O ambiente adquiriu uma energia distinta com a presença de Carter e das crianças. A casa estava com poucas luzes internas ligadas mas com baixa iluminação, a fim de fornecer uma sensação de aconchego. O humor de Katherine se alterou demasiadamente graças a interação com dois dos pequenos forasteiros. Carter, sem o gorro que escondia seus curtos cabelos castanhos e com o cavanhaque devidamente livre dos flocos de neve, dialogava com Ralph enquanto ele tentava estabelecer através de um pequeno apetrecho retangular, contato com o orfanato em Londres. Algo incomum, pois mesmo se o céu estivesse desabando sobre eles, conseguiria facilmente obter algum sinal para realizar uma conexão.

–E aí seguímos na estrada, até então parecia tudo tranquilo.-Dizia Carter, gesticulando ao mesmo tempo , tentando expressar a movimentação que fazia pela rodovia.-Daí nos deparamos com a estrada repleta de neve. Estava muito espessa e irregular. O sensor óptico nem foi capaz de fazer o veículo continuar.

–Ou seja, em termos antigos, vocês atolaram.-Disse Ralph, enquanto fazia movimentos rápidos com o polegar destro sobre o monitor do apetrecho.

–Exatamente. Só que se se a gente usasse rodas, teríamos tido a capacidade de nos tirar dessa situação. Eu meio que sinto falta daquelas coisas sobre quatro rodas. Eram bem mais práticas e a manutenção era mais simples.

–Mas a vida útil daquelas rodas era menor. Depois de um tempo, era preciso trocar. Com essa nova tecnologia, os veículos quase não necessitam de troca de nenhuma peça. Fora que o que era velho era descartado e muitas vezes não era reaproveitado. Acabava acumulando ou era queimado. Isso aumentava a poluição.

–E daí? Diziam que as nações antes Dele as pessoas viviam em situação muito piores. Imagina só... Rios poluídos, um buraco enorme numa coisa chamada camada de ozônio... E diziam que era uma coisa que impedia a passagem excessiva dos raios do Sol. Eu não sei como ninguém morreu queimado naquela época. Mas ainda sim, viviam. Um punhado de borracha queimada ou depositada num canto não faria mal a ninguém.

–Aí você estaria acabando com todo um processo que foi construído ao longo dos últimos séculos. Estaria jogando fora todo o investimento feito pela humanidade na intensa pesquisa por tecnologias distintas para a obtenção de alternativas não poluentes e máquinas capazes de tirar os poluentes excessivos da atmosfera. E isso tudo porque prefere seu veículo sobre rodas.

–O que foi um desperdício de tempo. Dizem que houve uma evolução tecnológica imensa em meio século numa época antes Dele. Tem até histórias de que levaram o homem até a lua. Imagine! Humanos indo para um lugar depois do céu, em direção às estrelas. É capaz de existir algum outro lugar que possa nos abrigar. Acho que teria sido melhor mesmo se o mundo estivesse extremamente poluído. Teríamos sido forçados a sair daqui e estaríamos em um lugar bem melhor, sem esse maldito frio e com veículos de quatro rodas.

–Dar veracidade a boatos sem ter uma prova concreta é errado. Se de fato o homem foi para a lua, certamente haveriam relatos físicos, dados...-Interrompeu sua fala, quando sua tentativa na obtenção de sinal falhou pela sexta vez. Franziu o cenho, mas logo voltou a se manifestar.-E mesmo se isso for verdade, seria inútil. Não há motivos para o homem ir à lua quando se tem todo um mundo para se preocupar. Não adianta investir em tecnologia fútil quando há outras prioridades. Houve um período em que a humanidade viveu uma crise e Ele tratou de nos guiar durante esse tempo. É capaz de nem ter existido investimento em objetos eletrônicos e se houvesse, talvez nós nem teríamos descoberto uma maneira de nos tirar daqui. Era capaz de termos sido extintos.

