Crônicas do Novo Mundo
5 Rumo à Londres
O amanhecer naturalmente se iniciou em horas avançadas, mais próximas do meio dia, típico daquela estação. Uma grande máquina já trabalhava na remoção da camada de neve que se acumulara sobre a estrada. Seu comprimento não era tão extenso, embora sua largura lhe desse um aspecto robusto, mas com formas orgânicas, curvas, exceto a chapa cinza responsável por movimentar todas as gotículas de água solidificadas. Tal como os demais veículos, este flutuava no ar, porém seus propulsores expeliam propositalmente um determinado calor, a fim de derreter a neve sob a máquina. Ainda sim, tudo que emitia era um som suave, que mal incomodaria os habitantes daquele condado.
Ralph transportava as bagagens ao seu veículo, enquanto Carter voltava a se frustrar com a tentativa falha de fazer o seu voltar a funcionar. Katherine ajudava os pequenos a levar os pertences dos mesmos até o estacionamento da casa. Andava cuidadosamente e sempre vigiando a maneira como seus novos companheiros o faziam. Depois, ela retornou até o veículo de Carter, encontrando tal pessoa dando socos no painel.
–Não vai ser assim que fará ele funcionar.-Disse Katherine.
–Eu estou dizendo que essas coisas sem rodas não prestam... Qualquer coisinha e já dão um problema.-Reclamou Carter.
–Mesmo se tivesse rodas, teria provavelmente um problema bem pior. Isso aqui faz todo um mapeamento do terreno e passando essas informações ao computador que interpreta isso como um terreno apropriado para direção ou não. Esse mapeamento na verdade é feito a um raio de cinco metros e a julgar pelas condições da estrada, a escuridão de ontem e o fato de vocês não terem batido a cabeça numa possível parada súbita do veículo ou, pior, ele não ter capotado, você vinha devagar o suficiente para perceber o alerta de terreno extremamente íngreme à frente. Sendo assim, você em sua impaciência, em vez de simplesmente saltar e remover a neve à sua frente, simplesmente quis acelerar o veículo e certamente deixou os propulsores e motores bastante aquecidos à ponto de fazê-los quebrar. Então larga de ser fresco, desça logo daí e vamos logo. A culpa é toda sua de seu veículo ter quebrado.
A reação de Carter se limitou a ficar boquiaberto e confuso. Não fazia ideia do motivo que levou a ruiva ter tido aquele comportamento para com ele. Ralph estava longe demais para ter escutado, contudo, talvez não ficaria surpreso com o que fora proferido por Katherine se soubesse o real motivo que a levou a agir de forma rude. Restou a Carter a seguir o que interpretou ser uma ordem. Levou consigo seus pertences e se juntou aos demais no estacionamento. Passada a situação, Carter apreciava o veículo de Ralph. A forma de todos eles eram orgânicas, compostas por curvas ou uma aerodinâmica eficiente. Porém, algo naquela máquina dava um ar de superioridade. Lhe dava a impressão de que ao acelerar, se afastaria do solo e ganharia altitude rapidamente.
–Em solo plano ele chega a alcançar trezentos e quarenta quilômetros por hora.-Disse Ralph, vangloriando-se ao notar a admiração de Carter pelo seu pertence. Sentiu um ego ainda maior quando os olhos do outro se arregalaram.
–Isso é quase a velocidade de um veículo de corrida.
–Seu projeto foi desenvolvido com base em um, no entanto, veículos de corrida beiram os quatrocentos e vinte. Como este tem uma função distinta, sua velocidade é limitada, só que ele é feito para viagens em estradas, cobrir longos percursos em pouco tempo.
–Sim, sim... Ouvi a respeito desses modelos. E sei que necessitam de uma permissão distinta para serem guiados.
–Quase isso. Se já tem a permissão de guiar a categoria comum, não precisará passar por todo o processo para obter a permissão da categoria que possuo. A lógica é a mesma. O que ocorrerá será o desenvolvimento de habilidades para guiar um veículo como este. Geralmente, quem possui essa permissão é alguém que trabalha em algum ramo de transporte particular de passageiros ou motoristas. No meu caso, sendo alguém que oferece alguns serviços para uma família cuja urgência dos negócios exige a necessidade de uma rápida locomoção ...
