Crows

4 Capítulo 4: Fortune and fame


Filip acordou às 03:00. Estava suando frio, o sofá e os cobertores estavam ensopados de suor, havia tido um pesadelo mas não se lembrava de como ele havia sido. Sentou-se no sofá e, após alguns instantes pensando, olhou pela janela. Ainda estava chovendo. Levantou-se e foi tomar um banho, vestindo uma camiseta totalmente branca, o colete, jeans, tênis brancos e uma touca preta. Colocou o cobertor encharcado para lavar e em seguida pegou uma cerveja, abriu a porta e sentou-se ali, observando a chuva enquanto tomava uma cerveja.

Estava distante, pensava na vida que levou até agora, na quantidade de pessoas que matou, aquilo era de certa forma surreal. Ele praticamente comandava aquela cidade, tinha mais poder que a própria polícia, no momento em que quisesse ele poderia simplesmente ligar para o motoclube e ruir aquela cidade, mas não. Estava sentado na porta tomando uma cerveja e refletindo sobre isso. A vida de Filip parecia mais um filme de ação com tudo que aconteceu, mas ao mesmo tempo parecia a vida perfeita para ele. Não tinha nenhuma corrente o prendendo, ele podia fazer o que quisesse, tinha dinheiro, fama e poder. Era realmente estranho, incomum, a maioria dos pais queria que seu filho crescesse e virasse um advogado, um médico, um engenheiro, mas o pai de Filip queria que ele fosse um fora-da-lei, o criou para isso, ensinou-o a fazer isso. A mãe de Filip não ligava contanto que o filho estivesse inteiro e vivo, era isso. Quando ela morreu Filip sentiu-se devastado, seu apoio emocional havia simplesmente ido embora, seu porto seguro havia ido embora, e ele estava praticamente por conta própria. O pai de Filip se importava com ele, mas não sabia lidar direito com emoções apesar de dar alguns conselhos sábios. Quando ele morreu, Filip sentiu uma imensa solidão, maior que a que sentiu quando sua mãe morreu, apesar de ter o motoclube de forma definitiva do seu lado. Ainda lembrava-se do dia da retaliação pela morte de seu pai.

—

12 anos atrás.

O jovem Filip estava parado em frente à uma árvore no meio do nada, junto dele estava todo o charter de Ennis, na Irlanda. Observavam em silêncio 6 corpos em chamas pendurados por correntes nos galhos da árvore, retaliação pela morte de seu pai. Aquele silêncio sepulcral permaneceu por muitos minutos, até que o presidente do charter, Kellan McWalsh, deu um leve tapa no ombro de Filip e disse: “Vamos.” Montaram então em suas motos e partiram dali.

Passados alguns minutos de viagem, chegaram no destino que queriam, um velho armazém de bebidas em Ennis. Entraram lá e desceram a escadaria em passos largos, chegando rapidamente a uma sala no subsolo. A sala costumava ser ampla, refrigerada e limpa, porém naquele momento, não estava tão limpa. No centro da sala, pendurado em um gancho de açougue pelas mão e pelos antebraços estava um homem, e no chão abaixo dele havia sangue. Os membros do charter olharam para Filip, que estava encarando o rapaz pendurado. Virou-se para os membros do charter e indagou em um tom de voz indescritivelmente anormal:

[Filip] – Está tudo ali?

Apontou para uma geladeira e uma mesa com objetos cobertos por pano.

[Kellan] – Sim.

[Filip] – OK. Grato.

Após dar um aceno de cabeça para Filip, Kellan saiu do local junto com os demais membros. Agora era só o assassino e Filip.

