Crows

3 Capítulo 3: Payback


Ainda está escuro. Parado na frente de uma casa em torno das 04:00, uma van de limpeza, dentro da van alguns homens olhavam fixamente para uma casa. Passados alguns minutos, um deles decidiu perguntar:

[???] – Não podemos ir? Estamos aqui desde as 02:00. Precisamos checar os outros lugares também.

[???] – OK.

O motorista ligou a van, que silenciosamente saiu daquele local.

Passaram por uma série de lugares antes pré-determinados, mas olharam eles apenas de passagem, com a única finalidade de constatar que seus habitantes estavam em casa. Para isso, prestavam atenção em janelas, luzes, garagem. Após uma meia-hora, pararam em frente de uma casa, passando a observá-la atentamente. Um olhar para a moto que estava na frente da casa confirmou o que desejavam saber, então apenas esperaram.

—

Filip acordou com um barulho de buzina. Saiu da cama em um salto, vestiu uma camiseta branca, as calças jeans e os coturnos, colocou também um moletom negro, luvas e uma touca. Mal havia acordado e já havia notado que fazia um frio demoníaco lá fora. Aquele era o dia da entrega. Dirigiu-se rapidamente à porta da casa, trancou-a e deixou a chave no lugar de rotina, e quando virou-se, uma van no outro lado da rua. Em passos largos, dirigiu-se à van, e antes mesmo que dissesse ou fizesse alguma coisa, a porta da van negra abriu-se e ele entrou. Ali estavam Teng, Edward, Marc e um outro membro chamado Derek. Britânico, alto, cabelos raspados e um ótimo boxeador. Teng recebeu uma ligação, era Rich.

[Rich] – Passamos pelas casas. Os endereços são verdadeiros, pelo bairro inteiro tem pichações deles, as casas também tem algumas coisas roxas e na frente da casa do suposto “assassino” deles tem uma Kawasaki Ninja R2 roxa. Vou levar comigo o Ken e o Mutley, os outros vão ficar de tocaia nas casas. Assim que eles saírem, Arno vai ligar pra vocês, não atendam, esse é o sinal. No local 1, os membros do Blue Hell e dos Devotos vão estar esperando para lidar com os Purple enquanto no 2 nós vamos estar fazendo a troca. Assim que terminarem com as casas, deem uma ajuda no local 1. OK?

Teng respondeu com um ok e desligou. Filip abriu um grande saco negro, ali dentro haviam várias armas. AK’s, UZI’s, AR-15’s, Mac 10’s, etc. Dirigiu-se à uma caixa e também abriu-a, a mesma continha coquetéis molotov e granadas incendiárias. Vendo que estava tudo certo, o presidente apenas sentou-se e aguardou.

—

A van ainda estava parada na frente da casa do assassino. Às 07:15 em ponto, a porta da casa se abriu e saíram de lá 2 homens, os 2 vestindo roxo. Um abriu a garagem e saiu de lá num low-rider roxo com alguns buracos de bala, o outro subiu na Kawasaki. A van saiu tão logo que eles saíram da casa, porém no momento em que os 2 homens iam se retirar do local com os veículos, Arno e 2 outros membros, Arthur e Connor, saíram de dentro de um beco e abriram fogo contra os membros utilizando Mac 10’s e MP5’s. Sem tempo de reação, os homens foram baleados e morreram, Arno então ligou para Filip que “recusou” a ligação. Voltaram para o beco e montaram nas motos, indo em direção à área 1.

Nas outras casas, o mesmo processo estava acontecendo. Os membros do MC estavam de tocaia na frente das casas, e assim que eles saíam eram mortos, arruinando assim parte do “golpe” deles, seguindo para a área 1 após os ataques. Em menos de meia-hora, 10 cadáveres em 6 casas.

