Cross Destination
57 Capítulo Cinquenta e Sete
Notas iniciais

Os meses se passaram voando. Se não fosse pela barriga que crescia incessantemente, eles não teriam percebido. A criança não tinha nome. Era uma garotinha, haviam descoberto aos seis meses e meio de gestação. Os gêmeos, apesar de saber quem era o pai da irmãzinha, não a odiava; Oliver os ensinou a não a odiar, já bastava a mãe deles. Ela era inocente e merecia todo o amor do mundo, era assim que ele pensava e era assim que dizia sempre que conversava com os filhos sobre a meia irmã deles. Apesar de ainda não a amar, ou sentir qualquer resquício de carinho em relação ao bebê que a esposa esperava, Oliver não conseguia ao mesmo tempo, repudiá-la, e de vez em quando, ele se perguntava o porquê; Felicity também não o entendia. Mesmo que ela fosse a todas as consultas, em nenhum momento ela perguntava sobre a filha, ou olhava na tela para ver como ela era, ou mesmo sentia a necessidade de colocar a mão na barriga, como fazia sempre quando esteve grávida dos trigêmeos. Oliver, ao contrário dela, olhava na tela em cada uma das consultas, ouvia atentamente as instruções e falas da médica; a bebê era completamente saudável. Mesmo assim, ele não conseguia sentir-se da forma que sentiu com os trigêmeos.
E então, tudo mudou em um passe de mágica, quando em uma noite, enquanto a esposa dormia, e sua mão se encontrava na barriga dela, o bebê se mexeu. Tinha sido a primeira vez. Ela nunca tinha se mexido antes, por cinco meses, ninguém nunca havia sentido o que ele sentiu naquele momento. Passava das oito da noite, a esposa não conseguia dormir por conta dos malditos pesadelos, ele se encontrava angustiado em ver a esposa em tal estado e tentava acalmá-la, apesar de tudo. Ele se surpreendeu, é claro, e naquele momento, não conseguiu conter um sorriso, diferente de Felicity, que ficou com o coração acelerado, a respiração ofegante e o corpo completamente inerte; ela não mexia e Oliver só percebeu o estado dela, quando a olhou nos olhos, pouco depois de sentir o bebê nascer. E foi então que ele entendeu o que a psicóloga havia falado sobre a reação dela mudar, de forma positiva ou não, ao sentir aquela sensação. Oliver conseguiu acalmá-la, mas havia demorado um bocado, porque a bebê não parava de se mexer, e ao mesmo tempo em que ele tentava entender a emoção que sentia pela bebê ter chutado logo quando sua mão estava em cima da barriga da esposa, ele se concentrava em fazer com que ela dormisse finalmente.
Um mês depois, mais uma surpresa – boa para Oliver, mas irrelevante para Felicity –, ele e a esposa descobriram que seria uma menina; mas nem isso despertou a loira, nem isso fez com que ela visse a filha com outros olhos. E isso não foi uma decepção para o marido, que já imaginava; se nem depois de sentir a filha se mexer, a esposa teve um novo sentimento em relação a bebê, não seria com a descoberta do sexo que isso aconteceria. Ela estava a cada dia mais irredutível com sua decisão de não ser a mãe da bebê, e Oliver a compreendia completamente. Ela havia passado pelo pior, um verdadeiro inferno, como ela mesma dizia, e tinha todo o direito de se sentir daquela forma, por esse motivo nunca repreendeu, ou criticou, nem mesmo a julgou. Mesmo que eles estivessem um pouco afastados, ela continuava amando-o, ele podia ver em seus olhos, quando os seus se encontravam com os dela.
