Crônicas de Ghost River #Wayhaught
19 Mattie
Notas iniciais
— Eu juro que não foi assim que eu imaginei passar o resto da noite com você. — Comentei, enquanto a gente esperava Wynonna chegar no corpo de bombeiros.
— Só espero que a gente tenha muito tempo para fazer o que você planejou. — Me olhou de relance, brincando com os dedos. Ela estava nervosa e com medo.
Ewan tinha levado a gente para uma sala subterrânea, onde tinham vários objetos de corte, mas também tinha café e era o que a gente precisava.
— Onde você estava? — Perguntei.
— Ah, — Pegou um envelope na bolsa — Cryderman é meu primo, aquele idiota.
— Parabéns?! — Não sabia se isso era realmente algo bom, já que ninguém sabia exatamente se eles eram "pessoas" boas.
— Isso quer dizer que a parte da Aurora é verdade. Mattie é a avó da Aurora. — Fez uma pausa — Eu fui te chamar para ir comigo levar o diário para ela, mas você não tinha chegado na delegacia ainda.
— E o que você fez? — Waverly me olhou como se não quisesse falar sobre o assunto, mas mesmo assim falou.
— Eu fui até a casa do juiz. — Ela não conseguia me olhar nos olhos, como se tivesse feito algo errado. — Queria saber se ele tinha algo dos meus avós, mas quando eu cheguei lá vi o Bobo conversando com a Constance e o juiz. Ele não a amarrou porque conseguiu capturá-la, ele a amarrou porque ela pediu. Porque assim ia ficar mais fácil de acreditar no que ela tinha para falar, mas no final ninguém conseguiu contar nada. Ele viu que eu estava observando eles e não fez nada para me impedir.
Juan Carlo apareceu na porta e chamou Waverly para conversar, Wynonna estava ao lado dele. Waverly segurou meu braço para mostrar que não conversaria sem mim, eu sorri, mas me preocupei por um momento que ele não falasse o que precisava por isso. Wynonna revirou os olhos e entrou na sala.
— Tem algo que você queira contar para sua irmã, antes que eu inicie com todo mundo? — Perguntou Juan Carlo.
— Ok. — Respirou fundo, Wynonna se sentou de frente para ela e ela começou — Quando a Constance me sequestrou, ela me contou algumas coisas que até então não faziam sentido. Segundo a explicação que eles deram eu precisava fazer alguma coisa, que eu não sei ainda o que é, mas por vontade própria, só que para isso eu teria que entender outras coisas. Também disseram que eu não era filha do Ward e da Wendy.
— Você não tem que acreditar no que aquela mulher fala, babygirl.
— O problema é que tudo o que eu pesquisei do que ela falou era verdade e eu fiz um exame de DNA com uma mostra sua. — Segurei a mão dela e ela a apertou. Wynonna me olhou como se soubesse que eu sabia daquilo antes dela. — Nós somos parcialmente compatíveis.
— Tipo, a mamãe pulou a cerca? — Se levantou e começou a andar de um lado para o outro.
— Tipo nosso tataravô ter tido um caso com a Mattie e ela ser minha tataravó e não a Josephine.
— A bruxa de aço? — Apertou os lábios. — Ela sabe?
— Não tenho certeza. O Ewan também me contou que minha mãe biológica era membro da ordem, assim como os avós do meu pai. — Terminou de contar a história da árvore genética, pelo menos a parte que ela sabia. Logo o Ewan entrou com a Mattie na sala. Waverly se levantou e a abraçou. — Você está bem? Como você conseguiu sair daquela confusão?
— O Bobo tirou a Cece do círculo e deixou ela ir embora. — Pegou algo no bolso — Coloca isso no pescoço. Não importa o que aconteça, o não tire.
— O que é? — Arrumou o colar e o colocou.
— Ammolite. Nenhum retornado vai conseguir encostar em você, mas cuidado porque nada impede deles causarem algo a distância. — Caminhou até onde Ewan organizava as cadeiras.