—

Filip e os outros seguiam para as casas. Sem demora, estacionavam a van na frente das casas e Filip e Teng abriam a porta da van e arremessavam granadas e coquetéis molotov, causando incêndios nas casas enquanto os outros saíam e pichavam. Caso encontrassem uma pichação¹ da gangue na casa ou em um local visível próximo à mesma, pichavam um X com tinta preta por cima e em baixo “187”², então pichavam por cima da pichação com o X um 3 estilizado junto de uma coroa e dos lados do 3 com a coroa, um traço e ao lado dos traços um x, e aos lados dos X 2 gadanhas, uma virada pra cima e outra pra baixo. Repetiram esse processo em cada uma das casas, deixando para os bombeiros a tarefa de apagar o incêndio e impedir que ele se alastrasse. Após fazer isso com todas as casas, dispararam para o local 1.

—

Há aproximadamente 200 metros de um galpão em Isleton, uma van de um restaurante estava estacionada. Dentro dela, 15 homens com roupas roxas e armados com M16’s, MP7’s, UZI’s, M4’s, etc, aguardavam ansiosamente a chegada de outras 2 vans, uma de apoio e uma inimiga e talvez algumas motos. Batucavam impacientemente os dedos nas armas, um deles ligava para alguns números que não atendiam, até que outro disse:

[???] – Ah, que se foda. Vamos sem eles mesmo, eles que se quebrem. Esses branquelos viados nem sonham que vamos meter o louco ali, e se sonharem, vamos enfiar umas balas no rabo deles e vazar.

[???] – Beleza.

Passados mais ou menos 10 minutos, uma Kombi hippie entrou no galpão, era esse o sinal, então a van acelerou para a entrada do galpão.

—

Dentro do galpão em Isleton, mais de 25 homens armados aguardavam “visitas”, a van que havia acabado de entrar apenas saiu pela porta dos fundos e parou na outra esquina, passando a vigiar pro caso de chegarem reforços dessas “visitas”. A maioria dos presentes eram negros e vestiam roupas azuis, mas haviam também alguns hispânicos, nenhum deles utilizava alguma roupa em especial, mas todos estavam usando uma medalha da Santa Muerte com um D no verso da medalha. Estavam fortemente armados, AK-47’s, UZI’s, Steyr Aug’s, MP5’s, Mac 10’s, Mac 11’s, uma infinidade de armamentos. Como proteção, haviam pilhas de sacos de areia, caixas com coisas aleatórias, barris, etc, todos eles aguardavam protegidos o banho de sangue. A porta se abriu, os 15 homens de roxo entraram e abriram fogo, tendo a maioria sido alvejada sem acertar nada. Nesse processo, mais ou menos 6 morreram. Os outros conseguiram se esconder atrás da porta ou de algum barril ou caixa que havia sobrado, atirando ocasionalmente, porém logo morreram mais 2 e os outros 4 correram. Dos negros e mexicanos, 8 feridos e nenhum morto. Os membros do Blue Hell Syndicate e dos Los Devotos de Santa Muerte correram para levar os feridos para o hospital enquanto os membros dos Purple saiam disparados para a van sob os olhares da população assustada.

—

Em algum lugar na Reserva de Sacramento, Rich, Ken e Mutley entregavam um carregamento de Kriss Vectors, Glocks 19, M16’s, Steyr Augs, M60’s, Dragunovs SVD e munições em troca de 88 mil dólares. Pegaram o dinheiro, entregaram as armas e saíram. Haviam vendido para um time de mercenários que faziam a segurança de algumas cidades fora da Califórnia. As armas que os Crows vendiam era sempre de exímia qualidade, o que fazia com que mesmo pessoas de fora comprassem. Era raro os membros fazerem a entrega de maneira direta, normalmente apenas davam uma parte do lucro para pessoas de confiança e estas faziam a troca, mas todos sabiam quem fornecia. No caminho para a sede, Rich decidiu ligar para Filip, que logo atendeu.

[Rich] – Filip? Já resolveram?

[Filip] – Não faço ideia, estamos indo para lá agora, tem alguns cuzões trancando a estrada.

[Rich] – OK. Estou na sede, ligue se precisar de qualquer coisa.

[Filip] – Beleza, eu vou li... PORRA!

