Crows

5 Capítulo 5: Shot caller - 1


Filip acordou na cama da pousada. Esfregou os olhos com as mãos por um instante e olhou pela janela, não estava chovendo porém o céu continuava nublado. Levantou-se e foi para o banheiro tomar um banho, e passados alguns momentos, ouviu a porta do quarto abrindo. Rapidamente desligou o chuveiro, se secou e se vestiu, indo checar quem havia chegado. Era Jay, e olhava fixamente para a arma no criado-mudo. Filip olhou para ela, e em certo tom de deboche disse:

[Filip] – Bom dia.

A jovem desviou o olhar para o motociclista e de forma extremamente desajeitada pegou a pistola e jogou-a na cama como se tivesse acabado de pegar alguma coisa nojenta, colocou em cima do criado mudo uma bandeja com com pães, geleia, manteiga, alguns biscoitos, um copo e uma jarra com suco de laranja, Filip então disse:

[Filip] – Não sabiam que agora serviam café da manhã nos quartos.

[Jay] – Não servimos, cortesia minha.

[Filip] – Quanto devo pela cortesia?

[Jay] – Nada, idiota. É cortesia.

Filip riu e sentou-se na cama, serviu para si o suco e ofereceu um gole para a garota, que negou com um movimento de cabeça. Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes enquanto Filip comia, até que Jay perguntou:

[Jay] – Por que a arma?

[Filip] – Proteção.

[Jay] – Contra o quê?

[Filip] – Essa cidade é tipo um ninho de gângsters e você ainda pergunta o porquê?

[Jay] – E você pelo visto é um dos gângsters desse ninho, não é?

A garota disse tais palavras com um leve tom de algo que lembrava desprezo. Filip olhou para ela por alguns instantes, pensando no que deveria responder.

[Filip] – É, eu sou. Mas eu não sou cuzão como os outros.

Em tom de deboche, a jovem respondeu:

[Jay] – É mesmo? Você avisa que vai atirar antes de assaltar alguém?

[Filip] – Não, eu só mato curiosos. Mais alguma pergunta?

A garota “fechou a cara” e dirigiu-se para fora do quarto em passos pesados. Apesar da cara dela, Filip riu e levantou-se bruscamente e agarrou-a pelo braço, impedindo-a de sair. Disse então:

[Filip] – Olhe, Jay. Eu não sou um assaltante nem nenhuma merda assim, pode relaxar. Eu realmente mexo com essas coisas, não vou mentir pra você já que você foi gente boa, mas eu não tiro o dinheiro árduo de pessoas inocentes. Isso é coisa de filho da puta.

A jovem fitou-o por alguns instantes, até que perguntou:

[Jay] – E o que faz então?

[Filip] – Nesse caso, já está fazendo perguntas que não posso responder.

Filip soltou o braço de Jay e sentou-se na cama, voltando então a comer. A garota ficou parada na porta por mais alguns instantes olhando para Filip, então saiu dali, deixando Filip sozinho e comendo. Após terminar a refeição, Filip pegou sua Glock e colocou-a no seu devido lugar, pegando em seguida a bandeja, dirigiu-se então para o andar de baixo. Sem saber onde poderia deixar a bandeja, deixou-a em cima da mesa e se dirigiu à saída, porém antes foi parado por Jay, e sem dizer qualquer coisa, ela simplesmente entregou um papel com seu número de telefone anotado e voltou para seus afazeres. Filip colocou o papel no bolso da calça e saiu da pousada, montou então em sua moto e saiu do local.

Passados alguns minutos de viagem, chegou em casa, deparando-se com Charlotte lá. Após entrar na casa, cumprimentou-a rapidamente e trocou de roupa, colocou uma camiseta branca larga, outras calças jeans e tênis brancos. Pegou uma mochila e colocou nela as luvas de boxe que estavam guardadas, bandagens, uma regata branca, uma bermuda de elástico, uma cueca, um par de meias e um par de tênis esportivos. Rapidamente se despediu de Charlotte, colocou a mochila nas costas e saiu dali.

