Crônicas de Andhara e além
13 O deus e o dragão
(-1)
A espada foi torcida novamente, provocando outro espasmo no corpo arqueado no chão. Um grito tentou nascer, mas se seria de raiva e de dor, um pedido de clemência ou uma última maldição, as palavras se afogaram no sangue que preencheu sua garganta. Os espasmos das pernas rapidamente se aquietaram e os olhos pararam de tremer, voltados para o céu acima, sem mais conseguir enxergar a fumaça dos incêndios que o marcava, enquanto o derradeiro exalar deixava os lábios de Wenun, último preator, capitão de Andelnam.
Qernn-Alaz pressionou sua bota contra o peito sem vida e puxou a longa espada com um grito de raiva, cuspindo no rosto do inimigo caído.
– Esquartejem-no e joguem seus pedaços para os cães leprosos desta terra imunda! – a voz soava como um trovão, rebentando por entre suas tropas – Quero a cabeça espetada na maior lança que encontrarem e os olhos sem pálpebras voltados para sua preciosa cidade, antes que os muros caiam! Apressem-se!
Três acólitos apressaram-se para cumprir as ordens recebidas, começando a cortar o corpo com as longas facas de Anandhys antes que este esfriasse. Seu gigantesco comandante observava com olhos sedentos por sangue, mas não parecia satisfeito. Nem mesmo a morte vergonhosa de seu inimigo conseguia aplacar a ira que sentia.
Sob aquelas hábeis lâminas, o que outrora fora o corpo de um bravo guerreiro rapidamente se transformou em uma organizada pilha de carne, sangue e entranhas, mas não houve surpresa. As mãos que as conduziam estavam acostumadas a preparar sacrifícios para seu Deus-rei.
Qernn-Alaz bradou uma prece de louvor, ao que todos os driacks presentes, os fiéis soldados de Anadhys, responderam em uníssono, erguendo uma fina nuvem de poeira quando batiam com fervor os pés contra o chão de terra batida. Depois se voltou para seus outros prisioneiros, quinze soldados e tenentes que serviram sob o comando do capitão, ajoelhados e com as mãos firmemente amarradas em frente ao corpo. Muitos ferimentos marcavam seus rostos, um vigoroso golpe para cada vez que não respeitaram o nome do Deus-rei. Entre seus fiéis, apenas os maiores generais-sacerdotes tinham a autorização de pronunciá-lo e nenhum outro estava acima de Qernn-Alaz. Mesmo ele o usava com reverencial parcimônia, preferindo referir-se aos inúmeros títulos que seu deus havia conquistado. Quando seu nome era pronunciado, todos deviam voltar seus olhos para o chão, indignos de olhar para qualquer coisa que não a poeira sob seus pés. Tudo mais que os olhos podiam alcançar, pertencia ao glorioso Mirandis.
– Quem mais irá insultar a Única Verdade que Existe? Quem mais irá ousar ter voz na presença do Maior dos Nomes? – todos os prisioneiros permaneceram calados diante do desafio. Seu capitão jazia em pedaços por ter tentado pedir clemência por eles enquanto o sumo sacerdote orava aos gritos – Seu dragão está morto e a casa negra em ruínas! Seu fogo se foi, apagado como uma vela pelo mais leve sopro do Senhor de Todos os Céus! – Ergueu a espada tornada rubra, girando-a violentamente em um largo arco, arremessando gotas de sangue sobre suas tropas, que pareceram recebê-las como uma bênção – E o pequeno verme morrerá hoje, esmagado sob a força da Ruína dos Dragões!
Os driacks explodiram em gritos e uivos, batendo as armas contra os escudos e as mãos fechadas contra o peito. Quase todos ostentavam com orgulho as cicatrizes de profundos cortes no rosto. Havia uma marca para cada vitória sob as bênçãos do Deus-rei.
O mais elevado entre os acólitos aproximou-se de Qernn-Alaz e ajoelhou-se a seu lado, estendendo as mãos rubras sobre a cabeça curvada, unidas em uma oferenda. Sobre elas, o coração ainda quente de Wenun repousava. O sacerdote olhou para baixo e seu rosto se contorceu em uma máscara de ódio, atingindo com o cabo da espada a cabeça do acólito com tanta violência que este rolou vários metros pelo chão, até se deter por entre as pernas dos outros fiéis, os dedos pegajosos em volta do crânio partido como um vaso sem valor. Sua oferenda havia caído no solo poeirento, sendo esmagada com raiva sob uma enorme bota.