—

Os 4 gângsters estavam saindo disparados em suas vans, a cada ultrapassagem perigosa que faziam recebiam uma “buzinada” e um insulto, seus corações quase saltavam pelas suas bocas. “Massacrados em menos de 10 minutos”, pensou um deles. Seguiam em alta velocidade para Sacramento, até que no sentido contrário, avistaram uma van negra e 5 motos. Tentaram rapidamente virar e ir na direção oposta à que estavam porém no processo receberam uma batida de um carro, então ouviram barulhos de tiros...

—

Filip estava dentro da van, apenas ouvindo os tiros que estavam sendo dados pelos outros membros. Em poucos segundos, a van havia virado um queijo suíço e os carros que outrora que estavam parados no trânsito haviam disparado de qualquer maneira pela estrada desértica, deixando os Crows sozinhos com os 4 Purple e o dono do carro que havia batido na van dos Purple. Filip finalmente saiu da van, caminhou em direção ao dono do carro que ajoelhou-se pedindo para que não o machucassem. O presidente colocou a mão no bolso e retirou dali um grosso maço de notas, e após contar, entregou um “mini-maço” para o homem.

[Filip] – Tem cinco mil dólares aí. Compra um carro usado, dá um jeito de consertar esse aí, se vira. Mas se contar pra qualquer um o que viu aqui, nós vamos te achar e matar você, e não queremos fazer isso. Certo?

O homem mexeu a cabeça em um desesperado “sim”.

[Filip] – Beleza, mete o pé daqui.

Ele saiu correndo para longe sem nem ao menos olhar para trás.

Filip caminhou em direção à van dos gângsters, que estava completamente amassada na parte da frente, com deixando o motorista e o passageiro mortos. Abriram a porta e se depararam com mais um morto, vítima dos tiros, e outro com um tiro na barriga, um na perna e um na mão direita. O rapaz olhava para Filip com um misto de medo e ódio.

[Filip] – Você já sabe o que vai acontecer. Podemos fazer isso de uma forma rápida e indolor se responder algumas perguntas.

[???] – FODA-SE, EU NÃO SOU UM RATO!

Filip caminhou em direção à van dos Crows e entrou nela, saindo dali rapidamente porém empunhando uma escopeta de cano duplo e serrado. Caminhou em direção ao rapaz novamente, então encostou o cano da arma no pé dele e imediatamente o rapaz tentou tirar o pé, Filip então disparou de maneira proposital no chão da van, ao lado do rapaz, o mesmo deu um grito.

[Filip] – Sua putinha, você está tremendo de medo, sua pose de “thug for life” não engana ninguém. Eu vou enfiar o cano dessa escopeta no seu cu e atirar se não parar com essa bosta.

[???] – OK, OK!

[Filip] – Quem é o líder de vocês?

Antes que ele pudesse responder, um carro passou por eles e diminuiu a velocidade, porém antes que o motorista pudesse parar e sair do carro, Arno e Arthur deram uns tiros no chão pra assustar. O motorista disparou dali.

[Filip] – Continuemos. Então?

[???] – Ele se chama Kendrick Rock, é conhecido nas ruas como Big Monster, eu não sei onde ele mora! Eu juro!

[Filip] – OK. Quem deu o armamento de vocês?

[???] – Eu também não sei, cara!

[Filip] – Porra, tu não sabe de nada?

[???] – Eu tô falando a verdade cara, é sério!

[Filip] – Talvez se eu estourar seu pé você se lembre...

Filip levou o dedo até o gatilho e apontou para o pé do rapaz, que gritou:

[???] – PORRA, EU NÃO SEI OS NOMES! EU SÓ VI ELES UMA VEZ, ELES ESTAVAM EM UM CARRO TODO PRETO E DE TERNO, É TUDO QUE EU SEI!

Filip olhou para o rapaz por alguns instantes. Ele parecia estar à beira de ter um ataque cardíaco.

[Filip] – Estão recebendo armas do governo?

