Cupcake

9 Entrevista



Jungkook sentia as mãos suarem e levemente tremerem. O nervosismo tomava conta do seu corpo de um jeito quase absurdo. Nunca, em toda sua vida, havia ficado tão ansioso por uma entrevista de emprego, mesmo já tendo passado por salas luxuosas, cercado de executivos frios, CEOs renomados e entrevistas que poderiam definir seu futuro em multinacionais.

Mas ali era diferente.

Ali, ele não estava tentando impressionar um empresário qualquer. Ele ia encarar Jimin. O chef confeiteiro que havia mexido com sua mente desde o primeiro olhar, e que agora seria seu entrevistador.

Mesmo sendo uma simples entrevista para um cargo administrativo numa pequena confeitaria, Jungkook sentia o coração bater com tanta força que parecia ecoar nos ouvidos.

— Como estou? — perguntou, virando-se para o espelho mais uma vez.

— Perfeito e lindo… como seu pai, — respondeu Jin com um sorriso orgulhoso, alisando o próprio cabelo. Mas, por um breve momento, ao ver o filho arrumado com roupa social, cabelos penteados para trás com gel, o coração de Jin apertou. Ele viu ali um reflexo de Namjoon. E o passado lhe soprou uma lembrança que preferia não reviver agora.

Jungkook respirou fundo, ajustando os punhos da camisa.

— Minha sorte é que tive um pai lindo, por isso nasci lindo também, — disse, tentando disfarçar o nervosismo com uma risada.

— Está brincando, mas eu sei que está nervoso, — disse Jin, agora com um tom mais sério e carinhoso. — E não é por causa da entrevista. Te conheço o suficiente pra saber que você é seguro, determinado, confiante quando se trata da sua carreira. Me diga, filho… esse nervosismo é por acaso culpa de um certo confeiteiro loirinho?

— Pai! — Jungkook arregalou os olhos, indignado.

— Ah-há! — Jin riu, triunfante. — Então é mesmo!

— Como eu disse antes… — Jungkook soltou o ar devagar, tentando organizar os pensamentos. — O Jimin tira a minha concentração. Confesso que quero trabalhar lá pra ficar mais perto dele, conhecê-lo melhor. Sei que isso pode parecer errado, ou impulsivo, mas… eu realmente não sei como me aproximar dele de outra forma.

— “Olá, Jimin, o que acha de sairmos para algum lugar legal?” — Jin imitou, tentando copiar a voz do filho de forma caricata. — É simples, na verdade. Você é quem complica tudo.

Jungkook suspirou, revirando os olhos.

— Tá… mas eu quero fazer do meu jeito. Quero me aproximar com calma, fazer amizade, entender quem ele é de verdade, e daí então…

— Daí então você ataca ele na cama? — interrompeu Jin com um sorrisinho malicioso.

— Meu Deus, Pai! — Jungkook arregalou os olhos, escandalizado. — Não é só isso que eu quero! Você é um pervertido.

— Não sou pervertido, sou realista, — retrucou Jin com toda a calma. — Enfim… só espero que você consiga o que quer, seja um encontro, um namoro ou uma amizade que evolui. Só tenha certeza do que você quer também, meu amor.

Jungkook assentiu, os olhos brilhando.

— Por isso quero ir com calma, pai. Desde o dia em que conheci ele, não consigo parar de pensar. Ele me deixou curioso, leve, nervoso… tudo ao mesmo tempo. Nossa… — sorriu, olhando pro nada como se Jimin estivesse passando por ali — isso é tão… gostoso de se sentir. Quero ver ele logo.

Jin colocou as mãos na cintura, com o peito estufado como um treinador animado.

— Então vai lá e arrasa, filhão! Rouba o coração desse confeiteiro antes que outro se apaixone pelo cheirinho de baunilha dele primeiro!

Jungkook riu alto, balançando a cabeça, sentindo a energia positiva do pai o invadir como um abraço invisível.

Fez os últimos ajustes no visual, passou o perfume favorito, pegou as chaves do carro e, antes de sair, virou-se uma última vez.

— Valeu, pai. Por tudo.

— Só volta com boas notícias… e, se possível, com uns docinhos.