O homem estava com a boca tampada por silvertape e provavelmente estava desmaiado. Filip aproximou-se e de forma brusca desferiu um soco contra a genital do "prisioneiro", que imediatamente acordou com os olhos arregalados. Olhou para Filip e se debateu, mas ele logo deu outro soco na genitália do rapaz, que se aquietou. Aproximou-se então da mesa com os objetos e descobriu-os, revelando bisturis, tesouras, facas, um fórceps, seringas, uma infinidade de instrumentos e também um aparelho de som com alguns CD’s. Escolheu um, “Sing Loud, Sing Proud!” da banda Dropkick Murphys, que era o álbum preferido de seu pai, e colocou para tocar. Retirou então o colete e a camiseta a fim de não sujá-los com o sangue, aproximou-se de um bisturi e pegou-o, porém parou e pensou por um instante. Não, ele não iria fazer aquilo daquela maneira. Aproximou-se do rapaz de novo e baixou a corrente com o gancho que mantinha o mesmo suspenso para um nível onde Filip conseguia olhá-lo nos olhos, então, com suas mãos nuas, Filip começou a bater nele de maneira raivosa. Rosto, costelas, barriga, tudo, bateu no homem pelo que pareceram horas. As mãos de Filip já estavam feridas e o homem desmaiado, mas mesmo assim ele não parou de bater, estava em um frenesi, não se importava com a dor e as feridas em sua mão, não se importava se ele já estava morto, apenas queria continuar batendo.

Passado algum tempo a mais, Kellan decidiu ir ver como as coisas estavam, tendo se deparado ao entrar na sala com Filip sentado em um canto encostado na parede. As mãos dele estavam ensanguentadas, os instrumentos na mesa da mesma forma que quando colocados, e o homem no gancho morto. Kellan aproximou-se de Filip, que levantou-se, e o abraçou. “Acabou, irmão. Acabou.” Disse o presidente.

—

Presente.

Já era 06:00, a chuva continuava e Filip estava sentado na porta com uma garrafa vazia de cerveja. Charlotte acordou e tomou um susto ao ver Filip na porta, tendo o chamado e dado bom dia em seguida. Dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho e Filip levantou-se, jogando a garrafa vazia no lixo. Colocou a mão direita no bolso e retirou dali um grosso maço de notas preso por um prendedor personalizado com um corvo, separou exatos 5 mil dólares e colocou o resto do maço no bolso. Assim que a jovem Charlotte saiu do banho, Filip foi até ela e entregou-a o dinheiro.

[Filip] – Compre uma TV pra mim hoje se der tempo, mas compre uma TV boa. Se sobrar uma grana, compre umas cervejas e alguma coisa pra você.

[Charlotte] – OK. Já vai sair?

[Filip] – Não, acho que não. Por quê?

[Charlotte] – Por nada. Já vou começar a limpeza agora, assim eu termino mais cedo, tudo bem?

[Filip] – Sem problemas.

Filip pegou outra cerveja e sentou-se na porta, tornando a observar a chuva e os poucos transeuntes. Em torno das 07:30, um Chevrolet Impala 1960 branco parou na frente da calçada do vizinho da frente de Filip. As janelas tinham película, o que impossibilitava a visão de quem estava dentro. De início Filip não desconfiou, mas passados alguns minutos, o presidente estranhou. "Nenhuma movimentação, ninguém saiu do carro, apenas parados, isso é estranho" pensou Filip. Levantou-se e jogou a garrafa de cerveja no lixo, foi até seu quarto e pegou a pistola Glock 18, colocando-a na parte de trás da calça, de forma a cobri-la com a camiseta. Charlotte, em um misto de nervosismo com curiosidade, perguntou:

[Charlotte] – Por que tá pegando a arma?

[Filip] – Tem um carro parado ali na frente faz um tempo. Ninguém desceu, baixou o vidro, nada, ele só tá ali parado.

Filip saiu do quarto junto de Charlotte, cuja pele já pálida embranqueceu-se mais ainda. Notando a reação da garota, Filip perguntou:

[Filip] – Conhece?

[Charlotte] – Er..

Vendo o rosto sério de Filip, a jovem não conseguiu mentir.

[Charlotte] – Conheço... Meu pai fez dívidas com esses caras, ele se escondeu achando que eles iriam parar... Mas agora eles tão me seguindo. Ontem eles me seguiram quando eu tava vindo pra cá, eu pedi pra dormir aqui com medo de que eles me seguissem até em casa também...

Filip se enraiveceu.

[Filip] – Seu pai fez dívida de novo? Esse animal não viu a merda que deu? E se eles fizerem algo com você e a sua mãe? O que ele tem na cabeça?!

A jovem ficou em silêncio.

[Filip] – Foda-se, eu vou ali.

