Crônicas do Novo Mundo
3 2 anos antes...
Notas iniciais
O inverno chegara com alvoroço. A transição proporcionada pelo outono aparentou ser inexistente, face à súbita queda de temperatura e alteração do ambiente resultante da estação mais gélida do ano. Bastou instantes para a violenta nevasca cobrir os campos com uma densa camada de gelo e forçar todos os habitantes de Buckinghamshire a se manterem seguros em suas moradas. Algo desagradável para Katherine, que, embora apreciasse todas as etapas e elementos do inverno, se viu descontente em precisar se manter intocada naquela casa, cujo aspecto, em seu posto de vista, era antiquado e excessivamente fúnebre. Uma opinião que sempre expressara a seus pais desde que os mesmo obtiveram aquela casa. Só lhe restou ficar lá, acomodada em um espaçoso sofá bege, se entretendo com a leitura de algum dos vários livros que estavam guardados em um gabinete, enquanto o segurança que a acompanhava, um homem alto, parrudo, mas com parte do couro cabeludo exposto devido aos longos anos obtidos somado à genética de pouco cabelo de seu pai, e com um rosto que deixava translucido seus sessenta anos, trazia mais lenha para manter vivo o fogo da lareira, o que acabava se convertendo numa demonstração de força que contrastava com a idade avançada.
–Não precisa pôr tanta lenha, Ralph.-Disse Katherine, levantando-se o suficiente para alcançar a mesa de centro com a mão destra, pondo o livro no móvel e voltando a se aconchegar no sofá em seguida..-Logo mais devo apagar aqui.
–Mas está demasiadamente frio, Katherine. Daqui a algumas horas isso aqui vai congelar.-Insistiu Ralph.
–Não se preocupe. Por mais que pareçam desatualizados, meu pais providenciaram um bom sistema de isolante térmico para a casa. A temperatura daqui não vai descer tanto.
–De qualquer forma, deixarei a lenha por perto, caso precise dela. Vou aos meus aposentos. Se precisar de algo, me chame.
–Obrigada, Ralph. Mas fique mais um pouco, se não estiver com tanto sono.
–Não estou. Mas a senhorita deveria pensar em dormir.Amanhã a tempestade já pode cessar e teremos que aproveitar a miníma oportundidade para sairmos daqui.
–Você parece meu pai arranjando um pretexto para eu dormir cedo.
–Eu me inspiro nas melhores pessoas.
–E também me conhece tanto quanto ele.
–Claro. Quem você acha quem lhe colocava pra dormir no berço, quando eles estavam ausentes?
–Se me disser que foi qualquer outra pessoa e não você, eu não acreditarei.
–Acho que mesmo se você não soubesse disso, eu não conseguiria lhe enganar.
–Claro. Comigo você consegue ser um péssimo mentiroso.
–Na verdade, qualquer um consegue ser um péssimo mentiroso pra você, senhorita Katherine.
Ambos riram com lembranças, assuntos peculiares que só eles naquele mundo compreendiam. Contudo, o ar de melancolia se fizera presente ao exato instante em que a feição de Katherine se converteu a algo franzido e filetes de lágrimas começaram a verter de seus olhos. Ralph logo se colocara ao lado de Katherine, a envolvendo em seus braços e proporcionando o conforto que ela necessitava no momento.
–Eu sinto falta deles, Ralph... Sinto falta dos mimos do meu pai... Minha mãe querendo me vestir do jeito dela... Dos dois dançando valsa aqui, nessa sala...
De Ralph, veio o silêncio, permitindo a Katherine ocupar o espaço verbal necessário para extravasar o sentimento de tristeza que ela continha de tempos em tempos, até chegar a momentos como aquele. Não somente um fiel segurança para a família Castler, como também o único daquele mundo a compreender a dor da última com aquele poderoso sobrenome e quase que um segundo pai. Permaneceu ali com Katherine quando os desabafos se converteram em soluços e este se sucedeu para um profundo silêncio, até a ruiva cerrar os olhos e sua respiração se se tornar suave. Daí, Ralph cuidadosamente a repousara no sofá, sem deixar de acomodar sua nuca sobre algum travesseiro.
–Boa noite, Katherine.-Disse, seguindo a seus aposentos logo depois.
—-
As horas noturnas transitavam sob uma intensa calmaria. No exterior da casa, diminutos flocos de neve precipitavam suavemente. O fogo da lareira já estava ao final de um processo minguante, clareando somente poucos metros de seu entorno. E todo o clima quase estático fora bruscamente interrompido pelo ressoar da campainha, fazendo Katherine despertar subitamente de um pacífico sono, enquanto Ralph, a passos acelerados, já se encaminhava até a entrada social. Ela, com notável expressão de incompreensão, tentava obter alguma resposta de imediato e parecia querer conseguir mantendo seus olhares no segurança, enquanto este sinalizava através de gestos manuais para que a jovem se mantivesse ali. Ralph ligou um pequeno monitor ao lado da porta e pressionando alguns botões do mesmo, fez surgir uma imagem de tonalidades verdes, mostrando o outro lado do acesso principal. O que ele viu, o fez franzir a testa, mas, ainda sim, fez sua voz soar por uma caixa de som estratégicamente posicionada no lado de fora.
–Por favor, identifiquem-se.
–Boa noite... Senhor. Desculpe-me por aparecer a essa hora. Meu nome é Carter. Faço parte de um Orfanato. Estava com essas três crianças,a caminho de Londres, mas a estrada com neve nos forçou a parar e também nosso veículo deu pane. Estamos sem comunicação, precisamos ao menos estabelecer contato com a sede. Tentei ajuda pela vizinhança mas ninguém nem ao menos nos atendeu.
Os olhares de Ralph se voltaram para Katherine, cujo menear da cabeça espelhava o consentimento sobre a entrada dos estranhos. Então, o segurança voltou suas atenções ao grupo.
–Irei liberá-los.
Um estalo, denunciando o movimento dos dispositivos de tranca foi o necessário para Carter suspirar de alívio. Receioso, Ralph abriu a porta, indicando aos visitantes que adentrassem. As várias camadas de roupa trajada por cada um deles era uma prova do intenso frio da estação. Carter usava roupas de cores variadas, em tons pasterizados e um gorro com um brasão militar.
–Oh... Obrigado. Obrigado. Achei que íamos passar a noite morrendo na neve.-Disse Carter, entrando a passos acelerados na residência e sob a vigilância visual de Ralph e uma sobrancelha erguida do mesmo. Katherine, por sua vez, achou graça daquele atrevimento.
As crianças adentraram posteriormente, exceto uma, que permaneceu estática no lado de fora e com o foco da visão centrado em algum ponto na escuridão da noite.
–Ei garoto, entre.-Pediu Ralph, sem sucesso. Chegou a acreditar que aquele pequeno não o escutara.
–Ele é surdo?-Questionou.
–Oh, não. Só é esquisito mesmo. Se não se importar, deixa a porta aberta. Logo logo ele entra.
Embora com a informação obtida, o segurança se mantivera na porta, esperando pela entrada do menor. A forma como ele se vestia até lhe era cômico. Um diminuto corpo sob camadas e mais camadas de tecido e um gorro que por pouco não cobria os olhos. E em um vagaroso movimento, a criança direcionou seu rosto à entrada da casa, colocando-se ali dentro no mesmo ritmo. Ralph se inclinou para frente, realizando uma fugaz averiguação do exterior antes de fechar a porta e trancá-la.
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