Após aproximadamente 15 minutos de viagem, chegou no local, uma academia que Filip havia feito especialmente para os membros. O lugar era amplo, com várias janelas de vidro à prova de balas, e também era completo. Tinha vários aparelhos, tatame, um ringue para sparrings e afins, sacos de pancada, até suplementos. O presidente levou a mão até o bolso e pegou as chaves do lugar, porém quando foi destrancar a porta, notou que não estava trancada, então entrou no local e se deparou com Teng batendo em um saco de pancadas. O asiático não estava utilizando camiseta, o que deixava à mostra a tatuagem nas suas costas, uma lembrança do passado. A tatuagem cobria as costas do mesmo, e consistia em um Oni¹ trajando um kimono e empunhando uma espada em um jardim de cerejeiras, todo o desenho fora feito de uma forma tradicionalmente japonesa. Nas pernas, calças especiais pra kickboxing negras e tênis esportivos. Filip cumprimentou Teng com um simples gesto de cabeça a fim de não interrompê-lo e se trocou, colocando a regata a bermuda e o tênis. Dirigiu-se à “máquina” de supino reto, colocou os pesos, que totalizavam 100kg, e passou a fazer repetições. Feitas aproximadamente 10 repetições, foi para o extensor de pernas, e assim ficou alternando entre as várias máquinas. Passados minutos de exercícios, Filip levantou-se para tomar um shake de suplementos, tornando após isso a fazer exercícios.

Passados mais alguns minutos, Filip parou para descansar e Teng foi até ele. Iniciaram uma conversa, e passado algum tempo, Teng propôs com certo escárnio:

[Teng] – Ei, Filip, tá a fim de um sparring?

[Filip] – Agora? Cê tem certeza?

[Teng] – Bora, bora.

[Filip] – OK, mas sparring de Boxe?

[Teng] – Você sabe algum outro estilo de luta?

[Filip] – Já fiz Muay Thai. Sei fazer os chutes, as joelhadas, cotoveladas, a porra toda direitinho.

[Teng] – Nah, vamos de Boxe mesmo.

[Filip] – Beleza.

Filip pegou as bandagens, e enrolou-as nas mãos, notou em seguida as luvas e subiu para o ringue, dando alguns socos no ar para se aquecer enquanto esperava Teng, que logo veio. Bateram as luvas e se afastaram um pouco, passando a se olharem atentamente. A guarda de Filip era mais ortodoxa, as duas mãos protegendo o rosto, pernas separadas numa distância ligeiramente maior que a largura dos ombros e joelhos flexionados. A guarda de Teng era mais “desleixada”, uma das mãos estava protegendo o rosto, a outra estava abaixada, as pernas estavam separadas exatamente na largura dos ombros e os joelhos estavam ligeiramente flexionados. Ambos eram destros, portanto, suas guardas estavam iguais nesse aspecto. O primeiro a atacar foi Teng, que deu um jab, Filip levantou rapidamente a guarda e defendeu o soco, respondendo igualmente com um jab. Teng usou a mão que estava no rosto para tirar a mão de Filip com uma espécie de tapa, dando em seguida um gancho nas costelas de Filip com a mão que estava abaixada, Filip levou o gancho e recuou um pouco, porém logo avançou contra Teng, fingiu um cruzado de direita, o que fez Teng levantar a mão que estava abaixada para defender o lado da cabeça, porém no lugar disso Filip flexionou mais os joelhos e se abaixou, desferindo um jab contra o diafragma de Teng, sendo que ao “subir” desferiu um uppercut contra o maxilar do asiático. Teng levara o jab, porém conseguiu defender parcialmente o uppercut, tendo “levado uma parte do golpe”. Sem se afastar de Filip, Teng partiu para uma sequência. Desferiu um cruzado de esquerda, seguido de um direto, um gancho com a mão direita e mais um cruzado de esquerda. Por estar com a guarda alta, Filip conseguiu defender os golpes sem maiores problemas, e aproveitando a distância, foi a sua vez de fazer uma sequência. Deu alguns socos aleatórios como diretos e cruzados com grande força a fim de fazer Teng recuar, e ao chegarem perto do corner, Filip passou a dar os socos de maneira “séria”. Desferiu um direto, um gancho de esquerda nas costelas, um cruzado de direita, um gancho de esquerda e por fim um swing (soco de cima para baixo, uma espécie de “uppercut ao contrário”) de direita. O direto acertara a testa do rapaz, sendo que defendeu os demais socos com excessão do swing que, sendo um soco pouco usado, foi inesperado e acertou em cheio o topo da cabeça. Após os socos de Filip, Teng aproveitou que era menor e aproximou-se mais do rapaz, dando rápidos cruzados e ganchos na costela de Filip. Acertou os primeiros ganchos e cruzados, porém logo Filip bruscamente esquivou-se de um deles com o “pêndulo” e desferiu então um forte gancho de direita nas costelas seguido de um cruzado com a mesma mão. Ambos socos acertaram em cheio, o que fez com que o asiático caísse rapidamente no chão, porém logo se levantou. Mas antes que continuassem, a porta se abriu e um sujeito desconhecido entrou.

