Notas iniciais
E como prometido, aqui estou, com o último capítulo dessa incrível história. Quem está chorando comigo? É sério, eu estou, foi uma história muito importante para mim, me ajudou com meus problemas pessoais, me ajudou a superar várias coisas que aconteciam comigo na época em que comecei a escrevê-la, inclusive a depressão que me abateu por tanto tempo. E por ter sido uma história tão importante na minha vida, eu sentirei falta. E vocês? Também sentirão? Bom, eu não quero fazer um texto aqui, deixarei para fazê-lo – junto aos agradecimentos –, nas Notas Finais. Preparados para um final cheio de emoções? Boa Leitura, meus lindos!

Três Anos Depois

Oliver ouvia o som de passos vindo do primeiro andar. Como sempre, as crianças haviam acordado cedo. Muito cedo. Os gêmeos sempre ficavam com os pequenos até que os pais acordassem, nesse caso, Oliver, que era quem ficava com eles durante aquela parte da manhã. Apesar de a esposa passar parte do dia com os trigêmeos, ela continuava reclusa em seu quarto, e quando ficava na sala, vendo TV com eles, era a hora em que Olívia está com o pai, o que não era tão raro, pois a pequena nunca o deixava sair sem ela.

Ouviu sua filha menor pedir para ir brincar lá fora, e em seguida, Bryan respondeu que deixaria depois do café-da-manhã. Ele e Brooke foram de grande ajuda nesses anos que se passaram. Principalmente com Olívia, que começou a ficar confusa com o fato de quase nunca ver a mãe. Como prometeram, eles não deixaram que a irmã sentisse raiva da mãe deles, e explicaram de um modo que ela pudesse compreender, que a mãe estava doente. Foi a primeira e única vez que a menina perguntou por Felicity; aos dois anos, quando não a viu em seu aniversário, depois disso, não tiveram mais perguntas, questionamentos, nem mesmo pedidos para vê-la.

Oliver sempre se perguntou se a filha tinha medo da mãe. Ou se sua pequena se sentia incomodada com ela, pois nunca ficava no mesmo cômodo que sua esposa. Felicity fazia questão de que isso acontecesse. Os trigêmeos sim, eram problema, porque eles perguntavam o tempo todo sobre o porquê de a mãe não brincar com a irmãzinha, contar histórias ou colocá-la para dormir. Era complicado tentar explicar a três crianças de quatro anos, que tinha a inteligência da mãe, mas depois de um tempo, ouvindo a explicação – sem que fosse a verdadeira –, Oliver enfim pôde ficar aliviado, pois os filhos deixaram de perguntar – ele, os amigos e os gêmeos haviam contado uma meia verdade, e mesmo que tenha demorado, os trigêmeos se aquietaram.

Chegou à sala, e encontrou os filhos todos em volta da mesa. Olívia, Kyle, Kallie e Katie – nessa ordem – tomavam o adorado leite com achocolatado em um copo de plástico com canudos, cada um de uma cor – suas cores preferidas, vermelho, verde, rosa e lilás, consequentemente –, além de comerem do bolo de laranja que havia feito na tarde anterior. Bryan e Brooke também comiam do bolo, mas diferente dos irmãos, tomavam um suco também feito na tarde anterior, em copos de vidro. Eles se divertiam com a animação dos irmãos menores, mesmo que fosse tão cedo.

— Papai. – Voltou a si, ao ouvir Kallie lhe chamar animadamente. – Bom dia.

— Bom dia, Papai. – Os outros dizem juntos, e mesmo que Olívia estivesse com comida na boca, ela também cumprimentou o pai, trocando "papai" por "dada".

— Bom dia. – Beijou a cabeça de cada um.

— O senhor acordou cedo hoje. – Bryan comenta.

— Sim, eu ouvi vocês.

— Desculpa, pai. – Brooke se desculpou, e Oliver sorriu.

— Tudo bem, querida.

— Dada, leva na piscina hoje?

Oliver fixou o olhar em sua princesinha menor. Apesar de ter apenas três anos, ela falava tão correto que às vezes se surpreendia. Era rara as vezes em que ela falava uma palavra errada, mas nunca a repetia da mesma forma, porque os irmãos, o pai e os tios estavam sempre corrigindo-a. Ele sempre se lembrava da inteligência da esposa quando olhava para as quatro crianças no cômodo, falando mais correto que a maioria dos adultos. E o pai delas não cansava de se sentir orgulhoso.

— Hoje está frio. – Olhou pela única grande janela que havia na cozinha. – Deixa para quando tiver um dia mais ensolarado, querida. – Ela fez um biquinho, que o lembrou muito sua esposa, e por isso sorriu. – Que tal brincarem com a Amora? – Tocou no nome do Rusk Siberiano que seus filhos haviam ganhado de aniversário no ano passado. Caitlin e Barry haviam os presenteado, e eles adoravam a cadelinha.

— Ela nem comeu ainda, dada. – A pequena morena se lembrou.

— A gente pode dá ração pra ela? – Kyle pergunta.

— Por favor, por favor, por favor? – Olívia, Kallie e Katie pedem incansavelmente, fazendo os irmãos mais velhos rirem; era sempre Oliver quem fazia isso, com medo de que se machucassem.

— Tudo bem. – Os quatro se animam mais uma vez, dessa vez, de forma que fizesse Oliver se preocupar, ao vê-los pularem para o chão.

— Cuidado. – Brooke quem diz, com a voz preocupada.

— Não façam mais isso, podem se machucar. – Oliver diz sério, fazendo os menores assentirem, fazendo um som com a boca. – Já terminaram de comer?

— Sim. – Respondem juntos.

— Não querem panqueca doce? – Eles se olharam, e Oliver sorriu mais uma vez naquele dia, pois já sabia da resposta. – Faço calda de chocolate. – Ele viu cada um dos olhos perfeitos e claros de seus filhos brilharem.

— Com muito morango, papai. – Dizem os quatro de uma única vez – sendo que apenas Olívia falou o nome da fruta de forma errada –, fazendo dessa vez, tanto o pai quanto os irmãos, rirem.

Desde que se mudaram para a casa de campo, onde teve muitas lembranças com a Felicity, quando eram jovens, a vida deles era outra. Ele ainda trabalhava, mas ia à empresa com menos frequência, por conta das crianças, em especial Olívia, ainda faziam as reuniões dos amigos semanalmente, mas agora, ao invés de cada semana ser na casa de um deles, era sempre ali, em sua casa, pois a esposa ainda não estava pronta para sair de casa, e agora, nessas reuniões, haviam um casal a mais no grupo, Helena e Michael, mas não só por eles serem os padrinhos de Liv.

