Notas iniciais
I
"Como todos sabem, bruxaria é um dos crimes mais pesados e comuns cometidos em Algarve! Não podemos e não iremos suportar essa praga de bruxas infestando a nossa grande cidade!" Gritou o delegado da cidade. O nome dele era alguma coisa parecida com Stefan ou Steven, sei lá, pouco importava. E ah, Algarve não era bem uma grande cidade… Se quer saber, era uma pequena vila situada em meio à vales em algum lugar da Europa. A existência dessa vila era completamente insignificante, praticamente ninguém (que não nascera lá mesmo) tinha consciência de que aquele lugar existia, porém os habitantes de Algarve insistiam em se achar importantes… Grande merda.
"Só durante esta semana o conselho policial de Algarve queimou três bruxas…" Começou o pastor, e todos o interromperam com gritos e aplausos. Eu fiquei olhando para o pastor enquanto ele falava, ele era bem jovem para estar trabalhando no clero. Era bonito também, mas era um pastor então nem sequer manteve contato visual comigo. Acho que o nome dele era Jaime, ou algo assim. Sou péssima em memorizar nomes. "bruxaria é um dos pecados citados na bíblia, e quem o pratica causa mal aos outros e a si próprio também." Continuou ele, me dando uma olhada de soslaio. Eu sorri e ele pareceu desconcertado. Eu gostava de provocar as pessoas, principalmente quando estava prestes a ser queimada viva.
"Temo que poderíamos dar uma segunda chance a esta jovem, a chance que não demos aos outras moças… De se redimir." Eu o encarei um pouco chocada com o discurso. As pessoas que estavam abaixo do pequeno palco de madeira montado no centro da cidade, começaram a questionar uns aos outros sobre a sanidade do pastor.
"O quê?" Eu perguntei sem entender, e só percebi que o delegado estava ao meu lado quando ele me deu um tapa forte no rosto. Eu arfei quando o sangue escorreu pelas minhas narinas, e abaixei a cabeça respirando fundo. Queria mata-lo ali mesmo… Talvez se eu fosse rápida o suficiente, poderia correr antes que a multidão me alcançasse.
"Calada, bruxa." O delegado cuspiu a última palavra como se fosse um xingamento nojento. Eu fechei os olhos e me imaginei matando-o enforcado. Poderia fazer isso e fugir, mas temia que Aray estivesse por perto e divulgasse isso para Aramazd. Daí sim, eu teria grandes problemas… Problemas bem maiores do que um delegado maluco e uma multidão esperando avidamente para ver mais uma pessoa queimar em público. Por outro lado eu poderia deixa-los me queimar, mas quando descobrissem que o fogo não era capaz de me matar provavelmente iriam me decapitar. Isso já era uma coisa que não parecia interessante experimentar.
"Essa mulher não merece uma segunda chance, James!" Exclamou o delegado para o pastor, ele parecia desesperado agora. Eu sorri outra vez, ainda de olhos fechados. "ela matou duas crianças inocentes."
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda a injustiça." O pastor, James, recitou alguma citação bíblica. "não haverá queima hoje, voltem para suas casas e rezem pela alma dessa mulher, e isso é tudo."
Eu estava atordoada e aliviada ao mesmo tempo. As pessoas começaram a discutir em voz alta, alguns xingaram o padre sem o menor sinal de vergonha e outros sem falar nada apenas me lançaram um olhar de desprezo antes de saírem para seus caminhos. Respirei fundo. Tudo bem, eu seria desamarrada agora e poderia ir embora antes que alguém mudasse de ideia e resolvesse expor a minha cabeça no centro de Algarve.
"Tudo bem, jovem." James estava me encarando agora, seus olhos escuros tremendamente persuasivos. "eu vou leva-la a igreja agora.
Torci o nariz.
"Não obrigada, eu tenho coisas mais interessantes para fazer." Falei, e ele me ignorou, abrindo um pequeno sorriso e puxando a corda que me amarrava ao tronco no meio do púlpito improvisado. Eu ainda estava com ambas as mãos amarradas quando ele segurou-me pelo cotovelo e começou a andar comigo pelas ruas. Eu revirei os olhos. "juro que está tudo bem, você pode me deixar ir agora."
"Não, não posso." Respondeu sem me olhar, e eu fiquei inquieta imaginando se ele trabalhava a serviço de Aray ou qualquer um dos meus irmãos idiotas. Mas as suas palavras seguintes provaram que ele era só um padre: Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda a injustiça."