Filip e Teng viraram-se para o homem e passaram a encará-lo. Era negro e muito alto, tendo entorno de 2,00 metros de altura. Sua cabeça era raspada, e trajava uma regata branca colada ao corpo musculoso que deixava à mostra as tatuagens que possuía. Eram tatuagens tipicamente de gangue, Filip e Teng notaram que se tratavam de tatuagens dos Purple, porém algumas eram do Blue Hell Syndicate com tatuagens dos Purple sobrepostas, tatuadas por cima. Trajava também calças jeans e tênis brancos. Imediatamente após ver Filip o homem apontou para ele e indagou:

[???] – Você é Filip Reeves?

Filip, apreensivo, respondeu:

[Filip] – Sim. E você, quem é?

O homem cruzou os braços.

[???] – Big Monster, acho que não preciso dizer minha posição na gangue. Provavelmente um dos negos que tu estourou abriu a boca.

[Filip] – E o que caralhos você quer aqui? Melhor, como diabos você nos achou aqui?

[Big Monster] – Eu te segui desde ontem à noite, branquelo. E quero conversar sobre a relação turbulenta entre os nossos grupos.

Filip retirou as luvas e desceu do ringue, caminhando em direção ao gângster.

[Filip] – Nós não temos o que conversar aqui. É melhor tu meter o pé antes que eu te deixe deitado no chão numa poça de sangue.

O negro riu e respondeu:

[Big Monster] – Calma, Rocky Balboa. Eu vim em paz.

[Filip] – Paz, cuzão? Paz foi o que eu senti quando sua namorada chupou o meu pau, eu quero é que você se foda. E se você não quer morrer engasgado com os seus dentes, cai fora porra.

O gângster ficou sério.

[Big Monster] – Quer levar essa merda pro pessoal ou o quê?

[Filip] – Vocês chegam em Sacramento querendo botar o pau na mesa, e depois de serem massacrados querem paz? Não fode.

[Big Monster] – Sim, porra. Vocês nos massacraram, vocês ganharam. Quero “pedir arrego”.

[Filip] – Pedir arrego? Cê tá falando sério? Tu é um covarde ou o quê? Tu iniciou um bagulho que não podia terminar e agora quer ficar de boa? Caralho, vai tomar no seu cu. Mete o pé daqui, infeliz. É meu último aviso.

O gângster continuou a fitar Filip seriamente.

[Big Monster] – Bom, a escolha é sua.

O negro virou-se bruscamente e dirigiu-se à saída. Filip foi para fora a fim de olhá-lo para ver se faria alguma coisa, porém Big Monster apenas saiu do local caminhando. Filip voltou para dentro da academia, e olhou para Teng por alguns segundos. Dirigiu-se à um dos banheiros masculinos e tomou um banho, colocando a mesma roupa com que estava anteriormente com exceção da cueca e das meias. Sentou-se em uma espécie de “sofá-puff” que havia colocado lá para aguardar Teng tomar banho, e então recebeu uma ligação. Era Rich.

[Rich] – Alô? Filip? Ligaram do hospital, Ulisses recebeu alta. Você vai buscar? Ou quer que eu vá?

[Filip] – Vai você. Eu vou ver um lugar para alugarmos, começar logo essa coisa do bordel.

[Rich] – OK.

Filip desligou e guardou o celular, passando a olhar para a janela distraidamente. Passados alguns minutos, Teng saiu do banho. Trajava uma regata negra com o colete por cima, jeans e coturnos. O presidente então se levantou e rumou para a rua junto de Teng. Trancou a academia e ambos subiram em suas motos, se retirando do local.