Enquanto fazia as panquecas preferidas dos filhos, ele ouvia as risadas, brincadeiras, e conversas atrás de si. Os gêmeos haviam avisado que levaria o café-da-manhã para a mãe, e então ficou apenas ele, os trigêmeos e a filha menor, que já estava lambuzada com a geleia de morango, diferente dos irmãos, mas só porque ainda não haviam tocado nela. Ele se perguntava por quanto tempo eles continuariam limpinhos, porque era sempre a mesma sujeira, toda manhã – não que ele se importava –, e por isso já estava acostumado.

Quando a calda ficou pronta, ele desligou a chama e se virou, para observar os filhos, enquanto a frigideira esquentava novamente, para começar a fazer outra panqueca. Kyle e Katie estavam na ponta, enquanto que as outras duas garotinhas estavam no meio deles. Em cima da mesa, havia um tablet, e nele passava "Rugrats", e era por isso que eles davam aquelas risadas gostosas, que ele não se cansava de ouvir. Se voltou para o fogão, na intenção de terminar o que fazia. Enquanto isso, ele se lembrava dos três anos que se passaram. Nem acreditava que logo a filha mais nova teria quatro anos, e os trigêmeos cinco, pior, que seus filhos mais velhos logo começariam a namorar, e isso lhe dava um gosto amargo na boca. A cada dia, ele via o quão mais próximos Brooke e Lyon estavam, e o mesmo era com Bryan e Kitty. Eles conversavam pelo celular todos os dias, ás vezes usavam a Webcam do notebook para se verem — mesmo que tivesse uma tela os separando -, faziam trabalhos escolares juntos, e quando as duas crianças – que não são mais tão crianças assim – os visitavam, ou vice e versa, eles se grudavam um no outro, aproveitando as horas que tinham para conversar, ou se divertir com o videogame, que Oliver percebeu, não era mais tão requisitado durante os programas dos jovens.

O Queen se voltou para os filhos mais novos, pedindo que o momento deles crianças durasse por mais tempo. Não gostava nem de imaginar eles namorando, para ele só de pensar, era insuportável, afinal, eles sempre seriam seus bebês. Seus olhos se focaram em Olívia, e então se lembrou dos momentos em que teve com ela. Quando pegou no colo, a garotinha que não tinha seu sangue nas veias, ele jamais pensou que poderia sentir um amor tão grandioso por ela. Ele já a amava, desde que ela chutou pela primeira vez, quando estava na barriga da mãe, mas o que ele sentiu quando a pegou, foi tão forte e tão bom quanto aconteceu quando pegou os trigêmeos pela primeira vez. O amor que ele sentia por ela não era menor do que sentia pelos trigêmeos. Ela não tinha seu sangue, mas tinha as características da mulher que amava, e isso já o bastava. A moreninha, de olhos tão belos quanto os da mãe, era meiga, carinhosa, sensível, inteligente – e isso não o surpreendeu –, e tagarela como a mãe, e claro que Oliver não podia se esquecer do modo fofo que ela gesticulava. Era sua filha, sua princesinha, que era tão amada quanto Kyle, Katie e Kallie.

Oliver estava tão pensativo, em meio às lembranças, que nem percebeu que a filha menor já não estava junto aos irmãos; ele só percebeu, quando Liv apareceu em seu campo de visão, em pé, a sua frente, coçando uns dos olhinhos.

— Dada. – Esticou os bracinhos, e ele soube que ela pedia colo. Oliver não demorou a pegá-la.

— Vamos lavar essas mãozinhas? – Abriu a torneira, quando se colocou em frente a ela, e a ajudou a lavar as mãos pequenas e sujas de geleia. Quando começou a enxugar as mãos molhadas da filha, percebeu algo que não havia percebido antes, a temperatura anormal de Olívia. – Estou te achando um pouco quentinha, amor.

— Está frio. – Ela murmurou, apoiando a cabeça no ombro direito do pai. Oliver franziu o cenho. A filha menor quase nunca ficava doente, e ela estar com febre queria dizer que algo estava errado.

— Hum. Vamos tomar um remédio? – A menina colocou a mão na boca imediatamente. – Liv, se você não tomar, vai ficar doente, e o papai vai ficar preocupado..., e sabe o pior? Você vai para o hospital, é isso que quer? – Ele deveria estar colocando medo na filha? Provavelmente não. Mas era o jeito que ele conseguia convencê-la a tomar do remédio, sempre que precisava – o que era bem raro. Ela fez um biquinho fofo.

— Papai, a panqueca. – Kyle gritou, e Oliver se virou para o fogão, desligando a chama. Suspirou ao ver que a panqueca estava preta.

— Ótimo. – Murmurou. – Bom, as que eu fiz deve ser o bastante. – Colocou o prato na mesa, junto da jarra de alumínio, que continha a calda. – O papai te deixa comer depois do remédio, combinado? – Ela deitou a cabeça no ombro dele novamente e assentiu. – E depois, nós vamos dar comida a Amora, tenho certeza de que ela está com muita fome.

— Dada, a Liv melhor já. – Ele quase riu, sabendo que aquela frase tinha sido dita para não ter que tomar o remédio.

— Você vai estar melhor depois do remédio. – A sentou perto da irmã, e caminhou até o armário, na intenção de pegar o remédio.

— Papai, se tomar o remédio direitinho, a Liv pode tomar quatro bolas de sorvete? – Oliver não conseguiu conter a gargalhada. Todos os dias, depois do almoço, ele colocava duas bolas do sorvete preferidos de seus filhos – que eram os mesmos que sua esposa gostava.

— Eu também quero, papai. – Katie e Kallie dizem com a voz normal, mas Kyle, que comia da panqueca doce, disse com a boca cheia, o que fez com que quase não deixasse o pai compreender.

— Podemos fazer um acordo. – Os pequenos fazem um bico, e cruzam os braços. – Além do remédio que vai tomar agora, mocinha, vocês quatro vão arrumar o quarto de vocês hoje, sem ajuda dos seus irmãos.

— Ah, não. – Dizem os quatro, juntos.

— É pegar ou largar.

— Papai, a Beev diz, que isso é chantagem. – Kallie diz, comedida, fazendo o pai rir.

— Vocês vão arrumar ele de qualquer jeito, e você vai tomar o remédio agora, você querendo ou não, então..., querem tomar sorvete, ou querem ajuda dos seus irmãos mais velhos na arrumação do quarto? – Os quatro se olham, e Oliver segura um sorriso, já esperando pela resposta que seria dada pelas vozes dos quatro.