Oliver não imaginou que poderia acontecer, não com ele. Não imaginou que em algum momento poderia sentir algo a mais do que só cuidado pela filha de sua esposa, mas sim, ele já estava amando aquele pequeno ser. Foi impossível de não acontecer no momento em que ela começou a se mexer; ela se mexia só quando ele estava perto e ouvia a sua voz, ou quando sua mão se encontrava na barriga de sua mãe, e isso começou de algum modo, mexer com ele tão profundamente que quando ele percebeu, já estava completamente rendido aquela criança. Os sentimentos se tornaram maiores quando, pela primeira vez, ouviu os batimentos cardíacos; até aquele momento Amélia não achou que faria bem a grávida, pela forma que ela ainda se sentia em relação a filha, e quando ela decidiu em os fazer ouvir, Oliver se encheu de emoção. Ele percebeu o corpo da esposa ficar completamente tenso, percebeu a forma como ela fechou os olhos com força e levou ambas as mãos aos ouvidos, mas ele agradeceu a Meredith por aqueles cinco minutos que durou o som dos batimentos cardíacos.
Felicity havia percebido a mudança do marido no instante em que a bebê se mexeu. Havia percebido o amor que ele estava começando a sentir por aquele bebê, e ela sabia que aquilo seria um problema. Temia só de imaginar o problema que teria com o marido, mais um, desde que voltou de seu inferno particular. Ela não queria brigar, não queria discutir, mas sabia que estava chegando o momento em que Oliver colocaria para fora, tudo que estava sentindo – o novo sentimento – em relação a criança que estava em seu ventre. A loira teve a certeza quando estava completando o sétimo mês, e o marido quis conversar sobre a adoção. E como imaginou, ele queria desistir, queria cuidá-la, queria ser o pai daquela menina. E ela não conseguia compreender, mesmo que tentasse. Como era possível que seu marido conseguisse o que ela não conseguia? Ele amava aquela criança; não era só cuidado. E Felicity não entendia porque para ela, não tinha como amar uma criança que tem o sangue de um maldito. Não tinha como sentir algum sentimento bom, por um bebê, que tinha sido gerado por conta de vários abusos violentos.
Oliver pensava diferente. Sim, ele odiava o pai daquela criança que estava amando. Ele odiava o pai dela com toda as suas forças, mas nada disso era culpa dela. Aquela garotinha merecia ser amada, merecia uma família, merecia irmãos. Ela não tinha culpa de ter o pai que tinha, não tinha culpa pelo que houve à mãe dela, não tinha culpa de sua vida ter virado de cabeça para baixo. Ela não pediu para ser gerada do jeito na qual foi gerada. E era por esse motivo que era impossível tratá-la de modo diferente. O loiro a amava. E quando a via pela tela do equipamento no qual Amélia usava para ver como a bebê estava, pedia mentalmente para que ela viesse tão linda quanto sua esposa.
Enquanto Felicity e Oliver ficavam naquele impasse, os outros também tinham suas opiniões; apenas os homens haviam percebido a mudança do amigo em relação a bebê, mas nem todos compreendiam o novo sentimento que cobria todo o ser do Queen. Assim como Felicity, Helena não conseguia gostar aquela criança, mas também não achava certo matá-la, desprezá-la ou repudiá-la, porque como seu amigo disse, ela era um ser inocente; mas isso não queria dizer que ela, ou qualquer um dos outros amigos do casal julgavam a forma como a mãe da garotinha a tratava. Os outros concordavam com Oliver. Eles entendiam as razões de a amiga não conseguir amar aquele bebê, de repudiar e querer que ele sumisse, mas também não podiam deixar de pensar que aquele ser pequeno no ventre de Felicity, era alguém que não pediu para vir ao mundo em meio a esse caos. Não pediu para ter Cooper Sheldon como pai. Definitivamente, ela merecia ser amada.
Sete meses e doze dias, esse era o tempo de gestação de Felicity, agora. Oliver trabalhava em casa desde que a esposa voltou, principalmente por ela estar em um estado tão sensível. Ele agradecia todos os dias pela ajuda da irmã mais nova, que ficava de distrair os gêmeos e os filhos de seus amigos, que também estavam preocupados com o estado de Felicity, e Walter, que cuidava da empresa; e cuidaria por tempo indeterminado, com todo prazer, ele havia dito ao homem que via como filho. Desde que tudo aconteceu, mesmo decepcionado com a ex-esposa, não deixou Thea e Oliver nem por um minuto, principalmente porque sabia que eles precisavam de seu apoio; eles não tinham ideia do que se passava com Moira, e nem mesmo queriam, não buscavam por notícias e impediam qualquer um de fazer tal coisa.