[???] – EU JÁ FALEI QUE NÃO SEI, CARALHO!

[Filip] – OK. Grato pela “cooperação”.

Filip apontou a escopeta para a cabeça do rapaz, e antes que ele pudesse gritar qualquer coisa Filip disparou, estourando o crânio do mesmo. Dirigiu-se até a van, pegou o que havia restado dos coquetéis e granadas, entregou uma granada ou coquetel para cada um dos presentes, porém antes de jogarem Edward apontou para a parte da frente da van e disse:

[Edward] – Tem uma bolsa ali na frente, uma bolsa grande.

[Filip] – Pega a bolsa e traz pra cá.

O homem deixou a granada incendiária no chão e dirigiu-se até a van, abrindo a porta amassada com dificuldade. Logo após pegar a bolsa, antes que pudesse abri-la, olhou para o horizonte e viu alguns carros com sirenes vindo, a polícia. Rapidamente jogou a bolsa dentro da van, então, junto de Filip e dos demais, jogou as granadas e coquetéis na van e no carro que havia batido, correndo para dentro da van em seguida junto de Filip, Marc e Teng. Os demais montaram em suas motos e então fugiram do local.

Passados algumas horas, chegaram em Sacramento de novo. Filip desceu em casa ao invés de ir na sede, dirigiu-se à entrada de casa e se deparou com a porta aberta. Tomou um pequeno susto, mas logo lembrou da empregada. Caminhou em direção ao quarto, e após abrir a porta, deparou-se com a empregada organizando as coisas. Chamava-se Charlotte Blanche, era francesa e tinha 16 anos. Ruiva, magra, corpo normal para uma adolescente da idade e olhos azuis claros. Seus pais eram viciados em jogos, perderam a casa e toda a grana para os donos dos cassinos clandestinos, haviam ido para os EUA haviam poucos meses graças à a ajuda do MC, que cobrara alguns favores do pai de Charlotte. Agora trabalhava como empregada para Filip, que pagava para ela cinco mil por mês mais algumas gorjetas. A menina assustou-se com a presença de Filip, mas logo que recuperou-se do susto cumprimentou-o de maneira tímida. Filip retirou o moletom negro, deixando-o em cima da cama e vestiu um outro moletom negro, porém este tinha na frente um C pequeno no lado esquerdo do peito na altura do coração, e nas costas o mesmo corvo que estava no patch na parte das costas, porém sem o nome do MC e sem o local. Apenas o corvo. Dirigiu-se à saída, montou em sua Night Rod, indo então para a sede.

Chegando lá, todos os outros membros com exceção de Mutley estavam sentados nas mesas bebendo e olhando fixamente para as notícias que estavam passando na TV. Teng , Edward e Rich estavam sentados na mesma mesa e sussurravam animadamente sobre algo. Filip puxou uma cadeira e sentou-se com eles, Rich começou a falar:

[Rich] – Edward me contou o que aconteceu, na TV só passam notícias sobre hoje. Os incêndios, os assassinatos... A mídia divulgou o das casas como criminoso, botou a culpa numa ganguezinha meia-boca da periferia, mesmo com as pichações. As mortes em Isleton foram noticiadas como briga interna, e a questão da estrada foi divulgada como acidente.

[Filip] – Ótimo. Já separou a parte pra reabastecer o estoque e a parte do pessoal, ou vai esperar chegar o das outras entregas?

[Rich] – Já separei e entreguei a parte dos caras.

[Filip] – OK.

[Edward] – Filip, vai querer ver o que tem na bolsa, tá na sala de reuniões.

Filip fez um aceno com a cabeça e levantou-se junto de Edward, indo para a sala. Ao chegarem lá, Edward abriu a bolsa e revelou seu conteúdo. A bolsa estava recheada com grossos maços de notas e algumas joias.

[Edward] – Só em dinheiro tem 150 mil, com as joias dá uns 170.

[Filip] –Caralho, o que eles fizeram antes dessa porra? Roubaram um banco?