Jungkook sorriu e saiu, sentindo no coração que algo bom estava prestes a começar.

Jungkook estava sentado em uma pequena sala de espera em frente ao escritório de Jimin, as mãos cruzadas no colo, os pés balançando com impaciência. Já tinha perdido a conta de quantos cafés havia tomado, e a cafeína parecia estar piorando tudo. O coração batia acelerado, a perna não parava de se mover, e os pensamentos estavam em desordem.

Via pessoas entrando e saindo da sala de entrevistas, uma a uma. Restavam apenas ele e mais dois candidatos. Foi então que a porta do escritório se abriu, e Jimin surgiu no batente. E naquele instante, Jungkook teve certeza de que sua alma abandonaria o corpo.

Jimin estava diferente. Nada de dolma, nada de farinha no rosto ou avental amarrotado. Ele usava roupas sociais. Uma camisa branca bem ajustada, calça escura e sapatos elegantes. Os cabelos loiros estavam perfeitamente sedosos, caindo suavemente sobre a testa, e o toque final, os óculos de armação grossa, dava a ele um ar sério, inteligente, e perigosamente encantador.

Jungkook quase esqueceu como se respirava. Jimin olhou para a prancheta em mãos e então ergueu os olhos, sorrindo levemente.

— Olá, Jungkook. Você realmente veio, — disse Jimin, abrindo um sorriso gentil, mas com uma pontinha de surpresa nos olhos. — Venha, entre…

Jungkook entrou devagar, tentando manter a compostura. Sentia as mãos suadas e o coração batendo em uma cadência fora do normal. Jimin entrou logo atrás e fechou a porta com calma.

— Claro que eu viria. Quero muito você… digo, quero muito trabalhar com você, — ele corrigiu rapidamente, forçando um sorriso sem graça, as bochechas já entregando o rubor.

Jimin deixou escapar uma risadinha ao vê-lo tão desconcertado.

"Ele parece nervoso… estranho, pelo currículo dele deveria estar calmo. Já trabalhou em empresas grandes," — pensou, observando-o com mais atenção.

— Venha, sente-se aqui. Fique à vontade, — Jimin disse, apontando para a cadeira em frente à sua mesa. — Eu não mordo, — completou, rindo leve, tentando quebrar o gelo.

Jungkook sentou-se com um sorriso tímido, mas por dentro seu cérebro virou caos.

"Não ligaria que me mordesse… droga, o que eu tô pensando?" — pensou, desesperado.

E então, sem filtro, sem freio, as palavras escaparam.

— Mesmo se mordesse, eu não ligaria…

O silêncio pairou no ar por um segundo. Jungkook piscou. Jimin arregalou levemente os olhos.

— Digo! Não foi isso que eu quis dizer! Quer dizer… eu… é… desculpa… — Jungkook tentava se explicar, mas as palavras saíam emboladas, como se tropeçassem umas nas outras. — Eu só tô um pouco nervoso…

Jimin o observava, tentando conter o riso. Jungkook afundou um pouco mais no encosto da cadeira.

— Tudo bem, — Jimin disse com um sorriso tão doce, tão genuinamente meigo, que em vez de acalmar Jungkook, fez seu coração acelerar ainda mais. Aquilo não estava ajudando. — Vem cá, levante-se um pouquinho, — pediu Jimin, fazendo um gesto com a mão.

Jungkook franziu o cenho, confuso, mas obedeceu. Levantou-se lentamente, tentando não parecer desajeitado.

Foi então que Jimin se aproximou e pegou suas mãos com delicadeza. As mãos dele eram pequenas, quentes e incrivelmente macias. A arritmia de Jungkook quase o matou ali mesmo.

— Fecha os olhos e respira fundo, bem devagar, — disse Jimin, calmamente, guiando-o com o tom suave de voz. Ele próprio inspirava e expirava em um ritmo lento, para que Jungkook pudesse acompanhá-lo.

Jungkook fechou os olhos, tentando focar na respiração, mas era impossível ignorar o perfume suave de baunilha que envolvia Jimin. Aquele aroma doce invadia seus sentidos, e a voz dele — baixa, aveludada — parecia um canto de pássaro embalando seus pensamentos. As mãos segurando as suas traziam calor, conexão, um toque quase íntimo.

