Crônicas de Astghik.
2 Ii
II
Eu tinha corrido uns alguns quilômetros em quarenta minutos. O suficiente para te saído das dependências de Algarve. Quando cheguei na vila seguinte, após os vales, Guadiana Marim. As pessoas lá eram tão estúpidas quanto em Algarve, se achavam interessantes e superiores mas a diferença era que Guadiana era uma vila maior, quase uma cidade, e talvez pessoas além dali tivesse conhecimento daquela cidade. Eu levei algum tempo para me situar e achar o centro, onde iria encontrar uma maneira de viajar com algum dos navios que vi saindo do porto ao longo da costa.
"Não deveríamos nos misturar?" Ouvi uma voz inquieta atrás de mim, eu sabia a quem ela pertencia e quis me matar ao reconhece-la. Me virei e Aray ali. Ele estava exatamente do jeito como eu o vira na última vez, o cavanhaque bem aparado, os olhos escuros pequenos e astutos, o cabelo bem cortado. "não são muitas as mulheres que andam com calças como esta, minha irmã. Temo que tenha começado a se vender para sobreviver." Ele riu. Eu continuei o encarando, sem vestígio de humor.
"Aray." Foi tudo o que eu disse.
"Senti sua falta." Disse com um sorriso.
"Eu também." Menti.
"A vi hoje de manhã." Disse me pegando pelo braço e me puxando para um lugar mais afastado da rua. "tive que fugir imediatamente de Algarve antes que a queimassem. Iriam nos descobrir."
Fiquei em silêncio.
"Que merda foi que fizeste?" Questionou com ódio, toda a falsa gentileza desaparecendo.
"Estavam achando que eu matei duas crianças e me acusaram de bruxaria." Falei empurrando-o, me livrando de seu forte aperto. "eu aposto que você quem matou as duas crianças, Aray."
"E daí? Nós vamos ficar nessa vida miserável sem se alimentar? O que houve com você, Astghik?" Ele perguntou. Ah, esse era o meu nome de verdade... Se algum dia você se decepcionou com os seus pais por terem lhe dado um nome sem graça ou muito engraçado, experimente se chamar Astghik. "estamos na Terra, em um dos mundos mais promíscuos que existem, e após sermos banidos o nosso pai nos deu livre arbítrio para fazermos o que quisermos."
"Ele nos deu uma chance de nos redimir, Aray. Estamos aqui para gloria-lo de alguma forma, e assim ele nos trazer de volta para casa. Aqui não é o nosso lar."
"Mas e daí!?" Perguntou de novo. "você realmente quer voltar para casa? Voltar ao trono de um mundo sem graça, tendo que governar e perder toda a parte boa? Você ainda não percebeu quanto prazer pode sentir aqui, na Terra?"
Eu fiquei em silêncio. Não que fosse uma santa ou algo próximo disso, mas eu não tinha perdido meu tempo com homens. Eles não eram atraentes, e nessas cidades onde ficávamos, a maioria era burro também. Os poucos caras bonitos que tive a oportunidade de conhecer nessa nova jornada, não foram bons o suficientes para que eu quisesse transar. Eu sabia que existia um instinto para isso, existia um desejo que nos impulsionava a tal, algo que eu não sentia. Só queria fazer o que meu trabalho e voltar para casa o mais rápido possível.
"Vejo que não deu uma boa trepada até agora." Aray estava rindo. Eu suspirei, queria que aquela conversa acabasse logo.
"Aray, você pode fazer o que bem entender, eu não me importo. Vou fazer algo bom e irei embora daqui. Eu realmente não estou nem aí para quantas mulheres você fode todos os dias, ou para o quanto de bebida tem ingerido, eu só acho que matar crianças está fora dos nossos padrões."
"Eu estava com fome."
"E daí?" Imitei seu tom de voz de escárnio. "não matamos crianças."
