Cuidado, "Objetos" Frágeis e Cortantes.
1 Vamos, apenas atenda o celular!
Notas iniciais
Por enquanto é isso. Boa leitura >
Sem sono, de novo. Como nas três noites anteriores eu não consigo dormir.
Todos os problemas borbulhando em minha mente, e tudo que consigo é ficar deitada em minha cama, com todas as cobertas embaixo de mim, e agarrada a um travesseiro que já está absorvendo e secando minhas lágrimas que nem escorrem mais por meus olhos castanhos. Nesse momento eles estão fixados na parede ao lado da cama. Uma parede azul com pequenos detalhes brancos, que me lembram a neve, o que me traz tranquilidade.
Às vezes pisco, mas rapidamente volto a ficar com os olhos bem abertos, encarados na pobre parede, que se pudesse sentir algo, sentiria pena de mim.
Sei que estou sendo dramática, mas tenho mania de sofrer antes da hora. Se fosse para separar meus problemas em grupos seriam " Amor não correspondido" e "Separação dos pais", ou melhor, "Separação da família inteira".
Não sou uma garota americana, que estuda em colégios ricos, com time de futebol americano e líderes de torcida gostosonas. Sou de São Paulo, minha escola é simples, com pessoas "normais", isso depende do que você considera normal, e que tem no máximo um bom time de vôlei. Não posso negar que existem as top's e os top's da escola, mas eles não mandam ou dominam tudo e todos. A maior parte dos alunos se conhece e mantém um bom relacionamento, a maior parte. Eu sempre estive nessa "maior parte", pelo menos até o início desse ano.
A pequena e doce Hanna, uma menina de 17 anos, de pele clara e macia, com um pouco de sardas nas bochechas, que ficam rosadas ao pegar um pouco de sol. Olhos pequenos e castanhos, cílios pequenos e sobrancelhas finas, boca média, com o lábio inferior um pouco mais grosso que o superior. Um rosto fino e pouco comprimo, cabelos muito longos e completamente lisos, num tom castanho escuro. Será ela tão doce quanto aparenta?!
Mas vamos voltar em quando tudo começou, quando as coisas passaram a me perturbar.
Flashback on
Terça, 23 de outubro de 2012.
– Acooooorda Hanna ! Sabia que não devíamos ter visto aquele filme até de madrugada, já são 07:00 horas, hoje tem aula sabia ?! Estamos atrasadas. — Gritava Beatriz, minha melhor amiga.
– Aah.. ta bom.. ta bom.. já acordei. — Falei baixo e com os olhos ainda fechados.
– Olha se você não levantar agora eu juro que jogo um copo de água em você. Detesto isso, toda vez que você vem dormir aqui é a mesma coisa. — Notei que ela estava realmente furiosa comigo e pelo breve momento em que abri os olhos vi que ela já estava pronta para a escola. -Splash- Senti o líquido congelante escorrer pelo meu rosto, pulei de susto.
– Você tá doida ?! Velho vai se... Calma Hanna, calma, você não vai matá-la hoje. — Enquanto eu dizia isso ela já estava trancada dentro do banheiro, eu se fosse ela teria feito a mesma coisa. — Sai daí Triz! — Esse era o modo como eu a chamava. — Não vou me vingar, não agora.
– Promete ?! Eu disse que ia te molhar se você não levantasse, eu precisava te acordar. Estamos atrasadas. — Eu comecei a rir, a voz dela estava tão trêmula que me deu pena, eu realmente era um amontoado de sono pela manhã, demorava muito para acordar, então entendia o lado dela.
– Prometo! Agora sai dai logo, preciso me secar nér ?! — Ela sai do banheiro.
Nos arrumamos rápido, uniforme, casacos, tênis, cabelo arrumado, perfume, desodorante, dente escovado, lápis de olho, brilho labial, mochila no ombro, cadernos na mão. Sim, prontas.
Gosto quando venho dormir na casa de Triz, são noites perfeitas, e no final ficamos exaustas jogadas pelo chão, e ainda acordamos atrasadas. Os pais dela são bem liberais, e não acham ruim receber as visitas de alguns de seus amigos.
