Cross Destination
58 Capítulo Cinquenta e Oito
Notas iniciais

Felicity estava em seu quarto com seus trigêmeos. Ela só saía do quarto para as refeições. A psicóloga avisou a Oliver que não a pressionasse com nada. Caso ela não queira almoçar junto de todos, caso ela não queira sair, caso ela queira ficar o dia todo no quarto, o melhor a se fazer era concordar; ela tinha que dar os paços por ela mesma, sem pressão, sem cobranças, era a melhor forma de ajudá-la. A mulher também o instruiu a não deixá-la sozinha, em hipótese alguma, era sempre bom ter alguém que a fizesse companhia, e por esse motivo quando ele mesmo não estava com ela, os gêmeos ou os trigêmeos estavam; ele passava mais tempo com Olívia, ela era um bebê e precisava de bastante atenção. Além disso, quando o Queen precisava sair – o que eram raras as ocasiões –, havia sempre um homem adulto com ela, pelo simples motivo de que era uma exigência da loira.
Depois de três semanas no hospital, sendo amamentada por sua, oficialmente, madrinha – de vez enquando ela mamava pela chuquinha, não era algo que os médicos indicavam, mas era preciso –, tanto a bebê quanto sua mãe puderam ir finalmente para casa. Todos os dias, Helena e Michael apareciam na casa dos amigos para que a morena desse de mamar para a afilhada. Ela sabia como aquele leite era importante para o bebê e não poderia deixar que ela vivesse do leite NAN Comfor 1 que havia sido aprovado pela pediatra. Felicity ainda não havia pego na filha nenhuma vez, muito menos a amamentado. Elas mal se viam; na hora das refeições, Liv estava na maior parte das vezes, dormindo; Oliver acharia que era de propósito, se sua filha não fosse apenas um bebê de colo.
Com a filha nos braços, no quartinho infantil que havia sido decorado para Liv antes mesmo de ela nascer, Oliver se levantou da cadeira balançante, se aproximando do berço do tema nuvenzinhas – com um móbile sonoro e giratório de ursinhas de pelúcia branca com detalhes rosa-bebê –, e a colocou delicadamente ali. Ela dormia tão tranquila, que ele não queria que ela acordasse e muito menos se assustasse, coisa que estava acontecendo sempre que ele a deixava sozinha. Ele tirou a mão do corpinho pequeno e delicado e se afastou devagar. Graças a Deus ela não acordou. Deixou apenas a luz do abajur ligada e saiu do quarto. Oliver abriu a porta do quarto dos gêmeos, tendo a certeza de que dormiam, e em seguida caminhou para o próprio, onde encontrou a esposa com os trigêmeos, que dormiam frente a ela, enrolados cada um em sua mantinha da Minnie – para Killie e Katie – e do Mikey – para Kyle –, com seus nomes escrito com letra personalizada; rosa, lilás e verde água, respectivamente tanto na manta em si quanto na cor da letra.
— Ei, você jantou? – Ela olhou para o marido, mesmo que tocasse os filhos de forma carinhosa.
— Jantei, não se preocupe. – Ele beijou sua testa.
— Não me peça o impossível. – Ela sorriu. – Desculpa não te acompanhar, eu estava com a Liv. – Ela desviou os olhos imediatamente, e ele soube que ela não queria falar sobre a criança.
— Eu vou colocar os três no berço. – Mesmo que eles fossem maiores que Liv, Felicity fazia questão de tê-los dormindo no quarto dela e do marido. Oliver não contestou.
— Eu te ajudo.
— Não precisa. – Ele suspirou. – Você nem tomou banho ainda, eu faço isso enquanto você tenta relaxar. – Ela só estava preocupada com ele.
— Tudo bem.
— Oliver. – Ele volta a olhar nos olhos verdes da esposa. – Eu sei que está..., complicado, e eu queria muito que não fosse assim, mas, eu não posso, você entende, não é? – Ele se aproximou, abraçando-a e beijando seus cabelos.
— Eu entendo.
— Eu não quero te afastar. – Diz com a voz abafado por conta do rosto que estava enterrado no peito dele. – Eu te amo, só não consigo amar..., ela.
— Está tudo bem.
— Eu sei que estou sendo um monstro, mas não dá. Eu não consigo. Eu não sinto nada de bom em relação a ela, e eu sei que isso te chateia.
— Você não é um monstro, e eu não me chateio. Só não gosto que se afaste de mim. – Eles se olharam.
— Eu não quero me afastar. E eu não vou.