[Edward] – Não sei, não é problema nosso. O que vamos fazer com essa grana? Dar pro pessoal?

[Filip] – Não sei, tô pensando em fazer outra coisa pra lavar o dinheiro e levantar mais uma grana.

[Edward] – Oficina de motos?

[Filip] – Não, algo mais luxuoso, em que nós realmente possamos levantar uma grana alta. Pra todos os efeitos, guarde isso aí no cofre. Quem sabe da existência desse dinheiro?

[Edward] – Até agora? Você, o Rich e o Teng.

[Filip] – OK, deixe assim. Não conte pra ninguém.

[Edward] – OK.

Filip e Edward saíram da sala, enquanto dirigiam-se às cadeiras, Filip perguntou:

[Filip] – Onde está o Mutley? Não vi ele aqui.

[Edward] – Ele foi levar a parte do Ulisses no hospital.

[Filip] – Ah, sim. Entendi.

Sentaram-se na mesa e pegaram uma cerveja, tomando alguns goles em silêncio, até que Rich disse:

[Rich] – Acabaram de falar que encontraram em meio aos destroços de uma das casas umas armas, drogas e um colete de couro e que "talvez" seja uma vingança. Pelo visto, já era pro colete do Ulisses.

[Filip] – Porra, deveríamos ter pelo menos feito uma revista rápida nas casas. Mas foda-se, já foi.

Continuaram bebendo por mais alguns instantes, logo mudaram de assunto e começaram a falar besteiras e a rir.

—

Mutley estava sentado no hospital, trajava o típico moletom escuro com o colete por cima junto dos jeans largos e dos coturnos e esperava o chamado da enfermeira para ir visitar Ulisses e entregar a parte dele da grana. Era ele o encarregado de distribuir o dinheiro e fazer os cálculos dos gastos, lucros, etc. Estava completamente preso nos seus pensamentos, até que sua atenção foi levada até a enfermeira, que havia dito que Ulisses estava no banho porém, se quisesse, poderia esperar no quarto dele. Mutley concordou e levantou-se, dirigindo-se ao quarto do mexicano. Entrando lá, sentou na primeira cadeira que encontrou e fixou seus olhos na TV por alguns instantes, até ver um cheque em cima de um criado-mudo ao lado da cama do hospital. Levantou-se e pegou o cheque, valia 50 mil dólares e o assinante, pelo que Mutley conseguiu ler, era alguém chamado “Lucas Gravelli”. De súbito, ouviu a porta do banheiro abrir-se e saiu de lá Ulisses, ainda vestido com as roupas do hospital. Sem qualquer discrição, Mutley apontou para o cheque e indagou:

[Mutley] – De quem você recebeu essa grana?

O mexicano respondeu de forma rápida, quase automática:

[Ulisses] – Seguro. Eu tinha um seguro na minha moto e um mim, pro caso de “acidentes” como esse.

[Mutley] – 50 mil? Seus órgãos são de ouro e sua moto é de diamantes?

[Ulisses] – Eu gosto de me cuidar, ter algo em que me apoiar pro caso de acidentes.

[Mutley] – Se importa de me passar o número dessa seguradora?

Sem responder qualquer coisa, Ulisses abriu uma das gavetas do criado-mudo e tirou uma caneta e um pequeno bloco auto-adesivo, retirou uma folhinha e anotou um número, entregando-o para Mutley. Após isso, deitou-se na cama e ficou encarando Mutley.

[Ulisses] – Então? O que veio fazer aqui, cabrón?

[Mutley] – Te dar sua parte. 3 mil.

Retirou do bolso um pequeno maço de notas e deixou no criado-mudo, saindo da sala em seguida. Ao chegar no corredor do hospital, retirou seu celular e ligou para o número no papel.

[Secretária Eletrônica] – Você ligou para a Gravelli Seguradora. No momento estamos fechados, nosso horário de atendimento é das 10:00 até 12:00 e das 14:00 até as 17:00. Agradecemos sua ligação.

