Crônicas das Correntes de Ferro - Livro Um
3 Olhos na Escuridão
"Alto", pensou Miran de Mello logo que o viu.
Ron de Pate era duas cabeças maior do que o Rei de Rohesia, calvo, mas ainda bem jovem, não devia ter mais de trinta e tantos anos, era difícil encontrar algum pelo em seu corpo branco e liso, diferentemente de seu convidado que trazia uma barba castanha quase quadrada no rosto e um cabelo bastante cheio, semelhante à juba de um leão marrom.— Agradeço à hospedagem — falou Miran com a coroa pesada sobre o crânio. — Mas infelizmente já devo partir.— Nós é que agradecemos — O Senhor de Bacia das Algas tinha uma voz fina e que não combinava em nada com seu enorme porte. Atrás dele estavam, como sempre, as suas duas filhas. — Foi uma honra hospedá-lo, Majestade.Ron de Pate tinha dado-lhes cavalos fortes já que pouquíssimos haviam sido trazido de navio, dois guias muito experientes em andar por aquelas terras pouco desbravadas e uma boa quantidade de suprimentos.— Acha que será o suficiente para que não sintam fome enquanto cavalgam? — perguntou. — Se achar que falta algo posso muito bem providenciar mais...— Já fez demais — respondeu o Rei. — Sei que será o suficiente. Adeus, sua ajuda não será esquecida.O Bacia das Algas era tudo o que imaginavam antes de chegaram até ele, enorme e antigo, talvez o primeiro porto a ter sido criado no Novo País, o castelo, conhecido como Fortaleza das Folhas, era alto e de pedras negras, mas por ele cresciam cipós e raízes que lhe davam um ar belo e florido, como se todo ele tivesse brotado da terra junto das plantas.O nome fora dado pelas algas azuis brilhantes que podiam ser vistas no fundo do Olho de Gato, rio por onde chegaram à cidade.A cabine do navio onde permaneceram Miran e Verônica, a Rainha, fora bastante espaçosa, com uma enorme cama e uma grande janela com uma perfeita vista.— Por que cruzar o mar por uma menina morta? — perguntara Verônica logo que zarparam. Olhava para trás e ainda via sua terra, o castelo que deixava para trás com suas múltiplas torres que subiam como estacas para o céu.— Não vou para o fúneral, vou para tratar de negócios — respondera ele com um enorme livro nas mãos."Maldito barco", pensara. Ele remexia para frente e para trás, era impossível tentar ler ali e o esforço parecia fazer seu estomago se mover junto com as ondas.— Então por que eu não pude ficar?Verônica de Mello era baixa, com grandes ancas que tinham lhe proporcionado duas belas filhas (uma bebê de colo e outra já casada) e um filho e uma bela voz pela qual seu esposo tinha se apaixonado. Uma pequena cachoeira ruiva caía até o seu queixo com uma bela covinha no centro."Bonita, mas burra", porém Miran não se casara com ela pensando em sua inteligência.— Se chegar para ele e tratar de negócios logo depois da morte de sua filha vou parecer insensível, mas se for com minha família para prestar condolências e, por algum acaso, tocar no assunto da prometida de meu filho ter morrido e outra se fazer necessária... ainda será insensível, mas muito menos — explicara pacientemente pela milionésima vez."Sorte que nasceu mulher."Sean dormira em uma cabine ao lado, tinha seus quinze anos, mas parecia já ter mais de dezoito. A pequena Lisa ficara sempre com a ama-de-leite.Agora o menino andava de cavalo ao lado do pai, não gostava de liteira, dizia que era coisa de gente fresca.A estrada não era tão longa, quando se despediram de Ron de Pate, a manhã recém-nascia, mas já passava do meio-dia e eles já tinham cruzado pouco mais de metade do caminho, segundo afirmava um dos guias, Travis, o Rouco, com sua voz falhada. O outro também tinha o nome de Travis, mas este todos chamavam Travis, o Cabeçudo, pois a cabeça que tinha acima do pescoço era desproporcionalmente grande.Assim que pisaram em Bacia das Algas o seu senhor viera recebê-los, junto de uma enorme comitiva, todos ricamente vestidos e carregando as armas da família Pate em bandeiras que tremiam ao vento (um escudo quadrado com duas cabeças de cães sobre ele e, no interior, mais três cães negros, um acima do outro, tudo cercado por folhas vermelhas e amarelas). Enormes sorrisos estamparam todos os rostos, porém ninguém sorrira mais do que as filhas Pate. Josie e Jana eram feias e talvez mais burras do que Verônica e seriam facilmente esquecidas pelo Rei se seu pai não fizesse total questão de lembra-las a todo momento, exaltando as qualidades que tinham, como se isso fosse fazer com que o Miran tivesse a vontade de casa-las com seu filho agora que ele não tinha mais uma pretendente."Sean jamais me perdoaria se o casasse com uma delas", pensou ao focar em seus rostos estranhos.— Josie é um das melhores cozinheiras que já conheci. Não tem o costume de cozinhar, afinal de contas temos escravos para isso, mas quando faz é simplesmente divino — Falara, pelo menos, duas vezes. — Jana é muito esperta, adora ler. Seu filho gosta de ler também não é mesmo? Ela gosta muito de livros mais românticos, mas sabe manter uma boa conversa, não é verdade Jana?