—

Rich estava caminhando em passos lentos por um dos corredores do hospital. Estava usando uma camiseta branca com o colete por cima, calças cáqui largas pretas e tênis brancos. Observava atentamente as figuras do hospital, em grande maioria médicos e enfermeiras, eram poucos os pacientes nos corredores, até que sua atenção se focou em uma figura anormal. Era um homem alto de pele morena, cabelos lisos penteados para o lado, e rosto sério. Trajava um terno completamente negro, com exceção da gravata, que era vermelha, utilizava também um chapéu fedora negro. Apesar do olhar fixo de Rich no homem, este não lhe dirigiu o olhar, passando reto. O vice-presidente pensou por um instante sobre o que aquele homem estaria fazendo ali, mas logo parou de pensar nisso, finalmente havia chegado à sala de Ulisses.

Entrando lá, o mexicano já estava pronto. Trajava jeans, sapatos sociais, um cinto negro e uma camisa social vermelho-sangue com as mangas dobradas e o botão da gola aberto. Sem dizer nada, Rich apenas fez um movimento de cabeça para que Ulisses saísse. Igualmente sem dizer nada, o mexicano se retirou da sala e ambos começaram a caminhar para fora do hospital. Chegando lá, Rich entrou na van e Ulisses sentou no banco do passageiro, Rich então acelerou e dirigiram para fora da ali. Em um determinado momento, Ulisses perguntou:

[Ulisses] – Vocês sabem onde está a minha moto e o meu colete?

[Rich] – O colete ficou dentro de uma casa que queimamos. A moto deve ter sido mandada pra algum desmanche.

[Ulisses] – Vocês queimaram uma casa?!

[Rich] – Várias, na verdade.

[Ulisses] – Por quê?!

[Rich] – Retaliação por você, e também porque eles iam tentar atrapalhar a nossa entrega.

Ulisses ficou em silêncio por algum tempo, até que disse:

[Ulisses] – Eu vou ter que arcar com os custos da moto, não é?

[Rich] – Isso é um problema?

[Ulisses] – Bom, sim.

[Rich] – Você não ganhou 50 mil do seguro?

Ulisses pareceu meio embaraçado.

[Ulisses] – Puts, verdade. Já tinha até me esquecido dessa grana na ânsia de sair, cabrón.

Rich olhou para Ulisses de maneira desconfiada.

[Rich] – Sei. Qual moto planeja comprar?

[Ulisses] – Uma Iron 883.

[Rich] – Hm..

Rich ficou em silêncio assim como Ulisses, e ambos seguiram o caminho assim.

—

Filip estava dentro de um amplo galpão de aparência nova. Olhava e examinava atentamente o lugar junto de Teng, buscando falhas e defeitos, mas após aproximadamente 25 minutos só fazendo isso não encontraram nenhum grande defeito, sendo assim, Teng caminhou para fora do galpão e caminhou em direção à sua moto, pegando uma sacola que estava presa no banco do garupa. Entregou-a para um outro homem que estava dentro do balcão, um judeu baixinho e gordo com um nariz que o tornava o estereótipo perfeito de sua religião. Dentro da sacola havia 25 mil dólares em notas de 100, o judeu agradeceu com um aceno de cabeça frenético e murmurou algo como “vou acertar a papelada” e saiu do lugar em passos largos. Filip olhou-o por um instante e notou que ele parecia um pinguim andando. Após o judeu sair, tornou a olhar o amplo galpão. As paredes eram de concreto e o teto era alto, e o lugar estava completamente vazio. “Vou transformar essa merda no paraíso”, pensou Filip. Saiu do galpão junto de Teng e trancou-o. Deu as devidas instruções para o asiático, para quem deveria ligar e coisas assim, já começaria a reforma do lugar no dia seguinte. Quando estava subindo em sua moto, o celular de Filip tocou. Era Rich.

[Rich] – Filip, sabe a questão dos agiotas, onde fizemos as pichações?

[Filip] – Sim.

[Rich] – Prenderam alguns Purple, eu vi na TV.

[Filip] – Prenderam? Mas não haviam testemunhas, e se haviam, iriam ver que somos brancos.

[Rich] – Sim, também estranhei. Liguei para o Eric e ele disse que a palavra nas ruas é de que os Purple estavam devendo uma grana para uns policiais corruptos de uns corres que eles fizeram, e como eles não pagaram os policiais decidiram prender eles.

