Cupcake
28 Descobertas

Jimin precisou se sentar. As pernas ficaram fracas de repente, e uma tontura desagradável o obrigou a apoiar os cotovelos sobre a mesa da cozinha. Seus olhos continuavam presos à tela do celular, encarando a foto que Jungkook havia enviado.
Aquilo não podia estar acontecendo. De todas as pessoas do mundo, o pai de Jungkook tinha que ser justamente Kim Namjoon. Aquele Kim Namjoon. O homem que estava tentando comprar a Magic Shop a qualquer custo. O homem que praticamente decretou a falência da loja. O homem que Jimin havia chamado de frio, egoísta e incapaz de entender o valor das coisas. Agora era seu sogro.
Jimin fechou os olhos e levou uma mão à testa, tentando organizar os pensamentos. Será que Jungkook sabia? Será que Namjoon sabia que o namorado do próprio filho era o dono da loja que ele tanto queria comprar?
As perguntas se atropelavam em sua cabeça.
Por impulso, pegou o celular novamente. Seus dedos chegaram a abrir a conversa com Jungkook. Queria contar tudo e avisá-lo imediatamente, mas parou. Olhou para a foto mais uma vez, Jungkook estava tão feliz. Aquele sorriso enorme, as covinhas aparecendo e os olhos brilhando. Ele havia passado mais de vinte anos acreditando que o pai estava morto, e agora tinha a chance de conhecê-lo. Independentemente de quem Namjoon fosse ou do que queria fazer com a Magic Shop, ele ainda era o pai de Jungkook. E aquele momento era importante demais para ser destruído.
Com um suspiro pesado, Jimin guardou o celular. Contaria depois, quando fosse a hora certa.
…
Na manhã seguinte, Jungkook chegou à confeitaria irradiando felicidade. Seu sorriso parecia ainda maior que o normal.
Assim que entrou na cozinha, encontrou Jimin preparando um recheio e abriu os braços.
— Bom dia, grande amor da minha vida!
Antes que Jimin pudesse reagir, Jungkook já o abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro.
— Kookie! — Jimin deu um pequeno salto de susto.
A colher quase escapou de sua mão.
— Chim? — Jungkook se afastou imediatamente, preocupado. — Tá tudo bem?
Jimin piscou algumas vezes antes de responder.
— Eu só... me assustei.
Jungkook sorriu, aliviado.
— Achei que tinha acontecido alguma coisa.
Ele voltou a abraçá-lo naturalmente, mas dessa vez Jimin se afastou alguns passos.
— Kookie... agora não. Se continuar me agarrando desse jeito, eu vou acabar queimando nós dois.
Jungkook piscou, confuso. Normalmente Jimin adorava aquele tipo de carinho. Resolveu não insistir, talvez ele estivesse apenas estressado. A situação da loja não estava fácil ultimamente.
— Quer ajuda, amor?
— Não precisa. — Jimin voltou sua atenção para a panela. — É só uma encomenda grande.
Tentou soar natural, mas Jungkook percebeu algo diferente. Havia uma distância estranha, uma frieza incomum. Como se Jimin estivesse com a cabeça em outro lugar.
— Tem certeza que tá tudo bem? — perguntou com cuidado.
Jimin forçou um sorriso.
— Tenho. Quando eu terminar aqui, a gente tira um tempinho só pra nós, tá bom?
Jungkook relaxou um pouco.
— Eu já estou com saudade.
O sorriso apaixonado que deu em seguida fez o coração de Jimin apertar.
— Eu também estou com saudade... — Jimin respondeu, forçando um sorriso antes de mudar de assunto. — Mas me conta, como foi o jantar com seu pai ontem?
Os olhos de Jungkook imediatamente brilharam.
— Foi incrível, Chim! Sério, incrível! — Ele apoiou os braços na bancada, empolgado como uma criança contando uma novidade. — Ele é muito inteligente. Parece que sabe um pouco de tudo. Já viajou para vários países, fala sobre lugares do mundo inteiro como se tivesse acabado de voltar deles, e ainda estudou em Harvard!
Jungkook soltou uma risada, balançando a cabeça.
— Eu fiquei ouvindo ele falar e pensando: "Caramba, esse homem é meu pai".
Jimin sentiu uma pontada incômoda no peito.
— Entendo...
— Quero conhecer ele melhor. Saber mais sobre a vida dele, sobre as coisas que ele fez, sobre quem ele é de verdade. — Jungkook sorriu. — E você também precisa conhecê-lo, amor.
— Preciso? — A pergunta saiu mais seca do que Jimin pretendia.
Jungkook piscou, surpreso. Jimin percebeu o tom imediatamente.
— Quer dizer... — corrigiu-se com um sorriso mais gentil. — Claro que vou gostar de conhecê-lo. Afinal, ele é seu pai.
