Crônicas do outro lado
2 O tempo
O homem acorda no meio do gramado. Uma grande pradaria. Levanta atônito, sem saber bem aonde estava. Olha ao redor e se depara com várias pessoas, quietas, de olhar distante. Perto dele um ancião com um cajado sorri.
–Bem vindo.
–Aonde eu estou?
–No lugar aonde todos param um dia.
O recém chegado observa o ancião.
–Quanto tempo eu vou ficar aqui?
O velho sorri.
–Tempo.. vocês humanos sempre com essa história de tempo. Por que não tenta conhecer um pouco o lugar antes de querer ir embora?
–Me desculpe, não quis parecer rude.
–Venha, vou te ensinar uma coisa sobre o tempo.
O ancião leva o recém chegado até o alto de um morro. Lá de cima eles conseguem ver várias plataformas circulares enormes, dentro delas várias plataformas menores que por sua vez tinha pequenas plataformas dentro delas também.
–O que são todos aqueles círculos rodando? – Pergunta o recém chegado.
–Bom, aquilo é a vida. – Responde o ancião.
–Vida?
–Sim.
O recém chegado ficou quieto por uns instantes. Tinha tantas perguntas que nem sabia por onde começar. O ancião mantinha seu olhar sereno.
–Veja – aponta o velho homem para um grande circulo que englobava vários pequenos círculos – Aquela grande roda é a vida. Vocês humanos costumam contar o tempo apenas de acordo com a rotação da grande roda. O problema é que a vida é dividida em ciclos, uns passam mais rápido, esses são os círculos menores girando dentro da grande roda, e outros demoram mais, esses são os círculos maiores. Venha, vamos subir neles.
O velho guia o recém chegado até a beira do maior circulo. O recém chegado fica intrigado.
–Já teve a sensação de que às vezes uma mesma parcela de tempo passa mais rápido ou mais devagar de acordo com a situação? – O velho sobe em um circulo bem pequeno. – Venha, suba aqui. Vamos ficar 30 segundos nele e depois vamos para aquele ali. – Diz apontando um circulo bem maior. – Vamos ficar os mesmos 30 segundos aqui. Notou a diferença?
O homem fica quieto por um instante. O ancião sorri e se apóia em seu cajado.
–Então quer dizer que realmente as coisas podem passar mais rápido ou mais devagar mesmo passando pelo mesmo tempo? Isso não faz muito sentido pra mim.
–Esse é o problema de vocês. Vocês querem buscar um sentido pra tudo. Um padrão, uma lógica. Mas a vida é ilógica. Veja aqueles círculos com vários círculos dentro deles. Eles são aqueles momentos em que estamos passando por diversas coisas nas nossas vidas. Dentro de um mesmo ciclo o tempo pode parecer passar muito rápido em determinado aspecto e muito lento em outro. No final desse ciclo você não vai saber dizer com precisão se ele demorou muito pra acabar ou se ele acabou de pressa. Essa é a beleza da vida. O tempo nunca será linear.
–Mas.. – O homem fica quieto novamente. – Quem, ou o que exatamente molda o tamanho desses ciclos? Então tudo já está pré-definido?
O ancião sorri serenamente.
–Meu jovem, tudo na vida é mutável. Esqueça essa ideia de que tudo é fixo, métrico, concreto. Quem molda os círculos é você.
–Então tudo que é bom vai ser pequeno e rápido e tudo que é ruim vai ser grande e lento?
–Eu nunca disse isso.
–Eu não entendo..
–Calma, não precisa entender de imediato. O que molda o tamanho dos círculos é o modo que você lida com as situações. Os humanos têm a tendência de se afobarem com momentos bons e tentam viver o mais rápido possível como se ele fosse acabar a qualquer instante. E em momentos ruins tem a tendência de agonizarem e sentirem cada instante. Isso faz com que crie a falsa ilusão de que coisas boas passam rápido e coisas ruins demoram pra passar. O que molda o tamanho do circulo é o modo como você lida com ele.
–O que devíamos fazer então?
–Vocês deviam viver com menos pressa. Curtir cada momento. Eu tenho certeza que você vai sentir falta até dos momentos ruins. Até dos momentos de dor. A serenidade é a resposta para que os momentos bons sejam círculos grandes e momentos ruins sejam círculos minúsculos. O problema é que vocês são conseguem alcançar a serenidade quando a grande roda já está quase completando sua rotação.
–E o que eu posso fazer agora?
–Curta sua estadia aqui. Em breve você vai subir a montanha. Aproveite o tempo aqui para aprender. E lembre-se: você é o senhor do seu próprio tempo.
O jovem desce o morro e volta para a pradaria. O ancião o observa de longe. A figura do jovem de cabelos cacheados surge ao seu lado.
–Acho que este tomará a decisão certa, e em breve estará na montanha.
O jovem concorda com a cabeça, e a silhueta dos dois se dissipa lentamente.
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