Retirou a Glock 18 da parte de trás da calça e engatilhou-a, rapidamente foi até uma gaveta e pegou um silenciador, encaixando-o na arma em seguida. Saiu da casa em passos rápidos, a jovem tentou segurar seu braço, mas não conseguiu. Sem dizer qualquer coisa, Filip atirou contra os pneus do carro, e imediatamente dois homens saíram do carro e, antes que pudesse berrar alguma coisa para Filip, ele apontou a arma para eles. Um dos homens já tinha certa idade, era gordo e utilizava uma camisa social vermelha com listras brancas com dois botões abertos e as mangas dobradas junto de jeans e sapatos sociais. O outro trajava roupas semelhantes, porém a camisa social dele era azul escuro com listras brancas, e ele utilizava a camisa por dentro da calça junto de um cinto e também uma corrente de ouro. Presumindo que se gritasse ele levaria um tiro, o homem gordo disse:

[???] – Porra, por que tu atirou nos pneus do nosso carro?

[Filip] – Eu sei o porquê de estarem aqui, e eu vou avisar só uma vez: Se perseguirem Charlotte ou a mãe dela, vocês são homens mortos.

O homem levou o olhar até Charlotte, que estava parada na porta olhando a cena.

[???] – Você é o namorado dela? Porra, que inveja, eu queria comer ela. Você sabe com quem você está falando? Sabe de quem somos amigos?

Sem hesitar, Filip puxou o gatilho e disparou contra a cabeça do homem de camisa vermelha, que tombou morto. O outro homem apenas exclamou “PUTA MERDA”, mas antes que pudesse gritar qualquer outra coisa Filip disse:

[Filip] – Eu não dou a mínima para os amigos de vocês. Se vocês perseguirem ela, eu vou matar você e quem quer que tente te ajudar, um por um, me entendeu?

O homem respondeu um “sim” através de um aceno de cabeça frenético.

[Filip] – Bota o cadáver no carro e se arranca daqui.

Tremendo ao extremo, o outro homem colocou o corpo morto no carro e saiu, indo em alta velocidade para longe dali.

Filip juntou a cápsula da munição do chão e caminhou para dentro da casa de novo, retirou o silenciador e o guardou na gaveta, botando a pistola na parte de trás da calça de novo. Charlotte estava muda. Filip se jogou no sofá, olhando fixamente para o teto, até que Charlotte finalmente quebrou o silêncio.

[Charlotte] – Você acabou de matar um cara.

Filip respondeu de forma inexpressiva:

[Filip] – Sim. E?

[Charlotte] – E daí que você atirou na cabeça de um cara!

[Filip] – Sim, eu sei. Mas e aí? Qual o problema? Ele não era inocente.

[Charlotte] – MAS VOCÊ MATOU ELE!

[Filip] – Bom, se você quiser eu posso simplesmente encontrar eles e dizer que você não está sob minha proteção, esquecemos o que eu fiz e eles voltam a te perseguir.

Charlotte ficou em silêncio por alguns instantes, até que disse:

[Charlotte] – Me desculpe...

[Filip] – Sem problemas.

Filip levantou-se do sofá e olhou o relógio na parede. 07:50.

[Filip] – Vou tirar essa roupa molhada, seca meu colete com um pano.

A garota concordou com a cabeça, Filip retirou o colete e deixou em cima do sofá e rumou para o quarto. Botou uma camiseta larga e completamente negra junto de calças jeans e coturnos. Voltou para a sala e vestiu o colete já seco.

[Filip] – Valeu. Tô indo dar uma volta e resolver umas coisas, não se esquece de ir comprar a TV quando a chuva estiar.

Novamente a garota concordou apenas com um aceno de cabeça. Filip foi para a garagem, colocou a capa de chuva, as luvas de couro e o capacete, então subiu na moto, ligou-a e saiu do local.