Naquele dia especial, nevava. O céu estava em um tom acinzentado e apesar de ainda não passar das cinco da tarde, parecia que não era dia e sim começo de noite. Além da neve que caía do céu, garoava. Não era a intenção de Oliver sair de casa, não quando todos os amigos estavam em sua casa, mas Bruce Wayne estava na cidade e precisavam do CEO presente da reunião marcada. Ele deixou as amigas cuidando de sua esposa, que estava praticamente dopada de remédios – nos quais não fariam mal a filha deles – e seguiu para a empresa; agradeceu mentalmente por não se demorar tanto e verbalmente a Bruce Wayne por dispensá-lo mais cedo ao descobrir sobre a situação de Felicity por Walter – sem dar tantos detalhes.
Oliver chegou em casa e se preocupou imediatamente ao ouvir um grito extremamente alto e dolorido. Correu em direção as escadas, seguindo para seu quarto, sabendo que o som havia vindo de lá e encontrou a esposa sentada sobre a cama, com Caitlin, Laurel e Sara ao lado dela, tentando acalmá-la. Ela estava sangrando; sangrando muito. Seu corpo tremeu, sua respiração se tornou ofegante, mostrando seu desespero por encontrar a mulher que amava em tal situação. Sem pensar muito, entrou no quarto, pegando a esposa no colo, avisando tanto a ela quanto as outras que a levaria para o hospital. No caminho, Laurel explicou que Bryan e Brooke haviam ido ao parque com Tommy, Barry e Ray – além das outras crianças –, e para que a amiga não ficasse sozinha, elas haviam decido não os acompanhar; Oliver agradeceu a elas por isso. De repente Felicity começou a sentir dores, e em seguida viram sangue, foi o que Sara completou, seguida de Caitlin, que contou que segundos depois, ele havia entrado no quarto.
Oliver dirigia não pensando nas altas multas que pagaria por passar em sinais fechados. Caitlin e Sara iam atrás com Felicity enquanto que Laurel ia ao lado dele, tentando acalmá-lo depois de contar o que houve. Ela havia percebido o corpo trêmulo – principalmente as mãos, que também suavam. Ela estava preocupada com ambos os amigos, mas precisava não demonstrar, para poder ajudá-los; as outras duas, que estavam no banco de trás faziam o mesmo. Entraram no hospital desesperados, pedindo por ajuda, afinal, Felicity continuava a sangrar; Oliver só pedia que ela não perdesse a criança, principalmente agora, que ele já a amava com todo seu ser. Imediatamente três enfermeiros se aproximaram, junto de uma residente – que eles conseguiram identificar como a aprendiz da médica da grávida –, eles a colocaram em uma cadeira de rodas e rapidamente a levaram para a sala de emergência. Um dos residentes que estavam por perto, correu para fazer como a residente que ajudava a grávida: chamar por Amélia. E então a família foi direcionada para a terrível sala de espera.
— Ela vai ficar bem. – Sara diz, tentando acalmar o amigo.
— Como pode ter certeza? Ela estava sangrando, e mesmo que dê tudo certo..., ela está morrendo aos poucos por conta dessa gravidez. – As outras se olharam. – Ela não vai conseguir amar essa criança nunca.
— Oliver, não podemos ter certeza disso.
— É. Ela sabe que é errado pensar da forma que pensa, só não consegue pensar de outra forma. – Sara diz depois da irmã.
— O trauma foi muito forte tanto para seu corpo quanto para seu cérebro. Ela precisa de tempo. – Ele ouve a voz da única médica presente.
— Caitlin está certa. Vamos dar o tempo que ela precisar.
— Ela quer dar para a adoção. – Oliver suspirou. – Ela quer dar, e eu tentei, eu tentei convencê-la do contrário...
— Oliver, eu pensei que você concordasse com isso.
— Não foi você quem deu essa ideia? – Ele olha para Caitlin e Sara, que haviam falado uma atrás da outra.
