Cupcake
29 Vida nova

Jungkook estava devastado com o término. Não conseguia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Horas antes, havia se sentido a pessoa mais feliz do mundo por finalmente ter encontrado o pai que acreditou estar morto durante toda a vida. Agora, sentia como se tudo estivesse desmoronando ao mesmo tempo.
Jin tentava consolá-lo da melhor forma possível, embora também estivesse abalado. A revelação de que Namjoon era justamente o homem que estava tentando comprar a Magic Shop o havia pegado completamente de surpresa. Nunca imaginou que os caminhos deles se cruzariam daquela maneira, muito menos que acabariam envolvidos em um problema que afetava diretamente a felicidade de Jungkook.
Obviamente, a situação financeira da confeitaria não era culpa de Namjoon. A Magic Shop já enfrentava dificuldades muito antes de ele aparecer. Porém, Namjoon tinha interferido diretamente na única oportunidade real que Jimin possuía para salvar a loja. Ele havia manipulado o resultado do concurso para impedir sua vitória, deixando Jimin cada vez mais encurralado e sem alternativas além da venda. Jungkook tinha plena consciência disso, e era justamente esse pensamento que o atormentava. Pela primeira vez desde que conheceu o pai, começou a sentir medo. Medo de que Jimin estivesse certo. Medo de que o homem que tanto desejou conhecer talvez não fosse a boa pessoa que ele queria acreditar que fosse.
Ouviu alguém bater na porta do quarto. Era Jin.
— Entra... — respondeu com a voz abafada pelas cobertas.
— Kookie, meu amor, você não pode ficar assim. Precisa se levantar. Se entregar à tristeza não vai resolver nada. — Jin se aproximou da cama e sentou-se na beirada, olhando o filho com preocupação.
— Eu perdi meu namorado... perdi o emprego que eu tanto gostava... perdi meus amigos... — Jungkook suspirou profundamente, sentindo o peito apertar a cada palavra.
— Tenha um pouco de fé. Isso tudo ainda vai se resolver. Só dê um tempo para que o Jimin consiga processar o que aconteceu. — Jin falou com suavidade, acariciando seus cabelos. — Ele ainda ama você, disso eu tenho certeza. E também tenho certeza de que essa história está longe de acabar.
— Será mesmo? — Jungkook perguntou em voz baixa, sem conseguir esconder a esperança misturada ao medo.
— Claro que sim. — Jin sorriu de forma reconfortante. — O Jimin está assustado, só isso. Tudo aconteceu muito rápido para ele. Quando a poeira baixar, vocês vão conversar, vão se entender e você vai voltar para a Magic Shop como sempre fez.
Jungkook se sentou na beira da cama, abatido e sem energia para fazer qualquer coisa. Ainda estava de pijama, apesar de já estar quase na hora do almoço. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar e ele parecia ter envelhecido anos em apenas alguns dias.
— O meu pai... o Namjoon... ele é uma pessoa ruim?
Jin suspirou ao ouvir a pergunta. Tinha inúmeros motivos para guardar mágoa de Namjoon e poderia facilmente passar horas listando tudo o que ele havia feito de errado. Mas, gostasse ou não, Namjoon também era pai de Jungkook. E a última coisa que queria era fazer o filho carregar o peso das feridas que pertenciam apenas a eles dois.
— Eu jamais teria me apaixonado por alguém ruim. — Jin respondeu após alguns segundos de silêncio. — O Namjoon é uma boa pessoa, Kookie. Mas, como qualquer ser humano, tem defeitos. Ele sempre foi extremamente obstinado, determinado e ambicioso. É o tipo de pessoa que enxerga vários passos à frente e faz de tudo pra proteger os negócios e o legado da família. Eu acredito que ele realmente me amava, da mesma forma que eu o amava. Mas o amor que sentia por mim não foi suficiente para fazê-lo abrir mão de tudo e escolher ficar ao meu lado. — Jin baixou os olhos por um instante antes de continuar. — Então não, ele não é uma pessoa ruim. Só foi um namorado muito ruim.
— Ele fez o meu Chim perder aquele concurso só para conseguir comprar a loja... manipulou toda a situação. — Jungkook falou com os ombros caídos e o olhar perdido em algum ponto do chão. A tristeza estampada em seu rosto fazia seu coração parecer ainda mais pesado.
