Crônicas de Arkauss

8 Capitulo 8 - O fim de uma passagem


Notas iniciais
Fala galera! Mais um capítulo saindo quentinho pra vocês, espero que gostem, abraços!

O dia amanhece com pesadas nuvens e uma chuva contínua. Já tinham se passado dois meses desde que entrou naquele lugar. Foram vários dias como aquele durante esse tempo, durante eles, os novatos tinham que correr por pistas de obstáculos que se tornavam escorregadios, disputar entre si para mostrar quem era o melhor com arcos, espadas, punhais, lanças e bestas, tudo com a supervisão implacável do General George, conhecido entre os mais velhos ali como “Demônio das Guerras”. E naquele dia, a rotina não seria diferente.

Logo pela manha, os novatos estavam alinhados em sua formação cotidiana, de frente para o General mesmo debaixo de chuva, mas algo parecia errado para Connor, Den estava pálido e tremendo, e não parecia ser por frio. O jovem tentou por vezes falar com o amigo, mas este não o respondia ou ignorava suas perguntas.

— Hoje – começa o general– vamos passar por um treinamento de simulação, mas esse será um pouco... diferente.

A ultima palavra soa como uma ameaça para Connor, que o observava atentamente.

— Como vocês sabem – continua ele – hoje é o dia em que vocês mostrarão quem merece estar na guarda real, quem fica mais para tentar aprender a ser homem, quem volta para casa com o rabo entre as pernas ou...bom, vocês descobrirão.

Nesse instante, sussurros indignados eclodem por todo o batalhão, o general parecia se deliciar com aquilo, isso deixa Connor mais intrigado ainda, “seria esse o teste de admissão que todos temiam?”, pensa ele. Nesse instante George levanta um dos braços pedindo silêncio e continua:

— Se já terminaram de choramingar, vou explicar como vai funcionar esse teste. Ele ocorrerá da seguinte forma: serão duas equipes, cada uma com dez integrantes, vocês terão apenas um objetivo, atravessar a floresta e resgatar o refém que está representado por um saco de batatas amarrado em uma arvore ao pé da colina. Contra vocês estarão um time de veteranos e guardas daqui. Alguma pergunta? – Ninguém levanta a mão, estavam desesperados demais para fazê-lo – Ótimo, vão pegar suas armas e se preparem.

Connor caminha até a bancada montada do lado da arena que tinha lutado em seu primeiro dia. São lhe entregues uma espada pequena, um escudo, uma besta, uma aljava de flechas e uma proteção para o tórax, aquilo fez ele se sentir pesado demais para correr. Ele ainda estava com maus pressentimentos sobre isso, será que teria que atirar em alguém com a besta? Ele a olha e percebe uma coisa, ela não era de treinamento, era real, com flechas reais, assim como a espada que carregava e o escudo que jazia em seu braço, agora entendeu a necessidade da proteção.

Eles seriam o alvo. Connor estremece.

Antes que pudesse dizer algo, estava alinhado na linha da floresta, que era densa. Ficou no primeiro grupo por azar, junto com Den. A mata era densa e cheia de depressões de tamanho considerável, se ele caísse por acidente, quebraria uma das pernas com certeza com tanto peso que carregava. Afastando esses pensamentos, procura pensar em algo que o conforte em meio a tudo aquilo, a primeira coisa que vem em sua mente é Luna, como estaria? Depois a princesa, como ela reagiria com ele como protetor? A brisa molhada soprava o rosto do jovem, a chuva cessa um pouco.

A corneta avisa o inicio da simulação, Connor olha de relance para Den, que parecia ainda mais pálido. A pequena companhia avança rapidamente pela floresta, se protegendo como possível nas árvores, como ensinado. Depois de algum avanço, param, não queriam admitir, mas estava fácil demais.

Nada se ouvia, os jovens se entreolhavam, mas nada além deles parecia se mover por ali. A mente de Connor trabalhava incessantemente, passava por sua cabeça que eles poderiam estar armando uma armadilha mais a baixo na colina ou dentro das depressões, mas ele não tinha certeza de nada.