“Aparentemente legítimo”, pensou Mutley. Quando saiu do hospital, uma chuva torrencial se iniciou. Amaldiçoando aquilo, montou em sua moto já encharcada e partiu para sua casa.

—

Filip estava sentado na mesa conversando com Teng, Rich, Edward e Ken. Já havia bebido algumas cervejas, mas não estava tonto, ao contrário de Ken e Rich, que já estavam balbuciando coisas sem sentido. Filip riu da situação e, vendo o horário num relógio de parede, levantou-se e disse: “Vocês precisam de Jesus.”, dirigindo-se à saída em seguida. Viu a chuva torrencial que fazia na rua, e após pensar por um instante, decidiu que iria mesmo assim. Montou em sua moto e saiu do local.

Filip chegou em casa encharcado. Estacionou a moto na garagem de maneira rápida e retirou o colete, o moletom, a camiseta e a calça para evitar deixar um rastro de água por onde passasse, porém logo ao passar na sala deparou-se com Charlotte sentada no sofá em um silêncio estoico. O rapaz não pareceu preocupar-se em ter sido visto, porém a garota imediatamente fechou os olhos e continuou em silêncio. Filip jogou as roupas molhadas (com exceção do colete) no cesto no banheiro e foi para o quarto pegar roupas secas. Após tomar um banho e vestir-se, foi para a sala.

[Filip] – O que está fazendo aqui a essa hora? Algum problema?

A garota parecia nervosa, ansiosa. Respondeu de forma rápida:

[Charlotte] – Não tenho como ir pra casa, eu venho e vou de ônibus mas quando eu fui pro ponto nenhum deles passou, eu ia pra casa à pé mas quando eu vi que estava começando a chover corri pra cá de novo. Você tem como me levar pra casa?

Filip olhou pela janela por um instante e respondeu:

[Filip] – Nessa chuva te levar pra casa é foda... Seu pai não pode vir te buscar? Não tem o número dele?

[Charlotte] – Ele não tem carro.

[Filip] – Táxi?

[Charlotte] – Não tenho o número de nenhum taxista. Você tem?

[Filip] – Também não. Porra... Bom, durma aqui hoje. Pode pegar o meu celular pra ligar, avisa que vai ficar por aqui. Tu pode dormir no meu quarto, eu durmo aqui no sofá mesmo.

[Charlotte] – Eu ligo do meu mesmo.

Filip respondeu com um singelo OK e foi para o quarto pegar um travesseiro e um cobertor. Enquanto isso, Charlotte levantou-se e olhou pela janela de forma nervosa, pegou então o celular e ligou para o pai, avisando-o que iria dormir ali, porém sem avisá-lo de outra coisa. Após isso, tornou a sentar-se no sofá.

Filip retornou do quarto e, após a garota levantar-se para dar espaço, arrumou sua “cama” no sofá, sentando-se de novo junto da garota.

[Filip] – Minha TV já era, vou deixar uma grana pra você comprar uma pra mim amanhã. Mas se quiser fazer alguma coisa antes de dormir pode colocar música lá no quarto e tem os meus livros também.

[Charlotte] – Não... Tô cansada, vou dormir mesmo.

[Filip] – Beleza. Falando nisso, hoje é teu dia de pagamento, não é?

[Charlotte] – Verdade... Já tinha até esquecido.

Filip colocou a mão no bolso e retirou um maço de notas que totalizava 5 mil e quinhentos dólares, entregando-o para a garota. A mesma colocou-o no bolso e ficou em silêncio por alguns minutos, então levantou-se e foi para o quarto. Filip então deitou-se no sofá e se cobriu, levando seu olhar até a chuva. Olhou para a chuva por um tempo indeterminado, até que finalmente caiu no sono.

Notas finais
¹- Embora na imagem estejam 2 tipos de pichações diferentes dos Crows, a utilizada foi apenas a do 3, a outra estava apenas para exemplificar. ²- 187 é a seção do código penal da Califórnia que se refere ao assassinato e à morte, o termo é comumente usado pelas gangues como um sinônimo de assassinato.