Crônicas de Arkauss
7 Capítulo 7 - Treinamento duro
Notas iniciais
Bam, bam bam! A porta rangia como se fosse quebrar com as fortes batidas na porta.
Connor dá um salto da cama e desembainha sua espada que repousava na cabeceira da cama em um movimento rápido, focando sua visão de encontro à porta através do escuro do quarto.
As batidas se repetem, seguidas de uma voz:
— Sir Connor Arkauss, esta aí?
A voz era grave, metálica e profunda, diferente de todas as que o jovem já ouvira antes. Connor se aproxima silenciosamente da porta e pergunta:
— Quem me chama?
— O general do rei, seu novo comandante! – Exclama a voz do outro lado da porta aparentando impaciência.
Connor solta o ar e relaxa os músculos que doíam de tão tensos. Assim que ele abre a porta, a enorme figura do general se revela diante dele. Era um homem de meia idade com barba curta e abundante por todo o maxilar, seu rosto é quadrado e marcado por uma cicatriz que partia da têmpora direita até a ponta do queixo, cegando seu olho e dando um ar sinistro ao homem. Tinha o cabelo extremamente curto, quase raspado, assim como os militares do rei que o jovem tinha visto no palácio. Seu olho bom era de um verde que parecia queimar quem quer que o olhasse e nesse instante estava olhando fixamente para o jovem, como se enxergasse algo através dele.
Seja o que for, pela carranca que fez, não era algo de seu agrado.
— Então você é o novo protegido do rei? — Diz o homem forçando um sorriso maligno que fazia a sua cicatriz formar um arco na bochecha danificada. — Vamos ver se você é bom o bastante, agora pegue suas coisas e siga-me.
Connor engole a seco e o segue após pegar suas coisas no quarto o mais rápido que pôde. Em questão de minutos, estavam os dois em cima de seus cavalos do lado de fora da hospedaria.
— A propósito, meu nome é George, General George para você — diz o homem sem se virar na direção do jovem.
— Muito prazer, senhor – responde Connor.
De costas para Connor, os ombros do homem sobem e descem em deboche à cordialidade do rapaz.
— Vamos ver se ainda vai ser um prazer quando chegarmos ao campo de treinamento – diz General George.
O jovem ignora o comentário e os dois continuam a caminhada. O dia não tinha nascido completamente, então conseguiram alcançar o nascer do sol na metade do caminho, que passava pela pradaria que circundava os arredores do castelo. Durante a viagem, os dois corriam a toda a velocidade em seus cavalos, como se apostassem uma corrida em que o perdedor perderia a vida. Por esse motivo, chegaram ao destino na metade do tempo que seria normal a qualquer viajante, às custas dos pobres animais ofegantes.
Assim que se aproximaram dos arredores do destino, Connor observa bem o lugar em que ficaria por algum tempo treinando.
O campo de treinamento do reino tinha uma parede de pedra de enormes proporções que o cercava por completo, o único meio de entrar seria o portão principal, uma grande chapa de madeira reforçada por barras de ferro de quase um palmo de largura, pelo qual o jovem cavaleiro passa juntamente com o general.
Do lado de dentro, a construção parecia outra: era composta por várias casas baixas feitas de lona e madeira, o solo era praticamente todo feito de lama e nas extremidades do terreno estavam as zonas de treino, no qual os jovens se amontoavam para aprender a usar as armas que eram lhe dadas e a se defender com elas.
— Tudo bem novato, – diz o general parando abruptamente logo após entrarem pelo portão e saltando de seu cavalo na lama – Entre no seu alojamento e se prepare, o treino de espadas começará em dez minutos.
— Mas eu já sei usar minha espada senhor – protesta Connor.
— Eu não estou te perguntando nada rapaz, apenas me obedeça – corta de forma dura o homem.
Connor então desce de seu animal e caminha pisando duro em descontentamento na direção dos alojamentos. A primeira casa-tenda que ele encontra tem um uniforme como bandeira pregada à parede pela gola e pelas mangas na altura dos cotovelos, a julgar pela cor laranja chamativa, era de um dos iniciantes. O rapaz amarra seu cavalo na estrebaria ao lado da pequena casa e adentra a construção, trombando com o peitoral de um homem alto, mas não muito forte que saía naquele momento.
— Vejam só — diz o homem estendendo a mão. – Carne fresca! Olá novato, me chamo Demetrius, mas todos me chamam de Den.
— Sou Connor, prazer em conhecê-lo, você também é um novato? – Pergunta o jovem apertando a mão do novo conhecido.
— Na verdade essa é minha segunda passagem por aqui, mas como não me saí bemna passada, tive que continuar como novato, decidiram não me chutar – explica Den.
— Hum, entendo, tomara que passe dessa vez.
— Tanto faz, pelo menos ganho comida e água de graça aqui. — Brinca Den.
Os dois riem.
***
Depois de alojado, Connor sai com Demetrius em direção ao campo de prova com espadas. Quando chegam, o General George já explicava como aconteceria a primeira prova de treinamento de espadas de cima de um palanque de madeira feito em um dos cantos da arena:
— ...então, vocês serão separados em duplas, que lutarão entre si para que vejamos o quanto sabem sobre o uso de seus sabres. Os vencedores, ou os que apresentarem mais maestria, passarão para a próxima fase de treinamento, os que restarem treinarão mais, alguma pergunta?
Ninguém levantou a mão, nem mesmo os recém-chegados.