– A carne impura não pode ser oferecida ao Deus dos Deuses, porco imundo! – um pesado silêncio se impôs, mas não era medo ou espanto que fazia seus homens se calarem – Apenas um intocado pela dúvida pode satisfazer o Senhor de Tudo Que se Vê. Quero o coração deste cão para Mirandis! – Qernn-Alaz apontou para o acólito caído e os outros dois correram sem hesitar em direção a seu companheiro com as facas ensanguentadas nas mãos. O único som que se ouvia eram as súplicas de dor enquanto a carne ainda viva era cortada, mas ninguém ousou se mover. Todos os olhos estavam voltados para o chão desde que o nome do Deus-rei fora pronunciado, mesmo entre os soldados cativos.
Todos, menos os de Ilhain.
Não era coragem que movia o jovem tenente derrotado, mas incredulidade. Ele havia servido sob as ordens do capitão Wenun em diversas batalhas durante os nove longos anos da guerra contra Anandhys, sempre sob a insígnia de Talralin, rei de Édhulor. Estivera em Branlis, Ysghar e na maior vitória do Dragão Negro, nos Campos de Aghor, onde mais de dez mil homens perderam a vida. E mesmo em meio à visão dos corpos empilhados que haviam coberto todo o horizonte naquele dia, ele nunca se sentira tão perdido quanto agora.
Os exércitos de Talralin haviam conseguido avançar sem dificuldade após Aghor, com as tropas de Anandhys recuando em direção a sua capital, Emérin, a Joia Dourada, quase sem oferecer resistência, até que o Cetro do Sol mudou de mãos com a súbita morte do rei Omerien e a ascensão do maior clérigo de uma obscura divindade, conduzido ao trono por enormes multidões de fiéis. Mirandis era considerado por muitos a encarnação de Chayrll, o Senhor da Noite, e, mais tarde, declarou-se seu próprio deus.
Sob suas ordens, os driacks deixaram de fugir ou se render e seu número se multiplicou para além de qualquer contagem quando homens e mulheres que nunca haviam pego em armas começaram a combater os invasores com uma paixão jamais vista, desejando matar e morrer em nome do Deus-rei. Dez camponeses morriam para cada soldado caído, mas isto não parecia diminuir sua tenacidade. Emboscadas e traições se tornaram comuns e os soldados de Édhulor passaram a temer cada sombra e rosto estranho que encontravam. Os poços e rios foram envenenados, os animais mortos e as plantações destruídas pelo próprio povo de Anadhys, para que nada restasse ao inimigo. Não havia mais alimento ou água nos campos para os exércitos de Talralin e o próprio Dragão Negro, apesar de protegido pelo maior exército de seu reino, fora morto por uma criança, nas antigas ruínas de Mewlir, que se esgueirou em seu acampamento por passagens pequenas demais para soldados e assassinos.
Não havia mais como avançar, não havia mais suprimento ou moral para serem encontrados entre os homens de Édhulor. Mesmo em cada nova vitória não havia mais celebração, não quando tinham de passar cada mulher, jovem e criança que encontrassem pelo fio da espada, com medo de que eles os atacassem quando lhes virassem as costas. Uma insistente estória rondava as sombras dos acampamentos do Dragão à noite, contando que um de seus generais chegou com seu exército até os portões de Emérin, mas desistiu de atacá-la quando viu mil crianças mais jovens que seu filho sobre as amuradas, prontas para morrer por seu Deus-rei.
Os homens de Édhulor retornaram para seu reino e, menos de um ano depois, eram os aríetes de Anandhys que estavam agora a atacar os portões de Andelnam e era o emblema do dragão que queimava no mesmo fogo que deveria ser seu servo.
