Cristal
1 Chapter one - Nice to meet you, everyone
"“Mergulho os pés na água gelada e afundo os dedos na rasa areia da praia. Fecho os olhos por um segundo e sinto a brisa do mar soprar em meu rosto angustiado. "Ele estava inválido", suspiro, "não deveria ter ousado duvidar do poder de um coração partido." Dou meia volta e caminho em direção ao mar, á luz de uma lua perfeitamente cheia e reluzente, avermelhada feito o rosto de uma criança ao nascer, em direção ao inesperado e corrompido futuro que me aguarda."
Um grito pela liberdade estoura em uma onda melódica por minha garganta seca, pávida, que implora por um mínimo de atenção. Estava ali: tão singela, tão sozinha, tão ingênua... E por mais que minhas cordas vocais pulassem de minha garganta e os órgãos implorassem para sair de meu torço, ainda permanecia naquele corpo frágil e doce, de uma criança implicitamente abandonada. "É com a vovó e o vovô agora, Cristal", Marlene repetia com olhos cheios d'água. "Eu quero a mamãe e o papai!", rebatia incrédula. Então era isso? Eles se foram? Pra sempre? Em um instante estavam ali, junto á mim, e em outro debaixo do oceano?
Não. Não queria acreditar nisso.
E, em um piscar de olhos, meu despertador faz birra em cima de minha cabeceira: grita, se esperneia e pula como criança querendo um doce na vitrine de uma loja. Meus olhos saltam e o corpo todo entra em choque. Fui acordada brutalmente pega no flagra, de surpresa, sonhando com o passado.
"Ah, merda...", murmuro irritada, "só mais cinco minutos...”
Torço o nariz, tampo a cabeça com o travesseiro e reclamo inúmeras vezes, mas a força daquele pequeno reloginho barato e minúsculo vence minha resistência.
Tive a certeza absoluta de que teria problemas com aquele filho da puta no minuto em que minha avó insistiu, sem ao menos hesitar, que deveríamos levá-lo para casa. Estávamos naquelas lojinhas de um e noventa e nove, rainhas e campeãs de bugigangas, nas quais ela detestava. Quando sacou o aparelhinho na mão e deu toda certeza de que deveríamos levá-lo, me vi derrotada: o maldito despertador não atrasaria ao menos um segundo se quer. E não errei. Estava ali até hoje, firme e forte, repetindo "Hora de levantar!" a cada minuto.
– Cristal! – Escuto um grito agudo vindo do primeiro andar de minha casa.
Minha avó não era do tipo de pessoa delicada, muito menos pacata. Entretanto, a aparência de uma senhora não lhe agradava de forma alguma. Vivia reclamando do cabelos brancos, que se escondiam entre os loiros mal pintados e competiam atenção com as fundas olheiras debaixo dos olhos.
Achava determinadamente desnecessário a queixa sobre sua aparência. Entendam, não sou nenhuma feminista que fica defendendo a abolição de produtos de beleza ou algo do gênero, mas, porra, depois dos setenta anos, estar livre de quaisquer doenças não deveria ser supostamente a maior preocupação de uma senhora de idade? É por isso que eu quero morrer antes dos quarenta (o que provavelmente aconteceria se eu não parasse de bronzear meus pulmões diariamente com meus cigarros).
De qualquer maneira, as rugas eram algo inevitável, afinal dona Marlene vivia ocupada. Sua obsessão era meu pior pesadelo, depois de química, é claro: minha avó tinha o tão conhecido "Transtorno Obsessivo Compulsivo" (aquela doença que faz a pessoa ter tara por limpeza). Quando dava uma crise ela dava pra entrar nos cômodos, tirar tudo do lugar e limpar cada canto. Volta e meia eu chegava em casa e os móveis estavam todos fora do lugar enquanto minha avó estava escondida atrás das coisas com um paninho e desinfetante (que inclusive tem um cheiro horroroso de pinho) na mão. Um verdadeiro masoquismo, convenhamos.