"A carne delas é mais saborosa." Ele respondeu com um beicinho, esperando que eu entendesse sua desculpa. Eu o peguei pelo colarinho da camiseta de botões.
"Não matamos crianças." Rosnei.
"Tudo bem, se acalme." Ele empurrou a minha mão. "como fugiu? Matou quantos?"
"Não matei ninguém." Respondi rapidamente. "o padre me soltou."
"Por quê?" Perguntou incrédulo. "eu os vi queimar outras mulheres por bruxaria na semana passada."
"O padre disse que eu merecia perdão." Falei achando graça, Aray me encarou com desdém.
"Talvez ele tenha se apaixonado, irmã." Falou. "quem não se apaixonaria pela deusa do amor e da beleza?" Questionou. Eu revirei os olhos.
"Ele não estava presente quando queimaram as outras mulheres, tenha compaixão." Respondi enquanto começava a andar em direção a um bar aberto. Aray veio atrás, o tempo todo pensativo. Ele pediu dois copos de vinho, e bebemos enquanto outros homens não tiravam os olhos dos meus peitos, ainda que estivessem escondidos abaixo da camiseta sem decote.
"Você precisa andar mais feia." Aray falou, passando os dedos pelo cavanhaque. "talvez se raspasse a cabeça e deixasse os pelos da axila crescerem."
"Você não parece estar se misturando." Eu disse apontando suas roupas, e beberiquei o vinho. Era forte e tinha um gosto horrível, as uvas boas estavam misturadas a uvas podres. Eu cuspi dentro do copo.
"Não faça isso, Astghik." Aray balançou a cabeça negativamente. "não estrague a bebida."
"Ela já está estragada." Me defendi.
"Fraca." Foi tudo o que ele disse. Eu o encarei por um tempo, e depois voltei a insistir no que eu havia dito antes.
"Não sou a única que não estou me misturando."
"Queria que eu andasse com trapos?" Perguntou sem me olhar, olhava alguém por sobre o meu ombro. "eu sou um deus, não vou andar como um idiota."
"Você era um deus." Corrigi.
"Não somos mais."
"Claro que somos."
"Perdemos os nossos poderes, Aray."
"E como recompensa ganhamos os sentidos humanos, podemos sentir coisas agora... Ódio e amor, por exemplo."
"Já sentíamos isso antes." Corrigi outra vez.
"Não com tanta intensidade, é tudo muito melhor agora. Além do mais, os prazeres carnais... Você precisa experimentar, irmã."
"Chega desse assunto de sexo." Eu resmunguei.
"O padre não era inteligente o bastante para você?" Ele começou a rir, certo de que eu só procurava me envolver com quem tinha o intelecto aprimorado.
"Ele era bem inteligente, se quer saber. Inclusive estuda mitologias... A armênia é uma delas." Respondi e ele pareceu sobressaltado e curioso ao mesmo tempo.
"Sério?"
"Sim, acho que ele estuda o suficiente para saber quem são os deuses armênios, porque até o símbolo da nossa casa ele tem desenhado." Falo e só agora percebo que alguma coisa diabólica está formando ideias em seus pensamentos.
Em nossa mitologia, que não é considerado mito (claro), Aray é o deus da guerra. Ele é pouco conhecido, porque quando as lendas sobre nós foram difundidas na Terra, nosso pai procurou não difundir o lado perverso dos deuses. Aray era a perversidade em pessoa.
"O que está pensando?"
"Quero conhecer o seu namorado." Um sorriso largo nasceu em seu rosto.
"Aray, eu quero você longe dele." Falei com revolta. "ele é só um padre qualquer, deixe o homem em paz."
"Sabe que com o passar dos anos nossas histórias foram perdidas, veio o cristianismo e nos tornamos lendas. Templos erguidos em nome de nosso pai, Aramazd, foram derrubados e canções cantadas para nossos nomes foram extintas." Ele parecia irritado. "as poucas pessoas que nos honram, merecem ser respeitados e eu quero conhece-las."
