Crônicas de Ghost River #Wayhaught
18 Reunião familiar

Cheguei à casa da Waverly quando já estava anoitecendo, ela estava sentada numa cadeira, enrolada num cobertor de frente para uma fogueira.
— Tudo bem? — Me abaixei para cumprimentá-la e ela virou o rosto.
— Não podia estar melhor, Nicole. — Ela me olhou e voltou a olhar para o fogo. Puxei a cadeira ao lado, ficando de frente para ela.
— Conversa comigo, então. — Pedi. Ela ficou olhando para o lado oposto por algum tempo. Encostei a mão direita na dela e ela não se opôs. — Olha, se você não quiser me contar, eu entendo, mas eu não vou sair do seu lado até eu perceber que você está melhor. Você não parece bem.
— Eu descobri uma coisa. Foi horrível. — Contou, olhando para a fogueira.
— Fizeram alguma coisa com você?
— Não, mas eu só queria ter te contado na hora e saber que por um momento tudo ia ficar bem, mas você não estava aqui e eu não tive coragem de contar para Wynonna. — Se ajeitou no cobertor e voltou a falar, rápido, como se estivesse correndo contra a tristeza ou o choro. — E depois eu continuei vendo aquilo e descobri outra coisa pior ainda e agora eu não sei o que fazer. Também não sei se devo te contar, porque não sei se depois você ainda vai querer ficar comigo. — A voz dela começou a ficar rouca, como se tivesse prendendo o choro.
— Waverly. — Falei com a voz séria, me levantando. Ela me olhou assustada. — Levanta. — Estendi o braço. Ela se levantou e eu a abracei com força. — Não há nada que você me conte que me faça querer ficar longe de você. Nada. Eu gosto de você e vou ficar ao seu lado para o que você precisar. — Senti meu ombro ficar molhado. Ela estava chorando. Realmente ela tinha descoberto algo muito sério. — Desculpa ter sumido ontem. — Ela me olhou, tentando ver verdade em minhas palavras. Sequei suas lágrimas e esperei ela me contar algo.
— Eu não sei o que está para acontecer, mas tenho certeza que não vai ser nada bom. — Ela pegou o cobertor e pegou minha mão para a gente entrar na casa dela. A gente subiu as escadas para o quarto dela e quando entramos ela me entregou um caderno. — Mas antes de te contar, o que significa isso? — Pegou o celular e me mostrou o álbum de fotos da Olivia. — Amigas? — Cruzou os braços e ficou me encarando.
— Eu já te falei sobre ela, lembra? — Deixei o celular em cima da penteadeira.
— Você nem olhou as fotos. — Andou até o celular e eu não deixei ela pegá-lo. Coloquei as mãos em sua nuca.
— Waverly Earp, eu não preciso ver fotos pra saber o que eu fiz, mas principalmente, eu não preciso de nada disso pra saber o que e quem eu quero. — Então ela sorriu, entendendo o recado. Encostou a testa na minha e depois me beijou, sorrindo. Também com os olhos.
Depois de um tempo a gente se sentou na cama e ela me mostrou o que era o caderno. Era um diário antigo de uma moça chamada Wilma. Lá ela contava que seu pai Wyatt Earp descobriu que ela estava namorando com um rapaz chamado Zack Clootie, filho de um de seus inimigos. Wyatt atirou no pai e depois nos filhos. Wilma fugiu sem saber que estava grávida e sua mãe, Mattie não conseguiu localizá-la, pois ela estava sob proteção da igreja. Wilma teve o bebê e deixou para adoção na mesma igreja e fugiu de novo, o bebê foi batizado como Aurora. O diário acabava com o nascimento da criança.
— Você lembra que eu fui para o Arizona? — Balancei a cabeça afirmativamente. — Eu peguei a certidão de nascimento da Aurora e a de casamento com o Louis Cryderman.
— Ok. O que aconteceu com eles? Você descobriu? — Perguntei, tentando entender qual era a pior parte de tudo isso.
— No corpo de bombeiros me contaram que quem adotou a Aurora, era membro permanente da "Ordem" e quando descobriram que ela não era totalmente humana, tentaram matá-la. A ordem basicamente não deixa certas pessoas entrarem ou saírem de Ghost River e se algo passa despercebido eles vão atrás e matam. Simples assim.
— O que você quer dizer com "Não era totalmente humana"?
— O Clootie era marido da Constance, ele era um retornado, então os filhos deles eram só metade humanos. A parte da maldição eu já te contei. — Fez uma pausa olhando para o outro lado do quarto — Isso quer dizer que eu... talvez não seja...