— Ei, quem te contou? — Perguntou se referindo ao parentesco.
— Você. — Mostrou o diário.
— Claro, eu esqueci ele no shorty's.
Doc e Dolls entraram logo em seguida. Wynonna parecia chateada, Waverly não tinha dado nenhuma preparação antes daquele momento, mas apesar de tudo parecia que estava lidando bem com as informações, afinal Waverly era uma Earp, embora não fosse sua irmã.
Ewan pediu que todos se sentassem, pois ia ser uma longa conversa. Era um pouco complicado de conversar quando só metade sabia de toda a verdade. O maior problema é que quase todo mundo ali só sabia parte de tudo o que estava por vir. Naquela cidade parecia que ninguém confiava em ninguém o suficiente para contar uma história inteira. Quando todas as histórias se juntaram, o pânico começou a nascer nos rostos. Estavamos trabalhando com possibilidades de quase 100% de tudo dar errado, de todo mundo morrer, de tudo acabar como Maldito terminou.
Ninguém sabia quando tudo poderia começar, em teoria já poderia ter começado. Waverly, que até então não sabia por que não podia quebrar a maldição, entendeu que ela fazia parte de algo muito maior do que ela esperava e assim como a irmã, era a única que poderia resolver a situação. Ela não estava preparada fisicamente e nem emocionalmente para aquilo. Ninguém estava.
Constance Clootie precisava ter certeza que ela era a pessoa certa, por isso havia levado Waverly. Constance sabia que algo estava para acontecer e queria parar aquilo, mas ela não era forte o suficiente. Doc contou que conhecia algumas pessoas que poderiam ajudar e se propôs a falar com elas. Wynonna segurava a mão da irmã com tanta força que parecia que isso as salvaria de qualquer coisa.
Nedley começou a me ligar, eu tinha saído no meio do expediente sem avisar. Levantei e fui tentar explicar o que estava acontecendo, mas o xerife mandou eu voltar para meu posto, visto que aquele era assunto da Black Badge e eu era apenas a sub-xerife.
O que eu estava pensando, afinal? Namorar com uma Earp não me faz mudar de cargo e tentar ajudá-la não faz meu chefe deixar eu ficar fora.
Agora que eu já sabia o que estava acontecendo, ia ser difícil fingir que aplicar as multas de trânsito e prender bêbados por brigas de bar era mais importante do que qualquer outra coisa.
Quando eu cheguei na delegacia, o xerife não parecia muito contente comigo, pedi desculpas e voltei para minha mesa. Quando ele estava indo para o Happy hour, passou por ela e me alertou que eu deveria agradecer por não ter recebido uma advertência por abandono de posto. Pedi desculpas novamente e ele se foi.
Claro que ninguém voltou da reunião quando meu turno já havia acabado e também era claro que eu não poderia participar do que quer que eles tenham combinado ali. Mais uma vez eu estava de fora, mais uma vez eu não sabia o que fazer.
Passei no corpo de bombeiros e eles já tinham ido.
N: (19h22) Ei, eu sei que você deve estar ocupada, mas me fala se você está bem e onde está.
~~~~~~ Duas ligações perdidas de Nicole Haught
N: (21h47) Waves, me liga quando puder.
N: (21h48) Wynonna, a Waves está com você? Só queria saber se está tudo bem.
Wynonna: (22h01) Oficial Haught, ela está bem. Amanhã vocês conversam, ou não. Se ela quiser...
N: (22h01) Okay.
No dia seguinte, na delegacia, Bobo estava lá, conversando amigavelmente com Dolls, em frente a sala da Black Badge.