— Você mudou de ideia. – Não era uma pergunta. Ele olhou para a antiga Lance.
— Você se..., apegou a criança. – Laurel diz, surpresa.
— Incrível, não é? Eu nunca pensei que isso poderia acontecer, e então... – Jogou as mãos para o alto. – Ela chuta só quando ouve minha voz. – As outras se olharam, compreendendo-o. – Eu não devia, não é? Eu não devia me apegar, ou amar ela..., mas já não posso fazer nada.
— Sinceramente? Eu estou surpresa demais para dizer alguma coisa sobre isso. – Ele suspira ao ouvir a Merlyn.
— Tommy, Barry e Ray disseram o mesmo.
— Eles sabem? – Oliver assente à pergunta de Caitlin.
— Eu pedi para que não contassem. Eu não sabia como iam reagir a isso. – Elas assentiram, compreendendo-o. – Ela pode ter o sangue daquele animal, daquele desgraçado..., mas... – Se interrompe propositalmente, balançando a cabeça.
— Ela não pediu por nada disso. – Ele olha para a Allen. – Eu não sei se outro homem faria o mesmo que você, Oliver.
— É por isso que ela chuta quando ouve sua voz, porque ela pode sentir seu amor por ela, Ollie. Ela sentiu seu carinho, ela sentiu que você a queria.
— E sentiu tudo de ruim vindo da própria mãe. – Diz depois de Sara.
— Não vamos pensar nisso. – Laurel pede.
— Eu não a julgo, vocês sabem... – Elas assentem. – Eu só fico pensando em como ela vai se sentir ao perceber que a mãe não consegue amá-la. E eu me sinto tão...
— Oliver, um passo de cada vez. – Caitlin diz, pegando em sua mão. – Felicity precisa de mais tempo, talvez ela mude.
— Eu peço para que isso aconteça.
— Todos pedimos. – Sara diz. – Mas no momento, tudo que tem que se preocupar é com a saúde da Lis e com o nascimento daquela garotinha. – Oliver suspira, fechando os olhos, e quando volta a abri-los, encontra a médica de sua esposa.
— Amélia. – Os quatro se levantam quando a vê.
— Fiquem calmos. Ela está bem, ela teve uma hemorragia, mas agora está bem.
— Hemorragia? – Se preocupou.
— A bebê está bem. – E ele sentiu alívio. – Ela está bem, e nesse momento..., está a caminho da UTI neonatal. – Oliver, Sara, Laurel e Caitlin se olham por breves minutos antes de olharem para a mulher à frente deles novamente.
— Ela nasceu? – Perguntam juntos.
— Nasceu. 4 quilos. Ela é grandinha, forte, saudável..., linda. – Diz sorrindo.
— Mas..., você disse que Felicity teve uma hemorragia, e ainda faltavam pouco mais de seis semanas para a bebê nascer.
— Aconteceu antes, isso não é anormal. E a hemorragia, eu a contive, ao mesmo tempo que minha colega, que é pediatra, retirava a bebê.
— A bebê. – Caitlin diz. – Olha, ela precisa de um nome, e rápido. – As amigas não puderam deixar de sorrir.
— Vocês decidem e depois me falam. Mas agora..., querem vê-la?
— Felicity. Eu não posso vê-la? – Sua voz sai um pouco desesperada.
— Ela vai para um quarto em poucos minutos, e então eu mesma o buscarei para vê-la. – Oliver assentiu.
— Então tudo bem. Vamos ver a pequena. – A médica sorriu e os acompanhou.
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Oliver observava o pequeno ser na incubadora. Ela era realmente muito linda. Tinha cabelo, muito cabelo, e para sua alegria, eram negros. Tão negros quanto os da mãe dela eram. Tanto Oliver quanto suas amigas se surpreenderam quando assim que o som da voz de Oliver soou, a garotinha abriu os olhos, extremamente idênticos aos da mãe. Era como se a pequena soubesse que era o Queen ali. Era como se ela realmente tivesse o reconhecido, e provavelmente foi isso que aconteceu. Oliver estava encantado com a menina. Ela era a cópia perfeita de Felicity. O formato do rosto, o formato do nariz, o formato e a cor dos olhos. Linda.
