Notas iniciais
Sei que algumas dúvidas iram brotar na cabeça de vocês, mas podem ficar tranquilos.
Tudo será esclarecido.

Boa leitura X.

– Não! Ele é meu. – diz a mulher de roupas brancas e de rosto borrado.

– Dê-me esse moleque, o lugar dele não é conosco. Olhe a sua volta!- a militar pegar um pequeno frasco, que estava à sua frente, e atira na jovem cientista.

– Mas poderia ser! Uma chance é só o que eu te peço.

– Essa chance já foi dada há muito tempo, eles desperdiçaram.

– Ele é diferente, eu sinto.

– Mãe tola... Sempre se iludindo – diz retirando em um só movimento o pequeno bebê dos braços de sua mãe.

– Diga “adeus” à mamãe, pequeno diabo. – e em um só movimento torce o pequeno e frágil pescoço.

Acordo ofegante e febril de ódio. Como alguém pode ser tão ruim? Como pode ainda ser considerado um ser humano? Até quando a maldade é justificável? Perguntas repletas de um sentimento de aversão me dominavam. Meu pequeno relógio aciona o alarme. Está na hora de trabalhar.

Não me orgulho desse meu novo emprego, mas o único o qual me encaixo. Visto um conjunto negro como a noite e pulo a larga janela do apartamento. Uma habilidade um tanto quanto útil, pular janelas e escalas me permitiu sobreviver durante esses anos. Não me considero um ladrão, não se rouba o que se é roubado de você. “Tiraram-me tudo, só pego de volta” minto para a minha existência, fingido que considero o que eu faço digno.

A noite havia se tornado uma das minhas melhores amigas, na verdade, a minha única. O recente toque de recolher fez com elas permanecem em suas casas, coisas que me faz transitar tranquilamente pelas ruas. É a única hora do dia que eu posso sair do jeito que realmente sou. Sem precisar maquiar-me ou usar aquele vestido horroroso que tanto me incomoda. Não ataco nas ruas, só caminho entre a escuridão. Apesar de sombrio, aquilo me acalmava mais que qualquer coisa.

Meus ataques, em sua maioria, são em apartamentos. Olho de fora até as luzes se apagarem e em poucos segundos o invado. A necessidade faz o homem, preciso de cartões, identidades e dinheiro roubados. Sem êxito na minha procura pelo quarteirão, dirijo-me novamente para minha residência. Impressionante como as pessoas demoram cada vez mais para se porem na cama. Fixo meu olhar para a minha residência e reparo que o apartamento da Mariana já estava um completo breu, um alvo perfeito e perto de casa.


Entro com facilidade no apartamento vizinho. Abro sua grande bolsa da “Marcela Jacobs” e retiro algumas notas, incrivelmente, dobradas como roupas. Olho ao redor, fotos e fotos de um casamento falido. Era evidente, Mariana com um sorriso resplandecente e sua respectiva mulher com uma expressão séria, como se pouco ligasse para o evento. Confesso que me julgamento pode é regado de interesses, nutria uma atração pela minha adorável vizinha. Rendo-me à curiosidade e resolvo checar seu quarto.
Ah, sua beleza inerte. Uma maravilha do novo mundo, eu admito. Seus olhos castanhos agora escondidos por longos cílios, que eu poderia jurar serem artificiais, abrigavam purezas. Trazia-me uma calma e um reboliço ao mesmo tempo. Assim como o mar, quando é apenas apreciado traz um sentimento de paz e calma, porém, quando se tenta desbravar-lo, é engolido pelo mesmo. Sua pele, macia como areia fofa, mantém uma coloração tropical, mas não uma coloração qualquer, sua cor é tão definida que, eu juro, parece ser pintada por grandes artistas renascentistas.
Inerte sua beleza era tão magnética quanto à corrente marítima, acho que assim descrevo tal mulher. Uma grande praia, onde a areia queima meus pés e o mar destrói qualquer sombra de minha existência. Então ela se move, corro para a janela e, com um grande susto, derrubo sua televisão fazendo um estrondo assombroso.

Em um pulo, ela desperta e exclama vivaz como se nunca tivesse em sono profundo – Quem está ai?-

Entro em surto e logo tudo havia se escurecido. Tenho um grave problema com ansiedade e não suporto estar sobre pressão, quando me vejo pressionado me perco de qualquer objetivo e causa. Fico cego, mudo e surdo.

– Nora, é você? – diz observando a minha silhueta em meio à escuridão. Não percebera sua aproximação

– Eu – digo fazendo meu habitual tom afetado.

– O que você está fazendo aqui? Como entrou? – questiona irritada enquanto se aproxima cada vez mais.

– Espera!

– O que? – continuando com o mesmo tom firme e sem deixar de se aproximar.

– Preciso contar.

– Contar o que?

– Eu não sou bem o que parece ser. – digo descendo alguns tons em minha fala.

– O que houve com a sua voz? – e liga a luz.

Por um segundo, se fez silêncio. Ela parece continuar em meio à escuridão, tentando identificar meus traços e entender-los. Olha pro meu corpo com desdém, como se fosse um prato de comida que detestara. – Você está diferente.

– Falta de maquiagem.

– Seus seios, seu corpo...

– Nunca foram meus – a interrompo.

– E sua voz? Nunca ouvira tão grave.

– Eu sei. Sempre tive vergonha da mesma.

– Céus. Nem parece a mesma Nora.

Claro, ela não tinha a noção da existência de outro sexo. É tão simples. Sem uma referência eu era apenas uma mulher forte e alta. Meus cabelos curtos fazem jus à atual moda e meu corpo atlético não é muito diferente dos corpos das atuais militares. Eu passaria despercebido.

– Podemos conversar? Preciso explicar-lhe algumas coisas.

Perto dali.

– Peço permissão de fala, senhora!

– Permissão concedida, querida. Pode relaxar-se não estamos mais em horário de serviço.

– Entendo minha senhora, digo, Helen. Ainda não entendo essa missão “Beta”.
– Não tem o que se entender, Joana. Executamos ordens, é o que fazemos.

– Eu sei disso, mas no caso, me assusta a suas consequências.

– Compartilho do seu sentimento, mas não há o que se fazer.

– Isso ocasionará em caos.

– Você sabe a definição de caos? O que significa tal palavra?
– Anarquia

– Esse é apenas o sentido abstrato.

– Caos é o prelúdio da ordem.

– Lindo – disse rindo- Mas desde quando você fala tão bonito?

– Desde que foi preciso falar.