[Filip] – Isso vai dar merda.

[Rich] – Por quê?

[Filip] – Eu tava na academia trocando umas porradas com o Teng e chegou o líder dos Purple, o Big Monster. Ele quis paz, eu mandei ele tomar no cu, provavelmente ele vai ficar muito puto com isso. Vai saber que fomos nós.

[Rich] – ...

[Filip] – Mande os caras andarem sempre armados e de olho aberto. Quando estiverem na sede, é pra 2 ficarem de vigia armados até os dentes, revezem.

[Rich] – OK.

[Filip] – E Ulisses, como está?

[Rich] – Estranho.

[Filip] – Como assim?

[Rich] – Não sei, o comportamento dele está estranho.

[Filip] – Hm..

[Rich] – Vou passar o recado pro pessoal.

[Filip] – OK.

Rich desligou. Filip colocou o celular no bolso e ligou sua Harley, partindo dali. Quando estava passando por uma avenida, olhou no retrovisor e viu que um low-rider roxo estava seguindo-o. “Acho que eles pensam que roxo é uma cor discreta”, pensou, e logo em seguida acelerou a moto de forma brusca. O low-rider também acelerou a fim de acompanhar Filip, e quando ficou lado-a-lado com Filip, o irlandês repentinamente sacou sua Glock 18 que já estava engatilhada e colocou-a no modo full auto com o dedão. Sem nem ao menos mirar direito, Filip “sentou o dedo no gatilho” e disparou por todo o carro, que acelerou ainda mais, porém agora com a intenção de fugir. Com a fuga do low-rider, Filip colocou a pistola na parte de trás da calça novamente e mudou seu rumo, dirigiu-se ao bairro onde Charlotte morava.

Chegando lá, os motivos pela qual havia ido para lá o esperavam na próxima esquina. Aproximadamente 4 membros dos Purple, bebendo, fumando e gritando feito animais. Filip parou longe deles e retirou a pistola da parte de trás da calça. Pegou um pente extra que guardava em um bolso interno do colete e recarregou a arma, e com ela em mãos, acelerou em direção aos gângsters, diminuindo a velocidade ao chegar perto deles, então, já com a pistola no modo full auto, novamente “sentou o dedo no gatilho” disparando contra eles. Tão logo que o pente descarregou Filip acelerou para longe dali. Não sabia quantos havia matado, não sabia quantos havia ferido, apenas sabia que o recado havia sido dado.

20:00. Filip estava sentado no bar de Greensleeves tomando um uísque. Jay não havia conversado muito com ele, apenas havia servido-o e saído, talvez pelos clientes que estavam chegando de forma anormal, talvez pelo acontecido na manhã daquele dia. Filip não dormiria ali, não naquela noite. Ficou ali durante mais ou menos uma hora, já tendo terminado a garrafa de whiskey. Não estava nem ao menos tonto, mas decidiu que não iria beber mais. Levantou-se e pagou pela bebida, mas quando estava saindo, Jay foi até ele.

[Jay] – Você não me ligou.

[Filip] – É, eu tava ocupado.

[Jay] – Com o quê?

[Filip] – Com coisas do motoclube, mamãe.

[Jay] – OK. Amanhã eu saio mais cedo, tá a fim de dar uma volta?

[Filip] – Pode ser.

[Jay] – OK.

Nenhum dos dois sorriu durante o curto diálogo. Ambos pareciam desinteressados, mas mesmo assim combinaram. Após a curta conversa, Jay voltou para o trabalho e Filip montou em sua moto, se retirando do local.

No meio do caminho Filip teve uma sensação estranha. Não queria ir pra casa de jeito algum, e não fazia ideia do porquê, mas ele não ia pra casa. Mudou seu rumo repentinamente e dirigiu-se à Isleton. Passados aproximadamente 30 minutos, chegou na pequena cidade e dirigiu-se à uma dessas lanchonetes de beira de estrada que ficava logo na entrada da cidade. Vendo que estava fechada, Filip estacionou sua moto atrás da lanchonete e deitou-se de forma ligeiramente desajeitada na mesma, usando os braços como uma espécie de travesseiro. Levou os olhos até o céu, passando então a olhar as estrelas, adormecendo alguns minutos depois.

Notas finais
¹- Oni é uma espécie de demônio do xintoísmo.