— A gente prefere o sorvete.

— Boa escolha. – Oliver diz, rindo, divertido.

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Três anos haviam se passado desde que teve aquela criança. A garotinha de cabelos negros e olhos tão verdes quanto os seus, a filha que não conseguiu amar, ou lhe dar um nome. Alguém poderia culpa-la por isso? Ela sabia que a menina não tinha culpa alguma, sabia que ela não pediu para ter o pai desgraçado que tinha, mas só de olhar para ela, já revivia todo o tormento que viveu nas mãos daquele homem, e por esse motivo sentia tanto repúdio por ela.

Olívia Smoak–Queen, foi o nome que Oliver deu para ela. Vocês devem estar se perguntando como ele não sentia o mesmo que a mãe da garotinha. Bom, como ele não amaria a cópia perfeita de sua esposa? Ele se apaixonou por Felicity, quando ela era morena, quando ela tinha aquele brilho inocente nos olhos. Oliver viu aquele mesmo brilho, assim que viu aquela garotinha. E inacreditavelmente, ele a amou. Ela podia ter o sangue daquele maldito, mas também tinha o sangue da mulher de quem amava. Liv, foi o apelido que ele escolheu para a filha desde que ela era um bebê, a coisinha mais fofa do mundo. Ela era meiga, carinhosa, muito esperta, e isso Oliver tinha certeza de que ela pegou do gene da mãe.

Infelizmente, desde que nasceu, ela nunca chamou Felicity de mãe, nunca nem mesmo se aproximou da mulher que lhe deu à luz. Oliver se perguntava se ela sentia que a mãe não a amava. Era como se sentisse, como se soubesse, porque a pequena não passava nem perto do quarto do pai, quando a mãe estava lá. Havia dito várias vezes, que a mãe não saía do quarto por estar doente, não era totalmente mentira, afinal, Felicity ainda estava com traumas do que houve. Ainda estava em processo para superá-los. Mesmo assim, ele odiava ter que fazer aquela omissão, principalmente porque ele sabia que era tudo muito confuso para Olívia, Kallie, Katie e Kyle.

Liv não parecia se importar em não ter a mãe por perto. E sua esposa muito menos. Apesar de compreende-la, ele sentia que aquilo não era certo. Liv era filha dela. Havia colocado o nome Olívia porque sua esposa havia lhe dito uma vez que gostaria de uma filha com esse nome, para que combinasse com o nome do pai; e mesmo ele não sendo o pai biológico de Olívia, era assim que ele se sentia. Seu pai. A primeira palavra dela foi "Dada", sempre que ela estava com medo, era por ele que ela chamava, quando se machuca e está chorando, é para os braços dele que ela corria. Agora vocês perguntam: como um homem que viu a esposa ter pesadelos constantes, que ficou semanas longe dela por conta de um sequestro, que a viu ficar doente, tudo por culpa do pai daquela menina, conseguiu não a repudiar? A resposta é simples: criança alguma tem culpa do que os pais fazem. E definitivamente não merecem ser rejeitadas, só por ter sido concebida em um ato de crueldade. Oliver não julgava a esposa, por não conseguir amar a filha, não a pressionava para não a ver ou não ficar um tempo com a menina, ele compreendia o fato de a esposa se manter distante. Foi ela quem passou pelo trauma. Mas isso não quer dizer que Olívia mereça não ser amada. E se sua esposa não conseguia, ele o faria pelos dois.

Felicity observava a pequena criança de cabelos negros correr pelo extenso jardim – nem parecia que estava febril a algumas horas atrás –, ao lado dos irmãos, com Amora atrás deles. Ela e os trigêmeos eram unha e carne, e mesmo sentindo todas aquelas coisas pela menina, nunca a impediu de conviver com os irmãos. Não poderia. Ela merecia ser feliz. Merecia ter pessoas que a ama por perto, e ela sabia, Olívia não tinha culpa alguma. Ela sabia disso, mas mesmo assim não conseguia ser a mãe dela. Ela não viu a "filha" crescer. Ela nunca nem mesmo a viu brincar; aquela era a primeira vez. Enquanto observava sua miniatura correr com os irmãos e a cachorrinha, rindo, brincando, se divertindo como quatro crianças normais, a loira pensava naqueles três anos em que se passaram. Ela não viu as primeiras palavras daquela garotinha, não viu os primeiros passos, os primeiros tombos, não a ouviu dizer "papai", ou nem mesmo dinda e dindo, como ela chamava a madrinha e o padrinho. Ela não esteve nem mesmo quando a menina tinha pesadelos – diferente do que com os trigêmeos. Ela esteve em cada momento deles. Em cada passo dado, em cada palavra dita, em cada tombo e pesadelo que tiveram. Ela esteve lá. E se perguntava se Olívia não sentia sua falta. Mas como sentiria se nunca esteve com ela? Olívia nem mesmo passava perto dela, e Felicity tinha certeza, a menina sabia de seu desconto para com ela. Ela merecia? Claro que não. Mas não conseguiu ser diferente.

Felicity começava a se arrepender. Começava a ver como tinha sido injusta. Como conseguiu odiar alguém que nem mesmo pediu para nascer? Ou pediu para ter o sangue daquele homem nas veias? Ela se viu quando a moreninha inclinou a cabeça e gesticulou, assim como ela mesma fazia quando tinha sua idade. Elas nunca tinham passado mais de alguns minutos uma do lado da outra; se viam apenas nas refeições, que a loira fazia questão de pegar seu prato e voltar para o quarto. Não conseguia ficar mais de cinco segundos ao lado da moreninha que seu tormento voltava, aquelas lembranças horríveis passavam como um filme em sua mente, mas mesmo com tão pouco tempo perto da criança, a Smoak-Queen pôde perceber que ela fazia coisas tão parecidas consigo. Seu marido havia dito que ela tinha a sua beleza, o seu jeitinho delicado, e a sua inteligência. Saber era muito diferente de ver.

De repente Felicity sente seu coração dar um solavanco, e sua respiração ficar descompassada quando vê Olívia cair na piscina. Ela nunca saia pra fora daquela casa, nem mesmo ia até o jardim, sem que o marido esteja, mas naquele dia seria diferente, e não era algo que ela havia planejado.

— Oliver. Oliver. – Ela grita enquanto corre para fora da casa. – Katie, Kallie, Kyle fiquem longe da piscina.

— Mamãe. – Os trigêmeos estavam assustados.

— Não. – Diz desesperada. – Oliver.

