Cromossomo X
4 Homem ou um rato.
– O que você faz em minha casa?– pergunta irritada.
– E- eu...
– A verdade, por favor. – me interrompe.
– Bem, não é tão simples quanto parece.
– Parece bastante simples pra mim.
– Mas não é.
– Fale – nesse momento, vejo uma pequena veia esmeralda que surge em sua testa.
– Céus! Que veia monstruosa.
– Não foge do assunto.
– Tudo bem, tudo bem. Acho que lhe devo explicações.
– Você acha? – diz em tom irritado.
– Calma...
– Você já deve ter reparado que sou diferente.
– Não me diga – diz me interrompendo novamente com um tom cada vez mais ameaçador.
– Acalme-se. Não me deixa completar meus raciocínios agindo desse jeito.
– Você tem 30 segundos.
– É...
– Vinte! – diz direcionando seu corpo para o pequeno telefone de cor púrpura.
– Eu...
– Dez!
– Eu sou homem! – exclamo arriando minhas calças.
– O que? O que?
– É.
– Você é uma deformada. Sua vagina...
– Calma, não é nada disso.
Ela estava catatônica, também pudera nunca havia visto tal coisa em toda sua existência.
– Sente-se. – não precisei repetir duas vezes. Em um só movimento bruto Mariana jogou-se no pequeno sofá no centro de sua saleta.
– Co-Comece – diz gaguejando tentando digerir tudo aquilo.
– Isso será difícil de explicar.
– O que você é?
– Já disse, eu sou um homem.
– O que é isso.
– Céus! – exclamo e balanços meus fios em sinal de nervosismo. – Antigamente, muito antes de tudo que você conhece, nossos gêneros viviam em harmonia. Bem, não diria uma harmonia, mas convivia entre si. E um necessitava do outro para a reprodução, éramos complementares.
– Que besteira! Só existe um gênero! O gênero feminino!
– É mesmo? Então me explique isso – novamente retiro meu pênis e balanço próximo ao seu rosto.
– Guarde isso! Maldição.
– Desculpe.
– Mas se isso for verdade quando tudo mudou?
– Há exatos 57 anos. Em 2100, o novo partido extinguiu ideológica e fisicamente qualquer sombra dos entes de meu sexo.
– E como eu nunca soube disso? – questiona me interrompendo
–Escolas, famílias... Todos moldados para alienar vocês. Se alguma mulher esclarecida mencionasse a existência de outro gênero era morta em praça popular. Assim, em poucos anos, qualquer mera lembrança foi extinta
– Lindo a sua estória, mas entramos em uma pequena contradição. Se isso aconteceu há 57 anos, como você existe? – questiona em tom de superioridade.
– Sabe o projeto Eva?
– Você diz a reprodução? – questiona ironicamente.
– Seu processo envolve um cruzamento genético e uma pré-seleção de cromossomos.
– Sim...
– Eu sou uma falha da reprodução.
– Como? – questiona ela tendo em seu rosto uma expressão indecifrável. Como se julgasse impossível falhas em tal sistema.
– Acontece que um dos meus cromossomos sexuais se tornou Y.
– O que isso quer dizer?
– Os cromossomos definem tudo em você. 44 definem seu comportamento, sua raça, suas características físicas. E dois definem o seu sexo, sendo XX para o gênero feminino e XY para o masculino. Tudo em você foi pré-definido, assim como em mim.
– Mas como cometeram tamanho erro.
– Eu não faço idéia.
– E sua mãe? Onde está?
– Prefiro o termo progenitora, ou até mesmo criadora. Quando eu era pequeno ela saiu para fazer algumas compras e nunca mais voltou, no mínimo, deve ter desistido.
– Por que tanta angustia e mágoa?
– Que tipo de mãe, em sua sã consciência, destinaria ao seu filho tal mundo. Um mundo onde ele necessita se esconder, um mundo onde ele precisa controlar seus impulsos. Um mundo onde ele não pode ser... ele.
– Talvez essa não fosse à intenção de sua mãe. Talvez...
– E qual seria tal benévola intenção, Santa Mariana? – a interrompo em total indignação.
– Dar-te uma chance. Dar-te possibilidades.
– Que bela de uma chance.
– É alguma coisa.
– Senhora, eu preciso dormir.
– Senhora? Um tanto quanto injusto dormir após tirar-me o sono.
– Estou exausto.
– Pode ficar aqui se quiser, preparo-lhe um café. E você pode me contar estórias sobre esse tempo distante, onde nossos sexos conviviam em suposta harmonia. – diz rindo com seu costumeiro sorriso acolhedor.
– Você é louca. Acabo de invadir sua casa, esfrego meus genitais no seu rosto e ainda me convida para acompanhar-te em um café. Realmente te falta sanidade.
– Você tem razão, eu deveria chamar a polícia- diz direcionando novamente seu corpo para o telefone.
– Não!
– Então comece os contos! – diz rindo com um tom sapeca. – Mas, como você sabe sobre tais coisas? Afinal, você também era para ter sido alienado.
– Minha mãe deixou-me algumas anotações. Na verdade, é mais parecido com um diário. Faltam-lhe algumas páginas, mas o essencial eu já compreendi.
– Ela devia ser uma mulher e tanto.
– Não se iluda. Ela me abandonou, esqueceu?
– Aposta que ela tem seus motivos.
– Não quero discutir mais.
– Então comece a maldita estória!
–XX- Dia seguinte.
O sol demora a nascer está manha. Olho ainda anestesiado de meu descanso e aprecio a grande cortina de sua janela. Era bastante larga e florida, tinha uma cor que me falta adjetivo para descrever-la se aproximava do verde, mas parecia amarelo. Em meio a reflexões sobre qual seria a tal cor, escuto um reboliço vindo da rua. Aproximo da janela e vejo a bandeira do Partido Cromossomo X em chamas. Céus. Comemorei com toda a minha plenitude, aquilo só poderia significar uma revolução.
– Viva ao esclarecimento! Viva à verdade! Viva à revolução! – exclamo em êxtase.
Porém, toda a minha alegria é retirada em segundo.
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