Assim como ele, Laurel, Caitlin e Sara também se encantaram com a moreninha. Ela estava encantando a todos, até mesmo Helena que havia chego a alguns minutos, com outros agentes em seu encalço, inclusive o noivo que segurava a pequena garotinha deles, que já completava seu terceiro mês; mesmo que Cooper estivesse morto, os agentes continuavam por perto, principalmente por serem amigos do casal. A mulher que não conseguia nem mesmo falar sobre aquela criança que havia nascido a pouco, tinha se encantado por ela assim que colocou seus olhos nela. O mesmo aconteceu com todos seus amigos, irmã e até mesmo seu cunhado. Será que o mesmo aconteceria com sua esposa? Ele não pode deixar de se perguntar, enquanto admirava a filha, e pedia para que sim, que acontecesse o mesmo que com os outros.
A médica havia dito que ele poderia ver a esposa. Ela dormia, mas logo acordaria. Foi o que Meredith disse, antes de ele pedir para que ela o levasse até sua mulher. A criança, que ainda não tinha um nome, havia ficado sobre os olhos atentos dos "tios", cada um deles, até mesmo Helena e Michael, que haviam prometido não tirar os olhos dela; alguns homens de Cooper estavam vivos e Oliver temia uma vingança. O quarto branco demais incomodou seus olhos, mesmo assim, ele entrou. Sua esposa estava inconsciente na cama. Sua respiração estava calma, passiva, e por esse motivo ele se sentiu aliviado. Ela não tinha pesadelos; algo raro, já que eles estavam acontecendo frequentemente. Ele se sentou na poltrona, e incrível e surpreendentemente os olhos verdes se abriram, como se ela soubesse que era o marido ao lado dela. Ele não disse uma palavra, não queria assustá-la, queria que ela o visse primeiramente.
— Oliver. – Sussurrou, por conta da garganta seca.
— Quer água? – Ela assentiu, e o marido colocou um pouco e um copo e a ajudou a beber. – Melhor? – Ela pigarreou e assentiu.
— O que..., onde estou?
— No hospital. Você não se lembra do que houve? – Ela arregalou os olhos de repente e olhou para a barriga.
— Eu perdi? – Ele se decepcionou com a pergunta, mas não demonstrou.
— Não. Ela nasceu. – Ele a viu ficar tensa. – Está na incubadora, mas está bem. Ela é a sua cara. Tem tudo seu. Os cabelos, os olhos, o nariz...
— Eu não quero saber. – Ela o interrompe. – Não precisa me dizer isso, não vai mudar minha decisão. – Ele suspira.
— Ela tem seu sangue também. – Eles se olharam. – Ela tem seu sangue, Felicity. É sua filha.
— Para.
— Você não precisa fazer isso se não quiser..., mas eu não vou deixar que a dê em adoção.
— Oliver, você vai se arrepender...
— Não. Eu não vou não, Felicity. Eu me arrependeria, se a deixasse fazer isso. Me arrependeria eternamente.
— Como é que você consegue? – Ela não contém a pergunta. – Como consegue amar aquela criança? Como consegue ver algo bom naquela criança? Tendo o sangue que ela tem..., sendo filha do homem que destruiu a vida da mulher que você diz amar. – Oliver soltou um suspiro alto, fechando os olhos por breves minutos.
— Eu não digo..., eu amo. – Retruca, fazendo-a se arrepender das palavras que disse, de forma imediata. – Eu amo você. Você é a mulher da minha vida. – Diz sem deixar os olhos dela. E ela se sentiu pior pelo modo que se expressou. – E aquela garotinha é parte de você. É por isso que eu a amo. É por isso que eu consigo amar aquela criança, mesmo ela tendo o sangue daquele homem, Felicity, porque ela também tem o seu sangue. Ela me encantou de alguma forma, e provavelmente, era para ser assim. Ela não tem o meu sangue, mas eu a amo. E eu pretendo ser o pai dela. – Ela desvia os olhos. – Você não consegue ser a mãe dela, e eu compreendo, mas eu posso ser o pai que ela precisa.
