Crônicas De um novo Tempo
8 O Cavaleiro de Escorpião
Notas iniciais
Milo e Helena chegam ao ponto mais alto do Vistea Mare, um lugar lindo de natureza exuberante. Eles escolheram um ponto com uma grande área plana e uma nascente de água pura próxima. Perto dalí, uma enorme pedra com uma linda vista para o mar, logo aos pés da alta montanha.

Milo prepara duas grandes tendas brancas com lona grossa, uma para ele e outra para sua pupila. Para dormir, se trocar, guardar suas coisas, já que eles morariam alí por um longo tempo. Uma terceira tenda para os banhos.
Já era fim de tarde quando eles terminaram de preparar todo o lugar, estavam cansados e mortos de fome. Milo pegou lenha e acendeu uma grande fogueira, o que passaria a fazer todas as noites. Pegou os mantimentos que trouxe da cozinha do Santuário e preparou uma espécie de jantar.
– Não sou muito bom nisso — disse ele sorrindo — mas dá pra matar nossa fome.
Helena sorriu e admirou a energia do cavaleiro em ainda cozinhar depois de tanto trabalho.
Tinha espigas de milho assado, carne e pão.
Comeram de se fartar, ficaram satisfeitos e se sentaram perto do fogo.
– Voce agora é meu Mestre e eu não sei nada de voce — disse ela
– O que quer saber? — perguntou ele, com a lua iluminando seu rosto
– Me diga de onde veio, como se tornou um Cavaleiro de Ouro? — perguntou curiosa
– Bom, minha história é triste. Quer mesmo ouvir? — disse sério
– Quero saber tudo de voce — disse ela séria.
A ousadia de Helena assustava Milo ás vezes, ela costumava dizer coisas que mulheres não diziam tão diretamente assim.
Então Milo voltou á sua infancia, e começou a narrar para sua pupila sobre sua vida feliz com os pais e os irmãos, o vício de seu pai em jogo, a angustia da mãe e por fim o incendio, o suicidio do pai e de como havia ficado sozinho no mundo.
Helena ouvia a tudo atenta e assustada com tamanha tragédia na vida de uma criança de apenas 7 anos. Emocionada, ela quis saber:
– E o que aconteceu a voce? O que aconteceu depois do incendio? — perguntou tão aflita como se vivenciasse toda a história.
*** Inicio do flashback, narrado por Milo ***
"Eu acordei no hospital, era só um menino de 7 anos que tinha perdido toda a familia num incendio. Eu estava bem, mas não sabia o que seria da minha vida dalí pra frente.
Recebi alta e não tinha pra onde ir, nenhum parente, nada.
Me levaram então para um orfanato e me deixaram lá.
Era um lugar horrível, as crianças eram tristes e sujas, as cuidadoras eram cruéis e nos castigavam por tudo. Um dia uma cuidadora quis me castigar e me deixar sem comer, mas com muita fome decidi ir á cozinha e roubar comida. Ela me pegou e tentou me castigar, meu ódio foi tanto que voei em cima dela e arranhei toda a cara daquela mulher, deixando-a quase desfigurada.
Fui expulso do orfanato e colocado na rua por causa disso. Mas foi até melhor.
Fiquei vagando pelas ruas, fazia malabarismos pra ganhar uns trocados ou comida, ás vezes comia só uma vez no dia. Mas ao menos eu era livre..."
– Voce não tinha medo da violência? Era só uma criança... — quis saber Helena.
– Não, eu sabia me defender, já tinha batido em adultos grandes, eu batia bem. Ninguém se metia comigo.
"Á noite eu dormia em uma caixa de papelão no fundo de um beco, junto com os gatos de rua e as baratas. Eu sempre dividia minha comida com eles, eram amigos.
Numa dessas noites ouvi um barulho estranho e olhei pra fora da caixa. Dei de cara com um homem alto, de cabelos longos e usava um terno preto, seu nome era Arles. Ele me disse que tinha vindo me buscar e me levaria a um lugar bonito e me ensinaria a lutar de verdade.