— Ótimo. – A beijou lentamente. – Eu te amo, e mesmo que eu queira muito que você veja a Liv de outra forma, não vou te pressionar. – Ela assente. – Mas eu também não posso deixar de amá-la.
— Eu sei. – A voz dela saiu embargada. – Você a ama, e eu..., não sinto nada por ela. Não. – Balançou a cabeça. – Eu sinto..., repúdio, e isso me faz me sentir mal, porque eu sei que ela não tem culpa. – Ela estava desabafando, a psicóloga disse que isso aconteceria. – Não me odeie por sentir isso. – Sua esposa praticamente implora.
— Eu não odeio. Eu nunca vou te odiar.
— Mesmo se eu nunca puder dar amor a criança que você chama de filha? – Ele não conseguiu responder. – Mesmo que eu sempre a repudiar?
— Eu te amo. – Foi a resposta dele, fazendo-a sentir os olhos marejarem. – É isso que importa para mim. Só peço que não a trate mal. Só isso.
— Eu posso fazer isso. – Não estava nos planos dela ter contato com a menina, então, ela não iria nunca a tratar mal. Nem perto e muito menos longe de seu marido. – Mas não crie esperanças, expectativas..., eu não acho que um dia vá sentir algo além de... – Reprimiu o "nojo". Não queria magoar o marido. – Eu não acho. – Diz balançando a cabeça.
— Eu não quero pensar nisso agora. – Diz depois de um suspiro, e ela assentiu.
— Eu vou dormir. Você deveria fazer o mesmo, está exausto. – Beijou os lábios do marido rapidamente, enquanto ele acariciava seus cabelos.
— Eu já me junto a você. – Avisou antes de soltá-la e caminhar para o banho.
**--**
Oliver não se surpreendeu ao abrir a porta e encontrar os amigos. Eles passaram a visitá-los dia sim dia não, desde que a loirinha e a bebê haviam sido liberadas do hospital. Apesar de nem sempre subirem as escadas para ver Felicity – e isso não incluía as crianças –, eles conversavam com o Queen, distraiam um pouco os gêmeos, pegavam a nova integrante da família nos braços e iam embora no fim de tarde. Naquele dia, Laurel e Caitlin se disponibilizaram a fazer o almoço, já que elas haviam percebido o cansaço do amigo – não que as outras não haviam percebido. Todos se dirigiram para a sala, enquanto ainda era cedo, sentando-se nos sofás e poltronas – alguns até mesmo no tapete felpudo –, mas as crianças, incluindo os gêmeos, subiram para não só ver Olívia e os trigêmeos, como ver Felicity – apenas os bebês haviam ficado com os adultos, que haviam os colocado no cercadinho que havia ali perto, montado pelo tio Roy a meses atrás.
Tommy estava preocupado, não imaginou que encontraria o amigo tão destruído depois de quase uma semana sem vê-lo; esteve ocupado, e surpreendentemente, os outros também. Helena, ao contrário dos outros, estava presente todos os dias; havia se mudado com o marido e a filha para o mesmo condomínio da família Queen, na intenção de facilitar sua ida até a casa deles, para a amamentação de Olívia; a casa deles ficava em frente a dos amigos. O Merlyn sabia que não deveria estar sendo fácil cuidar de Felicity, dos gêmeos e de quatro bebês, sendo que um deles, tinha apenas dois meses e meio, mas mesmo assim, não esperava encontrar seu irmão de alma daquela forma, tão abatido e extremamente cansado. Roy, Barry e Ray pensavam o mesmo e se preocupavam tanto quanto os outros.
Oliver não estava se sentindo só cansado fisicamente. Sua cabeça não parava de trabalhar, ele mal conseguia dormir, principalmente por conta dos pesadelos da esposa, mas ele não reclamava, nunca, porque sabia que para ela era muito mais difícil; era ela que se lembrava dos tormentos que sentiu na pele, era ela que não conseguia se esquecer do que passou, era ela que tinha que conviver com os abusos que sofreu. Apesar de ter ajuda com os trigêmeos, ele já não sabia o que era dormir seis horas seguidas, principalmente por causa de Olívia, que era a caçula. Ele tinha a sorte de Helena e Michael passarem a noite ali, para ajudá-lo com a sua filha menor. Naquele dia, eles haviam precisado levar a filha na vacinação e por isso ele estava dando o leite Nan que a pediatra havia o instruído a comprar.
— Eu estou preocupado com você. – Oliver olhou para Tommy.
— Eu estou bem. Apesar de não dormir muito bem, estou bem.