Enquanto estávamos no carro fiquei reparando em Triz, em como ela sempre estava do mesmo jeito, cabelo todo preso em um rabo de cavalo, que realçava seu rosto, que é muito bonito. Um rosto redondo, pele um pouco morena, olhos verdes, cílios grandes e sobrancelhas grossas. Lábios perfeitamente desenhados, que no momento estão pintados com um batom avermelhado. Cabelos loiros, um corpo escultural, ela é o tipo de garota que deixa todos de boca aberta. Deve ter 1,60 de altura, ou mais, mesmo assim é mais baixa que eu, pouco, mas é. Também é mais nova, acabara de completar 16 anos enquanto eu vou fazer 17 em apenas 4 meses. Somos amigas há 2 anos, mas já passamos por maus bocados juntas, ao lembrar começo a rir.
– Tá rindo do que ?! Do seu ótimo banho quente de mais cedo ? — Ela disse num tom de curiosidade e ironia.
– Haha ainda vou me vingar okay ?! — Respondi fingindo que o banho era o que me fazia rir, não quero um momento "melhores amigas para sempre" agora.
– Okay, mas quando for se vingar tem que ser na mesma moeda, não vai apelar para outras coisas. Sei que no fundo você não é uma menina má. — Ela disse seriamente, mas não aguentou e começou a rir, e eu acabei caindo na gargalhada também.
– Ei, não sou uma menina má nem no fundo e nem na superfície. Sou a doce Hanna. — Doce Hanna, era assim que muita gente me chamava, e eu não achava ruim. Ser carinhosa não me parece ser nenhum mal.
Ao entrarmos na escola o sinal já estava tocando, fomos correndo até a sala. Física era o que nos esperava na porta, já sabia que esse seria um daqueles dias em que não consigo prestar atenção em nada.
Os horários passavam rastejando, até que na aula de biologia peguei no sono, acordei com o sinal do intervalo tocando e notei que Triz não estava na sala.
– Pedro, onde a Triz está ? — Perguntei pro primeiro amigo meu que consegui ver.
– Foi embora, estava passando mal. Nossa você dorme muito hein! — Ele parecia não se preocupar com o fato dela ter passado mal, mas eu me preocupava.
– Passou mal do que? — Disse rápido e nervosa.
– Não sei, ninguém sabe. Ela saiu da sala e não voltou. Um estagiário veio buscar os materiais dela. — Fiquei mais preocupada ainda, estava nervosa e sonolenta. Meu Deus, o que aconteceu com ela?
Sai correndo da sala e fui até a coordenação, chegando lá perguntei onde ela estava, o que havia acontecido, mas me disseram que não tinham permissão para me responder. Como assim não tinham permissão? Sou a melhor amiga dela, todo mundo sabe disso, deveria e precisava saber o que tinha acontecido. Quando notei que ficar na coordenação argumentando que nem doida os motivos pelo qual eu merecia uma resposta não ia dar certo, apenas me virei e sai, peguei o celular, um objeto preto e pequeno, não muito novo, mas com o necessário (salva fotos, músicas, tem bluetooth, internet, enfim, um android).
Liguei, mas ela não atendeu. Mandei mensagens, não respondeu. Liguei de novo, nada. De novo, nada, Outra vez, nada. Para a mãe dela, nada. Para o pai, nada. Para o irmão. Isso, para o irmão, ele ainda deveria estar na escola, já que quem passou mal foi ela, ele não tinha motivos para ir embora também. Mas onde poderia encontrá-lo? Futebol? Não. Jogos de mesa? Não. Andando pelos corredores? Não. Fila do lanche? Não. Vôlei? Claro, era ele quem se matava por aquele time. Fui correndo em direção a quadra.
Chegando na quadra já o vi, cabelos loiros, pele morena, mas não muito, olhos verdes, alto, um pouco sarado, forte. Ele tem 18 anos, o irmão rebelde e repetente de Triz, correndo de um lado para o outro tentando fazer com que a bola não caísse em seu lado da quadra e ele não perdesse um ponto. Será que ele sabia onde ela estava? Ou o que aconteceu com ela? Lógico que sim. Entrei correndo no meio da quadra.
– MARCO ! MARCO ! Cadê a Triz ? O que aconteceu com ela ? — Ele me olhou meio com raiva por atrapalhar, meio perdido, meio confuso, meio muitas coisas.
– HANNA ! CUIDADO, OLHA A BOLA! — Foi a única coisa que consegui ouvir antes de cair, bater com a cabeça no chão e desmaiar.
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