Crônicas de Andhara e além
14 As dádivas da mãe
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Grôn recostou-se em um largo tronco, quase o quebrando sob seu peso, sentindo o corte em seu braço arder como fogo. Tentou novamente colocar a mão sobre a ferida, mas isto só fazia a dor aumentar. Soltou um uivo que ecoou por entre as árvores, enquanto as lágrimas corriam por seu enorme rosto. Olhou para a mão coberta pelo sangue dos pequeninos, alguns pedaços de um pequeno crânio esmagado ainda colados a ela, e sentiu-se ainda mais triste. Tentou esfregá-la na outra mão para limpá-la, mas ela não estava mais lá. O braço esquerdo terminava agora pouco abaixo do cotovelo, em uma ruína de carne escura e sangue negro, gotejando no chão da floresta. Tentou novamente cobrir a ferida e uma vez mais gritou.
Devia ficar calado. Seus gritos acabariam por atrair mais pequeninos, mas a dor era muito grande. Sua barriga tremeu novamente, lembrando-o de por que ele os atacara, apesar de estarem em grande número e armados com suas longas garras brilhantes. A fome era maior a cada dia, impelindo-o a se arriscar cada vez mais. Não queria matá-los, não sabia ao certo o porquê, mas ele era lento e ruidoso demais para conseguir pegar os animais da floresta. Apenas os pequeninos eram mais vagarosos que ele, mas sua carne era pouca, fazendo com que tivesse de caçá-los quase todos os dias. Os frutos das árvores eram muito pequenos e seu gosto ruim, conseguindo apenas enganar sua barriga por pouco tempo. A culpa não era dele, era do vazio que sentia, um vazio quase maior que a dor em seu braço. Uma nova tentativa, um novo uivo.
Sentou-se na relva e juntou os pedaços de carne e ossos esmagados que estavam próximos, levando-os à boca. Não havia muito, ele notou com tristeza. Havia entre estes alguns pequeninos ainda menores que os outros, pequenos demais até para carregar as pesadas garras. Começaram a gritar quando avançou contra eles, lançando pequenos dardos que cortavam o ar como mosquitos e se quebravam contra a grossa pele dele. Quase não sentiu quando eles morreram sob a grumosa sola de seus pés, os ossos partindo-se mais facilmente que os gravetos que arremessavam. Os pequenos membros estalavam novamente, agora entre grandes dentes amarelados, mas não o satisfaziam. Quase não havia carne neles. Sua barriga voltou a doer.
Grôn ergueu-se e caminhou até onde uma larga pedra jazia entre algumas árvores partidas e a girou com facilidade. Sob ela havia uma mancha escura e pegajosa, envolta em restos rasgados de roupas e pele, misturados à grama e à terra. Raspou a dura rocha com os dedos, lembrando-se de como a fizera voar e cair sobre o menor dos pequeninos quando ele tentou correr. Não havia restado muito e a áspera língua terminou por retirar o resto, trazendo uma minúscula mão para a boca. Este havia sido realmente pequeno, menor do que Grôn fora quando ele também havia sido um pequenino.
Sua cabeça voltou a doer, como sempre acontecia quando estes pensamentos lhe vinham. Eram memórias quebradas, lembranças fracionadas de um estranho sonho, de uma outra vida. Quando adormecia, via as grandes cidades de pedras dos pequeninos e eram todos maiores do que ele. Não era mais do que uma criança sem pais, correndo sob um pálido sol de outono com outros como ele. Podia ainda ouvir suas risadas nos raros momentos em que a fome o deixava e ele fechava os olhos, sonhando acordado. Lembrava-se também da risada de uma mulher, mas era um riso frio e cruel, que lhe dava medo. Ela os levara para a floresta, com brandura e promessas de farta comida em uma voz suave, mas seu toque fora áspero e doloroso, os longos dedos pontudos atravessando a carne e a endurecendo, fazendo-o crescer. Ela lhe dera mãos que podiam esmagar pedras e quebrar ossos, mas também lhe dera uma fome que não conseguia saciar. Grôn morrera e nascera naquele dia, chamando-a de mãe, mas tudo que conseguia lembrar-se dela era de sua risada.
Balançou com força a cabeça, batendo-a contra um largo tronco que rachou com o impacto. Quase não o sentiu, mas os pensamentos se foram, deixando-o só com a fome. Olhou para o braço cortado, como se ele o recordasse de algo, e um novo uivo cortou a floresta a anoitecer.