— Olha, meu amor, eu não entendo absolutamente nada de negócios. Não é a minha área. Eu trabalho com moda e, ao longo da vida, aprendi uma coisa: ou você come ou você é comido. — Jin soltou uma risadinha ao perceber o duplo sentido da frase. — E não estou falando da forma que você está pensando. No mundo dos negócios, imagino que isso seja ainda mais cruel. Não existe muito espaço pra compaixão ou sentimentalismo. Milhares de pessoas dependem das decisões que o Namjoon toma todos os dias. Talvez exista algo nessa história que você ainda não conhece. Talvez ele tenha motivos que nós não entendemos. Por isso, antes de julgá-lo, converse com ele e pergunte diretamente. E não vou mentir dizendo que adoro ver vocês dois juntos, porque isso seria uma grande mentira. — Jin cruzou os braços e sorriu de canto. — Mas ele é seu pai, e você merece conhecê-lo de verdade antes de decidir quem ele é.
— Nós temos almoçado juntos várias vezes... — Jungkook passou a mão pelos cabelos, pensativo. — Mas nunca falamos sobre trabalho ou negócios. As conversas sempre eram sobre nossas vidas, nossas histórias, nossos gostos pessoais... coisas para nos conhecermos melhor. — Ele suspirou profundamente. — Mas o senhor tem razão. Antes de tirar qualquer conclusão, preciso ter uma conversa franca com ele.
…
Jungkook vestiu algumas roupas mais formais e foi até o escritório de Namjoon. O prédio era gigantesco, revestido por enormes painéis de vidro espelhado que refletiam o céu e os prédios ao redor. Jungkook ergueu a cabeça para observar o topo e ficou impressionado. Não era como se nunca tivesse visto arranha-céus antes, mas saber que aquele império inteiro pertencia ao seu pai ainda parecia algo difícil de acreditar.
Ao chegar à recepção, informou educadamente que precisava falar com Namjoon. A recepcionista, porém, soltou uma risadinha ao ouvir aquilo, claramente achando graça da audácia de alguém que aparecia sem agendamento querendo conversar com um dos CEOs mais influentes e ricos da Coreia.
Jungkook revirou os olhos discretamente, tirou o celular do bolso e discou o número de Namjoon.
— Jungkook? Filho? Está tudo bem? — A voz de Namjoon soou imediatamente preocupada e surpresa com a ligação.
— Ah... está tudo bem, sim, Namjoon. — Jungkook ainda não conseguia chamá-lo de pai com naturalidade. — Eu to aqui na recepção do seu prédio e precisava conversar com o senhor, se não estiver ocupado. O problema é que a moça não quer me deixar subir.
A recepcionista, que antes parecia desinteressada, agora observava a ligação com crescente curiosidade.
Não se passaram nem cinco minutos quando o próprio Namjoon apareceu na recepção. Todos ao redor imediatamente voltaram a atenção para ele. Funcionários cochichavam, alguns se levantavam discretamente para olhar melhor. Era raro vê-lo ali. Na maioria das vezes, ele enviava sua secretária para resolver qualquer assunto.
— Ele é meu filho. — Namjoon falou com firmeza, olhando diretamente para a recepcionista. — E tem livre acesso a este prédio, a qualquer horário e para qualquer lugar.
A mulher ficou completamente sem palavras. Seus olhos alternavam entre Namjoon e Jungkook, tentando processar aquela informação. Até onde todos sabiam, o CEO nunca havia tido filhos.
— Venha, Jungkook. — Namjoon colocou uma mão em suas costas, conduzindo-o para os elevadores. — Vamos conversar no meu escritório.
Obviamente, o escritório de Namjoon era ainda mais luxuoso do que o restante do prédio. Uma enorme parede de vidro ocupava quase toda a extensão do cômodo, oferecendo uma vista impressionante de Seul lá do alto. A decoração seguia uma paleta sóbria de cinza, prata e branco. Não havia cores vibrantes, quadros chamativos ou objetos extravagantes. Tudo era elegante, discreto e extremamente organizado.