"Ele não honra nosso nome, seu idiota." Falei. "Ele só tem interesse por mitologia, não crê nelas. Ele é um padre, Aray. Um padre que prega o cristianismo."
"Então acha que ele deve ser morto?" Perguntou com um tom inocente, mas com um sorriso debochado. "matar toda a raça que prega algo que matou nossa religião."
"Cale a boca." Eu me debrucei sobre a mesa, para encará-lo de perto. "este é o Deus deles, por que você tem que estragar tudo? Porque você é mais real do que o Deus deles?"
"Você já conheceu Jesus Cristo, Astghik?" Perguntou. "Bom, eu não... Então até lá, para mim é tudo uma farsa." Ele se levantou e ergueu o dedo para o dono do bar, eles pareciam se conhecer.
"Aray." Eu o chamei correndo atrás dele pelas ruas. "você não vai fazer nada estúpido, vai?"
"Não, minha irmã. Jamais." Eu o peguei pelo braço.
"Aray, não faça nada do qual irá se arrepender. Eu o faço se arrepender." Ameacei e ele continuou andando sem se virar para me olhar.
"Irmã, curta um pouco a Terra." Disse indo embora. Eu não confiava em Aray e não acreditava que havia sido tão idiota a ponto de falar sobre James. Aray era traiçoeiro, havia exposto um de nossos irmãos na Terra há alguns meses, só por diversão. Ele adorava encontrar maneiras de estragar as coisas e se divertir às custas disso. Nós, seus irmãos, éramos sempre peças chaves da sua crueldade depravada. As vezes era impossível acreditar que existiam deuses tão ruins.
Fiquei parada no meio da rua, enquanto cavalos iam e vinham, pensando se acreditava em Aray ou não.
"Certamente não." Alguém disse atrás de mim. Eu me virei e Vahagn estava ali, parado, sorrindo.
"Vahagn." Eu sorri ao vê-lo, ele manteve o sorriso. Éramos irmãos gêmeos e tínhamos uma conexão bizarra do tipo que, dependendo da distância em que estávamos, se nos concentrássemos bem, conseguíamos ouvir a mente um do outro. Era um dom inconveniente em algumas ocasiões, mas como Vahagn era uma pessoa relativamente boa, não tínhamos problemas com isso.
"Ast." Ele falou meu apelido, apelido este dado por Barsamin. Que saudades dele.
Vahagn parecia um deus nórdico. Tinha os cabelos loiros compridos e uma barba longa também, os olhos eram verdes como os meus. Éramos muito parecidos, claro. Ainda que tivéssemos essa conexão de gêmeos, não era a mesma coisa que Barsamin. Eu e Barsamin nós dávamos tão bem quanto qualquer par de nossos irmãos. Vahagn tinha uma pequena casa no final do vilarejo, bem próximo ao porto.
"Eu não sabia que estava na mesma cidade que Aray."
"Ele veio para cá recentemente, fugindo que alguma coisa."
"Iam me queimar." Falei olhando pela janela de sua pequena casa, o porto e o mar se estendendo como uma mão azul e brilhante. "ele fugiu antes que imaginassem que tínhamos algum parentesco ou algo assim. Não quis ficar para ver a irmã sobreviver a fogueira."
"Que loucura, Ast. Por que iriam queimá-la?"
"Ele matou duas crianças." Falei e Vahagn não pareceu se comover com aquilo.
"Nós precisamos nos alimentar, não é culpa nossa que na Terra não tenhamos como nos alimentar de luz e sabedoria, Ast."
"Mas isso é cruel, Vahagn." Eu falei assustada. "são crianças."
Ele ficou em silêncio e eu imaginei que já tivesse matado uma dúzia delas em Guadiana.
"Do que tem se alimentado então? Carne humana é a única coisa capaz de nos manter vivos aqui."