— O que? — a moça estara fitando um grupo de homens do outro lado do salão com olhos cobiçosos durante o jantar que tiveram para todos os que vieram no navio do rei, mas se virara assim que ouvira o pai lhe chamar.— Diga ao Rei Miran como gosta de ler — mandou o pai.— Gosto muito de ler, Majestade, já li "A Linda Donzela e o Cavaleiro das Matas", já li "A Guerra dos Tronos", embora tenha achado o final muito triste e...— Tenho certeza que já leu muito, mas tenho que falar com minha esposa — falara ele em um tom cordial e se retirara da mesa.Pararam para almoçar, desmontaram em uma clareira grande, os membros da Guarda Real ficaram como guarda-costas, enquanto todos comiam. Verônica se recusava a deixar sua liteira e foi servida ali mesmo, porém Sean e Miran ficaram juntos dos outros, para que todos os vissem comer e beber.— Causar uma identificação é muito importante — explicara ele ao filho quando ele era mais jovem e lhe perguntara o motivo do pai estar sempre conversando com os plebeus. — Eles precisam pensar que nós somos como eles, assim não vão se rebelar. Ninguém se rebela contra um dos seus.E lá estavam eles, se identificando com o povo.Seis cavaleiros da Guarda Real tinham partido do Velho País junto deles.— Sente-se, Sir — falou para o comandante da guarda, Sir Carlos Grande.— Não sinto fome, Majestade — respondeu o cavaleiro.— Mentira. Todos sentem fome. Vamos, coma — convidou. — Chamaria seus companheiros, mas creio que eles devem ficar ali, parados e impedindo que minha bunda fique ameaçada por esses nativos malvados. Vamos — seu sorriso era amigo.O cavaleiro era louro, mas os quarenta e tantos anos de idade tinham feito fios grisalhos riscarem seus cabelos dourados e o bigode que cobria o seu lábio superior. Usava a armadura padrão que todos os seus companheiros usavam, negra e com uma capa vermelha nas costas, o elmo era alto e a viseira era torcida, dando a aparência de um perfeito rosto humano. Porém a capa dele tinha o símbolo de comandante (um grande C dourado) acima do brasão da família real de Rohesia (dois flamingos, um com o pescoço entrelaçado ao pescoço do outro e com as asas abertas, como que para voar, acima vinha um elmo prateado coroado como rei, cruzado por duas espadas, embora apenas as lâminas fossem visíveis).Ele se sentou e abriu a face de metal, deixando a humana respirar. Ainda parecia contrafeito."Pensa que vão nos atacar", notou Miran em seu olhar e sentiu um arrepio na nuca.— Pegarei apenas uma coxa de galinha, Majestade.— Pegará o que eu mandar e agora encha a boca para que pare de falar besteiras.Sir Carlos Grande obedeceu, como sempre fazia. Colocou a galinha na boca, assada em uma fogueira feita as pressas por alguns escravos doutrinados, e bebeu grandes goles de vinho oriental, da melhor safra.De gole em gole Miran foi sentindo suas pálpebras pesarem e uma tremenda vontade de urinar, porém continuou comendo e conversando.— Da primeira vez que participei de uma justa eu devia ter uns quatorze anos — contou, mais para o filho do que para o cavaleiro, Sean estava começando a participar delas, embora não fosse, nem de longe, o melhor homem que já segurou uma lança sobre um cavalo. Miran imaginou que mostrar ao menino que ninguém era imbatível, nem mesmo o Rei, faria com que ele não se importasse tanto com as derrotas que já sofreu e ainda sofreria. — Mas me lembro muito pouco, fui derrubado tão rápido. Meu cavalo correu, correu, correu e eu apontei a lança para o homem na minha frente. Me preocupei tanto em acertar o homem que acabei me esquecendo de que ele também mirava em mim, errei por pouco, mas o pouco que errei me atirou tão longe. Bati a cabeça e apaguei, mesmo com a armadura.