"Você quer que eu me confesse ou algo assim?" Eu quis saber. As pessoas nos encaravam enquanto passávamos, o delegado vinha atrás tentando ouvir nossa conversa, suas orelhas de abano certamente captavam o que estávamos falando.
"Não sou que quem quero, é o nosso Pai." Disse um longo tempo depois. Stefan ou Steven, ficou com a cara amarrada quando James insistiu para que ficasse em seu escritório na delegacia. "está tudo bem, eu vou leva-la para fazer o que deve ser feito e caso o contrário a trarei durante a manhã do próximo dia."
Andamos juntos por umas vielas e depois chegamos a enorme igreja que ficava exatamente no centro geográfico da vila. Eu não havia entrado lá, temia encontrar coisas das quais sentia medo, como por exemplo Aramazd. A minha história é bem longa, e acho que você vai entende-la com o passar do tempo. Aramazd é o meu pai, assim com o pai de todos os tantos irmãos que tenho. Revirei os olhos quando paramos na porta de entrada da igreja, eu preferia ter sido queimada a ter de entrar ali. James mantinha o cuidado de não me encarar enquanto entrávamos, sua expressão sugeria arrependimento.
A igreja era muito cheirosa por dentro, tinha cheiro de pinho e lavanda. E era bastante fresco também, como a casa de meu pai. Ainda sim eu me senti desconfortável ali. Alguns fiéis que estavam ajoelhados próximos aos bancos pintados em verniz escuro, me olharam com reprovação. Minhas mãos amarradas evidenciavam que eu não era uma boa influência. James me puxou para uma porta nos fundos, onde saímos em um corredor com outras portas. Eu queria que ele se distraísse logo, para que eu pudesse ir embora.
"Você irá me desamarrar?" Questionei enquanto caminhávamos pelo corredor, ele não respondeu. Entramos na terceira porta a direita, que se abriu para uma pequena sala de estar apinhada de livros. Ergui a sobrancelha. "que lugar é este?"
"Minha casa." Respondeu enquanto encostava a porta. Eu fiquei ali, com as mãos amarradas e parada no meio de uma sala de estar quente e abafada do padre (jovem demais) de uma pequena vila europeia. O que eu estava fazendo com a minha vida?
Ele me desamarrou, e pediu gentilmente que eu me sentasse no sofá. Eu queria desesperadamente fugir dali, e tinha recursos suficientes para isto, mas algo me chamou a atenção. Um símbolo desenhado em um papel cartão acima do criado mudo, em meio a outros livros.
"O que é aquilo?" Perguntei apontando, agora estava livre mas ainda sentia as amarras das cordas em meus pulsos.
"É um símbolo representativo de uma mitologia pré-cristã." Ele sorriu ao responder, feliz pelo meu interesse. Mas aquela imagem me perturbou, porque eu sabia o que era antes mesmo de perguntar. "Então… Nós dois podemos conversar agora que estamos a sós?"
"Você irá começar o seu diálogo sobre eu ser uma bruxa e…"
"Não julguem e vocês não serão julgados. Não condenem e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados." Ele me cortou usando outras palavras bíblicas. "primeiro, qual o seu nome?"
Ele não iria gostar de saber o meu verdadeiro nome.
"Milla." Menti categoricamente. Ele pareceu acreditar.
"Quantos anos você tem?" Perguntou. O-ou, outra pergunta inadequada.
"Vinte." Outra mentira.
"Há quanto tempo está em Algarve?"
"Doze dias."
"Você tem algum familiar aqui?" Ele parecia realmente interessado, seus olhos escuros me sondando. Ele era de longe o cara mais bonito de Algarve, acho que isso era bem notável. Não tinha os dentes sujos e podres como oitenta por cento da população. Os dentes debaixo eram ligeiramente tortos, mas eram limpos e bem cuidados. Tinha sobrancelhas grossas, o rosto quadrado e o cabelo bem penteado.
"O que disse?" Esqueci o que havia me perguntado.
"Sua família está aqui também?" Perguntou pacientemente.
"Sim." Respondi sem pensar. "quer dizer, meu irmão veio comigo. Não sei se ainda está em Algarve."
"Podemos encontra-lo?" Questionou. COM CERTEZA NÃO, NÃO PODEMOS!
