus olhos, afastou a pequena Lana do perigo. Um ato de coragem que eu nunca conseguiria agradecer.

Pude correr até o local e puxar a criança da pista asfaltada, ela estava quase desacordada. Logo depois fui ver como estava o garoto, que caiu ao empurrá-la. Perguntei como ele estava e não obtia resposta. O rapaz se levantou me ignorando e andou até a calçada, onde estávamos seguros. O motociclista havia caído um pouco para o lado ao tentar frear, mas foi tão covarde que seguiu seu caminho sem rumo.

Chequei se Lana estava bem, em seguida olhei rapidamente para o meu venerado herói, o silencio reinava naquele momento. ‘’Obrigada’’ eu conseguia dizer. Ele apenas acenava com a cabeça. Eu estava desesperada com aquela situação, chorava sem parar. Peguei meu celular e liguei para uma ambulância a fim de que socorressem os dois. Pude ver o garoto se levantando bruscamente e a correndo para o outro lado da pista, percebi que havia uma moto estacionada na calçada. Eu gritei, mas ele fingiu não ouvir, subiu na garupa e seguiu seu caminho.

Eu estava boquiaberta com o que acabara de presenciar. Ele parecia não ser de muito papo, mas nem mesmo se expressou ou falou uma palavra. Tentei esquecer o ocorrido e me preocupar com a garotinha que estava junto a mim. Em alguns minutos chegou nossa assistência, que nos levou ao hospital.

Lana sacudia meu corpo até eu perceber que já estávamos em frente a minha casa. Saímos do carro e paguei o motorista. Tarsila, mãe de Lana, talvez estivesse lá esperando a filha junto a minha família. Entramos e fomos recebidas, a garotinha foi abraçada por todos e mimada por sua mãe, que ficou abraçando seu pequeno corpo por vários minutos a acolhendo em seus braços.

Depois houve uma pequena discussão, tanto de Tarsila quanto de Luiza que a penalizavam. Eu tentava acalmar a situação. Logo as coisas se normalizaram. A única que deveria ser reprimida tinha de ser eu, por não ter deixado a aula e saído no horário. Se não fosse aquele estranho, tudo poderia ter sido diferente. Era muito ruim pensar naquilo. Saí para comprar os medicamentos da menina e voltei em um pulo — as farmácias eram bem próximas de casa.

Cheguei e ainda peguei um pouco da conversa. Falávamos dos exames do vovô e estava tudo parcialmente bem. Ele notou que sua cadeira estava limpa e um pouco molhada, já desconfiando que eu houvesse lavado, mas não reclamou dessa vez. Ficamos conversando até as nove. Tarsila despediu-se de nós, depois Lana fez o mesmo. Eu e Laura fomos terminar de arrumar a cozinha, Ênio assistia à novela com Luiza enquanto comiam os bolinhos de trigo de Tarsila. Começamos a ouvir o som.

— De novo, esse cara tocando essa guitarra chata — dizia Luiza tapando os ouvidos. — Como vou assistir a novela com esse barulho?

— Nossa como você exagera, eu mal consigo ouvir — eu disse.

— É por que você é uma surda e lerda que não consegue perceber nada! — ela gritava.

— O que você quer dizer com isso? — perguntei.

— Você sabe muito bem — Ela disse e deu de ombros. — sorte da Lana que esse tal estranho apareceu.

— Não fale assim com a sua irmã — disse o vovô. Ele murmurava algumas coisas em seu ouvido.

Logo pude perceber o que ela queria dizer. Insinuava que eu era culpada e irresponsável. Retirei-me dali, não queria ouvir mais nada e nem brigar com ela de novo na mesma semana. Dirigi-me até o quarto, tranquei a porta e pus-me a chorar. Eu realmente era irresponsável e não fazia nada direito. Já estava terminando o curso na UME e tive que refazer várias vezes algumas matérias; nem era nada muito complicado. Levo uma vida leve e ando sempre distraída. Eu sou péssima.

Do meu quarto eu conseguia ouvir melhor o som, eu amava aquele som, tanto da guitarra como do violão... O completo músico que era meu vizinho do lado direito. Suas composições muitas vezes eram tristes, como a do momento. Algumas vezes se percebia violência nas notas, mas logo conseguiu manter tranquilidade, fazendo eu me sentir melhor, isso era incrível. Não nos conhecíamos, na verdade ninguém o conhece nem mesmo o vê, só se sabe que é um garoto solitário. Uma pessoa misteriosa. Até parecia um fora da lei.

Tudo isso me fez lembrar do garoto que salvou Lana, eu ainda lembrava seu rosto, tinha uma feição bonita, mas ao mesmo tempo cansada; havia olheiras ao redor dos olhos e seus lábios estavam um pouco ressecados. Seu cabelo era liso ondulado e parava nos ombros. Fiquei imaginando mais detalhes e quando percebi já estava com meu caderno nas mãos, peguei um lápis e comecei desenhando seus traços. Quando acabei fiquei observando por um tempo, ficou bem próximo do que eu imaginava. ‘’Obrigada’’ eu pensava. Sorri olhando pra obra. Esse estranho foi um herói, ele foi embora sem dizer nada. Será que ele estava bem agora?

Talvez eu nunca o veja novamente. Mas a verdade é que ele foi um verdadeiro anjo arriscando sua vida.

Livrei-me de meus devaneios e logo voltei para a realidade. Eu tinha alguns trabalhos acumulados para o outro dia e a noite toda para realiza-los. Organizei meus cadernos e liguei o computador. Enquanto ele atualizava, fui até a cozinha preparar um café. Encontrei com Luiza bebendo água. Percebi que ela estava um pouco desconfiada. Não falei nada, continuei com o que eu estava fazendo, já estava colocando a água para ferver quando ela disse:

— Me perdoa por ter falado aquilo pra você — hesitou por um instante —, sei que deve estar chateada comigo ou se culpando, se fosse eu no seu lugar estaria do mesmo jeito. — Eu apenas escutava enquanto colocava o pó na água — Poderia ter acontecido com qualquer um. Eu ainda fui idiota de te pressionar.

— Está tudo bem — foi o que eu disse. Ela me olhou e deu um sorriso amarelo. — Eu me sinto culpada mesmo, e ninguém vai tirar isso de mim.

— Eu sei que você se sente assim. Mas, saiba que acidentes acontecem a todo momento e ninguém pode prever.

— Sei disso, porém é difícil, quase impossível não sentir culpa. — Ela concordou comigo.

Ficamos conversando sobre isso e logo estávamos de bem novamente. Eu sempre a perdoava, não havia motivos para que ficássemos com raiva uma da outra. Luiza foi para o seu quarto e eu continuei na cozinha. Coloquei café em duas canecas, andei até o quarto do vovô e lhe dei uma delas. Ficamos conversando um pouco e voltei para meu quarto terminar meus afazeres. Quando bebi um gole do café, senti que estava meio frio, desisti dele e foquei nos trabalhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.