Crônicas de Ghost River #Wayhaught
17 Observava seu silêncio
Três homens a conduziram para uma sala atrás do corpo de bombeiros e não me deixaram entrar junto.
Clarissa começou a me mandar várias mensagens dizendo que havia sido promovida e que no final de semana eu teria que ir para casa da minha avó comemorar com ela. Respondi "talvez".
C: Resposta errada, tente de novo.
N: Eu realmente não estou com cabeça para pensar nisso, desculpa.
C: O que foi?
N: Acho que a Waverly está com problemas, estou esperando ela sair de uma reunião há uma hora e nada.
C: E você está esperando o que para ir até lá?
N: Droga. Ok.
Sai do carro novamente, quando fechei a porta, vi Waverly saindo da sala, inteira. Não sabia dizer se ela estava com raiva, triste ou emocionada, mas certamente ela havia chorado. Entrei de novo no corpo de bombeiros e a abracei. Um dos três homens entregou a ela, antes da gente sair, um papel. A conduzi de volta para o carro. Ela não abriu a boca até chegarmos na delegacia.
— Você vai me contar o que aconteceu? — Perguntei ao desligar o carro.
— Preciso confirmar uma coisa. Depois a gente conversa?! — Abriu a porta e saiu.
— Waverly, não! — Fui atrás dela.- Fala comigo. — Segurei o braço dela de leve. — Mesmo que não me fale o que aconteceu lá dentro, me fala o que você está sentindo. Me fala se eu posso te ajudar.
— Eu não sei, ok? — Ela parecia esgotada emocionalmente. -Só sei que se o que eles me contaram for verdade, todos nós estamos ferrados. — Respirou fundo. — Preciso ver o que eu descubro, mas independente do que eu descobrir eu vou te contar, só não agora, ok? — Deu um meio sorriso — Eu ainda nem contei para Wynonna... — E subiu as escadas para a sala do BBD.
No final da tarde, minha avó me ligou, dizendo que estava indo me visitar. Claro que ela tinha que escolher o pior momento para fazer isso ou talvez fosse bom, já que era provável que eu não conseguisse pensar em outra coisa além do que a Waverly estava passando sem me contar. E o que ela quis dizer com "Estamos ferrados"?
Busquei dona Clementine na rodoviária e fomos para o Shorty's. Apresentei o Xerife para ela e ela se sentou na mesa para jogar pôquer com eles, quando Nedley não tinha mais o que apostar, ele se deu por vencido. Nesse meio tempo eu olhava o celular a cada 30 segundos. Quando eu já tinha arrumado o quarto de hóspedes, Waverly me mandou uma mensagem.
W: Está tudo tão confuso, mas tem uma coisa que ainda não se encaixa, falta algo. Obrigada por estar comigo.
N: Se precisar de ajuda, sabe onde me encontrar. Boa noite.
Eu estava preocupada com a situação toda, principalmente com o que isso estava causando nela. Ela não me contava e eu começava imaginar várias coisas, mas eu não tinha o direito de exigir que ela me falasse algo, certo? Ela disse que ia me contar, então eu só poderia esperar. Angustiada, mas paciente.
No dia seguinte, no trabalho, decidi começar fazer uma pesquisa para tentar ajudar Waverly de alguma forma.
Quando chegou sexta-feira, fui com minha avó para casa dela. Clarissa me levou para conhecer um bar novo que tinha aberto no dia anterior.
— Sério, esse setor novo, é a coisa mais maravilhosa que eu já pisei. Na sala de descanso tem gente que faz massagem e te serve coisa para beber. — Clarissa contava sobre sua promoção, mas eu não conseguia prestar atenção e ela percebeu logo.
— Vai, fala. O que aconteceu entre você e a garçonete, de novo?
— Ela não é mais garçonete, agora ela fica na delegacia, no setor especial. — Fiz uma pausa para pensar no que falar — Entre a gente acho que está tudo bem, o problema é que ela não me deixa participar muito da vida dela. — Peguei a garrafa de cerveja e enchi o copo novamente. — Não acho que seja de propósito, mas me incomoda ficar de fora. Não saber o que está acontecendo. Talvez ela não confie tanto assim em mim ainda. — Bebi todo o conteúdo do copo de uma vez.
— Talvez você seja muito para ela. — Comentou enchendo meu copo novamente e o dela.
— Nem ouse dizer algo assim dela. — Clarissa riu.