"Talvez." Respondi e então balancei a cabeça. "eu não posso questiona-lo também?" Ele riu.
"Claro."
"Por que você me salvou?" Fui direta, cruzei os braços sobre o peito e me encostei no sofá. Ele não precisou pensar antes de responder.
"Milla, você não é culpada." Presumiu. "ou é?"
"Não." Eu cocei a sobrancelha e respirei fundo. Eu realmente não era a culpada pela morte daquelas duas crianças… Não das crianças.
"É o seguinte, eu vou te dar um tempo para pensar sobre a sua vida e conversar com Deus a respeito disso. Você pode falar com ele sempre que quiser, e admitir seus erros, mesmo que seja ter matado essas duas crianças inocentes…"
"Eu não as matei." Contra-ataquei. Ele assentiu.
"Só quero que se livre disso, você precisa conversar com Ele e comigo, desabafar e depois eu a deixarei ir sem interferência de Stefan."
"Você está sendo muito bom comigo." Falei quando ele levantou e foi para a cozinha. "não sei se mereço tudo isso."
O silêncio pairou no ar enquanto ele batia algumas panelas. Acho que falei merda.
"Quer dizer, eu já roubei uma vez." Falei em voz alta. Ele riu de lá da cozinha, parecia realmente se divertir. Eu me levantei e comecei a encarar a sala ao meu redor. Era muito quente aqui dentro, mas ele não parecia se incomodar com aquilo, mas o cheiro de pinho tão presente quanto lá fora. De repente me lembrei de estar em solo sagrado, e aquilo me afligiu um pouco mais do que o necessário. Não era para eu temer solo sagrado, eu havia sido criada em um.
Além do pequeno sofá de dois lugares, tinha uma poltrona de cor e estampa diferente. Um carpete laranja muito feio, um criado mudo ocupava o lugar de uma mesa de centro, e duas grandes estantes velhas cheia de livros, papéis e imagens de Jesus Cristo. Nas paredes alguns quadros com imagens de anjos. Era tudo muito bíblico. Me voltei para a imagem que ele havia falado a respeito, o símbolo estava um pouco mal desenhado, alguns lados tortos e alguns rabiscos a mais do que a original, mas além disso era um desenho preciso. Ele era bom nisso. Ao lado de uns livros sobre (adivinhem só…) religião, havia um porta retrato em uma foto em preto e branco. Na imagem havia um casal segurando duas crianças de colo.
"Estes são os meus pais." James estava parado na soleira da porta, eu o encarei e depois observei as crianças. Certamente ele era o que estava no colo da mãe. "Sanye Maleskine, Jousep Maleskine e Lincoln Maleskine."
Ele apontou os rostos enquanto falava.
"Onde eles estão?"
"Os meus pais morreram há alguns anos." Ele respondeu sem muita motivação. "foi por isso que eu resolvi me tornar padre, encontrei compreensão para a minha dor através da fé."
Eu precisava sair dali. Aquele cara era bom demais para estar se envolvendo comigo, mesmo que inocentemente, e eu não iria gostar das consequências que aquilo poderia lhe render. Ele voltou para a cozinha, falava de lá:
"Lincoln estava estudando em uma outra cidade perto daqui, ele deve voltar para cá no final dos dias deste ano." Falou com satisfação.
"Entendi." Respondi, instintivamente olhando para a porta. Eu poderia ir embora. Eu deveria ir. Se não fosse convincente ao divulgar os meus pecados, ele me entregaria ao delegado. Não que eu realmente acreditasse que ele fosse capaz disso, James parecia bom demais para tal. Talvez eu pudesse esperar até o anoitecer… "o que um padre faz estudando mitologias? Isso não é uma espécie de pecado ou algo assim?"
O seu riso foi mais forte do que os outros, ele veio andando para a sala com dois copos de madeira nas mãos. O cheiro do chá me alcançou antes que ele estivesse perto.
"Aqui." Me entregou e se sentou no sofá de dois lugares. O chá era de erva doce, acho. Eu não gostava de chás, mas fingi que sim porque ele havia tido o trabalho de prepara-lo. "eu gosto de estudar tudo que tem a ver com religião, e mitologia tem alguns fatos sobre. Não é a religião em si, há muitas mentiras como a criação de falsos deuses e coisas do tipo. Mas é interessante."
Balancei a cabeça concordando.
