"Duas mãos cheias e mais uma menos um dedo", contou Anari em sua língua nativa, pelo menos em pensamento ainda podia usá-la. Esse era o número de escravas antes da última chegada. "Uma mão cheia mais uma menos dois dedos foram trazidas na última viagem", refletiu. "Uma mão cheia mais uma mão menos três foram levadas para A Coisa na lua seguinte". Cada soma ela acrescentava um de seus dedos curtos, escuros e sujos, com unhas mal-cuidadas e compridas, fazia o oposto para as subtrações. "O total agora de escravas é de três mãos cheias".
Só sabia contar até três, era só o que tinha aprendido de números nos cinco longos meses em que passou naquele lugar, geralmente as próprias bruxas é que contavam, e não as escravas, por isso não havia necessidade de ensina-las e antes, quando vivia junto dos Iomâs, não conhecia nenhum modo de contagem se não as palavras "Iuriã", para muitas coisas e "Hioriã", para poucas. Esse novo sistema de contagem era estranho e, segundo lhe explicaram, infinito.
"Nada pode ser infinito se não a água que vemos nas praias e o teto azul estrelado acima de nossas cabeças", pensara quando lhe disseram aquilo.
Anari acreditara que fosse uma das escravas que seria levada para A Coisa quando as novas chegaram. Chegou até a desejar isso, muitas desejavam isso, diziam que o golpe era rápido, não havia nem mesmo tempo de gritar e, quando conseguiam gritar, o grito era interrompido logo em seu início pela mordida.
"Uma mordida e tudo isso chega ao fim".
Se imaginou abocanhada pelo ser.
As escravas diziam que A Coisa era apenas um ser, mas as bruxas afirmavam se tratar de três monstros.
— Tem o dragão gigantesco que cospe um fogo mais quente do que a bola amarela no céu — contavam para assustar. — Tem também o lagarto, esse sim abocanha, mas não abocanha só uma vez, abocanha cinco, uma vez com cada cabeça, porém na primeira você já está morta. O pior de todos é o grande galo com facas, ele as vezes erra... poucas, mas erra e quando erra você não morre de uma vez só, demora mais, sente mais.
As escravas mais experientes tentavam tranquilizar as mais velhas quando as bruxas lhes falavam aquelas coisas.
— Elas só querem nos assustar — consolavam. — Já é difícil esconder um monstro, quando mais três aqui nesse lugar.
"Que seja o lagarto", pedira aos seus nove deuses varias e várias vezes. Morrer por uma mordida parecia melhor do que morrer queimada ou correr o risco do galo errar o golpe.
Porém, não importava qual seria o monstro, ela não iria gritar ou chorar, iria se comportar como a guerreira que sabia que era.
Poucos minutos antes das bruxas virem pegar as sacrificadas, Anari rezara para Jiruá, a Deusa da Água e do Ar, para que seu sopro não mais trouxesse barcos com seu povo para aquele lugar maldito. Rezara para Avi, Deus da Colheita e das Crianças, para que todos ali fossem protegidos por sua mão bondosa e acolhedora. Rezara para Iunum, o Deus da Morte e da Vida, para que todas as bruxas morressem sofrendo, morressem sentindo dor, morressem em agonia.
Se lembrara de uma pequena parte de uma canção chamada "Canção dos Nove Deuses" que tinha aprendido muito tempo antes, quando era apenas uma criança e sua mãe cantava para curar seus machucados e amansar seu choro. Sua letra, quando traduzida era mais o menos essa:


Nove são os meus deuses,
Nove preces vou fazer.
Rezarei aos meus deuses,
Para que o melhor acontecer.


Talvez o meu melhor não seja o seu,
Pois você talvez não queira o mesmo que eu.
Mas felicidade todos nós queremos,
Todos buscamos e atrás dela todos corremos.


Os ferimentos um dia vão sarar,
Vão passar, se curar.
E tudo ficará bem se os deuses que louvei
Estiverem comigo até o fim.


Porém cantara e rezara em pensamento, também não tinha ali o direito para fazer ambos. Não tinha nenhum direito naquele lugar. As escravas não podiam dormir muito próximas uma das outras, não podiam conversar em suas línguas, não podiam orar aos seus deuses, não podiam fazer o que não eram mandadas e não podiam se recusar a fazer o que eram mandadas, não podiam se aproximar muito de uma das mulheres sem serem convidadas por elas e não podiam não se aproximar quando elas as chamassem, não podiam comer sem sua permissão e não podiam se recusar a comer o que eram mandadas a comer, não podiam rir e as bruxas também não gostavam das que choravam demais. Havia alí um meio-termo e era nele que elas deviam habitar, porém esse meio-termo era insuportável.
"Mas vou cantar alto quando chegar a minha vez de morrer, pois quero que a minha voz seja ouvida por todos nesse lugar".
Mas Anari não fora uma das escolhidas para o abate e não sabia se ficava feliz ou triste por ter sido poupada da Coisa.