— Sabia que você ia falar algo do tipo. Você está muito apaixonadinha, mas falando sério... já parou para pensar que ela não esteja te excluindo, talvez ela esteja apenas te poupando de algo desnecessário?
— Até pode ser, mas ela não tinha que passar por isso sozinha, entende? — Olhei a tela do celular pela milésima vez.
— Só não sufoque ela com suas perguntas, você pode ser bem insistente quando quer. — Chamou o garçom para trazer tequila.
Talvez eu tenha ficado mais tranquila depois da conversa ou era a bebida fazendo efeito, mas consegui me concentrar nas coisas que ela falava sobre o novo cargo e que ela conseguiu conversar com a Olívia por 30 segundos, antes do Chris a mandar embora.
— Ela só disse que me desculpava, mas não queria mais me ver, pelo menos por enquanto.
— Até que ela te perdoou rápido, ela já ficou um semestre sem falar com o pai, porque ele esqueceu de buscá-la numa festa.
— E como ela voltou? — Perguntou Clarissa fazendo sinal para gente beber mais um shot de tequila. Sal, limão, viramos.
— Essa é a parte engraçada, pelo menos para gente. Ela voltou a pé, 4 quilômetros. Quando chegou em casa ele ainda brigou com ela por ter chegado fora de hora. Claro que depois ele lembrou e pediu desculpas, mas demorou para ela desculpar. — Esbarrei a mão no copo em cima da mesa, que ainda tinha parte da cerveja quente e o derrubei no chão. Realmente a bebida estava fazendo efeito. O garçom veio marcar na comanda que o valor do copo e limpar a bagunça. — Inclusive, foi nessa época que eu fiz 18 anos e ela passou uns dias lá em casa. Aprendi tanto. — Sorri, virando mais um shot.
— Você sabe que está falando da minha ex namorada, né? — Perguntou fazendo uma bolinha com o guardanapo e jogando em mim.
— Eu tô falando da "minha" ex namorada. — Tentei pensar em mais algo para dizer, mas nada saiu.
— Até ontem ela era só uma pessoa que você pegou esporadicamente por anos. Agora é ex namorada?
— Você entendeu. — Joguei a bolinha de novo nela e me levantei para ir ao banheiro. Tinha um corredor enorme, cheio de pessoas dançando, até chegar lá. Quando voltei, Clarissa estava segurando meu celular.
— Sua namoradinha te ligou 3 vezes, enquanto você estava na fila do banheiro. Pelas mensagens ela não parece muito feliz de você não estar em casa. — Me entregou o celular tocando com cara de riso.
— Ei, Waves. — Claro que ela percebeu que eu tinha bebido.
— Onde você está?
— Onde a gente está? — Perguntei para Clarissa.
— A gente está no Apolo 13 café, mas que é um bar. — Respondeu.
— Você volta hoje? Eu estava indo para sua casa. — Eu não conseguia pensar em algo para falar, Clarissa pegou o telefone da minha mão.
— Waverly, é a Clarissa. A Nic não está em condições de responder nada complicado nesse momento, mas amanhã pode ter certeza que eu faço ela voltar para sua cidade, ok?
— Como assim, minha cidade?
— Como assim você não avisou a garçonete que você vinha para cá? — Estendeu a mão com o celular — Se resolva.
— Deixa, a gente conversa depois. — Desligou.
— Waves? Waverly? — Olhei para Clarissa, inconformada. — Ela desligou.
— Acho que beber não foi uma boa ideia dessa vez. Vem, vou te levar para minha casa.
No dia seguinte acordei com o Charles se jogando em cima de mim e a Clarissa tentando fazê-lo sair do quarto.
— Tem um rolê muito firmeza pra gente ir hoje, você vai, né? -Perguntou Charles segurando no colchão enquanto Clarissa tentava puxá-lo para fora.
— Tira ele daqui. — Resmunguei e coloquei o travesseiro no meu rosto, a claridade do dia já fazia minha cabeça doer mais do que já estava doendo.
— Vou considerar um talvez. Ah, eu adicionei sua garota. — Soltou o colchão e se levantou. — Gata pra caramba, pena que não deu para apreciar direito no dia do jogo. -Respirou fundo como se estivesse chateado. Clarissa o empurrou para fora e trancou a porta.
— Você sabe o que ela vai encontrar nos álbuns de fotos, né?
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