— Muito bem então, vamos começar pelos novatos que acabaram de chegar – diz o general olhando diretamente para Connor através da pequena multidão que se acotovelava por mais espaço. – Ei, Arkauss, que tal me mostrar o quanto você é realmente bom? Duelará como nosso prodígio.
Todos os outros jovens abrem espaço e olham curiosos para o jovem baixo ao lado do grandalhão. A diferença de tamanhos deixava a situação inusitada, mas Connor não ria.
— Vamos – continuava George – me mostre o porquê de você não precisar de mais treinamento com a espada.
Connor, sem opção, se adianta na direção da arena lamacenta que ficava em sua frente e passa por baixo da corda que a delimitava sem olhar o homem. Do outro lado, entra um jovem, com um uma semi-armadura que protegia seu tórax e seu ombro direito.
— Se ninguém quiser desistir, comecem! – grita o general de cima de seu palanque na extremidade da arena.
O local é rodeado de jovens mais ou menos da idade de Connor, de modo que em minutos, os espectadores tinham que se espremer para verem algo, tamanho era o numero de pessoas ali.
Espadas e escudos de madeira adornados e surrados pelo tempo foram dados aos dois combatentes para que os ferimentos fossem menores, mas o peso de ambos os aparatos poderia ser comparado aos reais.
Subitamente, o jovem de armadura avança sobre Connor, que pisando para trás gira o corpo e desvia da espada que descia com toda a força na vertical. A força empregada no golpe foi tanta que o adversário se desequilibra para frente por um instante, mas se recompõe e se põe em guarda novamente com a espada em riste entre Connor e ele. Arkauss ataca e sua espada é parada pelo escudo adversário, fazendo com que a mão de Connor doa um pouco, mas sem deixá-lo incapacitado. O adversário ataca novamente e o jovem cavaleiro é forçado a parar o ataque com o escudo, mas era uma armadilha. Um golpe com a perna o atinge na perna de apoio, fazendo-o cair de costas, totalmente desprotegido.
— Ugh! – geme o jovem.
Percebendo esse momento, o “prodígio” do general ataca Connor com toda a sua força, mas Connor rola para o lado escapando do golpe e se sujando inteiramente. O jovem se levanta e ataca novamente o adversário, que desvia o ataque com sua espada. Inesperadamente, um chute atinge a barriga de Connor, que arfa e se curva, nesse instante o escudo atinge o rosto de Connor e ele cai de bruços desnorteado. Com a cabeça girando, o rapaz acaba soltando o escudo ele cai.
Connor nunca lutara de forma tão suja e dura antes, sua luta era limpa e honrosa, mas a do seu adversário era cheia de artimanhas maliciosas.
— E agora novato, ainda quer continuar aqui? – diz o “prodígio” sorrindo.
Levantando os braços triunfantemente, o prodígio fica de pé em frente à Connor e chuta seu escudo, que desliza sobre a lama quase líquida e para quase do outro lado da pequena arena. Connor ainda desnorteado percebe o movimento do adversário e desvia um golpe que vinha sobre sua cabeça com sua espada e com a mão livre atinge o rosto do adversário enquanto se levanta. O garoto prodígio se afasta com os olhos arregalados e o nariz avermelhado.
Com dificuldade, Connor se põe em guarda ainda um pouco tonto, enquanto isso o adversário se recupera do susto e ataca, mas Connor desvia e segura seu escudo, deixando seu corpo em um ponto cego temporário do rapaz.
— Não! – exclama o jovem de semi armadura.
O jovem tenta golpear o rapar com a espada, mas nesse exato momento o punho da espada de madeira de Connor atinge a testa do jovem. O impacto faz sua cabeça balançar para trás de forma violenta e provoca um pequeno ferimento sobre a têmpora direita, no qual um filete de sangue se precipita, descendo pelo rosto do jovem que cai de lado fora de combate.
— Termine o serviço – diz de forma calma e dura a voz grave do General que se aproximava.
— Ele já está terminado, senhor – diz Connor o encarando com uma expressão de arrependimento e ira.
O maxilar do homem se mexe como se uma cobra estivesse sob sua pele, mas ele nada diz.
— Muito bem então, está dispensado. Volte para o buraco que você chama de alojamento e descanse, você já mostrou seu valor hoje. Enquanto a você – diz ele se voltando ao jovem de armadura que tapava o ferimento na testa com a mão – vá tratar disso e se prepare para reiniciar seu treinamento amanhã.
Connor então se afasta, olhando por cima do ombro de vez em quando para ver o seu adversário ser levado à enfermaria por outros jovens que pareciam debochar dele. O rapaz os empurrava com ira e tirava a mão do ferimento apenas para tirar sua armadura.
Ao entrar em seu alojamento, Connor olha para baixo e percebe que está totalmente sujo, então procura se lavar.
Assim que termina, ele procura em sua sacola sobre a cama algo para vestir. Agarra qualquer coisa e a veste. Era a mesma roupa que vestia quando encontrou Luna, e isso lhe promoveu uma dor aguda no peito, seria saudade? Ele não sabia o porquê, mas queria ver logo sua protegida, ter certeza de que estaria bem onde a deixara. Assim que se deita, os pensamentos vão se amontoando, e devagar eles vão se transferindo de Luna para a princesa Susana, a filha do rei, a dona de uma beleza que ele nunca tivera visto antes, pensado em suas duas amadas, ele adormece, em uma cama dura de gravetos e troncos finos de árvores flexíveis.
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