Crônicas de uma galáxia
22 A conversa
— Eu quero voltar pra lá nessas férias. – Disse, sentada à mesa de jantar (únicos momentos em que ficávamos todos juntos).
Ninguém me ouviu. Teria que provocar.
— Okay, já que ninguém falou nada, eu vou, obrigada. – E fiz menção de me levantar da mesa. Meu pai largou o garfo.
— Tu não vais para lugar nenhum.
— Por quê? – Questionei. Eu sabia a resposta, mas precisava resolver isso hoje.
— Por que eu estou dizendo que tu não vai. – Ele disse, batendo com uma das mãos na mesa.
— Mas eu preciso ir! Eu vou pagar, vocês não têm nem que me levar para o aeroporto! Quero ver minhas amigas! – Na verdade, não queria. Só Isabella. Mas se eu dissesse minha real intenção, não botaria os pés pra fora de casa e tinha total consciência disso.
— Olha Luísa. – Minha mãe começou. – Se tu queres ir ver tuas amigas, tu podes ir. Mas tu não podes ir para ver o Marco. Se tu for, eu vou ter que colocar alguém para ficar o tempo todo contigo e te impedir de ver ele, porque isso tu não vai fazer.
— Vocês nem conhecem ele! – Exclamei, exasperada.
— Conhecemos sim! Aposto ainda que conheço melhor do que tu! – Meu pai começou a gritar, do nada. – Conheço muito bem o tipinho dele!
— Tu não percebe o quão ridículo tá sendo? Tu realmente acredita que conhece ele melhor do que eu? – Desdenhei.
— Não faz essa cara pra mim. – Meu pai rosnou.
— É a minha cara, ué.
— Eu que mando em ti. Enquanto eu pagar as contas dessa casa e tu morar debaixo desse teto, eu que mando em ti.
— Tu nem trabalho têm, quem pagas as contas aqui de casa é a minha mãe. – Disse, sabendo que acertara o ponto certo. Ele se levou, o rosto ficando vermelho. Dei um passo para trás.
— Eu sou teu pai.
— Não te dá o direito de ser um opressor ridículo.
— Tu não vai para lugar nenhum.
— Eu preciso ir. – Comecei a sentir meus olhos arderem, e em poucos segundos eles estavam toldados de água, que começou a escorrer pelo meu rosto. – Vocês não entendem!
— Não filha, tu não entende. – Minha mãe disse, antes de se levantar e ir em direção à cozinha. – Quer chocolate?
Corri até o meu quarto, enquanto tirava o pijama e colocava uma calça jeans. Peguei minha chave, e fui em direção ao portão, com o celular na mão.
— Vai aonde? – Meu pai perguntou, me impedindo de sair.
— Vou caminhar. Nós moramos do lado da ciclovia.
— Não vai.
— Quer dizer que eu não posso nem caminhar?
— Tu não podes nem respirar se eu não deixar. Eu que mando em ti. Vai pro teu quarto, agora, e me dá a tua chave.
Arremessei a chave no chão, enquanto batia a porta.
Aquela foi a primeira vez que a cerca elétrica de casa foi ligada.
Disquei o número do Marco.
— Amor? – Chamei, começando a chorar.
— Oi vida, tudo bem? – Ele perguntou. – Tu nunca me ligas, aconteceu alguma coisa?
— Eu falei com eles. – Fungava, deitada no chão no meio do quarto. Ficamos em silêncio por um tempo.
— Ah. – Ele disse. – E então?
— Eu não posso ir.
— Não pode mesmo?
— Não. – Respondi. Não conseguia me mexer. – Me desculpa.
— Tudo bem. – Ele respondeu. Eu ouvia em sua voz que não estava tudo bem. – Eu te amo.
— Eu te amo muito. O que vamos fazer agora?
— Eu não sei. – O ouvi respirando fundo. – Amor, eu estou doente.
— Como assim? – Senti meu coração bater mais rápido, o fluxo de sangue no cérebro me fazendo pensar em milhares de hipótese, desde gripe a aquele filme de um casal com câncer.
— Eu ia te contar só quando tu estivesse comigo, mas parece que não vai acontecer. – Respirou fundo, e eu senti como se todo o ar fosse tirado dos meus pulmões. – Eu fiz uma bateria de exames, porque não estava me sentindo bem. E cada um deles acusou uma coisa diferente.
— Como assim? – Murmurei.
— Assim mesmo. Tô com problema no pulmão, no sangue, nas pernas, em tudo. Tomando uns doze remédios diferentes, e uma cirurgia marcada para o mês que vem.
— Mas tu vai ficar bem né? Vai dar pra curar tudo?
Ele ficou em silêncio por um tempo, e eu senti como se algo dentro de mim morresse.
— Eu não sei.
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