— Sente-se, filho. — Namjoon o guiou até um sofá grafite posicionado próximo à janela. Jungkook se acomodou e imediatamente percebeu o quão confortável ele era, afundando levemente nas almofadas macias.
Poucos instantes depois, uma funcionária bateu na porta e entrou carregando uma bandeja com duas xícaras de café fumegante e um prato de biscoitos finos. Depositou tudo sobre a mesa de centro e saiu em silêncio.
— Tome um pouco de café. O café daqui é excelente. — Namjoon empurrou a bandeja em sua direção com um sorriso discreto.
— Obrigado. — Jungkook pegou uma das xícaras e tomou um gole. O sabor era realmente muito bom, mas ele mal conseguiu prestar atenção nisso. Ainda se sentia intimidado por estar ali. Ver Namjoon naquele ambiente, cercado por tanto poder e prestígio, reforçava a sensação de que pertenciam a mundos completamente diferentes. — Não quero tomar muito do seu tempo... mas preciso lhe dizer uma coisa.
— Você é minha prioridade, Jungkook. — Namjoon respondeu com sinceridade antes de pegar sua própria xícara. — Mas diga o que está pensando. Estou te ouvindo.
Jungkook respirou fundo e contou toda a história. Falou sobre seu trabalho na Magic Shop, explicou que seu tão amado namorado era o proprietário da confeitaria e relatou tudo o que havia acontecido nos últimos meses. Contou sobre as dívidas da loja, sobre o concurso manipulado, sobre a tentativa de compra da propriedade e, por fim, sobre o término doloroso que havia acontecido por causa de toda aquela situação.
A princípio, Namjoon apenas o observou em silêncio, claramente surpreso. Imediatamente se lembrou do jovem confeiteiro que havia entrado em seu escritório semanas antes e lhe dito verdades que ninguém tinha coragem de falar. Recordou-se da determinação no olhar de Jimin, do quanto ele defendia aquela loja e dos sentimentos que carregava por ela. Um aperto desagradável tomou conta de seu peito ao perceber que o homem que seu filho amava era justamente alguém que o odiava. E, pela primeira vez, Namjoon admitiu para si mesmo que Jimin tinha motivos para isso.
— Eu sinto muito por tudo isso, Jungkook. Mas... eu realmente precisava fazer o que fiz. Preciso daquela propriedade. Se esse projeto não acontecer, haverá prejuízos gigantescos. Alguns dos meus sócios podem falir, investidores perderão milhões e isso pode resultar em demissões em massa. Não é uma decisão simples.
Jungkook compreendia perfeitamente o peso daquelas palavras. Afinal, também era gestor e entendia como funcionava o mundo dos negócios. Sabia que decisões empresariais raramente eram pessoais e quase sempre envolviam consequências que afetavam milhares de pessoas. Por mais que doesse admitir, conseguia enxergar a lógica por trás das ações de Namjoon.
— Eu entendo o seu lado — respondeu após alguns segundos. — Mas ele é meu namorado. É o homem que eu amo. Não consigo olhar pra isso apenas como uma negociação ou um problema empresarial.
Namjoon sorriu com tristeza e colocou a mão sobre o ombro do filho.
— Como empresário, eu deveria dizer para você separar sentimentos de negócios. Mas como homem... como alguém que amou o seu pai e se arrependeu das próprias escolhas durante mais de vinte anos... eu entendo exatamente o que você está sentindo. Eu escolhi o caminho errado quando tive a oportunidade de ficar com o amor da minha vida. E paguei por isso todos os dias desde então. Não houve uma única manhã em que eu não sentisse falta do Jin. Por isso, se existe algo que aprendi, é que algumas pessoas valem mais do que qualquer negócio. Lute pelas suas prioridades, Jungkook. E tenha coragem de sustentar as escolhas que fizer.
Jungkook permaneceu em silêncio, refletindo sobre aquelas palavras. Seus olhos estavam baixos e sua mente parecia distante. Namjoon observava o filho atentamente, percebendo o quanto aquela situação estava machucando ele.
— Filho... — chamou após alguns instantes. — Eu sei o quanto você ama o Senhor Park. E também sei que preciso encontrar uma solução pra esse problema. Por isso, estive pensando em uma alternativa... — Namjoon fez uma breve pausa antes de continuar. — Por que você não vem trabalhar comigo?
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