Ilhain ergueu a cabeça, sentindo os olhos arderem com a fumaça que permeava toda planície de Akron, outrora um extenso gramado salpicado por tons de palha, vermelho e dourado, agora marcado apenas por poeira, tendas, corpos e fogueiras sem fim. As torres externas ardiam em chamas e tombavam em montes de pedras enegrecidas, trazendo consigo os corpos carbonizados dos soldados de dois reinos trancados em seu interior. Soldados feridos além de qualquer medida tentavam seguir contra os muros de Andelnam, arrastando-se sobre cotos rubros, deixando rastros de sangue no chão. Flechas, pedras e óleo fervente caíam sobre homens sem escudos ou armaduras e que não tentavam se proteger, apenas avançar contra as rochas nuas das muralhas, como pequenas vagas contra um rochedo.
A cidade das infinitas torres acabaria por ruir, Ilhain sabia. Pela piedade da espada ou pelo longo suplício da fome e doença, mas iria cair. Não havia mais alimento ou bálsamos de cura dentro dos muros da cidade. Foi por isto que Wenun liderara os últimos soldados experientes de Édhulor em uma tentativa desesperada de salvar sua capital. Em poucos dias Andelnam suplicaria pela doce bênção da morte. Qernn-Alaz e seu exército só teriam de esperar e a cidade iria se entregar como uma voluntariosa donzela em núpcias, mas havia uma loucura no ar, uma força invisível que impulsionava homens e mulheres para a morte certa, com um sorriso no rosto e uma oração de agradecimento nos lábios.
Seria assim então que Édhulor cairia, Ilhain finalmente percebeu, vítima de uma devoção doentia a qual seu reino não podia compreender ou resistir. Acreditava que agora nem mesmo o hábil diplomata branco que o jovem príncipe Donenthur mantinha ao seu lado, contra todas as recomendações de seus conselheiros, poderia salvá-lo.
Os diplomatas brancos eram os melhores guerreiros que já haviam caminhado sobre Andhara, se as lendas forem verdadeiras. Eles haviam tentado impor uma trégua entre os dois reinos desde o início da guerra, através de palavras, ações e ameaças, mas eles também já haviam enfrentado os dois exércitos em várias ocasiões, quando seus interesses haviam sido contrariados, e suas promessas de justiça se esvaíram em sangue, até mesmo aos olhos daqueles que tentaram proteger. Apesar de seu enorme poder, eles ainda eram mortais como todos os homens. Alguns foram mortos em combates e traições e poucos eram ainda vistos no campo de batalha. Eram sempre cortejados como perigosos aliados e temidos como poderosos inimigos. Nenhum guerreiro, general ou soldado, lhe entregava sua total confiança ou suas costas, pois ambos os reis estiveram sob a proteção dos diplomatas brancos quando morreram. Mesmo assim, ainda havia um protetor de vestes alvas na moribunda corte de Andelnam.
Ilhain fechou os olhos, deixando escapar uma longa expiração. Quando tornou a abri-los, encontrou os de Qernn-Alaz sobre si, transbordando de ira por sua blasfêmia. O tenente não desviou o olhar, apesar do temor que sentia. Teve certeza de que iria morrer, mas não daria ao sacerdote o prazer de ver seu medo.
– Que Mirandis morra queimado pelo fogo! – gritou em uma voz que acreditava não mais possuir.
Todos os driacks gritaram ao mesmo tempo em protesto, mas Ilhain quase não os ouviu. Toda sua atenção estava voltada para Qernn-Alaz. As veias dilatadas pareciam querer explodir a calva cabeça do sacerdote, tomada por um rubor como o de fogo vivo, mas o que mais o atemorizava eram seu olhos, grandes e desfocados. Não era mais ira que via neles, mas uma loucura nunca vista. Ele tentava gritar, mas as palavras não conseguiam passar pela garganta estreitada de ódio, e apenas urros incompreensíveis preencheram o ar. Entre os dois reinos, a morte pelo fogo era reservada apenas aos mais vis criminosos.
Qernn-Alaz avançou e agarrou Ilhain pelo pescoço com uma única mão, erguendo-o até muito acima da própria estatura. O tenente não conseguia respirar, sentindo os dedos do sacerdote se fecharem em torno de sua garganta. Reunindo as últimas forças, olhou para baixo e cuspiu no rosto do gigante em desafio.
– Sou... um dragão.
Ilhain fechou os olhos, aguardando pelo sutil toque da morte, que iria levar consigo toda dor e sofrimento, toda vergonha pela derrota. Alcançaria primeiro que seu príncipe à morada final para preparar-lhe a chegada e este pensamento lhe trazia algum alívio.