Filip estava parado em uma sinaleira, esperando que a mesma abrisse. Estava pensativo, distraído, até que levou o olhar à um carro que estava atrás. Ele estava seguindo Filip fazia alguns minutos. O presidente tentou olhar quem estava dirigindo mas não teve tempo, a sinaleira abriu. De forma brusca, acelerou, atingiu 100 rapidamente. O carro atrás acelerou para acompanhar. Bruscamente Filip desacelerou, fazendo o perseguidor passar e alguns carros que estavam atrás businarem. Então, rapidamente, sacou a Glock 18 e colocou-a no modo full auto com o dedão e disparou 2 bursts de 3 tiros contra o carro perseguidor, um contra os pneus e outro contra o vidro. Os outros carros no trânsito começaram a tentar passar desordenadamente, Filip colocou a pistola na parte de trás da calça rapidamente e acelerou, fugindo do local enquanto o perseguidor tentava acompanhar com um pneu furado. Passados alguns minutos, Filip finalmente o despistou e chegou à sede do MC. A chuva havia estiado.

Desceu da moto e entrou na sede, retirou a capa de chuva e deixou-a em cima de uma mesa qualquer. Cumprimentou os membros que estavam presentes, Rich, Teng, Edward, Arthur e Derek, e pegou uma garrafa de uísque, sentando-se então com eles. Passados alguns minutos de conversa, Filip comentou sobre o dinheiro que haviam encontrado no saco no dia anterior, comentando também a ideia que tivera para ele com todos na mesa. Passados alguns minutos de discussão, decidiram convocar uma reunião para as 14:00.

Duas da tarde, todos dentro da sede. Após cumprimentar os demais membros, Filip foi para a sala de reuniões acompanhado pelos outros. Sentou no seu lugar e esperou que os demais fizessem o mesmo, após isso, começou a falar.

[Filip] – Ontem encontramos um saco de dinheiro na van com os membros do Purple. Aproximadamente 150 mil em dinheiro e mais uns 20 mil em joias.

Os membros murmuraram alguma coisa entre si, até que Mutley perguntou:

[Mutley] – E o que fará com o dinheiro? Distribuirá entre nós?

[Filip] – Talvez. É justamente por isso que convoquei essa reunião, eu tive uma ideia melhor do que distribuir o dinheiro.

[Mutley] – Que seria?

[Filip] – Abrir um bordel.

Alguns membros riram e soltaram “berros” de alegria.

[Filip] – Pensem: Podemos abrir o cabaré, um lugar luxuoso pra caralho com tudo a que tivermos direito, resgatamos umas putas, damos um trato nelas e botamos elas pra trabalharem lá. Cobramos uma facada pra entrar, elas cobram o preço dela, todo mundo sai no lucro. Elas vão ganhar dinheiro e vão parar de ser abusadas nas ruas, nós vamos lucrar e ainda ter um lugar pra lavar o dinheiro. E é claro, ganhamos umas fodas de graça!

Todos na mesa riram.

[Filip] – Então? O que dizem? Todos à favor de abrir um cabaré? Mas uma coisa, lá só tem 170 mil, talvez um pouco mais. Se formos fazer uma coisa realmente luxuosa talvez nós precisemos tirar uma grana dos nossos bolsos, mas pensem, em comparação com a grana que vamos arrecadar isso não é nada.

Os membros fizeram acenos de cabeça e disseram coisas como “sim, sem problemas”.

[Filip] – OK, novamente, todos à favor?

Todos levantaram as mãos e Filip bateu o malhete, mas antes que se levantassem, Derek perguntou:

[Derek] – Mas qual será o nome do lugar?

[Filip] – Não sei, pensei em algo como Elysium ou Valhalla.

[Derek] – Soa bom.

Levantaram-se e rumaram para o lugar onde ficava o bar, as mesas, etc. Sentaram-se e começaram a beber, até que Arno olhou pela janela e viu um carro parado na frente da sala. Era um 1968 Plymouth Valiant 100 negro com os vidros cobertos por películas. Arno reportou para Filip, que imediatamente mandou que os membros se armassem. Marc e Arno pegaram M24’s e esperaram, os demais se armaram com escopetas, AK’s, M4’s e outras armas que ficavam ocultas e espalhadas pela sede. Então, Arno e Marc abriram as janelas e apontaram para o carro, que não fez nada. Filip (armado com um Tavor TAR-21) junto dos demais abriram a porta e apontaram para o carro. Filip gritou:

[Filip] – QUEM QUER QUE ESTEJA NO CARRO SAIA AGORA COM AS MÃOS NA NUCA!