"Eu apenas não mato crianças." Falei estridente, enquanto me lembrava da última pessoa que matei para me alimentar. Era um homem de meia idade que bulinava crianças em Algarve. Ninguém havia sentido falta dele, desde que desaparecerá há quase um mês, as pessoas ficaram aliviadas. Ele era um velho resmungão, que matava os animais de estimação das pessoas, mas ninguém (além das crianças atacadas), sabiam que era um pedófilo.
"Ainda assim não podemos culpa-lo por isso." Defendeu. "precisamos sobreviver."
Eu não quis questionar, nada do que eu diria iria fazê-lo entender que Aray matava crianças não por sobrevivência, mas por prazer da presa indefesa que não podia lutar e que deveria ter sentido mais terror do que qualquer adulto.
"Posso dormir aqui hoje?" Perguntei. "Vou embora ao amanhecer."
"Sem problemas." Disse simplesmente. Ele era alto e musculoso. Vahagn era célebre em nossa terra, por matar dragões e por ter mais coragem do que todos os deuses juntos. Aqui ele era só um cara grande que cortava lenha e vendi a no centro da cidade. Voltou para o quintal dos fundos, onde haviam alguns troncos para serem deflagrados. Eu fiquei sentada em uma cadeira na pequena casa enquanto imaginava James terminando o culto, e encontrando a porta de sua casa arrombada. Adormeci na cadeira.
O sono frequente não era algo com o qual estávamos acostumados a lidar. Nós deuses hibernávamos uma vez a cada doze anos, ficávamos desacordados durante doze meses. Hibernávamos em pares, para que todos não estivessem foram quando o mundo precisasse de controle. Mas aqui, na Terra, precisávamos dormir todos os dias se quiséssemos ser produtivos. Perdemos vários de nossos poderes ao virmos para cá, mas algumas coisas se mantiveram como a conexão de gêmeos que eu tinha com Vahagn. A força um pouco exagerada e a rapidez também haviam sido mantidos.
Todos os filhos de Aramazd haviam sido banidos por desobediência. Quando nascemos, há tantos milhões de anos atrás, já tínhamos nos comprometido a salvar o mundo da maldade e da crueldade; e era algo que não tínhamos feito muito bem. O mundo estava cheio de pessoas perversas, de acontecimentos desastrosos e o nosso pai irado resolveu que iríamos sentir como era que as pessoas boas sofriam na Terra. Estão todos éramos humanos agora, e vivíamos como tal. Não era tão ruim para Aray, por exemplo, que usava da trapaça para roubar e viver bem e de forma proveitosa. Mas para Vahagn, por exemplo, aquilo era uma espécie de tortura. Ele era vangloriado em nosso lar, e ali era só um cara que vendia pedaços de madeira. E ele deveria sentir muita falta de Tsovinar, nossa irmã e também, sua esposa.
Outra coisa a qual não estávamos nenhum pouco habituados, eram os sonhos. Eles aconteciam enquanto dormíamos, e era uma imagem abstrata de desejos e medos que tínhamos. Era uma coisa muito fora do normal.
"Você sonhou com ele." Vahagn estava sentado na outra cadeira. Minhas costas doíam. Dor. Ela era uma das sensação das quais eu não sentiria falta quando voltasse para casa.
"Com quem?" Eu perguntei um pouco sonolenta.
"James."
"Ahn!?" Questionei balançando a cabeça.
"Você falava o nome dele enquanto dormia." Vahagn disse, parecia se divertir. "então você conheceu um humano interessante..."
"Parem de agir como se eu estivesse apaixonada ou algo assim." Gemi recordando de Aray fazendo piadinhas sobre o padre.
"Quem falou em paixão!?" Vahagn erguei as mãos em sinal de defesa. Eu revirei os olhos e ele começou a rir. "você deveria experimentar, Ast."
"Experimentar o quê?"
"Se apaixonar." Responde e eu logo penso em Tsovinar, e na saudade que ele deve estar sentindo dela. Ele me olhou quando pensei nela, e eu percebi que ele sabia em quem eu pensava, sua expressão fora de dor. "está tudo bem."