"Ele só tá tentando me ajudar… eu preciso me concentrar. Respira, Jungkook. Respira!"

Ficaram assim por alguns minutos, até que finalmente o peito de Jungkook não parecia mais tão apertado. O nervosismo ainda estava ali, mas bem mais domado.

— Melhorou? Se sente melhor? — perguntou Jimin, abrindo um sorriso encantador. Os olhinhos dele se curvavam, quase fechando, e aquilo desarmava qualquer um.

Jungkook abriu os olhos devagar e tentou não se perder naquele rosto de anjo.

— Sim… me sinto melhor, — respondeu, com um sorriso que tentava disfarçar a agitação interna. Por dentro, o coração ainda batia como se corresse uma maratona.

— Minhas técnicas são infalíveis, — Jimin riu, recuando um pouco. — Quando o Yoonie tá muito nervoso, faço a mesma coisa com ele. Funciona sempre.

— Você tem mãos perigosas… — Jungkook murmurou baixo, quase sem perceber que tinha dito em voz alta.

— O quê? — Jimin arqueou a sobrancelha, rindo.

— Nada… só agradecendo mesmo, — Jungkook desconversou, voltando a sorrir.

— Vou pegar um pouco de água pra você, — disse Jimin, ainda com o sorriso no rosto, se afastando. — Fica aí e respira mais um pouco. Nada de infartar na minha entrevista, por favor.

Jungkook riu baixinho, observando-o sair.

Jimin foi até o canto da sala, e Jungkook não conseguiu evitar: seus olhos o acompanharam o tempo todo. Observava cada passo, cada movimento suave, como se estivesse hipnotizado.

Alguns minutos depois, Jimin voltou com um copo d’água cuidadosamente acomodado em uma bandejinha de vidro. Entregou a ele com um sorriso gentil, e uma piscadinha que atingiu Jungkook como um raio.

— Beba. Água ajuda a acalmar… e hidratar, — disse com leveza.

— O-obrigado, — respondeu Jungkook, desviando os olhos e dando um gole. O toque, o olhar, o tom — tudo em Jimin o deixava ainda mais nervoso.

— Bem, agora que você está mais calmo e hidratado… podemos começar? — Jimin perguntou com um sorrisinho.

— Estava nervoso, mas agora estou bem. Consigo sim, — respondeu com um aceno de cabeça.

— Poderia dizer que é a sua primeira vez… — brincou Jimin, mordendo discretamente o canto dos lábios.

— Não, não… já tenho bastante experiência. Mas… é a primeira vez com alguém como você.

Jimin ergueu as sobrancelhas, divertindo-se.

— Alguém como eu?

— Tão doce… e simpático, — Jungkook completou com sinceridade.

— Também sou novo do outro lado, sabe? É estranho ser eu quem mando, — Jimin riu, levemente envergonhado.

— Confesso que tô ansioso pelas suas ordens, — respondeu Jungkook com um sorriso de canto, que fez Jimin se remexer na cadeira.

— Bom, pra isso… precisamos das preliminares. Digo, da entrevista, — Jimin limpou a garganta, sentindo o rosto esquentar. — Você se candidatou para ser meu fixo. Quer dizer, meu funcionário fixo, certo?

— Isso. Se eu passar, começo com três meses de experiência… e pode ter certeza que vou me esforçar ao máximo para te satisfazer, digo, para fazer um ótimo trabalho. Na loja. Com os clientes. E os doces, — Jungkook se enrolou, a voz falhando no fim.

Ele respirou fundo, tentando acalmar o corpo, que começava a esquentar de novo.

“Quero te beijar” — pensou, mas engoliu as palavras.

Jimin, por sua vez, desviou os olhos, também buscando foco.

“Meu pai amado, como eu quero sentar nesse homem” — Jimin limpou a garganta, tentando manter o foco.

— Vamos começar a entrevista, — disse, mordendo os lábios antes de se ajeitar na cadeira, tentando retomar o profissionalismo que, claramente, já estava por um fio.