Crônicas do outro lado
1 O rebanho
-Onde eu estou? – Perguntou de forma assustada aquele homem engravatado.
-De uma olhada em volta, aonde parece que você está?
O homem engravatado olhou ao seu redor. Era um campo aberto com várias pessoas sentadas, sem expressão. Ele olhou pro lado e viu um jovem alto, cabelos cacheados e olhar acolhedor. Olhou pra uma montanha que de tão alta cortava as nuvens no céu. O campo parecia não ter fim. Era silencioso, sereno. Todos pareciam o encarar, analisar cada movimento. Ele olhou pras roupas e as viu sujas de sangue. Se assustou, mas logo em seguida o sangue não estava mais ali. Olhou para o jovem como se fosse chorar.
-Você não lembra de nada?
-Ah.. lembro de uma colisão.. lembro de um carro vindo na minha direção... Então é isso? Eu morri?
-É um choque, não?
-Ma-mas.. eu tinha tanto a fazer ainda..
-Todos tínhamos..
-Nossa, isso é terrível...
-Ah, não é tão ruim assim..
-Não? Então por que aquelas pessoas estão sem expressão nenhuma? Parecem inertes, parecem objetos inanimados.
-Bom, elas desobedeceram as regras..
-Que regras?
-Aqui não temos muitas regras, todos são livres pra transitar por todos os cantos, interagir com outras pessoas, coisas do tipo. Mas nós não podemos espiar o mundo dos vivos. Na verdade não é bem uma regra, é pro nosso próprio bem...
-Como assim “nosso próprio bem”?. Quer dizer que eu não vou poder olhar pela minha família? Minha esposa, minhas filhas. Todas aquelas orações que fazíamos na terra são em vão?
-Calma, não se exalte..
-Como não vou me exaltar, eu quero ver como elas estão.
-E pra que?
-Pra tentar ajudar..
-Esse é o problema, você não pode ajudar.
-Como assim?
-Essas pessoas estão assim porque elas se viram impotentes diante dos problemas dos entes queridos. Elas viram os familiares se afundando em dividas, vícios, sofrimento, e não podiam fazer nada, só observar de camarote enquanto seus amados definhavam. E quando finalmente se conformavam de que nada podia ser feito ficavam assim. Inertes. Sem expressão. Sem perspectiva.
-Ma-mas.. sempre achei que os mortos podiam ajudar os vivos..
-Isso não passa de crendice. Nós não podemos fazer nada. Não podemos interferir no fluxo das coisas. As coisas são como devem ser, você pode torcer de longe, mas não há nada a ser feito. O melhor é esperar, todos vão acabar aqui algum dia.
-Nossa, então não tem nenhuma parte boa na vida após a morte? Sempre achei que o paraíso fosse um lugar de alegria, com anjos saltitantes tocando suas harpas de ouro.
-Bom, esse ainda não é exatamente o paraíso, e te garanto que o paraíso também não é assim como a gente pensava quando era vivo.
-E como é?
-É sereno. Não espere algo barulhento, com risadas e pessoas saltitantes. É um lugar pacifico, um lugar de poucas palavras, mas muitos sentimentos.
-E como eu faço pra chegar lá?
-Bom, primeiro você tem que saber que uma vez que você ir, todos seus vínculos com o mundo terreno acabam. Você ta pronto pra seguir em frente?
O homem pensa por um segundo. Coça a cabeça timidamente. O jovem sorri.
-Eu posso ver minha família uma ultima vez?
-Poder você pode, mas você tem certeza que quer isso?
-Vai ser rápido, prometo.
-Você quem sabe.
O jovem então segura a mão do homem engravatado, a silhueta deles vai se dissipando e ressurge na antiga casa do homem. Uma mulher chora na mesa ao lado de uma garrafa de vinho quase vazia.
-Maria? – ele tenta correr e abraçá-la, em vão.
-Eu te disse que você não poderia fazer nada.
-E minha filha? Cadê minha filha?
O jovem olha para o homem.
-Acho melhor voltarmos.
-Não sem antes ver minha filha.
Mais uma vez o jovem segura a mão do homem. A silhueta deles se dissipa de novo e eles agora ressurgem numa casa, numa espécie de uma festa. Jovens bebem e usam drogas. Uma menina afunda a cabeça em um rastro de cocaína e com a narina direita absorve todo o pó. O homem fica chocado.
-Aninha?! Filha?! Pare com isso agora! Por que você está fazendo isso? – O homem começa a chorar.
- Nem todo mundo lida bem com a morte do pai, ainda mais aos 15 anos. Eu te avisei que seria melhor voltar...
-Me deixa em paz! – grita o homem. – Eu não vou voltar. Elas precisam de mim.
-Você precisa voltar.
-Eu não vou!
-Tudo bem, a escolha é sua.
A silhueta do jovem dissipa enquanto o homem tenta em vão alcançar sua filha.
◘◘◘◘◘
-Aonde eu estou? – Uma mulher pergunta assustada, enquanto olha ao redor. Varias pessoas sem expressão a olham, entre elas um homem engravatado.
- Aonde parece que você está?
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