As 4 portas do carro se abriram, saíram então 4 homens vestidos completamente de negro e com os rostos cobertos por máscaras de esqui. Murmuravam coisas como “merda”, “eu falei que ia dar bosta seu burro”, “é culpa sua seu cuzão”. Filip abaixou seu Tavor e retirou os capuzes deles, três eram desconhecidos, mas um ele reconheceu. Era o amigo do cara que ele matara há umas horas. Filip deu nele uma coronhada com o Tavor, os outros 3 se mexeram, mas logo levaram o olhar até os outros membros do MC armados e se aquietaram.

[Filip] – Levem eles pra dentro da sede, nós vamos dar um jeito nesses bostas.

Rich, armado com uma MP5, perguntou:

[Rich] – Mas quem são esses bostas, cara?

[Filip] – Você se lembra de Charlotte?

[Rich] – A francesa? Sim.

[Filip] – O arrombado do pai dela fez dívidas com esses caras, agora eles tão seguindo ela. Eles foram na minha casa hoje de manhã, eu matei um deles e deixei o outro sair. O outro que eu deixei vazar é esse arrombado aqui, agora vamos saber o que esses bostas fazem e parar as atividades deles.

[Rich] – OK.

Alguns membros armados conduziram os 4 homens pra dentro da sede enquanto os outros pegaram as armas deles. Chegando dentro da sede, amarram os 4 e deixaram eles sentados no chão. Filip perguntou:

[Filip] – Quem são vocês? E o que caralhos vocês fazem?

Silêncio. Filip deu um forte chute frontal contra o rosto de um deles, quebrando seu nariz.

[Filip] – Eu fiz uma pergunta, caralho.

O homem que teve o nariz quebrado falou:

[???] – PORRA, SOMOS AGIOTAS! E EU ME CHAMO PEDRO!

[Filip] – E vocês? Como se chamam? E trabalham em conjunto?

Os demais sussurraram seus nomes, chamavam-se Aurelio, Miguel, e Onell.

[Filip] – Não responderam, caralho. Trabalham em conjunto? E vocês são mexicanos ou o quê?

Pedro respondeu:

[Pedro] – Sim, trabalhamos em conjunto porra. Temos uma espécie de “empresa de agiotagem”, e nós somos cubanos.

[Filip] – Cubanos? Devem ser ilegais. Porra, aposto que o governo adoraria mandar vocês pro buraco de vocês de novo. Mas como conseguem dinheiro pra emprestar?

[Pedro] – Nós éramos assaltantes, quando juntamos uma grana nós decidimos começar a fazer agiotagem.

[Filip] – OK. Vamos fazer um trato, vocês me falam onde fica o local onde se reúnem pra “decidir o futuro da empresa” e eu não deporto vocês. Certo?

[Pedro] – Ao lado do cinema perto do hospital. Segundo andar.

Aurelio sussurrou baixo algo como “rato filho da puta”. Filip deu um chute no rosto do cubano, fazendo-o ficar em silêncio.

[Filip] – Rich, sabe como funciona essa merda de deportação?

[Rich] – Sim.

[Filip] – Tem como dar um jeito de mandar eles para as autoridades imigratórias?

Os cubanos se assustaram, Teng então interrompeu Filip e Rich.

[Teng] – Filip, eu tô me sentindo meio soviético hoje, deixa eu cuidar deles.

[Filip] – Se sentindo soviético?

[Teng] – É.

[Filip] – Contanto que não apareça com eles na minha frente de novo, vai na fé.

[Teng] – Marc, Derek, venham comigo. E procurem 3 AK’s e 3 pás aí.

Teng apontou a MP7 para os homens e os retirou do local enquanto Marc e Derek foram procurar os fuzis. Teng levou-os então para o sedan, colocou 3 de forma apertada no porta-malas e um no banco de trás, sentando-se em seguida no banco do motorista. Logo Marc e Derek voltaram com as armas e a ferramentas de forma desajeitada, dirigiram-se então para o carro e saíram dali junto com Teng.

Filip permaneceu ali pensativo por mais alguns instantes, então chamou Edward, Rich e Mutley.

[Filip] – Vamos lá agora. Mande os outros ficarem aqui na sede de vigia. Passem nas suas casas, se disfarcem, eu vou passar na casa de vocês e buscá-los, vamos para o armazém e nos armar até os dentes, não sabemos quantos tem lá. OK?