— Eu não vou..., conseguir fazer isso.
— Não faça. Eu faço por nós dois. – Diz sério. – Eu só espero que você um dia mude de opinião em relação a Olívia. – Ela o olha, surpresa.
— Você... – Se interrompeu propositalmente.
— Eu estou dando um nome para ela. – Responde. – Você me ama. Então eu vou dar o nome parecido com o do homem que você ama, como um dia você disse para mim que faria. – E então ela não consegue dizer mais nenhuma palavra, diante aquela afirmação. Seus olhos lacrimejaram, a garganta se fechou, e mesmo com dificuldade, ela reprimiu as lágrimas que queriam descer pelo rosto pálido.
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Olívia Megan Smoak–Queen. Esse era o nome que estava na pulseirinha de sua filha. Sua filha. Era assim que ele a via. E era isso que ela era para ele. Olívia era sua filha, por mais que seu sangue diga o contrário. O que ele fez surpreendeu a todos, inclusive Walter, que havia ido ver a nora no dia seguinte ao nascimento da nova neta; ele apoiava o filho, completamente. Se Oliver queria cuidar da menina, dar seu nome e ser seu pai, então Walter o apoiaria, sem pensar duas vezes. Ele também concordava que aquela criança não tinha culpa de nada, e por esse motivo, ficava tão orgulhoso do pensamento e da decisão de seu filho.
Algo que surpreendeu ainda mais Oliver, foi Helena se prontificar a amamentar sua filha; a garotinha que a amiga não suportava nem mesmo ouvir falar. A pequena realmente fez milagres, fez até mesmo que Helena mudasse de opinião sobre ela; Oliver pensou, no momento em que ouviu a ação gentil da antiga Bertinelli. Mas ele compreendia, completamente, afinal, como alguém conseguiria olhar para a sua garotinha e sentir por ela algo que não seja amor? Olívia, ou Liv, como o Queen havia passado a chamar, era encantadora; ela usava aquele jeitinho fofo de olhar para as pessoas, ele tinha certeza. Era aquele jeitinho doce, que fazia todos se encantarem por ela.
Por conta do que houve, tanto sua esposa quanto sua filha ficaram mais alguns dias no hospital. Ambas estavam saudáveis, mas precisavam ficar em observação. Olivia recebia visitas todos os dias, em especial de Helena e Michael, já que a mulher estava a amamentando. Seus amigos visitavam Felicity também, e até mesmo faziam ela se distrair, mas nunca, em hipótese alguma, falavam sobre a criança que havia enfeitiçado cada um deles, com sua beleza, delicadeza, fofura e charme. Ela não queria falar, ver e nem mesmo amamentar, então eles faziam como ela queria: não tocavam no assunto Olívia. Era o melhor, na opinião da psicóloga que ainda a visitava três vezes na semana.
Naquele momento, Oliver tinha Liv em seus braços. Quando a garotinha começou a chorar e nenhuma das enfermeiras conseguiu fazê-la se acalmar, ele pediu para tentar, e como se ela sentisse que estaria segura em seus braços, o choro parou e o sono chegou. Foi de forma tão imediata que deixou as mulheres a frente dele estupefatas; a pequena dormia tranquila, para a surpresa e o espanto de cada uma das enfermeiras. Oliver estava intercalando seus horários; de manhã com a esposa e a tarde e metade da noite com a filha. Seus amigos apareciam na parte da tarde, então ele os deixava cuidando de sua mulher, enquanto ele cuidava de Olívia.
— Você realmente não vai mais para casa, não é? – Ouviu a voz do cunhado.
— Eu não quero deixá-las sozinhas aqui. – Responde, voltando a olhar para a filha. – Viu Felicity?
— Ela está dormindo agora, mas conversamos... – Eles se olham. – Ela ainda não quer vê-la.
— Tentou convencê-la?
— Tentei, mas foi inútil.