Grita mais uma vez, com todas as forças de seus pulmões. Felicity viu quando Olívia parou de se bater, e percebendo que ela estava afogando, pulou na piscina de roupa e tudo, nadando até a garotinha, que afundava. Ela estava tão desesperada que não pensou em mandar os trigêmeos para dentro de casa. Oliver, que havia ouvido os gritos da esposa, ficou extremamente preocupado. Ela não estava no primeiro andar como achou que estava, e quando chegou ao jardim, a viu voltar para a superfície da água com Olívia em um dos braços, inconsciente. Ele se desesperou e correu para a beirada, na intenção de ajudá-la.

— Bryan, tire os trigêmeos daqui. – Ordenou ao filho, que estava ao seu lado.

— Venham – Brooke chamou, mesmo que não conseguisse tirar os olhos da irmãzinha que estava com sua mãe.

Mais a Liv... – Reclamaram os três juntos.

— A Liv vai ficar bem, agora venham comigo. – Bryan ordena, assim como seu pai, enquanto puxava os três para dentro de casa, temeroso com o que poderia acontecer.

— Me dê ela. – Pede, depois de se abaixar perto da piscina. Felicity tossiu algumas vezes depois que o marido já estava com a filha nos braços.

— Ela..., ela está respirando? Eu não senti... – O marido colocou a pequena deitada na grama verde, e aproximou o ouvido da boquinha dela.

— Não estou..., não estou... – Ele não conseguia terminar a frase, por estar chocado.

— Não? – Agora, ambos estavam em volta da menina.

— Liv. – Começou a fazer pressão no peito da filha. – Respira. – Felicity tinha respiração ofegante, e os olhos lacrimejados. – Respira, filha. – Ele pedia várias vezes, de forma desesperada, mas nada de a pequena voltar.

— Respira. Respira, Liv. – Ela pede. E apesar de Oliver ter ficado surpreso pela esposa ter dito o apelido de sua filha, ele não parou com a massagem. – Por favor. Por favor..., me desculpa. – Ela já chorava. – Eu fui uma péssima mãe... eu, te deixei, eu não te dei a mesma atenção que dei aos seus irmãos... – Oliver sentia uma agonia tremenda. Queria abraçar a esposa, e queria que a filha voltasse a respirar. Ela não podia morrer. – Eu prometo que vou mudar, mas, por favor, volta.

— Volta, baby, volta. – Oliver implora. – Vamos, querida..., respire, filha, respire.

— Por favor, meu Deus não a tire de nós. – Como se Deus a escutasse, Olívia começou a tossir fortemente, várias vezes.

— Graças a Deus. – Disseram juntos.

— Eu estou aqui, baby.

O pai a trouxe, de forma delicada, para seus braços, e ela começou a chorar desesperadamente, provavelmente por conta do susto. Felicity, que tinha ambas as mãos apoiadas na grama, abaixou a cabeça enquanto chorava. Oliver a trouxe para perto, abraçando-a, e beijando os cabelos loiros. Estava tudo bem. Olívia estava viva, e sua esposa parecia estar voltando ao que era antes.

**--** **--**

Felicity ficou na porta do quartinho infantil, enquanto o marido enxugava os cabelos e o corpinho recém molhado do banho quente; ela havia trocado de roupa rapidamente depois que entraram para dentro de casa. Depois de alguns minutos abraçados na grama, Oliver achou melhor dar um banho na filha, para não a deixar ficar doente. Sua esposa o seguiu, mas não entrou no quarto, nem por um momento, ficou parada no batente. Pela primeira vez ela olhou para o quarto infantil; as paredes eram brancas com várias bolinhas cor-de-rosa. Na parede da cama, tinha um papel de parede lilás no rumo onde fica a cama, com um desenho pouco mais escuro de uma árvore onde haviam pássaros e dois porta-retratos dela fixados, o papel de parede onde ficava o grande guarda-roupa, no qual ficava do outro lado do quarto, era no mesmo tom dos desenhos do outro papel de parede a cama de carruagem era no mesmo tema, assim como o resto das coisas do quarto, ao lado dele, uma ursa grande e branca com um laço rosa no meio da cabeça, do outro lado, uma cômoda média. Felicity se perguntava de quem a garotinha havia ganhado aquilo.

Em cada um dos três aniversários de Liv, ela foi a única a não comparecer. Oliver sempre alugava um espaço e com a ajuda dos amigos, organizavam a festinha, que era sempre no centro da cidade. E por nunca estar presente na vida da pequena, ela nunca esteve naquele quarto ou mesmo soube dos presentes que ela ganhava, nunca fez questão de saber ou perguntar. Os temas eram escolhidos pelo pai e a festa organizada pelas tias, incluindo a madrinha, ela ouvia os comentários, mas não fazia questão de prestar atenção, até a poucas horas atrás, ela não se importava com nada que era relacionado com Olívia. A loira estava tão dispersa que nem mesmo percebeu quando os filhos passaram por ela, preocupados com a irmãzinha. Os trigêmeos principalmente. Ela piscou algumas vezes ao ouvir as vozes deles.

— Liv, você tá bem? – Reconheceu a voz, sendo de Kyle.

— Uhum. só com friu. – A voz da pequena tremeu e ela acabou falando a primeira e a última palavra de forma errada.

— Papai, tem certeza de que ela está bem?

— A boca dela está azul. – Bryan completa, impressionado e tão preocupado quanto a irmã gêmea.

— Ela ficou muito tempo na água fria, mas ela está bem. – Oliver respondeu aos gêmeos.

— Dada, faischocolate? – A moreninha pede, mesmo que sua voz tenha saído tremida mais uma vez, por conta do frio.

— Eu quero também. – Praticamente grita, depois de ouvir o pedido da irmãzinha.

— Katie, você vai se molhar, filha. – Felicity não via, mas sabia que sua pequena tinha entrado no box.

— Liv, doendo?

— Não, Lili. – Responde, olhando para o roxo que estava no braço, por conta da queda.

Felicity só sabia que a moreninha respondia Kallie, por conta do apelido que a pequena havia dado a irmã. Lili, era como ela chamava sua Lady, Kat, era como ela chamava sua boxeadora e Ky, era como ela chama Kyle, já que quando menor, não conseguia dizer o nome dos irmãos de forma correta. Seus filhos, depois de crescidos, souberam sobre os apelidos que os pais e os irmãos mais velhos haviam lhes dado. Era uma história que os gêmeos haviam contado a eles. E os pequenos adoravam. Apesar de os três não terem tantas coisas em comum, eles estavam sempre unidos. Um cuidava do outro, e eles eram dessa mesma forma com Liv. Onde um ia, os outros também iam, o que um fazia, os outros também faziam, com exceção dos dias em que os trigêmeos ficavam com a mãe e Olívia saía com o pai.