— Ei, — Cheguei um pouco mais perto dela e a abracei de lado — Você continua sendo a Waverly e oficialmente uma Earp.
— É, eu posso até ser uma Earp, embora não tenha confirmado tudo ainda, mas eu não sou irmã da Wynonna. — Ela apoiou a cabeça em meu ombro e ficou quieta por um tempo. Apoiei as costas na cabeceira da cama dela e ela deitou em meu peito, me abraçando.
Eu parecia calma, mas no fundo eu estava desesperada com o que ela tinha me contado. Ela tinha duas tataravós vivas e bruxas, que se odiavam. Um tataravô que tinha lançado uma maldição que era praticamente impossível de terminar. Ela tinha um bisavô meio humano. Parentes aleatórios que ninguém sabia a procedência. Talvez essa nem fosse a pior parte. Talvez essa fosse a parte boa.
Olhei para Waverly achando que ela estivesse dormindo, mas ela estava me olhando, eu retribui o olhar. Depois de um tempo ela se sentou na cama sem desviar o olhar.
— Obrigada por não ter pirado com isso. — Ela me olhava como se tivesse reticências no final da frase. Me sentei direito na cama.
— Tem mais coisa, não tem?
— Tem, mas eu não consegui achar nada além de mitos. O Juan Carlos, da "ordem" me entregou um papel com um nome. -Pegou o papel do bolso e me deu. A gente ouviu passos e logo Wynonna entrou no quarto.
— Waverly, o Doc vai... — Se interrompeu quando me viu.- Olá, Nicole. Desculpa. — Wynonna olhava para mim, que olhava para Waverly, que olhava de volta para irmã.
— Ok, eu vou embora. — Me levantei e sai do quarto. Quando cheguei no carro, vi Waverly saindo da casa e andando até mim. Abri a janela.
— Me manda mensagem antes de dormir? — Perguntou segurando minha mão em cima do volante. Wynonna olhava a gente da porta da casa.
— Claro. — Liguei o carro e fui embora.
N: Está se sentindo melhor?
W: Sim, você reagiu muito melhor do que eu podia esperar.
N: Sempre que precisar. Ah, eu esqueci de perguntar uma coisa. Por que você me mandou mensagem em código morse?
W: Eu estava amarrada e o celular no meu bolso de trás, o teclado não ia para as letras, foi o que deu para fazer. Pelo menos vocês me acharam.
N: A gente te achou porque a Mattie nos ajudou. Nossa, a Mattie...
W: Será que ela sabe quem eu sou? Ela vive dizendo que odeia os Earps.
N: Talvez seja pelo Wyatt ter trocado ela pela Josephine.
W: Parece que alguém andou pesquisando.
N: Essa foi a tarefa para casa mais estranha que eu já fiz. Você quer que eu vá na casa dela junto contigo?
W: Amanhã sai o resultado do DNA que eu fiz com o Cryderman, se der algo, quero sim.
N: Mais algum pedido, quase oficialmente Earp? Aliás, você quer sair comigo amanhã e fazer algo que não envolva nada dessa loucura?
W: Onde você quiser. Até amanhã?
N: Até amanhã.
O xerife me ligou logo cedo, dizendo que havia um acidente na saída do triângulo de Ghost River e que era para eu ir direto para lá.
— Bobo Del Rey reuniu algumas pessoas e parece que ninguém entra e ninguém sai da cidade enquanto não trouxerem a cabeça viva ou morta da Constance Clootie. -Disse Nedley quando me viu tentando entender a situação.
— E ninguém sabe onde ela está? Aliás, por que ele a quer?
— Parece que ela prometeu algo, não cumpriu e agora ele quer vingança... ou vingança da vingança, já que o marido dela que o transformou em quase imortal.
— Então você sabe mesmo de tudo o que acontece por aqui, dos retornados e tudo mais. — Supus.
— Um xerife precisa fazer seu trabalho. — Concluiu e se afastou.
Liguei para Wynonna e avisei o que estava acontecendo, ela não pareceu feliz em ter que sair da cama tão cedo. Pedi que ela verificasse se a Waverly estava na casa, já que a Constance tinha sumido, talvez pudesse querer levar a Waverly junto. Wynonna disse que ela estava lá e que cuidaria da irmã. Logo ela chegou com o Doc e ele conversou com o Bobo, um pouco isolado de todo mundo. Bobo mandou todos os seus aliados irem embora, se dispersarem. Doc parecia um pouco transtornado com a conversa, mas a situação em si ele tinha resolvido. Nedley falou com ele e depois informou que era para eu voltar para a delegacia.