Eu tive medo e apenas quis saber se lá teria comida. Ele garantiu que sim, e eu fui com ele.
Entramos em um grande carro preto e viajamos a noite toda. Acabei dormindo no carro e quando acordei já era dia.
O carro nos deixou no pé de uma enorme montanha, como esta em que estamos, e assim como fiz com voce, Arles também me levou ao topo da montanha. Lá me ensinou técnicas de luta e me disse que eu descobriria meu golpe, um golpe único, que só eu poderia aplicar e que intuitivamente eu saberia como fazer.
Ficamos lá em cima 3 anos, neste tempo aprendi não só a lutar, Arles me ensinou valores éticos, me ensinou sobre as constelações, sobre anatomia humana e os pontos mais importantes do corpo — isso seria fundamental para eu entender meu golpe e como ele funciona no meu oponente — me ensinou a falar inglês, frencês, espanhol, japonês, a me portar socialmente. Posso sentar á mesa do mais nobre Rei e saberei como me comportar. Nesse tempo meu cabelo não foi cortado e meu corpo havia ficado mais forte. Ele me ensinou tudo, e eu ainda era só um garoto que nem os pêlos do corpo ainda tinha.
Ele foi meu mestre.
Ao final dos 3 anos, eu havia acabado de completar 10 anos de idade e ele disse que era a hora de irmos. Quis saber pra onde iríamos, depois de tanto tempo, estava acostumado aquele lugar. Mas ele não disse.
Descemos a montanha e entramos no mesmo carro preto e viajamos muitas horas, até chegar ao Santuário.
Quando chegamos fiquei encantado com o lugar, era lindo, um paraíso como voce pôde ver.
Ele me levou direto á sala do Grande Mestre e lá estava Shion, meu mestre vestiu a túnica e o elmo e disse quem realmente era: Ares, o outro Mestre do Santuário.
Infelizmente ele foi morto tempos depois por Saga de Gêmeos, mas isso é uma outra história...
Depois disso me levaram para a arena para lutar pela armadura de ouro de escorpião, meu adversário era Orfeu de Lira, na época um menino como eu que tambám almejava a armadura de escorpião. Lutamos por horas, ficamos machucados mas consegui resistir melhor e venci a luta conquistando a armadura. Ele se tornou cavaleiro de prata pouco depois.
Eu era o último cavaleiro da minha geração a chegar ao Santuário, todos os outros já estavam lá. O primeiro a se aproximar de mim foi o Afrodite, achei ele um garoto legal, mas tinha umas manias estranhas...depois me aproximei de Mu, e ficamos muito amigos, ele gostava de uma boa farra, como eu. Mas meu grande amigo mesmo era Camus.
Um dia reparei naquele menino tímido, sempre de canto, com uns cabelos verdes engraçados, escrevendo umas coisas estranhas em francês...me aproximei dele e apesar de sermos opostos, ficamos muito amigos. Todos crescemos juntos e nos tornamos ligados por isso.
Todos éramos meninos, mas já tinhamos que sustentar pesadas armaduras e guardar o Santuário."
*** Fim do flashback, narrado por Milo ***
– Satisfeita? — quis saber ele
– Sua história é linda e agora o admiro ainda mais, meu Mestre — disse ela, derretida.
As palavras de Helena mais uma vez desconcertaram Milo:
– Não precisa ficar me chamando de Mestre, me chame pelo nome mesmo — disse meio sem graça
– Sim, como quiser Mes.....Milo.
Ele riu e levantou-se
– A água já ferveu, vou colocar na tina para voce tomar seu banho e depois tomo o meu.
Jogou a água na grande tina de madeira, formando uma banheira de água quentinha na tenda iluminada por uma vela.
Saiu e Helena entrou, despiu-se e tomou seu banho.
Milo sentou-se novamente perto do fogo aguardando sua vez de banhar-se. Seus pensamentos divagaram, e ele depois de muito tempo, sentiu uma sensação gostosa....uma felicidade plena.
Apesar de todo sofrimento, ele havia se tornado um guerreiro vitorioso.
Um nobre Cavaleiro de Atena.
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