Felicity se lembrava bem da primeira vez que os viu em meio a gargalhadas, dentro de um banheiro que estava com bolhas até quase o teto. Ela ficou mais surpresa que preocupada, diferente de seu marido, que praticamente surtou, pensando no que poderia ter acontecido caso não tivessem aparecido. Isso havia acontecido a poucos dias atrás. Ela se lembrava bem de que Oliver nunca os deixava sozinhos pelo simples fato de que sempre aprontavam, e era sempre os quatro juntos. Não havia um momento que tinha um deles de fora da "diversão".

— Okay. Enquanto eu troco a irmã de vocês, me esperem na sala.

— Ah, não.

— Ouçam o papai. – Bryan diz com a voz séria. Felicity não pôde deixar de sorrir, ele era tão parecido com Oliver.

— Deixa eles aqui, dada.

— Você os verá daqui a pouco. – Olhou para os gêmeos, que assentiram juntos.

— Vamos, pestinhas.

— Pestinhas não. – Emburraram, mas deixaram os irmãos os levarem.

— Mamãe, não vai entrar? – Brooke pergunta, ao ver a mãe ainda no batente da porta.

— Não, querida. – Sorriu fraco.

— Mãe, você está bem? – Ela ficou emocionada com a preocupação dos filhos, apesar de ser Bryan quem havia feito aquela pergunta.

— Fiquem de olho neles, okay?

— Pode deixar. – Dizem juntos.

— Mamãe, lembra o papai do chocolate? – Katie pede.

— E do cookie também. – Kallie completa, depois da irmã.

— Claro, meus amores, eu prometo.

— Mamãe, pode comer bolo?

— Espera o papai fazer o chocolate quente, está bem? – Kyle assentiu. – Daqui a pouco ele desce, enquanto isso obedeçam a seus irmãos.

— Tá. – Respondem juntos.

Felicity beijou a bochecha dos três e os viu se afastarem, correndo, com os irmãos mais velhos atrás. Oliver saiu do banheiro com a filha enrolada na toalha de coelhinha, com toquinha, que tampava sua cabeça. Ao entrar no quarto, percebeu a esposa ainda no mesmo lugar de antes, e então por um momento, ele imaginou o que ela poderia estar pensando. Ela e Liv nunca tiveram contato, a pequena nem mesmo se aproximava da mãe, e sua loira não queria impor sua presença a filha. Filha. Era a primeira vez que ele poderia dizer que sua Liv era filha de sua esposa, sabendo que ela estava sentindo esse tipo de sentimento. Amor, carinho, compaixão. Ela havia se preocupado com Liv, no momento em que percebeu que estava perdendo-a. Se perguntava se isso tinha sido o "estalar de dedos" que sua esposa precisava, para voltar a ser ela.

Oliver uma vez ouviu: "Deus às vezes deixa acontecer algumas coisas em nossa vida, para ver se abrirmos os olhos." Será que tinha sido isso? Será que Deus deixou que Liv enfrentasse aquele susto, para que Felicity abrisse os olhos realmente e enxergasse o que estava fazendo? Enxergasse o que estava perdendo? Ele acreditava nisso. Acreditava que o que aconteceu com sua filha, era uma forma de Deus fazer sua esposa voltar daquela dor interminável que ela estava sentindo, e ver que estava culpando, odiando, desprezando e abominando um ser inocente, e que não merecia nada além de amor.

Olívia estremeceu e o pai passou as mãos em seus braços com rapidez, para cima e para baixo várias vezes, por cima da toalha, na intenção de esquentá-la um pouco. Felicity percebeu que ele precisava de ajuda, e mesmo que tivesse pensado duas, três vezes antes de realmente fazer o que estava pensando, ela caminhou até a cômoda e pegou uma calcinha de babadinho amarela, e um conjunto de moletom na mesma cor com o desenho de um coelho estampado no centro da blusa de mangas. Entregou para o marido, que não havia nem mesmo percebido que ela havia entrado no quarto, e fez menção de sair.

— Não. Fica aqui. – Pede, cauteloso. – Você pode fazer isso, ou não?

— Mas Oliver... – Olhou para a menina que havia grudado as mãozinhas no braço do pai. Ele achava que aquela seria uma ótima oportunidade para que as duas estivessem sozinhas, e que pudessem ter um momento de mãe e filha, finalmente.

— Você consegue fazer isso? – Ele precisava de uma resposta, para poder deixá-las sozinhas, não queria forçá-la a fazer algo que não queria. Seus olhos não deixaram um ao outro. – Ou você quer que eu faça? – Completa em sussurro. Felicity desvia os olhos para Olívia, que continuava grudada no pai. – Amor? – Ela se voltou para ele, e engolindo em seco, sentindo as mãos soarem e o corpo começar a tremer, a loira apenas balançou a cabeça. Mesmo que estivesse nervosa, que parte desse nervosismo é por estar, pela primeira vez, por tanto tempo no mesmo ambiente que Olívia, Felicity se esforçou para fazer diferente. Havia prometido a si mesma, afinal de contas. – Querida, eu vou fazer um chocolate quente para você, enquanto isso... – Olhou para a esposa. – A mamãe vai vestir você. Está bem? – Ela olhava para a mulher loira a frente, e mesmo que ela tenha demorado a responder, Oliver e Felicity esperaram.

— Vai demorá, dada? – Era raro ela o chamar de papai. Desde que aprendeu a falar, Liv o chamava de "dada", sempre, com exceção de quando tem pesadelos.

— Não, baby. Provavelmente você vai terminar primeiro que eu. – Sorriu. – A mamãe vai te vestir, e então vocês vão descer para comer. Tudo bem?

— Uhum. – Balança a cabeça. Enquanto Oliver ficava aliviado, Felicity ficava tensa. Ela não sabia como fazer aquilo sem deixar a filha incomodada com sua presença.

— Até daqui a pouco. – Beijou os cabelos negros de Olívia, o rosto de Felicity e saiu do quarto, na intenção verdadeira de deixar a esposa por um momento a sós com a filha.

Os olhos de mãe e filha não desviaram nem por um momento. Para Felicity aquilo era estranho; estranho porque ela nunca tinha tocado ou conversado com Liv antes. Ela sabia que seu marido falava dela para a filha deles, sabia que a garotinha nunca mais havia perguntado porque a mãe nunca a tocou ou brincou como fazia com seus irmãos, depois que perdeu seu segundo aniversário. Oliver havia dito a sua pequena que a mamãe estava doente. Mas porque mesmo doente, ela tocava, abraçava, beijava seus irmãos, e ela não? Será que Liv, mesmo com três aninhos, se fazia aquelas perguntas. Engolindo em seco, e se aproximando da filha, que continuava com os olhos nela, se forçou a fazer o que seu marido teria feito se estivesse ali.