"Imagino que sim." Respondi ao notar que ele se referia ao sentimento da saudade. Eu não queria ficar ali, o incomodava ficar pensando em Tsovinar.
"Está tudo bem." Repetiu. "você pode ficar o tempo que quiser."
"Eu sei." Me obriguei a pensar em qualquer outra coisa para não magoa-lo mais do que eu, provavelmente, já havia feito. Fiquei observando as luzes do céu irem diminuindo e a iluminação das casas começarem a aparecer. Vahagn acedeu alguns archotes que ficavam presos às paredes, o fogo queimava parte da construção da casa, deixando escuro o lugar na parede onde tocava. Eu não queria admitir mas estava um pouco preocupada com James.
Compaixão era outro raio de sentimento que eu preferia viver sem. Não tinha o sentido muito desde que chegamos aqui, mas agora que alguém (que não era da minha família), havia sido muito gentil comigo, eu conseguia sentir. James havia sido bom, ele tinha me poupado de uma grande cena e tudo o que eu fizera havia sido deixa-lo para trás, e por sinal ele iria levar uma boa bronca por ter deixado a prisioneira fugir.
"Por que não vai ver como ele está?" Sugeriu Vahagn, outra vez ouvindo os meus pensamentos. Eu fiquei inquieta com as palavras dele. "apenas verificar se Aray não foi atrás dele."
Aquilo me chamou a atenção, se Aray tivesse feito alguma coisa...
"Você acha que ele faria mal a um cara que não fez nada a ele?" Questionei meio evasiva, eu sabia da resposta.
"Você conhece nosso irmão. Ele gosta desses joguinhos." Disse finalmente. Eu me levantei, estava bem disposta depois das horas de sono, e queria ver James mais uma vez. Precisava me certificar de que estava tudo bem com ele.
"Eu volto antes do sol nascer." Falei e Vahagn apenas assentiu. Quando sai as ruas estavam apinhadas de gente, cavalos trotando de um lado para o outro e muita música e baile nas ruas. Guadiana era bem mais animada que Algarve. Caminhei por entre as pessoas, ignorando os sibilos de alguns homens que falavam da minha calça apertada, e comecei a correr quando cheguei ao vale, no meio da floresta densa e escura. Eu conseguia enxergar no escuro, era um dos resquícios de deuses que me seguiram até a Terra.
Algarve estava silenciosa, exceto pelos bares que estavam abertos. Na praça principal do centro da cidade, o pequeno palco de madeira estava montado e o delegado fazia um discurso sobre o desaparecimento de uma outra pessoa. Ele voltava a falar sobre as bruxas, e eu esperei um pouco, nas sobra das árvores, que ele comentasse sobre eu ter sumido. Ele não falou sobre isso. Caminhei até os fundos da igreja e entre pelo menos lugar de onde sai, a janela da despensa. Quando abri a porta que dava acesso ao corredor, tive de ficar um tempo esperando para me acostumar a escuridão. A igreja estava completamente escura. Eu não sabia se queria que James me visse então ponderei sobre isso durante alguns minutos, chegando a conclusão de que o melhor a se fazer era continuar despercebida.
Abri a porta de sua casa, ele colocou o criado mudo para bloquear o acesso a casa, esqueci que tinha quebrado sua fechadura. Respirei fundo tentando não fazer barulho, empurrei o criado para o lado e entrei. Encostei a porta e observei a sala de estar na escuridão. Ela era totalmente diferente de à luz do dia. Caminhei até a cozinha e depois fui ao quarto, ele não estava lá. Não estava em nenhum cômodo da pequena casa. Meu estômago revirou, e eu nem sabia que era possível ter essa sensação. Vertigem. Será que Aray tinha o encontrado? Eu caminhei até a sala outra vez e procurei pelo desenho da insígnia da mitologia armênia. Fiquei paralisada quando não a encontrei ali, e nem as outras folhas que ele escreva a respeito de mitologia grega e romana.