— Você precisa descansar.
— Com três bebês de quase um ano e meio e outra de quase três meses em casa? É meio difícil, Laurel.
— Eu sei, mas eu e as meninas podemos ajudar. – As outras assentiram no instante em que a Merlyn as olhou. – Ficamos com os bebês e você dorme um pouco.
— E eu posso dormir aqui hoje. – Thea completa.
— Felicity não pode ficar sozinha. – E eles entenderam o que ele queria dizer; a loira não ficava sem que um homem de sua confiança esteja presente.
— Ela tem a mim. – Roy retruca. – Sou o irmão dela e ela vai adorar ter minha companhia.
— E nós podemos revezar. – Barry diz, tendo o apoio dos outros. – Se não dormir pelo menos um pouco, vai adoecer.
— Ele é teimoso, não vai aceitar. – Thea bufa.
— Deixa isso para amanhã, hoje eu prometi ver um filme com os gêmeos. – Os outros se olharam, e a Queen mais nova diz um: eu não disse? – Eu não vou faltar com a minha palavra. – Se explicou.
— Você não vai conseguir assistir filme algum, se tiver com o sono atrasado. – Tommy retruca. – Eles vão entender se explicar.
— Ele está certo. – Ray diz. – Não precisa nem mesmo sair do condomínio. – O amigo franziu o cenho. – Falamos com Michael.
— E foi ele quem fofocou sobre eu não estar dormindo bem. – Murmura para os amigos, suspirando em seguida, não tão surpreso por aquele fato.
— Não foi realmente uma surpresa ouvirmos isso dele. – Caitlin dá de ombros.
— Por favor, Ollie, aceite logo. Ele disse que a chave da casa está na mesa de cabeceira do quarto no qual você disponibilizou para ele e Helena. Pegue-a, agora, e vá descansar. – Ele suspirou no momento em que Sara terminou de dar sua ordem.
— Okay. Mas não agora.
— Oliver.
— Eu vou depois do almoço, eu prometo. – Interrompe Laurel, Caitlin e Sara.
— Mudando de assunto, já que ele não vai descansar agora... – Thea se pronuncia pouco tempo depois. – Eles já sabem sobre os padrinhos da Olívia?
— Escolheu padrinhos para a Liv? – Sara se pronuncia, completamente surpresa, olhando para o amigo.
— Eu nem sabia que havia decidido lhe dar padrinhos. – Tommy completa.
— Roy me deu a ideia quando estávamos no hospital.
— Então você falou com ela?
— Ela? Ela quem? – Caitlin, Laurel e Sara perguntam juntas, curiosas.
— Helena. – Os outros o olharam completamente surpresos. – E Michael.
— Eu achei que seriam os padrinhos perfeitos para a minha sobrinha, afinal, a mulher está amamentando-a. – Roy se explicou.
— Além de que, ela se colocou em risco quando estava grávida, para procurar pela Lis. – Thea completa, e os outros não puderam deixar de concordar.
— Eu acho que escolheu muito bem. – Sara diz sorrindo. – Helena é outra pessoa, nós demos uma segunda chance a ela e ela está usando-a muito bem.
— E ela aceitou? – Tommy perguntou.
— Sim. Ambos aceitaram.
— Então Olívia Megan Smoak–Queen agora tem padrinhos. – Laurel diz sorrindo. – Vai ser bom ela ter a presença de Helena na vida dela.
— Oh, meu Deus, o mundo está acabando. – Thea riu ao ouvir Sara e Laurel revirou os olhos.
— Eu estou com medo agora, Laurel. – Caitlin diz rindo.
— Ela mudou, eu tenho que admitir. – Deu de ombros. – Mas..., isso não quer dizer que seremos melhores amigas.
— Claro que não, nem havíamos pensado em tal possibilidade. – Surpreendentemente todos conseguem dizer juntos, incluindo Oliver.
**--** **--**
Por mais que estivesse completamente inerte, Felicity ouviu quando o marido entrou no quarto, percebeu sua aproximação, sentiu quando ele se sentou ao seu lado e o ouviu quando ele perguntou se ela se incomodaria com a presença de Sara, Laurel e Caitlin. Negou, depois de alguns minutos pensando, olhando para o nada. Seus olhos se encontraram com os dele, quando respondeu. Toda vez que seus olhos verdes se encontravam com os azuis, ela se perguntava até quando ele conseguiria suportar viver ao lado de uma pessoa completamente depressiva e vazia. Ele sempre dizia que a amava, sempre a lembrava: na saúde e na doença, meu amor, e a cada dia se apaixonava mais por ele, e mesmo assim, não conseguia sair do estado de torpor, de desânimo, de apatia. Era muito mais forte que ela, para sua completa tristeza.