— Eu nem mesmo tento mais. Não adianta. – Voltou a olhar para a bebê em sus braços. – Ela não fala sobre a Liv, não quer vê-la..., não quer nem mesmo a amamentar..., não posso culpá-la por se sentir assim.
— Ela passou por coisas horríveis, é compreensível.
— Eu sei. Por isso que eu não estou pressionando-a. – Roy suspirou. Oliver o olhou por um breve momento, e se voltou para a filha, antes de voltar a se pronunciar. – Você quer me dizer alguma coisa, não quer?
— Isso pode acabar com seu casamento.
— Isso? – O olhou com o cenho franzido.
— Cuidar da criança.
— Ela tem nome, Roy. – O outro volta a suspirar.
— Eu não odeio ela, Oliver. Realmente, ela é linda e encantadora..., e como você vive dizendo, não tem culpa alguma, mas...
— Mas? – Diz, quando a pausa fica longa.
— Você e Felicity podem ter problemas por causa dela. Como é que vai ser quando a levar para casa? Felicity vai suportar ter a Liv debaixo do mesmo teto? – Oliver ainda não havia pensado na hipótese de ser um problema quando mãe e filha estivessem no mesmo ambiente.
— Eu não sei, mas eu já tomei essa decisão e não vou voltar atrás.
— E Felicity, o que acha disso?
— Diz que não vai cuidá-la. – Deu de ombros. – Eu não pedi por isso. E nem a Liv pediu por tudo o que está acontecendo em volta dela, na vida dela. Acha que ela merece ser dada para a adoção? Quem sabe por quanto tempo ela ficará em um orfanato? Quem sabe o que acontecerá com ela, caso seja adotada? – Balançou a cabeça. – Além disso, eu já me apeguei a ela, Roy.
— Eu sei. Eu vejo. – Olhou para a sobrinha. – Espero que você saiba o que está fazendo.
— Eu ainda tenho esperanças de que ela mude de ideia sobre isso. Que ela veja Liv de outra forma.
— Eu não acho que isso um dia vá mudar. – Eles ficaram em silêncio por alguns minutos.
— Os gêmeos, como estão? – Oliver pergunta pelos filhos alguns minutos depois.
— Estão bem, e loucos para ver a irmã.
— Viu? Eles também a amam. – O Olhou com um sorriso ladino.
— Claro, você os ensinou a ver a Liv de outra forma. Por falar no nome dela, eles adoraram. – Diz sorrindo.
— Quem sabe isso não ajude minha mulher a mudar de ideia?
— Vou estar torcendo por isso. – E o Harper estava realmente falando de todo seu coração. – Então..., já que ela tem pai, e infelizmente por enquanto não tem mãe... – Oliver o olha. – Escolheu os padrinhos? Eu acho que ela precisa de padrinhos.
— Eu não sei se...
— Escolha um dos seus amigos. – O interrompe. – Sei que eles estão tão encantados por ela quanto nós dois estamos. – Roy sorriu, tocando levemente no rosto corado da bebê. – Ela é a cara da minha irmãzinha, como é que eu poderia odiá-la? – Oliver acabou por sorrir também. – Eu me lembro a primeira vez que vi a minha irmã, eu me apaixonei pela delicadeza dela naquele momento..., e inacreditavelmente, o mesmo aconteceu com essa garotinha. – Pegou na mãozinha dela. – Por isso eu acho que ela merece sim ter padrinhos, assim como os irmãos dela.
— Eu não sei quem aceitaria isso, mesmo que ela tenha encantado a todos.
— Eu tenho uma ideia.
— Quem? – Balançou a filha, desviando os olhos para ela, quando ela resmungou.
— A mulher quem está amamentando-a. – Oliver o olhou surpreso. – Sim, eu não gostava dela, mas ela mudou e está fortalecendo minha sobrinha, então...
— Está me dando a ideia de convidar Helena e Michael para serem os padrinhos da Liv?
— Louco, não? Mas eu pergunto: Quem mais poderia ser, senão as pessoas que mais ajudaram a trazer Felicity de volta, sendo que um deles estavam em um estado frágil e se colocou em perigo apenas porque queria fazer o certo? – Oliver não pôde deixar de concordar.
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