De repente ouve-se um sibilo cortante no meio da calmaria, Connor instintivamente se abaixa e a casca da árvore em que estava apoiado é cortada por uma flecha, que se estilhaça em uma pedra atrás dele. Com o susto ele cola na arvore como se fosse entrar nela, a adrenalina começa a subir por suas veias e ele pega sua besta.

Nesse instante, flechas começam a zunir por todos os lados, vindas de todas as direções, disparadas por aliados e inimigos. Por mais que tente, Connor não consegue acertar nada, em certo momento, ele coloca a mão sobre a aljava. Nada, estava vazia. Ele a retira e joga de lado, junto com a besta.

De uma depressão logo atrás da pedra anteriormente atingida pela flecha, Connor vê despontar a cabeça de Den. Nela, olhos arregalados e uma pele pálida o faziam parecer um fantasma. Connor acena para ele e sem pensar duas vezes este corre a seu encontro, o que faz uma luz iluminar a mente do cavaleiro e aquecer seu coração, era esperança pura.

— Você é louco? – Pergunta Den, que nesse instante chegava do lado de Connor e percebia que o amigo estava apenas de escudo e espada em mãos na chuva de flechas que atingiam sua árvore.

— Acho que sim – diz o jovem com um sorriso nervoso – mas tenho uma ideia.

— Qual? – Pergunta o outro ainda pálido de medo, mas com uma chama de esperança nos olhos.

— É suicida, mas pode dar certo.

O outro entende a ideia e sorri mais nervoso ainda.

— Por Deus, posso estar louco também, mas estou dentro.

Ambos então tiram toda a proteção possível e colocam apenas espada na bainha e escudo nas costas, sem mais nada para tentar parar as flechas que choviam sobre eles.

— Pronto? — Pergunta Connor suando de expectativa e medo.

— Pronto – reponde Den claramente mais nervoso que o amigo.

Os dois respiram profundamente e esperam o momento certo para se mover. No instante em que as flechas diminuem, os dois disparam, correndo como loucos em meio à floresta, desviando de árvores, pedras e pulando sobre troncos caídos e buracos grandes o suficiente para tragá-los deitados. As flechas passavam zunindo perigosamente perto do corpo desprotegido dos dois, algumas se chocavam com flechas, outras em pedras, algumas cortavam o tecido da roupa dos dois, mas nada os atingia como que por milagre.

De repente, uma atinge o escudo nas costas de Den, que com o susto desequilibra e cai em uma vala formada por duas pedras enterradas, Connor ao se virar para ver o amigo, recebe um golpe na têmpora e desaba de lado, rolando no chão pedregoso desprendendo seu escudo.

Ao se virar, ele vê um inimigo vindo com um machado de combate em sua direção, mesmo desnorteado, ele rola para o lado e saca a espada, bem a tempo de parar um novo ataque. Ignorando toda a dor em rosto e costelas, o jovem gira o corpo e levanta a perna, atingindo o estômago do adversário antes que ele se desse conta, o fazendo perder todo o ar e se curvar para frente. Sem perder tempo, Connor recupera a postura e atinge o rosto do homem ainda virado para o chão com um soco que o deixa em nocaute e prostrado como um boneco no chão.

Connor ainda ofegante apoia a mão sobre a costela dolorida e observa o local, estavam protegidos das flechas e podiam ver o objetivo, seu plano tinha dado certo. Den logo se junta a ele abaixado e com uma expressão entre medo e dor. Talvez os dois mesclados. Os dois correm para pegar o refém no fim da colina.

Assim que colocam o saco de batatas nas costas de Den e este para de reclamar por isso, eles se apressam a voltar com Connor ditando o caminho, mas neste instante, um grito de dor reverbera por toda a floresta e parece se alojar de forma gelada sob a coluna dos dois rapazes. Pouco tempo depois ele cessa e apenas o som de flechas pode ser ouvido. Connor olha para Den com os olhos arregalados, o mesmo já o olhava assim.