— Precisa segurar em mim, okay? – A menina nem se mexeu. – Liv. – Dessa vez ela piscou algumas vezes.

— Ainda duente? – Felicity se surpreendeu com a pergunta.

— Não sei. – Responde com sinceridade, depois de abrir a boca várias vezes.

— O papai do céu disse que vai ficar boua. – Felicity a olhou novamente, mais surpresa ainda, parando a ação de colocar a calcinha na filha.

— O que?

— Ele disse pra mim. – E então pela primeira vez houve o toque especial. A garotinha lhe tocou com ambas as mãos, em seu rosto. – Disse que a Liv era o remedinhu, e que você ia ficar bouaquando a Liv voltasse pra casa. – Ela não usou a palavra "mãe" nenhuma vez, Felicity pôde perceber. – A Liv não entendeu, mais..., se o papai do céu disse, é porque é verdade.

Felicity sentiu uma vontade súbita de chorar, no instante seguinte. As coisas que passou nas mãos do pai da menina já não eram tão importantes naquele momento, porque ela, alguém que sempre acreditou em Deus, que sempre acreditou em seus mandamentos, havia falhado. Falhado ao repudiar aquele bebê que nem mesmo havia pedido para nascer, falhado ao odiá-la e culpá-la pelo inferno que passou ao estar grávida dela. Ela não teve culpa, Cooper teve. Olívia não pediu para ser gerada, não pediu para ter o pai que tinha, assim como Oliver havia dito tantas vezes, e mesmo assim por quase quatro anos, ela não conseguiu pensar da mesma forma que o marido. Sentiu seu mundo desmoronar por entender que havia repudiado um inocente. Pior, ela quase havia abortado um inocente. Sua garganta fechou, os olhos lacrimejaram, e ela se lembrou das palavras da mãe, poucos meses antes de ser morta.

"Um dia, não muito antes de eu conhecer seu pai, eu acabei me envolvendo com uma pessoa não muito boa, e assim como você eu confiei nessa pessoa, eu me apaixonei. E me dei mal. Eu me machuquei de uma forma que eu nunca desejo para você. Algumas semanas depois de conseguirem prendê-lo, eu descobri que estava grávida. – Felicity arregalou os olhos, surpresa. – Mas mesmo que aquela criança me trouxesse lembranças dos dias ruins que tive com aquele homem, eu lutei para tê-la, mas infelizmente eu a perdi. – Deu de ombros, mesmo que tivesse triste. Felicity perguntou a mãe quantos anos ela tinha e ela respondeu: 17 anos. – Eu amei aquele bebê. Mesmo o pai dele sendo um desgraçado, que eu queria a morte. – Sorriu em seguida. – Um ano depois conheci seu pai, e tive você no ano seguinte. Felicity, ter você mudou a minha vida. Mesmo que tenha criado você sozinha, nem por um momento eu me arrependeria de tê-la. Você vai ser mãe, vai entender esse sentimento de querer proteger seu filho de tudo e de todos, não importa o quê. – Pegou em sua mão. – E é por isso que estou fazendo isso por você. Para que seja livre de Cooper, para que nunca, em hipótese alguma, passe pelo que eu passei nas mãos da minha primeira paixão.

Lembrar-se que a mãe havia passado por algo semelhante ao que ela passou – não por tanto tempo – a fez pensar nas escolhas que fez. Diferente de sua mãe, escolheu abortar, mas não deu certo, escolheu dar em adoção, e novamente não deu certo; Oliver quis cuidar de sua filha; escolheu se afastar daquele bebê e nunca jamais ser sua mãe. A mulher que a criou não teve a oportunidade de criar o filho que tanto queria, mesmo sendo de alguém que a violentou, mas Felicity tinha essa oportunidade e acabou perdendo três anos de vida de Olívia. E isso, naquele momento, surpreendentemente, a amargurava. Se sentiu não só triste, mas arrependida. Profundamente arrependida. A pequena ao perceber isso, inclinou a cabeça antes de se pronunciar.

Triste?

— Não. Eu não estou, Liv, eu só..., estou melhorando. – Limpou as lágrimas que queriam descer, tentando se controlar na frente da filha. Não queria assustá-la. – Você viu mais alguma coisa, querida, quando estava com o papai do céu? – Ela fez um som com a boca antes de responder.

— Ele tavacuidando da Liv. O papai e a mamãe tavachorando, e o papai do céu disse que era pra eu voltar. – A palavra mágica saiu de forma espontânea. Ela havia falado, e Felicity não sabia se ficava emocionada com a frase dita por sua filha ou com o fato de que pela primeira vez, ela tinha ouvido a filha lhe chamar de mãe. – Agora a mamãe não mais duente, porque o papai do céu disse também, que ia curáela pra sempre. – Felicity não conseguiu se conter, e quando viu já abraçava a garotinha que nunca havia sentido aquele calor antes.

— Me desculpa, meu amor. – Sussurra. – Eu fui má com você, né? – Olhou nos olhos da pequena.

— A mamã tavaduente. – Responde, um pouco confusa por ver a mãe chorar e pedir desculpas.

Felicity acabou deixando as lágrimas caírem. Ela tinha sido injusta. Sim, estava doente, estava em processo de cura pelo que aconteceu, mas fingiu que Olívia não existia, a deixou sem uma mãe. A criança não tinha culpa alguma e mesma assim a culpou, mesmo a pequena parecendo completamente consigo, não conseguiu ser para ela, o que foi para os gêmeos e os trigêmeos, e naquele momento, isso a perturbava. Deixou que o marido fizesse o trabalho de mãe e de pai e mesmo tendo a certeza de que ele não a culpava por isso, não conseguia deixar de se martirizar naquele momento. Oliver fez mais do que era a obrigação dele. Ele cuidou de sua filha, amou, deu carinho, fez o que ela deveria ter feito.