–Ralph.-Interrompeu Katherine.-Acabei de ajeitar a bagagem das crianças. Carter, ajeite logo a sua e vamos cair fora. O Removedor de Neve já tirou boa parte de neve da estrada. Já dá pra seguirmos até Londres.
–Sim. Mas acredito que vamos acabar fazendo isso em velocidade reduzida, Katherine. Não sei como anda o restante do percurso.
–Não tenho tanta pressa em chegar lá. A essa altura, nem chegaremos a tempo para o voo. Só meio que estou agoniada pra seguirmos viagem...
Se Ralph conhecia bem sua patroa, algo ali a incomodava. Ainda não sabia dizer ao certo, principalmente por não ter presenciado o momento entre Katherine e Carter de instantes atrás, contudo, acreditava que logo descobriria como era o habitual ou Katherine iria expor o sentimento ruim antes de mesmo de sua descoberta.
O trajeto se mostrava intricado. Por mais uniforme que parecesse ser a camada de neve, haviam variações que forçavam o veículo a desviar de alguma depressão ou protuberância. Ralph, sozinho, costumava fazer manobras mais arriscadas, obtendo sucesso em todas elas. Por mais que confiasse em suas habilidades, a segurança de Katherine e dos demais passageiros estava acima de qualquer pressa. O ânimo de todos estavam contidos. O das crianças, era compreensível. As três praticamente disputavam o abraço de Katherine para se acomodarem e ter um longo cochilo. Estavam cansadas, derrubadas pelo sono acumulado durante o bom tempo acordadas durante a madrugada. Contudo, Ralph já começava a notar algo entre Carter e Katherine, uma repulsão desta com relação ao outro. Carter, por sua vez, estava no assento ao lado do motorista, observando a paisagem coberta por um manto alvo, alheio. Então, o segurança ligou um dispositivo no painel, fazendo ecoar de caixas de som estrategicamente posicionadas no interior do veículo, harmoniosos sons provenientes de um mesclado de violinos, violoncelos, harpas e tambores, sintonizados entre eles a ponto de criar uma melodia calma, com momentos que remetiam a mais ação, mas voltando para a serenidade. Ralph esperava vir um som mais dinâmico, entretanto, para ele, era o suficiente para quebrar verbalmente a quietude e conseguir a atenção dos ainda acordados.
–Mais alguns minutos estaremos chegando a Londres. Poderíamos pensar na possibilidade de irmos até um lugar para comermos.
–Seria ótimo.-Concordou Carter.-Tenho sugestões, se quiserem. Há um bom lugar no centro da cidade que tem umas comidas meio exóticas. Acho que nem são daqui. O que você acha, Katherine?
–Acho engraçado você chamar uma orfã pelo seu nome, já que a estes pequenos você no máximo os chama de esquisitos.-Respondeu Katherine, em tom ríspido.
Ralph franziu a testa e só não direcionou seus olhares a Carter por necessitar de toda atenção visual na estrada à sua frente, mas começava a compreender o comportamento de Katherine.
–Olha, Katherine, acho que houve um mal entendido...
–Não me venha falar de mal entendido.-Dizia ela, em volume de voz contido, a fim de não despertar as crianças.-Ficou bem evidente que você trata elas como se fossem mercadorias, sem nenhum valor, servindo a algum propósito de vocês, militares.
Oh...-Carter se lembrou do brasão contido em seu gorro.-Bem... Eu não sou um militar, ao menos não um voluntário ou um orfão. Digamos que todos os orfanatos trabalham para eles.
–Como assim?-Indagou Ralph.
–Primeiro deixa eu dizer sobre as crianças não terem nomes. O que os orfanatos procuram é cuidar o melhor possível dessas crianças, mas designar a elas um nome seria uma forma de criar algum laço afetivo, o que dificultaria a elas aceitarem a nova família ou vice-versa.
–Ainda não faz sentido pra mim.-Retrucou Katherine.
–Em resumo, não damos identidade para as crianças pois a identidade delas será criada a partir do momento em que elas tiverem quem possa lhes dar. Famílias de hoje querem filhos com pouca idade e que sejam facilmente aceitas pela criança. Não querem passar pelo processo psicológico de fazê-las se adaptarem a uma nova vida se antes possuiam alguma que as satisfaziam.
–O que é contraditório ao sistema que vivemos. Servimos para um bem maior. Rejeitar uma vida seria rejeitar um possível potencial. Fora que, não tem como apagar uma vida se a criança já tem uma certa vivência.-Disse Ralph.