Por um momento, pensando no quanto estava sendo injusta ao se afastar dele, mesmo que inconscientemente, ela percebeu que ele havia lhe dado um sorriso e dito algo que ela não conseguiu interpretar, por estar mais preocupada com o que estava fazendo com a vida deles. Oliver não merecia estar casado com alguém que estava completamente quebrada; era assim que ela se sentia. Não merecia ser afastado pela mulher que amava, não merecia passar por toda aquela situação complicada, angustiante, cansativa, não quando ele já havia passado por tantas outras coisas, inclusive, a descoberta de que a mãe era uma criminosa. E mesmo que Felicity quisesse muito mudar, voltar a ser a mulher que era antes, animada, alegre, elétrica, que enchia a casa com suas gargalhadas junto dos filhos, que a ajudava em animação, com as brincadeiras, entre elas as guerras de comida, a loira não conseguia, não tinha forças.
Felicity nem percebeu quando pegou na mão direita do marido, ao perceber que ele se levantaria para chamar suas amigas. Foi instantâneo, mas mesmo depois de perceber, ela não recuou. Apertou a mão dele, sentindo o peito apertar por outro motivo dessa vez. Estava tão machucada, que não percebia que estava também, machucando o homem que tanto amava, o homem que havia sido sua salvação. Ele havia feito tudo por ela, colocou até mesmo a própria mãe atrás das grades, e esse era um motivo forte que lhe dizia o tempo todo – naquele momento mais que nunca – que o marido não merecia nenhum desinteresse vindo de sua parte. Oliver era a pessoa mais maravilhosa que já conheceu em toda sua vida, ele merecia tudo de si. Por isso ela estava decidida, naquele momento, a esquecer suas dores.
— O que foi? – O ouviu perguntar, fazendo-a balançar a cabeça e se concentrar apenas nele.
— Me desculpa. – Ele franziu o cenho. – Eu tenho estado tão desinteressada com tudo, ultimamente, que me esqueço de você.
— Tudo bem. – Usou a mão livre para tocar-lhe o rosto. – Eu entendo você, não precisa se preocupar comigo.
— Você não tem dormido bem, por minha culpa.
— Você não tem culpa alguma. – Retrucou de imediato. – Felicity, nesse momento, só precisa pensar na sua saúde, em mais nada.
— Eu me sinto a pior esposa do mundo.
— Não mesmo. – Balançou a cabeça. – E só por mostrar estar preocupada comigo, em um momento tão sensível em que se encontra, eu vejo que você não é, nunca foi e nunca vai ser, independentemente da situação.
— Não entendo como pode amar alguém que mais parece uma casca de ovo vazia.
— Não fala assim, por favor. – Ele pede, quase desesperado. – Isso não é verdade. Você passou por uma situação traumática. – Ele sentiu o corpo dela estremecer. – Não vamos falar disso, só o que precisa saber é que eu te amo, e estarei aqui pelo tempo que precisar. E se eu precisar lhe dizer isso todos os dias para que você se convença, então eu direi. – Ela o abraçou pelos ombros, sentindo as mãos dele em volta de sua cintura.
— Eu te amo também. – Sussurrou com a voz embargada, fazendo-o apertá-la mais em seus braços.
— Eu tenho uma surpresa para você. – Ela se afastou, devagar, mas de imediato.
— Surpresa? – Ele sorriu.
— Pode entrar. – Ela desviou os olhos para a porta, encontrando os olhos claros de alguém que ela não via desde muito antes de ser sequestrada.
— Eu espero que não tenha se esquecido de mim.
— Kara. – Sussurrou. Oliver se levantou, saindo pela porta e deixando-as sozinhas. – Você está aqui.
— É claro que estou. – Caminhou até onde a amiga estava. – Eu nunca poderia deixar de vir ver minha melhor amiga.
— Você está bem. – Olhou pelo corpo dela, pegando em são mão, trazendo-a para mais perto, fazendo com que a loira se sentasse na cama.
— Estou ótima. – Sorriu. – Eu não vim antes porque a médica precisava me liberar, mas Mon-el ligava sempre para saber de você.
— Mesmo sabendo que estava bem... – Sua voz embargou. – Eu precisava te ver para ter certeza. – Kara limpou a lágrima que descia pelo rosto pálido. – Me desculpe. Me desculpe pelo que houve. Foi minha culpa estar em coma, minha culpa fazer seus filhos passarem por tal sofrimento... – Soluçou, sem conseguir se conter. – Minha culpa de Mon-el ter vivido um verdadeiro inferno.