Ao chegarem no final do ponto mais seguro da colina da melhor forma que puderam, viram que dois de seus companheiros estavam caídos, mas um deles não se mexia. Den então faz um movimento com a cabeça para Connor na direção dos jovens, ele entende e corre por entre coberturas para ver o que tinha acontecido. Com dificuldade o jovem corre o caminho de volta sob o ataque inimigo e atrasado pela inclinação do terreno. Chegando lá, recebido à flechadas, o jovem cavaleiro percebeu que eles tinham sido atingidos por flechas inimigas, um deles no ombro, bem acima da proteção e ao lado do pescoço e o outro no peito, o que fora atingido no peito estava caído sobre uma rocha de costas e não se movia, o outro, um dos companheiros de cabana de Connor chamado Podrick clamava por ajuda apoiado em uma árvore.

Os dois não passavam de dois novatos como ele. Agora Connor entendera o que o general queria dizer e isso era cruel demais para acreditar. O jovem ferido segurava o ombro de Connor com uma das mãos e com a outra segurava a flecha logo acima de seu ponto de entrada.

— Connor, Connor, não me deixe morrer aqui, por favor – Podrick implorava.

— Acalme-se, vamos dar um jeito nisso agora – diz Connor também apoiando sua mão no ombro do jovem.

Connor então coloca o braço do ferido sobre os ombros com cuidado para não o ferir ainda mais e corre em ziguezague por entre as árvores segurando seu peito para evitar que ele caísse para frente. Seguido de perto por Den que acabava de os alcançar, Connor sobe a colina.

Sua cabeça ainda era incapaz de processar tudo que tinha acabado de acontecer e menos ainda o motivo de um treinamento ter de ceifar vidas. Mas ele corria o mais rápido que podia, parando a cada barreira para não ser atingido. Podrick gemia a cada passo, parecia que ia desabar, mas se mantinha firme da melhor maneira possível.

Depois de muito esforço, Connor percebe o fim da floresta se aproximando. Tanto ele quanto seus dois amigos estão cansados e ofegantes, mas não podem se dar ao luzo de desistir. As flechas agora pareciam se concentrar nos três, que mais que depressa se escondiam como dava atrás das pedras.

Em um súbito movimento, aproveitaram uma pequena pausa dos arqueiros, os três correm como loucos para fora.

Ao saírem da floresta, o primeiro rosto a ser visto era o do general, que os olhava. Ao lado dele dois homens fortes encaravam os três garotos, mas com um movimento de cabeça de George, eles pegaram Podrick pelos ombros e o levaram dali. Vendo o jovem carregado, o homem sorri e com um tom de desdém se volta para Connor e Den:

— Vejo que conseguiram, ratos são uma espécie bem poderosa... – ele faz uma pausa como se degustasse as palavras antes de continuar — muito bem, vocês passaram.

Assim que lhes foi dito isso, ele levanta um braço com a palma espalmada e a corneta soa novamente, então o barulho de flechas cessa.

— Meus parabéns! – Continuou o homem – vocês provaram seu valor e...

— Você tem ideia de que um dos nossos companheiros perdeu a vida nesse treinamento injusto? – Corta Connor rangendo os dentes e avançando um passo na direção de George.

George desfaz o sorriso e o encara impassível.

— Sim – continua ele – seu corpo será enviado para sua casa para seu funeral, é um procedimento padrão quando essas perdas esperadas acontecem.

— “Perdas esperadas”? – Connor estava mais incrédulo ainda – Você realmente já esperava que alguém perdesse a vida hoje?

O general cruza os braços e troca o peso de uma perna para outra, fazendo sua vestimenta de adornos metálicos tilintar.

— Escute aqui garoto, estamos treinando vocês para um campo de batalha, não um espetáculo circense. Quem aceita o risco de vir aqui, também aceita o risco de morrer durante o treinamento bem antes de uma guerra.

Connor o observa de punho fechado.