— Desculpa, mas quase rolou uma rebelião aqui e eu simplesmente vou voltar para a delegacia, sem saber de nada? — Perguntei para o Nedley cruzando os braços. Eu sabia que ele não gostava quando eu fazia perguntas demais, mas elas eram necessárias, eu tinha que saber o que eu estava enfrentando, ainda mais depois que Constance sequestrou a Waverly e ninguém sabia onde encontrar a primeira.
— Eles fizeram um acordo, não é da nossa alçada. Nada aconteceu aqui, só nos cabe ir embora. — Virou de costas e foi para seu carro.
N: (7h06) Bom dia, tudo bem?
N: (7h17) Estou indo para a delegacia, te encontro lá?
~~~~ Uma chamada perdida de Nicole Haught
N: (7h31) Ei, babe. Eu te procurei e você não veio trabalhar. Estou começando a ficar preocupada.
N: (9h45) Espero que esteja tudo bem. Sua irmã já veio te procurar aqui também.
Três horas esperando uma resposta. Cinco. Cinco e quinze.
— Nicole, vem. — Disse Wynonna passando correndo pelo umbral da porta. Não consegui falar nada, pois ela já havia saído. Levantei e a segui. Chegamos no Shorty's. Parece que independente do que acontecia na cidade, tudo começava ou terminava ali.
Era uma situação bem incomum, de um lado estava a Constance levemente amarrada, sentada confortavelmente em uma roda de sal. Do outro estava o Doc, Bobo, Waverly, Mattie e Dolls. Wynonna ao ver a Bruxa deu um tapa bem dado nela, dizendo que era por ter pego a irmã dela. Desci os degraus um pouco confusa e parei ao lado da Waverly, me certificando que ela estava bem. Ela segurou minha mão e encostou a lateral do braço dela ao meu.
— Então, quem vai explicar o que está acontecendo? — Perguntou Wynonna, impaciente. Pelo menos eu não era a única a não saber de nada dessa vez.
— Bobo Del Rey, logo depois da nossa conversa conseguiu encontrar a bruxa, escavando o quintal dos fundos dos Cryderman. — Waverly ao ouvir "Cryderman" apertou minha mão rapidamente. Doc continuou — Mas parece que ela não encontrou o que queria, não é mesmo? — Pegou uma cadeira e sentou de frente para o encosto dela. Constance começou a rir escandalosamente, era difícil de ter certeza se era de nervoso ou estava rindo da gente.
— Achei que vocês fossem um pouco mais espertos depois de todas as dicas. — Comentou Constance parecendo um pouco entediada, provocando Doc que estava com a arma apontada para ela. Bobo parecia menos nervoso do que de manhã, ele tinha descoberto algo que o Doc não sabia, pois esse estava destilando ódio por ela.
— Seu tio te deixou um bilhete, certo? — Perguntou Doc para Waverly.
— Sim, dizia que a Constance sabia que eu era importante e que eu só podia confiar na Mattie, ou algo parecido com isso. Mas importante para quê? — Waverly olhou para a Mattie, que retribuiu o olhar. Será que elas tinham conversado?
Antes que alguém começasse a falar algo que fizesse sentido, ouvimos um barulho alto. Dini havia acabado de passar pela porta do Shorty's, que estava trancada.
— Achei que tinha se perdido. — Disse Constance para Dini. Mattie tentava impedir que a invasora a soltasse. Bobo chegou perto da Waverly e sussurrou algo em seu ouvido. Doc tentou atirar, mas sua arma não funcionou, nem mesmo a da Wynonna. Waverly me puxava pelo braço para fora do bar e Mattie falava algumas frases em latim que não faziam o menor sentido. Quando deixei o local, apenas Bobo, Constance, Mattie e Dini estavam lá.
— Bobo disse para eu ficar no corpo de bombeiros até ele ir me buscar. — Contou e esperou minha reação, me olhando da outra porta do carro.
— E você confia nele? — Abri minha porta e entrei.
— Não preciso confiar nele para saber que essa é uma boa ideia. — Disse depois de se sentar no banco carona. Pegou o celular para falar com a Wynonna e saber o que a irmã faria e para onde iria.
Quando estacionei o carro, Ewan estava do lado de fora do corpo de bombeiros e nos recebeu.
— A gente não tem muito tempo. — Avisou.
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