— Nenhum de nós culpamos você. – Colocou ambas as mãos em seu rosto. – Nem eu, nem meu marido e muito menos a minha irmã. Felicity, eu quem deveria estar me sentindo assim... – A outra balançou a cabeça. – Você estava indo me ver quando... – Se interrompeu, decidida a não continuar.
— Eu estava me sentindo tão culpada.
— Não precisa mais. Eu não a culpo, ninguém a culpa. – Felicity assentiu, mesmo que as lágrimas continuassem a descer. – Eu estava morrendo de saudades, sabia?
— Eu também. – A voz saiu embargada mais uma vez. – Todos os dias. – Diz, abraçando-a. – Eu não conseguia deixar de pensar em você em coma, e depois, pensar se você estava realmente bem. – Apertou as mãos em volta dos ombros da amiga. – Pensava se não estaria me odiando, ou Mon-el.
— Nunca. – Se afastou da amiga. – Isso nunca aconteceria. – Ela assentiu devagar. – Você é minha melhor amiga, e quando eu disse que podia contar comigo sempre..., era muito sério. – Felicity a olhou de forma agradecida, com um meio sorriso nos lábios. – Além disso, eu sou a madrinha dos gêmeos. – Felicity não conseguiu conter o sorriso. – Mesmo que você tenha me dado essa honra, quando eles já tinham sete.
— Deveria ter feito isso no momento em que a conheci. – Apertou as mãos da outra loira. – Você e Mon-el fazem parte da minha vida, da minha família.
— E faremos mais ainda.
— Como assim? – Franziu o cenho.
— Eu e Mon-el estamos nos mudando para Star-City. – Felicity arregalou os olhos. – E estaremos morando nesse mesmo condomínio em alguns dias.
— Vocês estão... – Se interrompeu. – Vão deixar sua irmã sozinha?
— Ela está casada, Lis. Se casou a poucos dias, sabendo da minha decisão e me apoiou. – Sorriu, jogando a cabeça para o lado direito. – Lis, quando eu estava precisando, você foi até mim, queria estar a apoiar meu marido e meus filhos naquele momento difícil, queria estar ao meu lado, mesmo que por poucos dias. Agora é a minha vez. – Felicity voltou a ter os olhos lacrimejados, de emoção. – Você precisa de mim e eu decido cuidar de você pelo tempo que precisar. – No instante seguinte, ela estava sendo abraçada pela Queen, completamente emocionada, agradecida e chorosa.
— Obrigada, Kara.
**--** **--**
A respiração descompassada indicava que ela não estava tendo um bom sonho. Seu corpo mexia de um lado para o outro, em desespero. Oliver, que dormia ao lado dela, não havia percebido o sonho agitado da esposa, e só não havia acontecido ainda porque os gritos ainda não haviam começado. Mais uma vez ela estava se lembrando do inferno que viveu, se lembrando de todo o tormento que passou nas mãos de Cooper, como se fosse um filme rodando e rodando em sua mente; as bofetadas, os abusos, a voz grossa e totalmente desequilibrada. O corpo dela se mexia freneticamente, de um lado para o outro, em completo desespero, enquanto passava tudo que passou com aquele homem em sua mente.
Oliver se assustou quando a esposa começou a murmurar "não" várias vezes, se colocando sentado sobre a grande cama boxer, e só percebeu que ela estava tendo mais um pesadelo naquela noite – que mal havia começado, vale ressaltar – quando ouviu um "não me toque", em um tom extremamente alto e desesperado. Ele trincou os dentes, odiando ainda mais aquele homem. Sua vontade era de voltar no tempo, para poder torturá-lo por mais algumas horas, era o que ele merecia. Não demorou muito para ela começar a gritar, esbravejar e empurrar sua mão, quando tentou tocá-la para poder acordá-la e consequentemente tranquilizá-la, afinal, ela estava no lugar mais seguro do mundo, em seus braços.
— Meu amor.
— Não, não, não.
— Felicity, acorde. – Ela continuou a esbravejar em aflição, enquanto se mexia na cama. – Felicity.
— Não! – Grita desesperada, quase ao mesmo tempo que o marido a chama pela terceira vez. Ele a abraçou, tentando acalma-la. Ela chorava angustiada.
— Calma, baby. Eu estou aqui. Estou aqui, amor, com você.
— Oliver. – Diz soluçando.