Na manhã depois da última chegada Borgdana, a Primeira, primeira cria da Bruxa Aalis, levara Giurin e Wíuã, duas meninas Friopás, Diula, Surin e Rifõn, meninas Giuronas, Jiurin, uma Liunesina da tribo Liune, também chamados pelo resto dos povos da floresta de Povo-Orelha-Cortada, onde todos os homens tinham de cortar suas orelhas aos seis anos, e Sioní, uma jovem da mesma tribo de Anari, porém que tinha sido trazida dois anos antes.
Borgdana, a Primeira conseguia ser pior do que sua mãe, era magra como os galhos de uma pequena arvore, tinha pés e mãos enormes, assim como olhos esbugalhados e um nariz que se afundava dentro do rosto. E, embora ela falasse pouco, todo mundo sabia que ela odiava pagar para os contrabandistas trazerem escravos pelo mar.
— Podemos pegar nossos escravos, quantos desejarmos, mas você é burra demais para isso, não é mesmo? — dissera para Aalis aos gritos certa vez quando se exaltara e a Mãe das Bruxas lhe retribuíra as palavras rudes com uma bofetada que a atirou no chão.
— Cale a porra da boca antes que eu mande que ela seja costurada.
Todas as escravas quiseram rir, mas nenhuma pode. Se contentaram em ver as outras bruxas rindo de sua irmã mais velha.
Sioní conhecera um pouco dos números com uma outra escrava há muito morta. Ela que tentara ensinar para Anari a contagem e conseguira, pelo menos enquanto o tempo permitiu. Disera uma noite que conhecera também o pai de Anari, Ivair.
— Ele é muito alto, não é? — perguntara em cochichos da língua Iomâ.
— Sim, tem o dobro da minha altura — e Anari era bastante alta para a idade.
— Eu me lembro um pouco dele, me lembro que tinha braço grandes. Era um caçador, não era?
"E ainda é". Não conseguia imaginar o pai morto, pois o pai era forte, muito rápido e cheio de vida, podia imaginar qualquer outro de sua vila jazendo no chão, mas não o pai.
O pai saia com grupos pela floresta com o arco em uma mão e as flechas em uma bolsa nas costas e sempre voltava trazendo cervos, javalis ou qualquer outro animal para que todos o comessem em torno da fogueira.
"Será que o javali sentia o mesmo que eu sento agora?", se perguntou uma vez. "Não, meu não obrigava o javali a trabalhar para ele e nem o trancava em um lugar fedido, apenas o matava com uma lança rápida no coração."
"Três dedos", esse era o número de meninos trazidos. Mas contar os meninos era muito mais complicado, eles não se misturavam com as meninas, não podiam sair do quarto nos fundos e eram visitados exclusivamente pelas bruxas, estas não queriam que as meninas engravidassem, apenas elas tinham esse direito também. Elas entravam, uma por noite, dentro daquele lugar e tentavam ter uma criança com os escravos. Não se sabia se os matavam também quando vinham novos ou os mantinham todos lá dentro, para terem mais variedades.
"Mesmo se todos os já trazidos estiverem ali dentro não é o suficiente", pensou deprimida.
Havia muito mais bruxas do que escravos, isso era certo, e as bruxas eram mais fortes, pois não passavam fome e não se encontravam sempre cansadas. Eram tantas que ela não conseguia contar nos dedos, sua cabeça começava a latejar quando tentava.
Uma dor veio súbita às suas costas, quando se virou viu a menina mais feia do mundo.
Um nariz gigantesco vinha na frente de seu rosto, um dos olhos era branco e cego como os olhos de um velho enquanto o outro era negro, seus cabelos era picotados. Devia ter uns cinco anos, talvez um pouco mais.
— Levanta — gritou a filha mais nova de Borgdana, a Primeira ainda chutando. — Quero que me sirva comida.
Havia outras tantas escravas em volta do enorme panelão sobre o fogo que, se não fosse pela luz lançada pelas chamas, ele se tornaria invisível, mas Kienna, a Pequena, não se contentava com as outras, implicava com Anari, todos sabiam.
— Quero caranguejo hoje, bem grande, estou com muita fome — dissera certo dia e lá foi a escrava na beira do mar caçar um caranguejo para a menina comer.
Anari perdera dois antes de conseguir agarrar um com suas mãos magras. Ele beliscara seus dedos, mas eles já possuíam tantos calos que a dor não foi tão grande.
— Aqui caranguejo seu — falara Anari segurando com cuidado o animal.
— Agora já não quero mais — respondera a menina. — Perdi a vontade de comer carangueio.
"Hiodã", pensara quando a bruxinha lançara o caranguejo alaranjado de novo para o mar e saíra de perto gritando "MÃE".
"Hiodã" era o mesmo que "puta" no idioma de Rohesia, e, desde então, toda vez que Anari via Kienna, a Pequena, pensava na palavra.