Como que o agente Dolls poderia conversar com aquele sociopata? Depois dele ter chamado a Wynonna, não era tão difícil de acreditar, mas ainda assim não era algo que eu poderia esperar dele. Talvez Bobo Del Rey tivesse alguma informação que ele não conseguisse sozinho. Talvez a Constance tenha enviado ele até lá. Dolls me viu andar pelo corredor e entrou em outra sala com o Bobo. Sutil. A sala da Black Badge estava aberta, não havia ninguém. Será que algo tinha acontecido nessas horas de ausência? Fiquei chateada. Waverly não estava lá e não tinha me dito onde estava, eu não queria parecer controladora o tempo todo e ficar toda hora perguntando esse tipo de coisa. Sai da sala e voltei para minha mesa. Alguns minutos depois o cheiro dela invadiu o lugar e ela apareceu no balcão da delegacia. Sorri imediatamente, junto com meu coração que acelerou ao vê-la.
— Sinto muito que você não vai poder ajudar no caso. — Disse enquanto andava até minha mesa. Eu não conseguia tirar os olhos dela. — Vim te dar bom dia pessoalmente, melhor do que por mensagem, não é?
— Achei que não ia ter ver hoje, já estava ficando triste. — Ela olhou a volta para confirmar que não tinha ninguém e me deu um beijo longo. Depois se sentou numa cadeira de frente para mim.
— Então já que eu melhorei seu humor, por que você não passa na casa da Mattie quando sair daqui? Ela vai me ensinar algumas coisas e ver se eu consigo reproduzir. — Disse parecendo animada com a ideia.
— Claro! — Respondi mais alto do que deveria, mas como eu ia esconder que estava feliz por ela ainda querer que eu faça parte dos planos? Ela sorriu e se levantou.
— Ah, a Wynonna ainda está aceitando nosso namoro, então se ela falar algo irritante, só ignora. Ela pode não ser a pessoa mais legal do mundo às vezes. — Soltei um riso de deboche.
— Às vezes? — Perguntei, enquanto ela andava para a saída, mas ela parou e voltou até o balcão.
— Dorme lá em casa hoje?
— Wynonna está ok com isso?
— Completamente. — Respondeu com riso irônico. — Fico esperando você me buscar na casa da Mattie, então.
Um pouco mais a tarde, recebi uma visita inesperada do Juan Carlo. Ele avisou que a gente precisava encontrar a Constance Clootie, pois ela tinha alguma coisa que nos ajudaria.
— Eu não faço parte da Black badge, eu estou fora do caso. — Avisei.
— Você precisa participar, sem você eles não vão conseguir. — Virou de costas e antes que pudesse passar pela saída, ele desapareceu.
"O que eu faço?" — Pensei. — "Será que era sobre a Constance que o Bobo falava com o Dolls?"
Fui até a sala da BBD e Doc estava lá sozinho com o mapa do cemitério de Purgatory.
— Juan Carlo estava te procurando. — Avisou, tomando um gole de café.
— E encontrou. A gente quer encontrar a Constance Clootie? — Perguntei.
— Com certeza, Oficial Haught. Com certeza a gente quer. — Apontou para ele mesmo quando disse "a gente".
— O que ela pode ter que vá ajudar a Waverly?
— Oficial Haught, se realmente existe uma outra maldição e se existe algo que ela possa fazer, é melhor a gente encontrá-la logo, antes que ela pense em cobrar por isso. — Começou a enrolar o mapa. — Se aquela bruxa sabe fazer algo é acordos e esses acordos nunca terminam como foi combinado. Pode apostar. — Terminou de beber o café e abriu a porta, esperou eu sair e saiu também.
— Eu não posso acompanhar casos complexos. — Avisei e voltei para minha sala, um pouco irritada por ter que ficar ali preenchendo formulários. Doc me seguiu.
— Pelo que eu saiba a senhorita ainda não terminou seu caso das moças dos jogos. Se você encontrar a Dini, você encontra a Constance. — Comentou com o olhar desafiador.
— Isso não me parece um caso complexo. Exceto que ela explodiu a entrada do shorty's. — Lembrei e peguei a chave do carro para acompanhá-lo, onde quer que ele fosse começar a procurar a Constance.
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