Como ela pôde culpar e odiar aquela criança? Como pôde deixar que Liv não tivesse uma mãe? Como pôde deixar, que sua pequena passasse três anos de sua vida, tendo apenas pai e irmãos? Ela errou. Se afundou na própria dor e não pensou na dor que sua garotinha poderia passar. Sua. Porque por mais que tenha dito e sentido todas aquelas coisas, Olívia tinha saído dela. Será que era isso que Deus queria quando Liv caiu na piscina? Que ela voltasse a si antes que fosse tarde demais? Que estava perdendo a chance de construir um laço com a filha que rejeitou? Que estava fazendo sofrer, alguém que não merecia? Estava sendo injusta, e cruel, e isso a fazia pensar nas coisas que passou com aquele homem. Ela estremeceu, entre o abraço, mas não se afastou. Liv não tinha culpa alguma. Percebeu por um momento, que estava sendo tão cruel quanto Moira foi com os filhos e com nora. Ela pensou no bem próprio e destruiu a vida dos filhos, e agora Felicity percebeu que estaria fazendo o mesmo se continuasse a tratar Liv como se fosse uma maldição.

— Me deixa te vestir. – Se afastou. – Segura em mim. – A menina segurou nos ombros da mãe, para que ela vestisse tanto a calcinha quanto a calça amarela com pequenos desenhos de coelhos brancos espalhados.

— Quero o papai. – Felicity já esperava por aquele pedido. Terminou de colocar o a blusa de mangas longas que havia escolhido antes do marido deixá-las sozinhas. – Ele demorando.

— Eu levo você até ele, querida.

— Agora pode pegar a Liv no colo? – Pergunta, de forma infantil, e totalmente inocente, quando a mãe a pega no colo para saírem do quarto. – O papai disse que não podia, porque a mamã tavadodói demais, por isso ficava no quarto.

— Eu posso pegar você no colo quantas vezes você quiser, Liv. – Respondeu, beijando a bochecha gordinha da pequena.

Quando Desceu as escadas, encontrou seus filhos na cozinha com seu marido. Eles estavam em volta da mesa, arrumando-a, colocando os pratos, os talheres e os copos em cima dela. Os trigêmeos estavam sentados, tomando chocolate quente. Aquele dia estava mais frio que qualquer outro dia, e mesmo sendo horário de almoço – passando dele, na verdade –, eram apenas nesses dias que Oliver deixava os filhos tomar da bebida quente antes da refeição. Ela colocou a filha no chão quando ela pediu, e a viu correr para o pai, que a pegou no colo, sorrindo, antes de beijar a bochecha gordinha dela e colocá-la sentada na cadeira ao lado de Kallie. De onde estava, sem dar um passo para a direção onde sua família se encontrava, ela os observou; sua família toda reunida. E ela estava sentindo falta de cenas como aquela. Balançou a cabeça, ao pensar que havia perdido momentos como aqueles, por Olívia estar sempre presente.

Felicity sabia que Deus estava lhe dando uma segunda chance. Uma chance para fazer certo, uma chance para melhorar, uma chance para ser feliz e amar cada um de seus filhos, até mesmo a garotinha que ela não queria. Ela não desperdiçaria essa chance. Não depois de ver o que estava fazendo com ela mesma, com seu marido, com seus filhos. Não depois de se lembrar do que a mãe lhe contou. Não depois de ver Liv morrer e voltar a vida; porque ela estava morta, não tinha pulso, não respirava. Deus a devolveu para ela e Oliver. Como poderia jogar fora essa oportunidade? Se Liv estava ali, sendo amada pelo homem que ama, é porque ela era especial. Mesmo sendo filha de quem era, ela merecia ser amada. E definitivamente, merecia ter uma mãe presente. Uma mãe de verdade, que vai cuidar, colocar para dormir, ler uma história, rir e brincar com ela.

Tudo que ela fazia naquele momento, era agradecer pelas coisas boas que Deus a deu. Porque mesmo que tenha passado por todas aquelas coisas ruins, que tenha perdido sua mãe, que tenha passado por um inferno nas mãos de Cooper e gerado e dado a luz a filha dele, ela não podia reclamar, porque Ele deu coisas boas para ela. Deu amigos verdadeiros, deu um irmão no momento em que ela mais precisava, sobrinhos maravilhosos, uma cunhada que era quase como uma irmã, filhos que a amavam mesmo com suas crises e depressões, e um marido que qualquer um daria tudo para ter. Eles eram pessoas especiais, que havia entrado na vida dela para fazê-la feliz. Cada uma das pessoas que conheceu, fez diferença em sua vida, até mesmo seus seguranças; eles arriscaram suas vidas, para deixá-la a salvo, e não apenas por ser o trabalho deles, mas porque eles realmente gostavam dela. Quem poderia imaginar que ela seria amiga da mulher que ficou meses namorando seu marido? Ou que ela seria madrinha de sua filha mais nova? Ela não poderia viver feliz longe daquelas pessoas. Nunca. Porque elas fizeram uma diferença enorme em sua vida.

Aprender a amar alguém, mesmo que esse alguém tenha lhe prejudicado, não era fácil. Aprender a perdoar esse mesmo alguém, era tão difícil quanto. Ela não havia perdoado Cooper, e não sabia se um dia poderia fazê-lo, mas isso não queria dizer que ela deveria odiar a criança que ele havia lhe dado, porque mesmo ela tendo seu sangue, ela seria alguém muito melhor que ele. E seria muito mais amada que ele, porque Felicity não mais jogaria esse amor no lixo. Ela e sua filha ainda teriam tempo para construir um laço de mãe e filha. Elas tinham uma chance, bem agora, e Felicity não desperdiçaria, porque não seria justo, nem com ela mesma e muito menos com Olívia. Felicity a amaria, da mesma forma que amava seus outros filhos. E faria isso compensando todos aqueles anos em que a deixou sem uma mãe.

— Está tudo bem? – Ela nem mesmo havia percebido que o marido estava próximo, de tão pensativa que estava.

— Está. Agora está. – Suspirou. – Eu estou vendo agora o quanto eu perdi, vivendo no meu mundinho.

— Você tinha seus motivos.

— Mesmo assim, ela não merecia, e mesmo assim eu não fui sua mãe.

— Você tem a chance de ser, se você realmente quiser. – Ela inclinou a cabeça, e Oliver viu ali, mais uma vez, o quanto mãe e filha se pareciam.

— Eu quero. Eu quero me redimir, e..., mesmo que demore, quero construir um laço com a nossa filha. – Oliver sorriu ao ouvir ela dizer "nossa filha".

Nossa filha. Eu esperei três anos para te ouvir falar essa frase.

— Acho que eu acordei da minha própria dor, só espero não ser tarde demais.

— Não acho que seja, ou Ele não mandaria nossa filha de volta. – Ela não pôde deixar de sorrir.

— Estava pensando..., o destino é realmente curioso, não é? Ele me levou para longe de você por seis anos, e então..., me colocou de volta na sua vida de forma brusca, nos fazendo ver nossos próprios erros. Meus e seus. Nos deu uma segunda chance, de ser uma família. Uma família diferente e complicada, mas mesmo assim uma família. – Eles sorriram um para o outro.