–Quanto a haver algo mais material para provar o que estou falando, não discordo de você. Mas me levou a pensar que sabemos tão pouco sobre o que havia antes. Só nos foi passado que o mundo antes Dele era regido por nações extremamente independentes uma das outras e que isso criou um modelo de sociedade baseado no benefício próprio. Tipo... Me pergunto como as pessoas viviam na verdade naquele período... Se elas tinham veículos como os nossos. Se viviam tristes ou felizes.

–Bem... Se, como você disse, cada indivíduo da velha sociedade vivia em beneficío próprio, acho improvável que toda a população do mundo vivesse feliz.-Concluiu Ralph, ao instante em que desistiu de sua tarefa.

—

Katherine trazia da cozinha uma bandeja contendo xícaras e um bule preenchido por um quente chá verde. As duas crianças vinham atrás dela, empolgadas com a experiência que acabaram de ter. Um simplório preparo de chá era algo novo para elas. Ou talvez nem tanto, se fosse considerado as estratégias e ingredientes secretos utilizados. A cozinha tinha se transformado em um laboratório e Katherine em uma cientista maluca no imaginário dos pequenos. Quando chegou na sala de estar, ela fizera questão de servir a todos, chegando ao ponto de ordenar a Ralph para que se sentasse e apenas apreciasse o momento. Era algo incomum receber visitas agradáveis. Quando ocorria, era sempre alguém procurando resolver questões de cobranças, andamento da safra, prazos de entregas... Crianças não tinham noção nenhuma de empreendedorismo. Não iam até ela proferir insultos acerca do ruim andamento da produção ou colocar o outro em um patamar inferior. O mundo dos negócios parecia não seguir as regras da sociedade atual.

Quando Katherine acreditou ter servido a todos, percebeu na bandeja uma xícara ainda vazia. Foi quando se recordou da terceira criança e a buscou visualmente. Caminhou rumo a ela quando a encontrou, sentada em um banco, quase que se debruçando sobre o peitoril de uma janela, observando atentamente a escuridão do exterior. Aproximou-se devagar, analisando aquele pequeno minunciosamente. Não deixou de escutar instantes atrás Carter o rotular de esquisito e, sob seu próprio ponto de vista, ele até parecia ser. Só que na perspectiva de muitos, ela era tida como estranha por seu comportamento tão recluso, além de demonstrar sempre indiferença em reuniões de negócios. Sentiu algo, talvez uma identificação com relação a aquele jovem. Afinal, eram dois esquisitos ali.

–Ei, pequenino. Trouxe algo pra você.-Disse Katherine.

Não houve reação.

–Acredito que vá gostar bastante. Está quente, mas certamente não vai queimar a língua.-Dizia, enquanto colocava a bandeja em um buffet próximo da janela e começava a despejar suavemente o chá dentro do bule na xícara. Quando voltou suas atenções ao pequeno, ficou estática, como se surpreendida por algo.

O menino a encarava, contudo, seu semblante não explicítava nada de mordaz, frio ou nenhum traço de insatisfação. Katherine viu por detrás daqueles olhos os quais as íris possuíam uma cor ciano bem vivída, a personificação da inocência e bondade. Aqueles olhos cianos que, mesmo em um lugar onde a iluminação se fazia precária, poderiam ser contemplados... Ela se aproximou da mesma maneira como agia até então e ofereceu a bebida. O menor pegou o diminuto recipiente com movimentos delicados e logo tragou o primeiro gole do chá. Uma ação bem curta, sucedida de uma manifestação verbal em um volume de voz baixo, quase um murmúrio:

–Obrigado.

Aquela interação não fugiu dos olhos de Carter e Ralph. O primeiro se viu estupefato por alguém ter tido sucesso em ganhar a atenção daquela criança esquisita tão rápida. Ninguém, desde que conhecera aquele garoto, havia conseguido tamanha proeza. O que muita gente conseguia em horas ou até dias, aquela mulher conseguiu em minutos, ou até segundos. Não contabilizou o tempo, embora não se fizesse necessário pois duvidava que alguma outra pessoa fosse capaz de bater aquele recorde.