Tudo bem, sejamos coerentes. Aray não teria coragem de fazer nada... Sim, ele teria. Respirei fundo, notando que minhas mãos soavam quando corri para a porta e na escuridão bati com um desconhecido que derrubou meia dúzia de livros.
"Mila?" Ele perguntou com os olhos semicerrados. James. O meu impulso foi perturbador, eu o puxei para os meus braços e afundei seu rosto em meu peito como fazemos ao aninhar um bebê. Ele foi pego de surpresa. "onde você estava!?"
Ele falou tão alto e com tanto fervor, que sua voz ressoou pelo corredor e se multiplicou em ecos ao atingir as paredes da igreja.
"Me desculpe." Eu falei um tempo depois, ajudando-o a se levantar. Ele pegou os livros no chão. "eu pensei que tivessem te feito algum mal."
"Por que fariam isso?" Perguntou nervoso, entrando para a casa. Eu fui atrás dele. Não tive como responder aquilo, fiquei olhando-o caminhar e ascender uma vela para iluminar o ambiente, o que não se comparava em nada aos archotes que Vahagn usava em sua pequena casa.
"Eu sinto muito." Falei outra vez. James colocou os livros na estante, e se sentou na poltrona, ficou me encarando, evidentemente irritado comigo.
"Pensei que não fosse mais voltar, o delegado iria me matar se amanhã você não estivesse aqui." Ele disse, e alguma coisa na minha expressão o fez se explicar rapidamente. "não que eu fosse entrega-la, eu lhe dei o direito a confissão porque o Senhor o quer, mas ele certamente iria querer ver como estava."
"Acho que foi um erro você ter me deixado sair daquela fogueira, se quer saber." Ele me escutou com atenção, mas não pareceu se importar com o que eu havia acabo de dizer.
"Você pode ser uma boa garota e simplesmente me obedecer? Quando eu pedir para que não saia, não faça isso sem meu consentimento." Ele pediu com cautela e eu fiquei alarmada com aquelas palavras. Ele queria que eu permanecesse ali, e eu não podia fazer aquilo.
"Não posso ficar aqui."
"E por que não?"
Eu não tinha uma resposta para aquilo.
"Mila, eu só quero que você possa ser livre por merecer a liberdade, você compreende? Do que adiantar fugir se vão caçá-la. O delegado irá atrás de você onde quer que esteja." Disse, e eu sorri no escuro. O delegado não me encontraria se eu quisesse fugir. "eu quero que mereça a liberdade, e você poderá ir e vir sem se incomodar."
"O que eu preciso para merecer a liberdade?" Perguntei, apenas curiosa a respeito do que ele iria dizer.
"Passar uns dias aqui na igreja, comigo. Entenderá o propósito da fé." Falou e eu revirei os olhos no escuro. "você irá confessar seus pecados aqui, e se livrará deles."
"Certo." Foi tudo que eu disse. Ele parecia magoado, acho que essa era a definição. Ficou um tempo sem conversar comigo, enquanto acendia outras duas velas pela casa e sentava-se para ler um dos livros que trouxera de algum lugar. Ele ficou rabiscando um esboço da figura do Minotauro, enquanto lia completamente absorto.
"Você desenha muito bem." Eu falei observando a precisão dos traços na musculatura do abdômen da fera, e nas sombras projetadas em seus chifres. Ele erguei os olhos escuros e abriu um pequeno sorriso em gratidão. "seus fieis sabem que você desenha monstros em seu tempo vago?"
"Não." Respondeu simplesmente. "os fieis já tem seus próprios monstros para se preocupar."