Os rapazes apenas acenaram com a cabeça, Rich avisou os outros para ficarem de vigia e em seguida foram para suas motos, com exceção de Filip que foi para a van negra.

—

Teng estava em uma pequena área rural próxima à Sacramento. Junto dele, os 4 homens, Marc e Derek. Os 4 agiotas estavam de costas para os membros do motoclube, que estavam armados com AK-47’s, seus olhos estavam vendados pelas camisas que estavam utilizando e as mãos ainda presas por cordas. 3 deles estavam em silêncio, porém Pedro chorava baixo. Estavam mirando neles, então Teng disse:

[Teng] – CYKA BLYAT, COMRADES!¹

Os 3 fuzilaram os agiotas, matando-os. Enquanto cavavam a cova dos 4, Derek perguntou:

[Derek] – Teng, o que diabos significa o que você disse?

[Teng] – Não faço ideia, apenas ouvi um russo falando isso na rua uma vez.

Derek continuou cavando em silêncio.

—

Filip, Edward, Rich e Mutley estavam dentro da van. Filip não estava usando o colete do motoclube, estava usando apenas um moletom negro, um colete à prova de balas por baixo, uma touca e uma bandana no rosto. Rich estava com uma roupa igual à de Filip, Mutley estava usando uma máscara de látex de zombie e uma camiseta branca de mangas longas com um colete à prova de balas por baixo, e Edward estava usando uma fantasia de oficial da SS junto com uma máscara de totenkopf e a braçadeira com a suástica. Filip empunhava uma submetralhadora Kriss Vector com balas .45 ACP RIP e silenciador, Edward uma HK417 A2, Rich uma AK-74M e Mutley uma Desert Eagle. Estavam todos em silêncio, checando suas coisas até que o celular de Rich tocou. A hora havia chegado.

Imediatamente saíram da van e subiram as escadas, Mutley ficou de “cão de guarda” na escada para garantir que ninguém ia descer. Os 3 aproximaram-se da porta, e ficaram ali parados por alguns instantes. Filip contou até três e, mesmo sem checar se a porta estava trancada, Filip estourou a fechadura com um tiro e Rich chutou a porta. Dentro de uma sala estavam 5 homens, 4 deles usavam apenas uma camisa social, jeans, enquanto outro trajava um terno branco sem gravata com uma camisa social azul com dois botões abertos. Os 4 com roupa “normal” estava bebendo e contando dinheiro, enquanto o de terno estava cheirando cocaína em uma faca. Sem perguntar qualquer coisa, Filip e os outros dois abriram fogo contra os homens que não tiveram qualquer chance de reação. Morreram os 5 em questão de segundos. Rapidamente reviraram o apartamento em busca de dinheiro, encontrando 2 sacolas negras. Filip colocou as sacolas no ombro e Rich retirou do bolso do moletom uma lata de spray roxo, entregando-a para Edward que fez na parede do local uma pichação dos Purple Blood Killaz e em seguida retirou do bolso uma bandana roxa, amarrando-a na maçaneta estourada da porta. Após isso os 4 saíram do local rapidamente, entrando na van e saindo disparados dali.

Passados alguns minutos, chegaram na sede do MC. Filip botou seu colete, que estava dentro da van, e saiu da mesma, entrando no local com os demais, em seguida enquanto carregava as duas bolsas, retirou a bandana do rosto e guardou-a no bolso. Cumprimentou os membros e foi para a sala de reuniões, colocou as sacolas na mesa e abriu-as. Contou rapidamente, 50 mil em cada uma, então chamou Rich, mandando-o distribuir 50 mil para os membros e guardar a outra parte. Após isso, dirigiu-se ao bar e pegou uma lata de cerveja. Foi para o “estacionamento”, sentou-se em sua moto e olhou para o céu. Nem havia se dado conta de que havia parado de chover. Após terminar de tomar a cerveja, Filip amassou-a com o pé e jogou-a para o canto. Voltou para dentro da sede, despediu-se dos membros e pegou sua capa de chuva e amarrou-a de qualquer jeito no banco de garupa de sua Harley, montou nela e saiu dali em seguida.