— Vê essa cicatriz no meu rosto? – ele percorre toda sua extensão com o dedo indicador direito – eu fui o melhor guerreiro da minha divisão, tinha velocidade e força acima da média e mesmo assim, em uma das batalhas eu fui cercado por três inimigos, uma luta desigual assim poderia ter custado minha vida assim como custou o meu olho, mas mesmo assim eu triunfei. A guerra não traz glórias, apenas dor e sofrimento. Eu treino vocês para conviverem com isso também.

Connor não sabia como reagir a isso. Não sabia muito mais do que as fábulas diziam sobre as batalhas de Lihlium, mas aquilo ainda não parecia certo para ele. Olhando uma última vez com seu olho de fogo perolado, George gira sobre os calcanhares e marcha para o lado oposto.

— Vão para o buraco de vocês – ele fala se afastando.

— Não puna os outros por algo que aconteceu a você – diz Connor quase que para si mesmo, mas alto o suficiente para que o homem ouvisse.

O general nada disse.

Connor ficou parado junto a Den, mas ele não prestara atenção em seu amigo desde que se encontrou com George. Sua cabeça doía, pensava que poderia ter sido ele ali, poderia ter sido ele o atingido por aquela flecha, aquele que agonizaria impotente, aquele que não veria mais as pessoas que gosta. Ele balança a cabeça, afastando os pensamentos, aquilo tinha acabado para ele, logo teria completado sua tarefa naquele lugar e logo iria ser condecorado pelo próprio rei como guarda real, iria proteger aqueles que amava, iria proteger a princesa, e isso era o que importava naquele momento, mas isso não tirava o peso que sentia.

Indo para seu alojamento em silêncio, só percebeu Den quando este tocou em seu ombro e sorriu amarelo logo antes de entrarem na cabana. Connor sorri de volta mais por cordialidade que por vontade e ambos entram no alojamento improvisado, se jogando na cama logo em seguida.

Depois de um tempo, Connor se levanta e vai se lavar. A água gelada lhe doía os músculos, mas apenas retirar aquela roupa de treinamento cheia de terra e sangue já era algo inexplicavelmente bom, como tirar uma tonelada de seus ombros.

Voltando logo em seguida com olhos ainda distraídos, Connor enfia sua mão na sacola de roupas e a vasculha desanimadamente, mas sua mão encontra algo duro. Puxando de dentro da sacola, o rapaz percebe o embrulho que Luna mexera naquele dia, dentro dele seu medalhão. Desembrulhando-o, um brasão imponente de leão fita o jovem em perspectiva, símbolo de força e de orgulho. Esse símbolo poderia ser bom para o Connor de antes, destemido, honrado e inconsequente. Mas não ao de agora, depois de tudo que aconteceu, tudo que passou, de ter conhecido essas duas garotas, ele não se sentia mais destemido, capaz de morrer por uma causa, ele se sente mais experiente, disposto a lutar pelo que quer, mas vendo o sacrifício próprio como algo não tão bom.

Mas algo nele não mudara: ele era capaz de fazer de tudo para proteger quem ele amava.

Den entra no alojamento e olha o amigo, ele parecia deprimido, mas o fogo em seus olhos ainda brilhava. Em suas mãos, estava um pequeno medalhão adornado com uma figura que ele não conseguia distinguir, mas parecia importante.

— É de sua família, não é? – Ele fala rompendo o silêncio.

Connor se assusta e faz menção de guardar o medalhão, mas desiste e apenas acena com a cabeça.

— Eu entendo, também sinto falta da minha família – Den continua – mas não vamos falar sobre essas coisas agora, já tivemos muita coisa ruim para um dia só.

Connor observa o amigo arrumar as suas coisas e deitar de costas para ele, como a dar certa privacidade para o amigo. Logo ele não se mexia mais.

O jovem ainda olha o medalhão mais um pouco e o acaricia com os dedos antes de guardá-lo novamente.

— Consegui o que queríamos pai – ele fala baixinho para o medalhão — não haverá mais mortes de pessoas que gostamos, eu prometo.

Notas finais
E então, gostaram? Espero que sim, nos vemos na semana que vem então, abraços!