–É por isso que quando as crianças atingem certa idade, elas são designadas a determinadas funções... Que pouca gente ou nenhuma gostaria de exercer.
–Não há função indigna. Todo trabalho tem seu propósito. –Argumentou o segurança.-E isso que você fala não foge muito de uma rejeição.
–Concordo em partes. Quem, por exemplo, gostaria de exercer alguma função em que o risco de vida fosse grande? Pessoas que vão tender a uma vida solitária se tornam inúteis e propícias a algo ruim.
–Eu decidi entrar nessa vida de segurança por opção, não por obrigação. Eu tive escolhas.E essas crianças, mesmo sem figuras paternas, também poderiam ter, desde que devidamente educadas. O problema é que nosso sistema é perfeito demais para aceitar uma possibilidade de falha.
–Como eu falei, "pouca gente". Você pode estar incluso nisso mas certamente se houver algum outro segurança que trabalha para a Katherine, certamente ele deve ser um orfão. Mas sim, nosso sistema é perfeito.
–Não redirecione o assunto, Carter. O que tentando colocar nessa sua cabeça oca é sobre o seu tratamento desumano com essas crianças. Você não lhes dá um nome mas não exita em chamar uma delas de esquisita. Muito certo para quem não quer designar identidade aos orfãos.
–Não me diga que isso tudo é por eu ter dito que ela era esquisita.-Suspirou Carter.
–Se for, qual o problema?
–Não entendo o motivo de ter se importado tanto com essa criança. Depois daqui você não vai ver ela nunca mais e provavelmente nem a mim.
A fala de Carter preocupou Katherine.
–Não. Certamente essas crianças vão ao menos serem devidamente inseridas na sociedade e poderão ser vistas. Portanto, não fale bobagem.
–Talvez isso sirva para elas, mas certamente não para o esquisito...-Carter sentiu um arrependimento por ter soltado aquelas palavras.
De Ralph, a apreensão ao imaginar a cena da ruiva segurando o pescoço de Carter e iniciando um embate no interio do veículo. Porém, para sua surpresa, apenas escutou uma ordem.
–Ralph. Pare o veículo.
–Mas, Katherine, nós não podemos...-Pestanejava Ralph.
–Ralph! PARE o veículo.
A firmeza da mulher fora como um gatilho para o pressionar vagaroso do pedestal de freio, reduzindo suavemente a velocidade do veículo até este chegar ao seu nível de estaticidade. Carter passou a ter plena convicção de que falara demais e Katherine, mantendo sua força psicológica, focara seu olhar no homem ao lado de Ralph, como se aquele ato fosse hipnotizar o infeliz.
–Você realmente está levando essas crianças para um orfanato em Londres?-Indagou a ruiva.
E mais uma vez, silêncio.
–Responda, Carter!-Vociferou Katherine, arrependendo-se do ato ao sentir um ou outro movimento das crianças.
–Estou.-Disse Carter.
–E depois, o que será delas?-Indagou Ralph.
–Não sei. Como eu falei antes, vão ser designadas a profissões menos desejadas. O orfanato não só cuida delas como também as enviam para lugares onde possam adquirir experiência para determinadas funções. Por mais que tenha escolhido, Ralph, seguir essa vida de segurança... Na sua formação como tal deve ter encontrado algumas crianças.
–De fato. Naquela época não compreendia o motivo de ter crianças. E algumas delas possuíam certas peculiaridades.-Dizia Ralph, sendo o novo alvo dos olhares de Katherine, boquiaberta.-E quanto ao esquisi...Digo... O garoto especial?.Você disse que essa regra não se aplicaria a ele.
–Não. Só me disseram que ele deveria chegar ao destino a qualquer custo. Não entendi o motivo. Mas deve ter algo bem peculiar nele que eu não faço ideia do que seja. Porém, acho mais seguro que ninguém aqui saiba.
O desejo de resposta por parte de Ralph cresceu em Katherine da mesma forma com que tinha por Carter. Todavia, ela notara no primeiro algo distinto, uma expressão facial bem diferente. O retrovisor tratava de espelhar pra ela o rosto franzido do segurança e um olhar frio por parte dele.
–Precisamos chegar logo a Londres e entregar essas crianças.-Disse Ralph, para a surpresa de Katherine e Carter.-Depois disso, quero que nunca mais se lembre da gente, Carter. Esqueça que estivemos com vocês.
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