— Está tudo bem.
— Não, não está. – Diz chorando, se afastando para olhar nos olhos azuis. – Eu não aguento mais. Não aguento mais esses pesadelos infernais.
— Querida...
— E tudo só piora com..., a criança que está no quarto ao lado.
— Por favor, não fala assim.
— Não consigo suportar o fato de ela está aqui, na nossa casa. – Coloca ambas as mãos no rosto. – Não consigo amar essa criança. E eu não sei se um dia conseguirei amá-la. – A voz ficou abafada por conta da mão.
— Eu sei disso. – Murmurou, sem deixar de acariciar os cabelos e as costas dela. – Está tudo bem, fica calma. – Ela o olha, em desespero.
— Não me odeie, por favor.
— Eu já disse... – Segurou seu rosto com ambas as mãos. – Eu nunca vou te odiar. Eu te amo, Felicity.
— Eu tenho medo de você perceber que estou sendo um monstro por odiar aquela menina. – Ele balançou a cabeça. – Eu juro que eu sei que ela não tem culpa, mas não consigo parar de pensar..., que ela tem o mesmo sangue daquele maldito.
— Ela também tem o seu sangue.
— Mas ela é filha do homem que destruiu a minha vida.
— A nossa vida é ótima. – Retrucou. – Sim, ele tentou te afastar de mim, ele fez coisas horríveis com você..., te sequestrou... – Pegou no rosto dela com ambas as mãos. – Mas, meu amor, nós podemos ser felizes agora. Sem ninguém para atrapalhar. Sem o maldito para te fazer ter medo a cada segundo...
— Eu ainda tenho pesadelos.
— Eles vão parar, você vai superar. E sobre a Liv..., eu posso ama-la por nós dois.
— Eu realmente não entendo como você consegue fazer isso. – Ele sorriu.
— A resposta é simples: ela é igualzinha a mulher por quem me apaixonei a quase dez anos atrás. – Ela não pôde deixar de sorrir, mesmo que fraco. – Ela é linda, perfeitinha como a mãe dela..., e me escolheu para ser seu pai, então sim, baby, eu a amo. E vou sempre amar. Do mesmo jeito que eu sempre vou amar você.
— Eu também te amo.
— Vamos dormir. – A puxou para voltarem a se deitar, com ela sobre o corpo dele. – Eu vou cuidar do seu sono, e por isso..., não precisa ter medo. – Diz, beijando os cabelos loiros.
**--**
Helena ainda se impressionava com o amor de Oliver para com Olívia, mas não era de forma ruim, na verdade, ela por muitas vezes ficava observando a interação dele com a garotinha. Ela se perguntava qual homem faria o mesmo que ele; ser o pai de uma criança na qual foi gerada por vários abusos que a própria esposa sofreu. Ela sempre soube que ele era um homem de caráter, com princípios, mas nunca passou por sua mente que ele faria tal coisa. Era impossível não se admirar com um gesto tão lindo como aquele. Da mesma forma que ele tratava os filhos de sangue, ele tratava a bebê que naquele momento estava em seus braços. Por mais que estivesse cansado, por mais que tivesse outras coisas para fazer, ele sempre tirava um tempinho para ficar com a filha que ele adotou como sua.
Com os olhos presos na cena a frente dela, Helena continuou onde estava, apoiada no batente da porta do quarto feito para a garotinha; havia deixado o marido no quarto deles com May, a filha deles, para poder amamentar a afilhada. Oliver estava com o corpo jogado em uma poltrona branca, com Olívia nos braços, brincando com a garotinha de apenas quatro meses. Mesmo pequena, ela era bastante inteligente, sempre sabia quando falavam com ela, e sempre reconhecia uma voz conhecida, em especial a do pai, dos irmãos e claro, dos padrinhos, que passavam a maior parte do dia com ela. A morena se impressionava com o tanto que Olívia se parecia com a mãe. E então, ela imaginava que esse era um dos motivos mais fortes que faziam Oliver amar aquela garotinha; ela tinha os traços, a cor dos olhos e a cor dos cabelos naturais da mulher que ele amava.
— Oliver. – Resolveu se pronunciar, ao ouvir um resmungo vindo da bebê.
— Lena. – Se colocou sentado no mesmo instante. – Está aí a muito tempo?
— O suficiente para observar vocês dois. – Ele balançou a cabeça. – Ainda me impressiono com o carinho, a doçura, o amor que demonstra e sente por ela.