— Soube que Jordi Velasco é fantástico nas justas — falou o filho. — Acha que poderei ter uma com ele algum dia, pai?— Talvez.— Coitados — comentou Sir Carlos Grande. — Sei o que é perder uma filha e não desejo o mesmo nem ao meu pior inimigo.A filha do Comandante da Guarda Real morrera picada por um cobra aos dois anos, e ele pouco vira dela. Enquanto ela estara viva uma rebelião estourara e Sir Carlos Grande fora, junto de muitos outros cavaleiros, defender o reino dos rebeldes ao leste e só soubera da morte da criança quando sua morte completava um mês.Talvez os três estivessem muito bêbados ou apenas distraídos, mas não ouviram a aproximação de ambos os Travis que surgiram como que do chão ao lado do rei.— Majestade... — murmurou Travis, o Rouco e, como de supetão, foi derrubado pelo cavaleiro cambaleante que saltou atirando a coxa que trazia nas mãos para longe e desembainhando, tão rápido como um raio, a espada. Segurou-a com os dedos engordurados. O cabo era de couro rubro e o botão trazia um coração de ouro com riscos negros.— Sir, Sir, somos nós, os guias — gritou Travis, o Cabeçudo, prensado contra uma árvore e com a lâmina no pescoço.— Deixe-os, homem — disse o Rei, embora também estivesse sobressaltado pelo susto.Ele os largou, mas a espada não foi guardada, seu rosto era uma carranca carregada.Um Travis pôs o outro de pé e os dois fizeram reverências assustadas para o Sir, para o Rei e para o Príncipe Sean.— Sentimos muito, Majestade — disse um.— Viemos apenas para dar um aviso rápido — continuou o outro.— Fomos na frente para bater o caminho e vimos que uma árvore caiu sobre a estrada.— É necessário que ela seja retirada, pois é uma árvore grande e a liteira e os cavalos vão ter que cruzar o caminho pela floresta se quiserem contorná-la.— E o caminho pela floresta é muito perigoso.— Retirá-la vai nos custar mais duas horas, eu acho.Sir Carlos o olhava, seu filho o olhava, os guias o olhavam.— Mandem que a árvore seja retirada do caminho, ora essa — falou, não entendia tamanha exaltação por uma árvore caída.— Duas horas a mais do que o esperado é o suficiente para que cheguemos apenas durante a noite e não é bom ficar durante a noite sem um abrigo, Majestade — disse Sir Carlos Grande.— Pai, acho mais sensato que retiremos a árvore, montemos acampamento e permaneçamos aqui até a manhã clareie mais uma vez, só então poderemos partir — aconselhou Sean.— É mais seguro — concordou o cavaleiro.A ideia foi matutada por alguns poucos segundos em sua cabeça.Além do perigo de serem atacados pelos nativos que ainda habitavam aquele lugar ainda havia o terreno, não era completamente plano, mesmo a estrada era cheia de buracos, durante a noite uma viagem seria muito perigosa."Perderemos muito mais do que uma noite se um cavalo quebrar a pata nesse caminho e ainda mais se morrermos por esses índios", refletiu e, por fim, disse para os Travis:— Enviem um mensageiro, pode ser um de vocês mesmo. O mensageiro deve avisar que ouve um infortúnio, explicar qual é e dizer que chegaremos lá amanhã às... Que horas vamos chegar lá amanhã?— Se sairmos com o nascer do sol chegamos antes do meio-dia.