Passar o dia com ele foi fácil, ele me contou um pouco mais sobre sua família e insistiu que eu falasse sobre a minha. Menti a maior parte do tempo, mas fazia isso com facilidade. Mas fui honesta quando falei de Barsamin, meu irmão. Ficou explícito que eu o amava, James pareceu gostar disso. Depois do chá ele tivera que me deixar sozinha, disse que teria de pregar e saiu. Deixou a porta trancada, não que fosse o suficiente para me manter ali, mas eu não tive coragem de fugir ainda. O símbolo da mitologia armênia me chamava muito a atenção. Eu tinha aquele símbolo tatuado abaixo do seio esquerdo, na altura das costelas, bem na lateral do corpo. James Benjamin, era o nome dele. Eu encontrei alguns documentos assinados em seu nome, abaixo dos livros sobre teologia. Ele havia me deixado uma muda de roupas acima do criado mudo na sala, e eu resolvi tomar um banho antes que voltasse.
Enchi um balde com água quente, e outro com água fria e os misturei em uma bacia. Coloquei toda a água no balde acima da minha cabeça. Não sei se você sabe como funciona um chuveiro na idade média, não são todas as pessoas que tomam banho, mas as que tomam costumam se lavar com uma esponja. James tinha criado uma espécie de chuveiro com um balde preso no teto, e uma saída de furos que podia ser controlada entre aberto e fechado. Você colocava a água dentro desse balde e ia manuseando a saída de água, enquanto se lavava. Quando a água do balde acabava era necessário preenchê-lo novamente para continuar. Lavei os cabelos longos e loiros, vendo a sujeira descer pelo ralo e levei mais tempo ainda para retirar todas as folhas que tinham presos neles. Quando terminei, sequei com uma toalha e me encarei no pequeno pedaço de espelho pendurado na parede.
Eu tinha algumas sardas abaixo dos olhos, olhos grandes e verdes que certamente deveriam assustar as pessoas de vez em quando. Fiquei encarando meu reflexo pelo tempo que pude e depois de vestir as roupas que James me deixara, uma camiseta branca de mangas longas (de alguém maior que eu) e amarras na parte onde deveria existir um decote, e uma calça de couro preta dois números menores do que o meu, ficou bem justa e imaginei que tipo de fiel havia doado aquela peça. Uma ex prostituta, talvez. James não deveria ter imagino que fosse ficar tão apertado. Mas ele nem teria a oportunidade de me ver vestindo aquilo, porque eu estava de saída. Antes de ir fiquei por alguns minutos observando a foto de sua família, eu queria rouba-la e guarda-la comigo por vários motivos. Por ser a imagem de uma família, algo que eu tinha e não tinha. E por ter o sorriso infantil, que até hoje ele esboçava. Aquele padre tão humano, tão estranho e tão real havia sido a única pessoa que fizera algo por mim durante todos os últimos anos e eu queria me lembrar dele.
Mas seria muito frustrante quando ele voltasse, ter perdido a delinquente que deveria ter deixado queimar e também seu único retrato de família. Tentei memorizar os traços de seu rosto, juvenil e rebelde. Depois peguei as minhas antigas roupas e as joguei dentro de uma bolsa de couro manchado que encontrei em uma gaveta na sala. Me olhei no espelho antes de sair, e quebrei a fechadura da porta da frente. Andei devagar pelo corredor, sabendo que era estupidez fugir por aquele caminho. Mas alguma daquelas outras portas deveriam ser uma saída fácil, ou eu teria que quebrar a janela da cozinha dele ou eu teria que passar pela igreja de qualquer jeito.
Abri a última porta que dava aceso a uma pequena despensa, e havia uma outra janela ali. Iluminava o ambiente escuro, eu escancarei a pequena janela e observei onde ela sairia. Dava acesso aos fundos da igreja, uma pequena extensão da floresta de Algarve. Perfeito, pensei. Estava me preparando para saltar a janela quando a voz dele ressoou pelo corredor e entrou na despensa. Ele, James, estava pregando sobre o perdão, falava alto e com muita propriedade.
"Isaías 55:7 diz: Que o ímpio abandone o seu caminho e o homem mau, os seus pensamentos." Falou. Me encostei na parede e continuei escutando suas palavras. "Volte-se ele para o Senhor, que terá misericórdia dele… Volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão."
Foi com essas palavras ao fundo, que eu deixei James Benjamin Maleskine para trás.
Fale com o autor