— Não é a primeira pessoa a me dizer isso. – Murmurou, desviando os olhos para a filha. – Nem eu me imaginava dessa forma para com ela, mas...
— Foi impossível não se encantar, eu entendo. – Se aproximou, quando o amigo fez menção de se levantar da poltrona. – Por que não aproveita que estarei com ela e os gêmeos estão cochilando, para você fazer o mesmo?
— Eu vou fazê-la dormir.
— Ela vai dormir antes de terminar de mamar, Ollie. – Sorriu.
— Mesmo assim..., só mais alguns minutos e então eu vou fazer como sugeriu, prometo.
— É melhor mesmo, ou vou contar tudo para os seus amigos. – O outro revirou os olhos e ela riu. – Eles se preocupam, e me pediram para cuidar de você, então...
— Tommy e Sara te pediram isso. – Não era uma pergunta e por isso ela não se deu ao trabalho de responder.
— Me dê ela. – Oliver a passou, com calma e cuidado. – Obrigada. – Agradeceu quando ele a ajudou a se sentar na poltrona, já que ela segurava a desesperada garotinha, que já sabia o que a madrinha lhe daria. Oliver puxou um banco com o mesmo material da poltrona, com a diferença de que a cor era rosa-taffy. – Ai. – Oliver desviou os olhos de sua garotinha para a amiga.
— Está bem?
— Estou. – Ele assentiu, voltando a olhar para a filha, encostando o corpo no braço da poltrona de forma que sua cabeça pudesse ficar deitada perto do ombro de Helena. – Por que não se deita na outra poltrona? A Liv vai demorar um pouquinho aqui, eu te passo ela quando terminar.
— Estou bem.
— Você é tão teimoso. Vai acabar com a sua coluna desse jeito.
Oliver, percebendo que ela não deixaria de repreendê-lo, se levantou e seguiu para a poltrona cama-de-solteiro de veludo cinza que ficava perto do berço no tema nuvenzinha em branco, rosa e cinza, de forma que pudesse observar a mulher e a bebê. Deitou a cabeça no travesseiro em conjunto da poltrona, colocou uma das mãos abaixo dela, sendo que a outra estava sobre a barriga. Helena tocava o rostinho, a mão, que estava sobre o seio, perto da boca, as perninhas gordinhas, fazendo esse mesmo trajeto várias vezes de forma leve. O pai da criança percebia o carinho da mulher para com ela, o que para ele ainda era impressionante ver; Helena nunca foi muito chegada a crianças, mas desde que ficou grávida, isso havia mudado completamente.
Seus olhos pesavam, mas ele se negava a adormecer. Queria passar mais alguns minutos com Olívia, já que naquele dia ele mal havia visto a pequena por conta dos pesadelos constantes da esposa e da promessa de levar os gêmeos ao parque do shopping; quase não saía com eles, por conta da situação em que a mãe deles se encontrava, mas como Roy e Michael se prontificaram em ficar com ela, ele achou que era hora de cumprir o que havia prometido. Normalmente, ele passava o dia com a Olívia, a tarde com os filhos – e de vez enquando a esposa se juntava a eles – e a noite com Felicity, mas naquele dia foi diferente; os filhos não tiveram aula e por isso a decisão de passarem o dia no parque do shopping junto de seus primos, sendo acompanhados por seus pais.
Sua atenção se focou na filha. Não sabia por quanto tempo ela estava mamando, mas imaginou que havia se passado meia-hora; não tinha certeza. Seus olhos se fecharam, mas ele insistiu em abri-los, mesmo que devagar, por conta do demasiado sono. Helena havia percebido isso, apesar de estar olhando para a linda moreninha em seus braços, que já estava adormecida, por mais que chupasse seu seio com força, fazendo-a franzir o cenho por conta da dor, de vez enquando. Quando a pequena finalmente parou, ela desviou os olhos para Oliver e o encontrou completamente adormecido. Não o acordaria, apenas o deixaria com a pequena no quarto, foi o pensamento dela, enquanto se levantava. Colocou Olívia ao lado do pai, pegou uma manta branca com detalhes em roxo dentro do berço e jogou sobre os dois, sendo que havia pego menos da metade do corpo do Queen. Apagou a luz quando chegou a porta e a fechou de forma que não fizesse um som que pudesse acordá-los. Seus olhos captaram uma última coisa antes de sair; o braço direito de Oliver passou pelo corpinho da filha, em modo de proteção, chegando o próprio corpo – agora de lado – para mais perto da menina.