— Avise que chegaremos antes do meio-dia de amanhã.Travis, o Rouco foi como mensageiro, era o mais rápido, segundo diziam, conseguiria chegar mais cedo que o companheiro.Alguns homens fortes retiraram a árvore em menos tempo do que fora previsto, mas já não dava para seguir viagem.Mesmo sem saber que iriam precisar acampar, uma tenda pequena havia sido trazida, apenas por precaução, e se mostrou bastante útil. Verônica não quis sair da liteira de nenhuma maneira, lá jantou, novamente galinha assada, algo que possuíam em grande quantidade, e lá dormiu, segura por dois cavaleiros da Guarda Real e com a filha nos braços.Os outros quatro permaneceram de guarda ao redor do Rei e do Príncipe, já bem alimentados.Miran mergulhou na escuridão. Durante a noite, enquanto a lua pairava sobre o céu ele ouviu vozes estranhas que gritavam palavras ainda mais estranhas.— Zuali jui — disse uma delas e o Rei se encolhou em meio à cama imporovisada onde se encontrava deitado.— Zuagai a luendra — respondeu a outra, esta tinha a tonalidade de uma ordem.— Zuagone — gritou a primeira. Seu corpo se arrepiava como que pelo frio, mas ali no Novo País, diferentemente do Antigo, ainda era verão.— Zuagone tu — de relance ele os viu, quatro olhos em meio às árvores, brilhando nas sombras, seus corpos esguios eram altos e eles se mantinham acocorados nos galhos.Os olhos o fitaram e ele os fitou."Grite", disse um Miran para si. " É só um sonho", respondeu o outro Miran.Os olhos se moveram, como se as cabeças fizessem um movimento para olhá-lo melhor.
"Grite logo, porra", os Miran se irritavam em seu interior. " É só a merda de um sonho".Então veio a luz branca para acordá-lo.— Vossa Alteza — disse Sir Carlos, já amanheceu, precisamos ir.Escravos doutrinados já desmontavam a tenda.Ainda com muito sono o Rei montou em seu cavalo e partiu, olhando de relance pela última vez para a árvore onde tinha visto os homens esguios."Foi só um sonho".Ele perguntara para um dos cavaleiros se tinham visto algo estranho na noite passada e o homem respondera:— Não senhor, não vimos nada."Foi só um sonho", insistiu.Quando finalmente o outro meio-dia chegou, se encontravam já nos portões da primeira muralha do Castelo de Açúcar. Aquela dividia a floresta dos moradores comuns. Quando cruzaram as ruas sujas pela merda atirada pela janela e o mijo feito nas paredes, Miran se viu cercado por olhares diferentes dos de seu pesadelo, olhares que se divergiam até um do outro, alguns eram de cobiça, inveja, queriam o que ele tinha e nunca o teriam, outros eram de medo, ele era o Rei Miran de Mello, a maior das autoridades e eles eram apenas prostitutas, padeiros, ferreiros, valiam menos do que os camponeses que cuidavam da cana de açúcar do outro lado daquela extensa região governada por Camilo, outros o olhavam com admiração e honra, ele era o Rei, estavam vendo um rei, um rei estava olhando para eles de cima de seu cavalo.A segunda muralha dividia os pobres dos nobres e era muito maior do que a anterior.Quando os portões se abriram o Rei pode ver Camilo e seu filho entre a comitiva que os acompanhava. As armas da casa Velasco (um escudo dividido em quatro lados, um deles com um peixe azul em meio ao fundo branco, outro completamente listrado de azul anil e azul celeste, o terceiro com um cavalo nadando sobre o oceano e o quarto com uma versão menor do próprio castelo que a família possuíra em Rohesia antes de se mudarem para o Novo País. Acima do escudo vinha a cabeça de um urso rodeada por várias penas alaranjadas) balançavam bela prisa soprada.— Apresente-se ao Rei Miran de Mello, primeiro de seu nome, maior autoridade de Rohesia e do Novo País ainda sem nome — disse o arauto de Miran, um homem mirrado e de longo nariz.— Vossa Majestade — Camilo se ajoelhou perante ele, assim como seu filho e os outros senhores que os acompanhavam. — É uma honra poder finalmente recebê-lo.Miran não prestava muita atenção ao falatório, estava longe."Foi só um sonho."
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