Em poucos minutos Filip chegou em casa e notou que a luz ainda estava acesa, Charlotte ainda estava ali. Estacionou a moto dentro da garagem, retirou a capa de chuva da moto e deixou-a na garagem, entrou na casa em seguida, deparando-se com a jovem sentada no sofá assistindo TV. Aproximou-se dela e a cumprimentou, sentando-se ao lado dela. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, até que Filip quebrou o silêncio.

[Filip] – O problema com os agiotas está resolvido.

Charlotte virou a cabeça pra ele um tanto assustada.

[Charlotte] – O quê?

[Filip] – Eles foram na sede, demos um jeito neles. Pegamos o endereço do lugar onde eles ficavam, fomos lá, resolvemos o assunto.

A garota ficou em silêncio por alguns minutos, até que disse:

[Charlotte] – O que te devo?

Filip estava pronto para dizer “nada”, mas pensou por mais alguns instantes e disse:

[Filip] – Você comentou comigo uma vez que se interessa por medicina, enfermagem, coisas assim, não é?

[Charlotte] – Sim.

[Filip] – Vamos fazer o seguinte. Pagarei pra você um curso de enfermagem, o melhor que encontrarmos por aqui. Material, o que precisar. No lugar disso, se alguém daqui se ferir, você nos ajuda. Ah, e eu também irei pagar um apartamento pra você e pra sua mãe no centro de Sacramento, mas quero que continue trabalhando aqui. Certo?

A garota ficou em silêncio por mais alguns minutos.

[Charlotte] – Você faz dinheiro brotar do chão ou o quê?

Filip riu e disse:

[Filip] – Não, é em árvores mesmo. Mas então, aceita?

[Charlotte] – Claro que aceito!

A jovem abraçou Filip e se levantou em seguida. Olhou no relógio da parede, 21:30.

[Charlotte] – Pode me dar uma carona pra casa?

[Filip] – Claro.

Filip levantou-se do sofá e pegou outro capacete para ela. Dirigiram-se à moto, montaram nela e saíram dali.

Chegaram na frente do lugar onde Charlotte morava. Era em um dos guetos da cidade, um pequeno apartamento. Subiu junto com ela até o lugar, e quando ela abriu a porta, depararam-se com o pai dela e a mãe conversando. A mãe de Charlotte chorava enquanto passava a mão em um dos lados do rosto, e o pai estava com as mãos fechadas, nervoso. Sem pensar duas vezes, Filip avançou nele. Desferiu um cruzado contra o rosto do mesmo, agarrando-o pelos cabelos em seguida e chocando a cabeça dele contra a parede. O homem gritou:

[???] – VOCÊ ESTÁ LOUCO?!

[Filip] – LOUCO? VOCÊ SE AFUNDOU EM DÍVIDAS DE NOVO, SEU MERDA. QUASE FEZ SUA FILHA SER MORTA OU SABE-SE LÁ O QUE, BOTOU SUA FAMÍLIA NA MERDA E EU ESTOU LOUCO?

A mãe de Charlotte chorava ainda mais, e Charlotte estava acuada em um canto. Filip chocou a cabeça do homem contra a parede novamente e ele gritou de dor. Filip então virou-o para si e o ergueu, mantendo-o encostado na parede.

[Filip] – SE VOCÊ CHEGAR PERTO DE CHARLOTTE OU DA MÃE DELA NOVAMENTE EU VOU TE JOGAR POR ESSA JANELA, VOCÊ ME ENTENDEU SEU FILHO DA PUTA?!

[???] – ME SOLTE!

Já com uma extrema raiva, Filip levou o pai de Charlotte até a janela e então chocou o rosto do mesmo contra o vidro da janela, estilhaçando-a e abrindo diversos cortes no rosto do homem. Após isso, Filip arrastou-o para fora do apartamento e em seguida para fora do prédio, jogando-o contra uma lata de lixo. Quando ia entrar no prédio novamente Filip olhou para o lado e viu na esquina da rua 3 homens de roxo encarando-o. Correu para o apartamento de Charlotte, e antes que pudessem dizer qualquer coisa, Filip disse:

[Filip] – Vocês vão sair daqui hoje.

[Charlotte] – Por quê?!