**--** **--**
Felicity estava no quarto com seus bebês lindos e fofos, quando a porta se abriu. Ela se enganou completamente ao pensar que era seu marido. Os gêmeos entraram com uma bandeja e soube imediatamente que Oliver havia mandado os filhos trazerem seu jantar. Eles contaram sobre o dia deles no parque, sobre Lyon e Killian estarem preocupados com ela e quantas vezes Kitty, Niki e Mabel perguntaram sobre a dinda. Ela se sentia bem em saber que seus sobrinhos se preocupavam com ela e que sentiam sua falta. Ela os via todo final de semana desde que as aulas voltaram, mas não era o mesmo de vê-los todos os dias; eles sentiam mais saudades ainda e ela se sentia da mesma forma.
Os gêmeos tentavam distrair a mãe, do sentimento de medo, angustia e por vezes, de desespero, que ela ainda sentia. Apesar de ninguém dizer, eles sabiam dos pesadelos dela, afinal, os ouvia vez ou outra, ela gritar. Havia algo que eles queriam perguntar a mãe, mas não tinham coragem, por dois motivos; primeiro porque não queria deixar a mãe mais angustiada e segundo porque o pai pediu para que não falassem sobre tal assunto com ela. Os dois passavam a tarde com ela e os trigêmeos, mas Liv nunca estava presente. O pai havia dito que a mãe deles não conseguia se aproximar da irmãzinha deles, que ela não conseguia amar a pequena, por causa dos pesadelos, e ele só tinha lhes contado a verdade, porque pediram para que o pai não mentisse e nem escondesse nada deles.
— Mamãe. – Olhou para o filho, que estava sério. – Posso fazer uma pergunta?
— Claro, querido.
— Você não gosta da Liv, por que ela é filha daquele homem... – Felicity se surpreendeu com o comentário. – Mas o papai disse que ela não tem culpa, então..., quem está certo? – Felicity suspirou.
— O papai disse que eu e o Bry não deve odiar ela. – Brooke completou.
— Eu não consigo amar a irmã de vocês porquê ..., o pai biológico dela me machucou muito. Eu ainda tenho pesadelos. – Decide dizer a verdade.
— Por que a mamãe teve a Liv então?
— Aconteceu, Beev. Não era para acontecer, mas aconteceu. – Suspirou novamente. – Eu não consigo amar a..., irmãzinha de vocês... – Não consegue dizer o nome da bebê. – Mas vocês podem amá-la.
— Mesmo ela sendo filha daquele homem?
— Ela não pediu para ter ele como pai. – Diz o que sempre tentava lhe convencer. – O pai de vocês a ama..., tanto quanto ama vocês dois, e vocês devem fazer o mesmo.
— Não vai ficar chateada?
— Claro que não. Eu não posso cuidar dela..., eu não posso amá-la, eu não posso ter ela por perto então... – Respirou fundo. – Ajudem seu pai a cuidar dela. Deem o amor que eu não consigo dar. Continuem sendo carinhosos e cuidadosos com ela, da mesma forma que são com os trigêmeos. – Olhou para os bebês que dormiam em sua frente. – Sejam os irmãos mais velhos dela.
— Mamãe, nós te amamos, e eu tenho certeza de que a Liv vai entender quando crescer.
— Eu espero que estejam certos. – Sussurrou, ao ouvir a filha, que tinha o irmão em apoio.
— O papai vai ser para ela, o que a senhora foi pra mim e a Beev quando ele esteve longe.
— O pai e a mãe dela. – Completou depois do irmão.
— Tenho certeza de que vai ficar tudo bem, mamãe. A senhora vai ficar bem..., e nossa família vai ser como era antes.
— Não se preocupe, mamãe, eu e o Bry vai cuidar para que a Liv nunca odeie você.
Felicity não conseguiu responder. Ela merecia o ódio da filha. Ela mesma a repudiava, porque a garotinha não faria o mesmo? Não conseguia controlar o repúdio quando a via, pelo simples fato de que sempre se lembrava dos momentos agoniantes que passou com o pai dela. A loira não achava que um dia aquele ranço passaria, mesmo com tudo que passou, estava sendo injusta.
Iria ela para o inferno por repudiar um bebê inocente? Ela tinha certeza de que sim. Mas o que poderia fazer? Não conseguia mudar de atitude, não conseguia deixar de pensar e muito menos agir de forma diferente. Aquele sentimento ruim, era tão forte, que ela não conseguia conter os pensamentos de que queria que aquela criança estivesse morta;e isso era tão pesado, que ela mesma se recriminava. Era errado, mas mesmo assim, mais forte que ela.
Fale com o autor