A expressão de Jungkook voltou a se iluminar.
— Eu ficaria muito feliz com isso.
— É?
— Sim. Já falei bastante de você para ele.
Jimin sentiu o estômago apertar.
— Falou?
— Claro. Contei que você é lindo, talentoso, inteligente, trabalhador... — Jungkook abriu um sorriso apaixonado. — E também falei o quanto eu amo você.
O coração de Jimin amoleceu por um instante. Era impossível não amolecer quando Jungkook o olhava daquele jeito.
— Isso é... bom.
"Já nos conhecemos, querido namorado", pensou amargamente. "E nossa primeira conversa passou longe de ser agradável."
— Você falou da Magic Shop para ele? — perguntou, tentando soar casual.
— Ainda não. — Jungkook balançou a cabeça. — A gente acabou falando mais sobre família, relacionamentos, infância... essas coisas. Nem entramos muito em trabalho.
Jimin assentiu lentamente. Aquilo explicava muita coisa. Namjoon também ainda não sabia.
— Entendi...
Por alguns segundos, ficou mexendo distraidamente em alguns ingredientes.
— E ele é casado? O seu pai.
— Não. A esposa dele faleceu há alguns anos.
— Vocês têm irmãos?
— Não. Eles nunca tiveram filhos.
Jimin ergueu os olhos.
— Então você é filho único?
— Sou.
Jungkook respondeu naturalmente, mas estranhou a expressão que surgiu no rosto do namorado. Havia algo ali que ele não conseguia identificar. Antes que pudesse perguntar, resolveu mudar de assunto e dar mais espaço ao namorado, imaginou que estivesse atrapalhando ele de alguma forma.
— Amor, vou verificar aquela lista de fornecedores. Consegui contato com alguns e estou esperando retorno para marcar reuniões.
Jimin apenas assentiu. Jungkook se inclinou, beijou o topo de sua cabeça com carinho e caminhou para fora da cozinha.
Quando ficou sozinho, Jimin apoiou as duas mãos na bancada e fechou os olhos. Um nó doloroso se formou em sua garganta. Jungkook era filho único e herdeiro, o único sucessor de Kim Namjoon. Num dorama isso seria ótimo, ele é namorado de um herdeiro, um cara futuramente milionário, mas na vida real as coisas eram bem diferentes.
Jimin abaixou a cabeça.
"Então é isso… Meu namorado é o futuro herdeiro de uma das maiores empresas do país. Empresa essa que quer acabar com meu sonho, com meu patrimônio, com algo que eu batalhei muito e suei pra conseguir. Que romântico.”
Os dedos se fecharam ao redor da bancada.
"Quero só ver quanto tempo ele vai continuar trabalhando como CLT numa confeitaria à beira da falência."
…
No fim do expediente, quando os últimos funcionários já haviam ido embora e a confeitaria estava mergulhada em silêncio, Jimin chamou Jungkook para conversar.
Jungkook percebeu imediatamente que havia algo errado. Desde a manhã, Jimin estava estranho, distante e frio. Parecia carregar um peso enorme sobre os ombros.
Jimin tentou adiar aquela conversa o máximo que conseguiu. Não queria estragar a felicidade de Jungkook depois de finalmente encontrar o pai. Mas aquilo estava o consumindo por dentro. O medo e a insegurança se misturavam de forma sufocante, e ele percebeu que, sem querer, estava descontando tudo no homem que mais amava. Por isso tomou uma decisão que partiu seu coração.
— Precisamos conversar.
O sorriso que Jungkook carregava desapareceu na mesma hora.
— Aconteceu alguma coisa?
Jimin não respondeu imediatamente.
Caminhou devagar até a grande janela de vidro do escritório e ficou observando o jardim escuro do lado de fora. As luzes da rua iluminavam fracamente algumas flores, mas ele mal enxergava a paisagem. Sua mente estava longe dali.
— Sim... aconteceu. — Sua voz saiu baixa. — E nós não podemos continuar com isso.
Jungkook franziu a testa.
— Continuar com o quê?
Jimin fechou os olhos por um instante.
— Com esse namoro. Estou terminando com você.
Por alguns segundos, Jungkook simplesmente ficou parado, como se não tivesse ouvido direito. Como se o cérebro estivesse se recusando a processar aquelas palavras.
— O quê?
Jimin continuou olhando para a janela. Não conseguia encará-lo.
Jungkook atravessou a sala em poucos passos e segurou seu braço suavemente, obrigando-o a virar um pouco o rosto.
— Você tá terminando comigo? — Sua voz estava carregada de confusão. — Por quê?
— Porque eu… — As palavras ficaram presas na garganta. — Porque eu não tenho mais tempo para namorar. Estou ocupado demais com a loja.
Jungkook o encarou incrédulo.