— Pode ser estranho, mas eu amo essa família. E eu não mudaria nenhum detalhe dela... – Olhou para Liv que ria de algo que os gêmeos diziam. – Nem mesmo a chegada dela na nossa vida.

— Eu..., poderia dizer a um tempo atrás, que isso eu mudaria sim. Mas agora... – Balançou a cabeça. – Ela faz parte de mim, e é alguém que estou aprendendo amar, então não, eu não a tiraria de nossa vida. – Eles voltam a se olhar.

— Eu fico tão feliz em ouvir você falar isso.

— É estranho porque eu penso no que me aconteceu, e gostaria de apagar tudo, mas então eu penso na Olívia e... – Oliver compreendeu quando ela deu uma pausa. – Ela não estaria aqui se eu não tivesse conhecido... – Novamente ela pausou, se negando a falar o nome da pessoa que lhe causou tanto mal. – Fico confusa, e nervosa, e um pouco assustada.

— Tudo bem. É tudo novo para você. Sentir algo bom por nossa filha, sentir-se bem, depois de tanto tempo no automático. E sentir essas outras sensações que a fazem se lembrar do que aconteceu. É normal.

— Talvez eu devesse dizer isso na próxima consulta.

— Você com certeza deveria dizer isso na próxima consulta. – Diz, passando uma das mãos no rosto dela, levando uma mexa dos cabelos loiros para trás da orelha, pouco depois. – Você está melhorando e aos poucos já não vai sentir-se depressiva, mas não pode deixar de contar as coisas que está sentindo.

— Eu sei. Isso faria mais mal para mim. – Depois de quase dois anos, ela conseguia entender o que a psicóloga dizia para si.

— E não é isso que queremos. Eu preciso de você, e nosso filhos também. – Eles ouviram gargalhadas e olharam para onde os filhos estavam. Olívia dava alguns pulinhos em volta de Bryan e Brooke, junto de Kyle, Katie e Kallie. Os sorrisos que os gêmeos davam, era a certeza de que eles fariam o que os irmãozinhos pediam. – Como poderíamos viver sem essas gargalhadas? – Felicity sorriu. – Sem suas peraltices? – Dessa vez ele ouviu a baixa risada da esposa.

— Isso eles pegaram de você. – Ele lhe sorriu.

— Não tenho como discordar. – Diz, voltando a olhar para os filhos.

Por um momento, eles ficaram os observando se divertir, mesmo que tudo que fizessem, era correr e pular por toda a cozinha, enquanto comiam dos deliciosos cookies que tinham sido feitos pelo pai. Vez ou outra, eles paravam para tomar do chocolate quente, e mesmo que os irmãos pedissem para que ficassem quietos, eles não o faziam. Era impossível. Eles haviam comido doce demais naquele dia, e por esse motivo estavam tão elétricos. Era normal vê-los dessa forma, Felicity, Oliver e os gêmeos estavam acostumados. A loira não pôde deixar de se ver em Olívia, quando a viu inclinar a cabeça, dando um sorriso para Bryan, que havia se abaixado na altura dela, falando algo que seus pais não conseguiam compreender.

— Sabe..., eu não estava dizendo isso muitas vezes... – Eles se olharam, no mesmo minuto em que Felicity começou a se pronunciar. – Mas eu te amo, Oliver. Você me salvou, você me deu uma vida que eu não imaginei que teria, quando tive os gêmeos. Eu não sei o que seria de mim, se eu não tivesse você na minha vida. Você e nossos filhos..., cada um deles.

— Eu também te amo, Felicity. – Ela sorriu, sentindo as mãos dele em sua bochecha. – Você mudou minha vida no momento em que voltou para mim, me deu filhos, como sempre sonhei, e eu sei que não estava sendo fácil para você esses anos em que se passaram, mas eu sei que me ama, mesmo que não me dissesse todos os dias. É como eu prometi, quando nos casamos: na alegria e na tristeza. Lembra-se? – Foi a vez dele em sorrir. – E eu não poderia ser feliz sem você e nossos filhos ao meu lado..., cada um deles. – Repetiu antes de a beijar.

Mesmo que em todos esses três anos Felicity não tenha se aproximado de Olívia, ela tinha uma chance para fazer tudo diferente, para tratar a filha como ela merecia, para construir um laço que mesmo que demorasse, seria para sempre. E ela não desistiria, porque ela havia ganhado uma segunda chance quando a filha voltou a viver, e ela seria cruel demais se desperdiçasse essa chance maravilhosa que estava recebendo.

Esse poderia ser sim o final de uma história complicada, tensa e cheia de amor, mas eles ainda tinham muito pela frente. O destino guardava muitas coisas boas para eles. Felicity e Oliver ainda tinham muito para viver. Agora, sem interrupções de ninguém. Sem pessoas maldosas para fazer da vida deles, um inferno. Eles poderiam ser felizes, e eles seriam, o destino faria com que fossem, e não deixaria que nada e nem ninguém atrapalhasse a felicidade daquela linda família.

Notas finais
É isso, queridos, a história chegou ao fim. E a emoção também – a minha começou desde que escrevi esse capítulo, afinal, mas ficou mais intenço agora que sei que não voltarei a atualizar Cross Destination, ou escrevê-la. Antes de agradecer a todos, eu quero avisar para os que amam essa história, que estou transformando-a em ORIGNAL; novos personagens, novas características, várias modificações em cada cena, em cada capítulo escrito. Agora, eu quero agradecer a todos que acompanhou essa linda, emocionante e dramática história desde o início. Agradecer a cada um que me apoiou, que me incentivou, que comentou, que estiveram no grupo do zap durante todo esse tempo..., vocês foram muito importantes para mim, desde o começo; não esquecerei nenhum de vocês. Uma história que eu não imaginei que ganharia tantos leitores: um mais especial que o outro. Foi a segunda história Olicity que comecei a escrever, e está sendo a primeira a finalizar; estou triste, mas muito feliz pelo resultado. E eu devo tudo isso aos meus lindinhos. Aos que não comentaram, acreditem, também foram importantes para mim, afinal, não conseguiria tantos seguidores, se não fosse por cada um de vocês. E muito menos teria finalizado essa história que é meu chamego. Mas isso não é um adeus, o zap continuará funcionando, e estaremos nos encontrando em outras histórias: como Kupidon, que também está em reta-final. Não vou dizer nada, para não chorar ainda mais aqui. Enfim, obrigada por tudo, lindinhos. Kissus
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!