Grôn voltou para onde havia lutado, procurando. As lágrimas atrapalhavam sua visão, mas a noite não. A mãe lhe havia dado olhos que podiam enxergar sob o mais escuro céu ou nas cavernas embaixo do chão. A grande garra que o ferira parecia brilhar por ente a relva, mesmo coberta por seu sangue. A pequena mão ainda a segurava, mas nada mais restava do pequenino. A imagem da lâmina o fez estremecer, lembrando-lhe da dor que ainda sentia. Sua mãe havia lhe dado uma pele dura como o cerne das montanhas, mas esta pequena garra o havia ferido como nenhuma outra antes. Havia um odor diferente nela, um cheiro acre que queimava em suas narinas. Seu brilho também era diferente, de um azul pulsante, vivo. Cavou um profundo buraco e arrancou um grande galho, empurrando com ele a garra brilhante para o fundo. Jogou apressadamente a terra por cima e pisou com força sobre ela, fazendo o chão tremer, mas não era suficiente. Ainda podia senti-la em seu braço. Apoiou o corpo contra uma larga árvore e a forçou várias vezes, até que a madeira começou a estalar e ele a arrancou pela raiz com um urro, jogando-a sobre a cova que cavara.
A floresta voltou a ficar silenciosa e Grôn sentou-se sobre a árvore caída, satisfeito. Sentiu-se quase feliz por um momento, mas sua paz não durou. Nunca durava. O medo havia partido, mas a fome voltara a ocupar seu lugar, fazendo-o tremer. Era uma fome perversa, que parecia devorá-lo por dentro, que o cegava para tudo mais. Não conseguia pensar, havia agora apenas as vagas que contorciam sua barriga. Ele correu os olhos pelo chão, buscando algo para comer, e viu o grande braço caído. A imagem lhe trouxe dor e medo novamente, fazendo-o recuar, mas a fome era maior que seu temor. Aos poucos caminhou em sua direção e o pegou, hesitante. Sacudiu-o com força, querendo que ele se movesse, mas nada aconteceu. A outrora poderosa mão estava débil e inerte, tão sem vida quanto os frágeis pequeninos que esmagara. Parecia agora um pouco menor e mais pálida.
Grôn tentou fincar os afiados dentes no braço cortado com cuidado, temendo sentir dor, mas eles apenas arranharam a rugosa pele cinzenta. Precisava morder com mais força, mas tinha medo. Suas grandes presas, afiadas como lanças, flanqueavam o largo nariz e eram capazes de perfurar até as duras peles prateadas que os pequeninos usavam e de quebrar as pesadas cascas que traziam presas aos braços. Cerrou os olhos e cravou-as com força, rasgando a carne endurecida. Um espesso sangue escuro preencheu sua boca, mas, para sua surpresa, não houve dor. O gosto era estranho, parecido com o dos pequeninos, mas mais forte e acre. Ele não se importou, arrancando um grande pedaço e mastigando com gosto. Pela primeira vez em muito tempo, tinha comida suficiente para se satisfazer.
A noite estava adiantada quando terminou, lambendo com satisfação os restos de sangue de sua única mão. A fome havia partido, deixando em seu lugar uma rara sensação de saciedade. Apalpou a grande barriga em paz, lembrando-se com tristeza do braço cortado. Antes que a memória da dor lhe atingisse, tentou cobrir novamente o ferimento, mas não sentiu nada desta vez. Olhou com curiosidade o que restara do braço, vendo as ressecadas placas escuras esfarelarem-se ao toque, revelando a cinzenta pele que crescia sob elas, fechando o grande corte. Outra dádiva de sua mãe.
Grôn ergueu-se, sem sentir fome ou dor, apenas tristeza e cansaço. Estava muito cansado. Com um ruidoso suspiro, caminhou em direção à caverna que chamava de lar. Arbustos e árvores menores morriam sob suas passadas e os galhos partiam-se contra seu corpo, mas ele não os percebia. Pensava apenas em descansar. A floresta mergulhava em um silêncio absoluto durante sua passagem. Apenas o ruidoso som da madeira a se quebrar o acompanhava.