–Aquela garota ali é incrível. Nunca imaginei que alguém fosse conseguir interagir com aquele ali assim, rápido.-Disse Carter

–Tudo o que ela quer, ela consegue, mas sabe bem como fazer isso sem ter que gastar muito tempo.-Respondeu Ralph, com um discreto sorriso e um orgulho imensurável.

–Ela é talentosa. Se não fosse pelo fato de você ser o segurança dela, juraria que era o pai.

–Não deixei de ser isso em certas ocasiões.

–Hm. Compreendo... E onde estão os pais dela?

–Isso é algo que não deverá ser aprofundado. -O tom de Ralph passara a ser rude.

–Ok, ok... Me desculpe.

–Está desculpado, da mesma forma que lhe peço desculpas também. Isso é um assunto peculiar dela.

O silêncio pairou, consequência da intromissão de Carter. O mesmo carregava uma sensação incômoda de ter ido além do que poderia sobre a vida de seus acolhedores. A Ralph, restou a tentativa de reaver o bom clima de de momentos atrás.

–Você dizia que precisa chegar com certa urgência em Londres. Bem... Daqui a algumas horas deveremos estar a caminho de lá. Podem seguir viagem conosco.

–Fico agradecido, Ralph. Mas Katherine aprovaria?

–A julgar pela alegria dela, acredito que ela vai é pedir a vocês que venham junto.

—

As pequeninas mãos seguravam a xícara, enquanto seus olhos cianos mais uma vez se voltavam para a penumbra do lado de fora. Katherine havia lhe tirado o gorro e agora entrelaçava os dedos por entre suas madeixas loiras. Se estava gostando da carícia, não expressava, embora a ruiva de alguma forma, soubesse que aquilo o agradava. Mas quando aquele gesto não agradou uma criança? Katherine chegava a recordar de toda vez que sua mãe a colocava pra dormir durante a infância e por vezes, até em alguns peculiares momentos da adolescência e até na idade adulta. Sentiu-se feliz por ter a oportunidade de proporcionar a alguém um pouco do mesmo gesto de carinho de sua mãe para com ela.

–Você ainda não me falou seu nome... Na verdade, esqueci de perguntar o nome de vocês, pequeninos.-Disse Katherine,de forma doce.

–Não temos nome.-Respondeu o pequeno loiro, suavemente.

–Como assim? Questionou Katherine, confusa.

–Não temos nome. Não nos chamam por algum nome. Apenas nos chamam...

–Chamam...

–Chamam. Indicam o que temos que fazer, quando fazer, como fazer, mas não nos chamam de nada. Mas tem menino lá que acha que se chama "você" ou "ei". Isso até a gente aprender o alfabeto e as regras do idioma.

Katherine sentiu indignação. Chegou a fitar Caster, esperando um esclarecimento, mas a julgar pela continuidade que ele mantivera no diálogo com Ralph, as palavras do menor não foram audíveis a ele. Suas atenções retornaram à criança.

–Por que? Vocês tiveram um pai e uma mãe...

–Eu não lembro.

–Sim. Mas com certeza há registros. Informações sobre o passado de vocês. Dados...

–Sim... Há dados lá onde a gente vive.

–Então... A partir disso vocês podem saber o nome de vocês.

–A gente só usa dado para jogos. É na verdade um quadrado com bolinhas em cada lado dele. Não tem nada escrito nele sobre a gente.

Katherine se calou, observando o loiro, antes de desabar em riso diante da associação que fora feita. Como era bom ter próximo a inocência de uma criança. Aquele dia, afinal, estava se tornando o melhor dos últimos meses e estava apenas começando. Todavia, ainda iria requisitar a Carter uma explicação sobre a informação obtida. Era inaceitável esse tipo de tratamento. Sabia que orfanatos cuidavam de crianças orfãs e as designavam para lares, para novas famílias. Porém, em seu ponto de vista, deixar uma pessoa em formação sem uma identidade era quase como tratar um indivíduo como uma mercadoria. Se tivesse que ela mesma dar nome a cada uma das crianças sob os cuidados do orfanato em questão, ela o faria ou até mesmo adotar todas as crianças. Moveria montanhas para isso e estaria disposta a ir até Ele se fosse necessário.