Sem aviso, os dedos de Qernn-Alaz se abriram em seu pescoço e o chão subiu rapidamente contra ele. Abriu os olhos, mas viu apenas sombras e luzes que se alternavam sem sentido. Tentou respirar, mas a dor em sua garganta e a poeira que engoliu o fizeram tossir compulsivamente, entre pequenas golfadas de sangue. O som abafado de cornetas começou a chegar aos seus ouvidos.
Aos poucos as sombras tomaram a forma das pernas dos driacks e, entre elas, ele conseguiu ver Qernn-Alaz gritando com um estranho que acabara de chegar. Os soldados haviam se afastado, abrindo espaço para eles. Ou seria por medo deste homem? Seu rosto estava marcado pelo fogo, a pele solta e escura a cair sobre o buraco onde deveria estar um dos olhos. Os lábios estavam secos e rachados, cobertos por inúmeras placas escuras e bolhas. A maior parte do cabelo havia desaparecido e o braço esquerdo era um toco enegrecido como carvão. O que ainda restava de suas nobres vestes esgueirava-se sob pedaços derretidos de uma armadura de placas de metal. Atrás dele, um cavalo quase descarnado tinha os olhos esbugalhados e o corpo coberto de espuma e suor, respirando ruidosamente enquanto cambaleava. Com um último relincho de dor, o animal sucumbiu, tremendo em espasmos no chão, até se aquietar. Após isto, só houve silêncio.
O homem queimado lentamente abriu um pesado saco que trazia, sem desviar o olhar sem expressão do sacerdote. Seu nome era Cirwen, Nobre Comandante de Anandhys e membro da corte do Deus-rei. Cavalgara até ali desde Mewlir, sem um minuto de descanso, apenas para entregar a mensagem que seus algozes haviam gravado em sua alma, com dor, medo e fogo.
– Dragões não são fogo e vento... amada... de escamas e carne ... são morte carmim...
Os homens pararam de respirar ao ouvir a voz que parecia pertencer a um homem que há muito já havia morrido. Havia apenas um presságio possível.
– Cinzas e ruínas... em dor transformada – a voz começou a falhar, tornando-se mais fraca e rouca, enquanto tirava algo de dentro do grande saco, com as lágrimas a escorrer do único olho – De homens a perdição... de deuses... o fim...
Qernn-Alaz se desesperou com o que viu, uma cabeça carcomida e queimada, com uma espessa linha de ouro derretido a dar-lhe a volta. O gigantesco sacerdote caiu de joelhos e chorou compulsivamente como uma criança. Os driacks a sua volta também começaram a chorar e corriam sem rumo, gritando palavras sem nexo. Alguns cortavam a carne com as lâminas que carregavam, outros arrancavam os olhos com os dedos. Muitos tiravam a própria vida sem hesitar.
Ilhain olhava a crescente demência sem conseguir compreender o que ocorria. Uma loucura ainda maior havia se apossado de todo exército de Anandhys, fazendo-os ter perdido a vontade de lutar, vencer ou viver. Não havia mais ordem, comandos ou orações. Os gritos não eram mais de vitória ou júbilo, mas de dor e sofrimento. Muitos se jogavam em prantos nos fossos das torres ou contra as cercas de estacas, buscando abrandar sua aflição na morte.
O tenente viu em meio ao caos uma adaga caída próxima de onde estava e se arrastou até lá, cortando as amarras que prendiam seus braços. Quando se ergueu com a arma em punho, a grande mão de Qernn-Alaz caiu sobre ele, prendendo firmemente a sua. Ilhain não conseguiu se desvencilhar do aperto ou mover a adaga para atacar. Estava, novamente, preso.
Ao se voltar para o sacerdote, tentando golpeá-lo com a outra mão, quase não o reconheceu. O gigante parecia menor, o semblante derretido como neve sob o sol de verão e os olhos, antes tão cheios de devoção e ódio, pareciam pertencer agora a um cadáver há muito perecido, sem conseguir focar em nada. A poeira sob eles havia sido lavada por largos rios de lágrimas. Quando falou, sua voz era um tímido sussurro.
– Seu dragão é mais forte que meu deus...
E puxou a adaga ainda empunhada contra o próprio peito.
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