[Filip] – Porque sim, não tenho tempo pra explicar.

A mãe de Charlotte continuava chorando no sofá. Filip retirou do bolso seu celular e ligou para Rich, mandando-o vir com a van urgentemente. Passados aproximadamente 8 minutos o vice-presidente chegou, e Filip desceu com elas. Deu dinheiro para Rich e mandou-o pagar uma pousada para elas no centro de Sacramento. Rich pegou o dinheiro e saiu dali com as duas, Filip encarou os homens por mais alguns segundos, em seguida montou na moto e saiu disparado dali.

Enquanto pilotava, por algum motivo, Filip sentiu uma vontade súbita de ir para uma pousada que conheceu quando chegou em Sacramento. Era uma pousada e um bar ao mesmo, e apesar de não ser a mais luxuosa, era estranhamente confortável. Mudou seu rumo e dirigiu-se à pousada. Passados alguns minutos chegou lá, o lugar se chamava Greensleeves, em homenagem à canção folclórica inglesa. Filip estacionou sua moto na frente do lugar e foi para dentro, pagou pelo quarto mais luxuoso e adentrou o bar. Era um lugar pequeno mas aconchegante, quase tudo lá era feito de madeira, e em um pequeno palco um homem de terno tocava Personal Jesus, de Johnny Cash. Filip sentou-se em uma mesa e prontamente uma garçonete veio atendê-lo. Era jovem, parecia ter aproximadamente 20 ou 21 anos, magra, longos cabelos castanhos e um sorriso amigável.

[???] – O que o senhor deseja?

[Filip] – Um uísque.

[???] – Dose ou garrafa?

[Filip] – Garrafa.

A garota girou nos calcanhares e foi para o balcão. Pegou uma garrafa de uísque sem rótulo e levou até a mesa de Filip junto de um copo.

[???] – Mais alguma coisa?

[Filip] – Não, grato.

[???] – Mesmo? Temos alguns salgados fritos e doces ótimos.

[Filip] – Não, fico agradecido, mas quero só a bebida mesmo.

A jovem permaneceu fitando Filip de maneira séria por alguns instantes, até que disse bruscamente.

[???] – Você parece cansado. Dia ruim?

Filip disse em um certo tom de escárnio:

[Filip] – Vida ruim.

A garota, notando o tom de escárnio, permitiu-se dar uma risada tímida. Olhou ao redor para ver se não havia chegado novos clientes, e vendo que não, sentou-se com Filip.

[???] – Você não é daqui, não é?

[Filip] – Não, sou irlandês.

Serviu para si o uísque, oferecendo-o para a jovem.

[???] – Não, estou de dieta. Qual seu nome?

[Filip] – Filip. E o seu?

[???] – Me chamo Jay.

[Filip] – Prazer, Jay.

[Jay] – O prazer é todo meu.

[Filip] – Então, Jay. Trabalha aqui há quanto tempo?

[Jay] – Há alguns meses, vim de Malibu.

[Filip] – Aquele lugar de riquinhos?

A jovem riu.

[Jay] – É, o lugar de riquinhos.

[Filip] – Por que saiu de lá?

[Jay] – Cansei de viver com meus pais. Mas e você? Por que está cansado? Trabalho?

[Filip] – É, trabalho.

Jay olhou para o colete de Filip e olhou para o rosto dele em seguida.

[Jay] – Não sabia que motoqueiros trabalhavam.

[Filip] – Engraçadinha. E é motociclista.

Filip e Jay continuaram conversando por mais algumas horas e Filip continuou bebendo. Mais clientes chegaram e Jay foi atendê-los, então Filip levantou-se e foi para o balcão, onde pagou pelo uísque para uma atendente. O homem que estava tocando Johnny Cash parou e foi embora, Filip ficou mais alguns instantes ali embaixo mas logo subiu para o seu quarto. Retirou da parte de trás da calça a Glock e deixou-a no criado mudo e sem sequer tirar os sapatos, se jogou na cama. Por algum motivo, estava sentindo um sono infernal. Tentou manter-se acordado por mais alguns instantes a fim de olhar o céu pela janela, mas acabou vencido pelo sono e finalmente dormiu.

Notas finais
¹- Cyka blyat = Puta.