"Hiodã", pensara quando ela lhe mandara pescar alguns peixes no mar para saciar os desejos de uma tia que perdera o bebê quando caiu com a barriga no chão. "Hiodã", pensara quando ela lhe mandara fazer tranças em seu cabelo feio. "Hiodã", pensara quando ela mentira para Willa, a Gentil, quando a mesma tropeçou, dizendo que Anari rira dela e as mãos da escrava ainda estavam com alguns hematomas onde a bruxa tinha lhe pisado com seus grandes pés.
"Hiodã", pensava agora mesmo enquanto se colocava de pé. Tinha, talvez, o dobro da idade de Kienna, a Pequena e, com toda a certeza, duas vezes o seu tamanho, mas mesmo assim Anari a temia. Sabia que, com uma reclamação ela podia fazer Willa, a Gentil pisar mais uma vez em seus dedos, ou fazer com que Borgdana, a Primeira lhe surrasse com uma vara, como já tinha visto fazer com muitas outras desobedientes.
— Ela faz isso com todas as novas escravas — disseram-lhe. — Já, já ela para.
Porém já faziam cinco meses, nesse meio tempo já haviam chegado mais dois navios, ambos trazendo mais novas escravas, mas a menina não a deixava em paz.
"Talvez ela apenas me odeie, e as outras tenham dito que ela implica com todo mundo pra fazer com que eu me sinta melhor."
Mas não parecia ser apenas ela a vítima, por isso constatou que seu primeiro pensamento estava falho. Ela realmente provocava todas as novatas.
"Então eu devo ser uma das preferidas, uma que ela não quer largar", e aquilo, à cada dia que passava, parecia mais verdade.
O cheiro que vinha da panela não era realmente bom, mas fazia com que Anari recordasse dos dias em que vivia na aldeia de sua tribo e o fogo fazia com que ela se imaginasse novamente em volta da fogueira, ao lado de sua mãe e de seu pai, ao lado de seus avôs, ao lado de seus irmãos e sua irmã. Por isso virava a cara e tentava pensar em outras coisas enquanto a comida estava no fogo, não queria se lembrar, não queria pensar na família que nunca mais veria e que deixou para trás no dia em que aqueles homens levaram-na para aquele lugar maldito.
Mas Kienna, a Pequena a forçava a olhar.
No barco Anari ficara em uma das cabines mais pequenas, dividindo-a com outras três jovens, das onze que haviam sido trazidas naquele viagem. Os contrabandistas tinham-na acorrentado à parede, assim como tinham feito com as outras. Todas as noites a porta era aberta, na primeira vez que isso aconteceu Anari pensara que os homens vinham para lhe trazer mais comida, mas não fora o velho corcunda a entrar e sim um estranho alto e com um enorme bigode e ele vinha se alimentar naquela noite.
"Só não fui pega por ser muito nova", pensava ela sempre que se lembrava das múltiplas vezes em que aquilo acontecia. Porém ver era quase tão terrível quando participar e aquilo se mantinha gravado em seus olhos, como que queimado com ferro em brasa.
"Talvez Kienna saiba o que sinto quando olho para as chamas e por isso me force a olhar para elas", pensou enquanto, com uma grande concha de madeira, virava um pouco daquilo que devia ser uma sopa, embora pouco se assemelhasse a uma (era cheia de estranhos ossos, pedaços e carne e rodas de gordura, pés de aves distintas boiavam sobre tudo isso como se os pássaros tivessem sido afogados naquele líquido vermelho-cobre), no prato de barro de Kienna, a Pequena.
Mesmo com a cara da comida não sendo boa, Anari sentiu fome.
Assim que entregou a comida à menina, a cativa voltou ao seu lugar. Quase sempre, quando tentava de distrair, se imaginava matando aquelas bruxas, torturando-as, fazendo-as sofrer. E embora esse não fosse o seu único pensamento, também pensava em como sair daquele lugar o que faria ao sair, era o mais recorrente e alegre.
Matava Aalis, a Mãe das Bruxas, matava Borgdana, a Primeira, matava Kienna, a Pequena, matava todas elas em sua imaginação. Também matava o musculoso com bigode, matava o capitão de barbicha, matava o outro magro, matava o loiro, matava até mesmo o velho que lhe trazia comida. "Se estava com eles também merece morrer."
Mas fora de sua menta as feias mulheres continuavam vivas e a cercavam por todos os lados, obrigavam-na a limpar, caçar e muito mais.
"Talvez, quando o próximo navio chegar, eu vá para o abate", pensou tentando controlar o seu estomago que começava a roncar de maneira descontrolada. "Mas talvez ele nunca chegue e eu vou passar o resto de minha vida aqui, sem direito a uma morte rápida", mas passar o resto de sua vida ali não seria tão ruim, contanto que ninguém mais de sua tribo ou das outras vá sofrer ali com ela. "Mas não vou aguentar passar o resto de minha vida aqui e, mesmo assim, ficar vendo meu povo ser trazido para cá. Isso não."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.