Fiquei em silêncio. Quando foi ficam mais tarde ele achou melhor eu ir dormir. Sua cama era de casal, e óbvio, que ele não ficou no quarto comigo. Me deu outra muda de roupas e fez sua cama no sofá de dois lugares. Eu me troquei rapidamente, imaginando se Vahagn entenderia eu não ter voltado para sua casa. A camisola era de alguma senhora, o modelo era bem largo e velho. Eu não reclamei, apenas me troquei e fiquei sentada na cama dele, no escuro. Ele veio com uma vela colada pela cera em um pequeno pedaço de madeira. Deixou a vela num canto do quarto.
"Obrigada." Falei apesar da vela não ter feito a menor diferença no quarto.
"Já pensou em comprar um candeeiro desses a gás?" Eu perguntei e resolvi emendar para não parecer mal agradecida. "as velas são legais, mas o candeeiro seria bom para você conseguir ler no escuro."
"Eu não trabalho, Mila. Não tenho remuneração para comprar um candeeiro, além do mais todo o dinheiro do dízimo é utilizado para manter a igreja." Falou sentando-se na ponta da cama. Seu rosto ficava incrivelmente bonito metade nas sombras, metade na luz. "você quer me dizer para onde foi?"
"Não." Fui honesta.
"Fez algo do qual tenha se arrependido?"
"Diz onde eu estava ou em minha vida?" Pergunto.
"Ambos."
"Lá onde eu estive não... Mas acho que tenho um motivo bem grande de arrependimento." Falo me lembrando de quando nosso pai nos baniu. James está me olhando, pensativo. "não estou falando daquelas crianças. Eu não as matei. Jamais faria algo assim com crianças."
Ele ainda estava me olhando, agora um pouco chocado, acho.
"Quer dizer, eu não faria isso com ninguém." Minha voz falhou no final, o que traiu um pouco a verdade por trás das palavras ditas.
"Você viu os corpos?" Ele perguntou um tempo depois, sua voz rouca soando alta mesmo que estivesse sussurrando.
"Sim. O delegado me obrigou a ver... A ver a minha obra." Falei a última frase fazendo aspas com os dedos.
"Stefan pode ser um pouco persistente quando crê em algo." Ele parecia se desculpar pelo colega delegado. Eu apenas sorri no escuro. "o que você acha que matou aquelas crianças?"
"Não faço ideia." Menti me lembrando das crianças. O garoto era ruivo, e a menina loira. Ambos tinham oito anos de idade e eram vizinhos. O corpo dela tinha praticamente sumido, os ossos estavam próximos aos do garoto, o que fez a polícia crer que eram da garota desaparecida. O corpo dele não tinha sido completamente desfigurado, porque provavelmente Aray não tivera tempo de terminar de comer ou porque provavelmente ele estava cheio. Do garoto sobrou toda a cabeça e parte dos ombros. Todos os órgãos, de ambos, havia sido preservado.
"A senhora Muniz está inconsolável." Falou mais para si mesmo do que para mim. Senhora Muniz deveria ser a mãe de alguma das crianças. Eu fechei os olhos e tentei imaginar algo bom, que não fosse aqueles corpos mutilados. "bom, vou voltar a ler e deixa-la dormir."
"Tudo bem." Eu balancei a cabeça. Ele veio para o meu lado na cama, se ajoelhando no chão e eu o encarei um pouco atordoada.
"Senhor, peço que olhais por esta jovem e que a ame, pois tu és o único que sabe quem ela realmente és. Para dar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados. Amém." Ele se levantou após fazer o símbolo da cruz, e me veio até mim. Eu recuei um pouco, com medo do que ele iria fazer, e mesmo assim James segurou meu cabelo de leve e me deu um beijo na testa antes de sair do quarto. "Boa noite."
"Boa noite." Respondi descrente de que aquele homem estivesse cuidando de mim, sendo gentil e carinhoso.
Quando ele saiu do quarto eu fiquei atônita. Não soube como reagir àquilo. Fiquei encarando-o desaparecer do quarto e depois a luz da vela dançar enquanto os minutos se arrastavam.
Lembro que naquela noite, eu sonhei com o padre outra vez.
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