Em pouco tempo alcançou uma pequena colina de terra e pedras sobrepostas, coberta pelas raízes das grandes árvores que cresciam acima. Apoiada contra sua base havia uma larga pedra de formas arredondadas, que destoava das demais. Tentou agarrá-la, mas o outro braço não estava mais lá. Rolou-a para o lado com dificuldade e uma lufada de ar viciado brotou por trás dela, exalando do grande buraco descerrado um forte odor de excrementos e podridão. Grôn inspirou profundamente o cheiro que lhe era tão familiar. Estava em casa.
Teve de se abaixar para entrar, raspando as costas torcidas contra o teto da caverna. Tentou recolocar a pesada porta em seu lugar, mas não conseguiu movê-la com apenas uma mão, por mais que se esforçasse. Com um urro de raiva, desferiu um golpe contra a pedra, rachando-a, mas ela não se mexeu. Grôn teria de arranjar uma nova porta, mas não agora. Estava muito cansado.
Caminhou até o fundo da caverna, onde uma parede de pedra nua ostentava rastros de água barrenta vinda de uma pequena nascente acima. Lambeu-a várias vezes, mesmo sem sentir sede. O gosto era salgado, mas Grôn gostava. Ajudava a distraí-lo. Aliviou-se ali mesmo, enquanto bebia.
Voltou mais acima, até próximo da entrada, e deitou-se ao lado da porta, vendo a copa das árvores acima balançar suavemente com o vento. Uma estrela surgiu por entre elas, para logo desaparecer. Olhou em volta com um sorriso, grunhindo e apontando para onde a estrela estivera, mas não havia ninguém mais ali para vê-la. Brûr não estava ali. Piscou longamente, sentindo um vazio que não era fome, que não sabia explicar. Ficou resmungando algo triste para as sombras, até adormecer.
Brûr fora o mais próximo de um irmão que Grôn tivera. Em seus sonhos, eles ainda estavam juntos, ainda eram irmãos, como sempre haviam sido, mesmo antes da mãe os tocar. Eles correram por largos campos cultivados e pelos estreitos caminhos de pedra dos pequeninos, derrubaram árvores por diversão e cavaram este lar. Brûr sempre fora um pouco menor que Grôn, mas também mais ágil e feroz, constantemente se envolvendo em brigas, mesmo quando ainda eram menores do que os pequeninos. Ele atacava e corria, e seu irmão tinha de vir ao seu encontro para salvá-lo. Depois que renasceram, Brûr continuou a atacar, para então rir do medo no rosto dos pequeninos quando os devorava, ainda a se debaterem.
Com o tempo, ele começou a não mais dividir sua comida com Grôn e os irmãos passaram a brigar entre si. O mais novo havia ficando cada vez mais selvagem, conforme sua fome aumentava. Durante uma disputa, mordera a mão do irmão e arrancara um de seus dedos, engolindo-o. Grôn sentira muita raiva e esmurrara a cara de Brûr várias vezes, para que ele lhe devolvesse seu dedo, mas tudo que conseguira foi adormecer o irmão. Grôn ainda o atingira algumas vezes, até largar o corpo inerte no chão da caverna, sem conseguir se lembrar do motivo da briga. Tentara acordá-lo várias vezes, até desistir e adormecer também. Quando a manhã chegou, Brûr havia desaparecido, deixando apenas o corpo quebrado de um pequenino em seu lugar. Grôn o comera feliz. Havia sido um presente de seu irmão.
Seu olfato o despertou de repente, antes que os sons chegassem aos seus ouvidos. Um grupo de pequeninos havia entrado na floresta escura e se aproximava de sua casa. Resmungou pesaroso, tentando voltar a dormir, mas sua barriga tremeu novamente. Não deveria estar com fome, não ainda. Não havia muito que comera, mas um novo tremor lhe disse que a escolha não era sua. Não queria ir, não gostava de caçar a noite. A luz que os pequeninos carregavam para afastar as sombras feria seus olhos e queimava sua pele, deixando escuras marcas que nunca iam embora, mas a fome não o deixaria dormir. Tinha de ir.
Ergueu-se sem pressa e deixou a caverna, cheirando o ar noturno. Eram muitos, percebeu, e traziam várias garras consigo. Tentou recuar, temeroso, mas o mais forte presente que sua mãe lhe dera queimou dentro dele. Teria de ir.
Caminhou diretamente na direção do odor, sem se preocupar em fechar a entrada de sua caverna. Não havia mais medo, raiva ou cautela. Existia agora apenas a fome. Pensou ouvir a fria risada de uma mulher ecoando levemente por entre as árvores, mas não lhe deu atenção. Nenhum riso iria saciá-lo.
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