— Jimin, pelo amor de Deus... não faz isso. — A voz dele começou a falhar. — Nós sempre demos um jeito. Sempre ajudamos um ao outro. Se você está ocupado, eu entendo. Nunca reclamei disso.
Jimin sentiu os olhos queimarem. Mas continuou insistindo naquela mentira.
— Não é só isso. — Engoliu em seco. — Talvez... eu simplesmente não goste mais de você.
Jungkook ficou em silêncio, então ergueu uma das mãos e segurou delicadamente o queixo dele, obrigando-o a encará-lo.
— Olha pra mim.
Jimin tentou desviar.
— Fala olhando nos meus olhos que não me ama mais.
Jimin sentiu as lágrimas se acumularem imediatamente, porque era impossível mentir daquele jeito.
— Eu… — Sua voz falhou. — Eu não… — Tentou novamente, mas as palavras simplesmente não saíam. Seu peito doía e sua garganta queimava. E então as lágrimas começaram a cair. — Eu não consigo dizer isso...
A confissão escapou junto com um soluço. No segundo seguinte, Jimin o abraçou com força, desesperadamente. Como se tivesse medo de que Jungkook desaparecesse.
Jungkook ficou imóvel por um instante, completamente confuso e perdido, mas retribuiu o abraço. Envolveu Jimin nos braços e começou a acariciar seus cabelos devagar. Sem entender o que estava acontecendo. Sem entender por que o homem que dizia querer terminar chorava como alguém que estava perdendo tudo.
— Você não consegue dizer isso porque me ama. — Jungkook enxugou uma das lágrimas que escorriam pelo rosto dele. — Assim como eu amo você.
A voz dele estava firme, apesar da preocupação evidente.
— Que ideia é essa de terminar comigo? Eu não vou aceitar isso se você ainda me ama. — Jungkook o afastou apenas o suficiente para conseguir vê-lo melhor. — O que tá acontecendo, Chim? Você tá me assustando. Aconteceu alguma coisa?
Jimin abaixou a cabeça.
— Kookie... eu preciso te contar uma coisa.
— Então me conta. — Jungkook segurou seu rosto entre as mãos. — Estou ouvindo.
Jimin fechou os olhos por um instante, reunindo coragem.
— É sobre o seu pai.
— O Jin?
— Não. — Sua voz saiu quase num sussurro. — O senhor Kim Namjoon.
Jungkook franziu a testa.
— O que tem ele?
— Você realmente não sabe quem ele é?
— Sei, é meu pai... ou pelo menos foi o que eu descobri recentemente. — A confusão em sua voz era genuína.
Jimin respirou fundo.
— Kookie... se você pesquisar o nome dele, vai encontrar milhares de resultados. O rosto dele quase nunca aparece porque ele evita a mídia, mas o nome é conhecido em todo lugar. Seu pai é um dos empresários mais influentes da Coreia. Talvez do mundo. Ele é o CEO da maior empresa de telecomunicações do país.
Jungkook ficou completamente imóvel, então começou a ligar os pontos e quando começou a entender tudo, seu coração afundou.
— Não… não... você tá dizendo que… — Ele sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — Meu pai é aquele CEO?
Jimin não respondeu imediatamente, porque a expressão de Jungkook já mostrava que ele tinha entendido. Os olhos dele se arregalaram, a respiração ficou irregular e então veio a pior parte, ele percebeu imediatamente o que aquilo significava. Seu pai era o homem que estava tentando comprar a Magic Shop, o mesmo que vinha pressionando Jimin há meses, o mesmo que roubou no concurso para Jimin perder e ficar totalmente dependente de sua proposta. Seu pai era o homem que lucraria com a queda da confeitaria. Jungkook deu um pequeno passo para trás. A visão ficou embaçada e o estômago revirou. Não queria acreditar que o homem que acabara de encontrar fosse justamente a pessoa que mais estava machucando Jimin.
— Não... — repetiu novamente, como se a palavra pudesse mudar a realidade. — Isso não pode estar acontecendo.
As lágrimas continuavam descendo pelo rosto de Jimin.
— Mas está acontecendo.
Jungkook levantou os olhos lentamente e encontrou o olhar destruído do namorado.
— É por isso que você tá terminando comigo?
Jimin assentiu, cada movimento parecia doer.
— Sim.
— Chim...
— Eu não consigo, Kookie. Eu te amo mais do que tudo. Mais do que imaginei ser capaz de amar alguém. Mas toda vez que eu olhar pra você... vou lembrar dele.
Jungkook sentiu o peito ser atravessado por aquela frase.
— Não faz isso...
— Eu preciso.
Jimin chorava abertamente agora.
— Porque se eu continuar com você, vou acabar te machucando. Vou acabar descontando em você coisas que não são culpa sua. E você não merece isso. Então eu… realmente estou terminando com você.
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