Moro com Marlene desde que me entendo por gente: aos cinco anos meus pais sofreram um acidente e tive que me mudar para uma cidadezinha no interior.
"Sofreram um acidente".
Rá.
Engraçado eu mesma pronunciando palavras que sempre vieram a me irritar. Eu era tão pequena quando aconteceu e saía perguntando pra todo mundo como foi que morreram. Curiosa demais, eu diria. A resposta era extremamente eufemista: "Eles sofreram um acidente". Obvio que todo mundo banca o bonzinho quando se trata de morte. A verdade é que, durante um passeio de barco, ondas enormes sugaram os dois e era provável que, se não morreram afogados, foram brutalmente estraçalhados por tubarões.
Viva as figuras de linguagem!
Eu costumava visitar bastante meus avós antes do "acidente" e os adorava, de verdade, mas ao emergir a notícia que minha mãe e meu pai vieram a falecer, a estadia na nova moradia se tornou um sofrimento por ao menos dois anos. Até por que, não tem como não concordar, nostalgia não é exatamente o tipo de sentimento predominante em uma criança de menos de uma década de vida. E outra, curtir passar o fim de semana com os avós quando se tem cinco anos é normal, mas pra uma adolescente não tem nada pior do que cidade do interior dos infernos onde todo mundo fofoca mais que transa (se é que transam).
Esse lance de não ter festa banhada de drogas e bebidas (na verdade tinha sim, mas em poucas quantidades) nem era um grande problema. Eu nunca fui um ser muito social e só fazia loucuras quando resolvia, do nada, sair pela janela escondida, encher a cara e pegar algum garoto no qual nunca vi antes.
Na maioria das vezes, acabava me arrependendo e ganhando um esporro pior que ressaca.
Apesar de viúva e com idade, minha avó administra a vida dela – e a minha – muito bem. Há, há, há. Não dá pra falar isso nem de brincadeira. Ela pode até administrar a dela, mas a minha, não mesmo. Eu não sou do tipo rebelde ou sei lá (na verdade, sou sim), mas meu relacionamento com ela não é lá dos melhores.
Quando meu avô morreu, deixou de herança uma loja de pescas que tem sido nosso sustento nesses últimos anos. Abastado em autoconfiança e simpatia, a paixão da vida do meu avô era, não só a loja, mas principalmente o mar. Ele era um pescador nato e vivia na nostalgia dos tempos em que era criança e ainda não haviam tantas indústrias.
Apesar de ser no interior, New Castle era uma cidade lotada de shoppings, comércios e todas essas baboseiras do mundo capitalista. Sorte a nossa (e graças à famosa loja), moramos de frente para a praia, numa casinha na areia mesmo e um pouco isolada do tumulto do centro.
Nunca fui uma garota de muitas amizades. Na verdade, meu melhor amigo, Igor, é um dos únicos que eu realmente confio e passo o tempo nas horas vagas. Não é que eu seja antissocial (e eu sou) mas confiança é uma coisa muito frágil para mim e é difícil eu me apegar as pessoas.
Quem me deu esse nome, Cristal, foi minha mãe Sirina. Eu nunca a conheci, mas todos diziam que ela era linda e encantadora (e, pelo visto, gostosa, os homens todos babavam nela). Minha avó costumava falar que minha mãe era uma pessoa extremamente misteriosa e surpreendente, que sempre aparecia com uma novidade no bolso. Eu só tenho uma foto dela, na verdade dela e do meu pai, emoldurada num porta-retratos velho e desgastado.
Abro os olhos e sinto a luz do sol inundar meu subconsciente e me cegar por alguns instantes.
Ah, o doce ar de uma segunda-feira.
Meio clichê esse lance de ficar reclamando do "primeiro dia da semana", – que na verdade é domingo – mas como uma boa e tradicional adolescente eu tinha que o fazer.
Levanto da cama em um pulo e ando em zigue-zague, ainda grogue de sono, em direção á meu armário aberto.
Eu tinha uma paixão pelo meu quarto incomparável. Devia ser, é claro, pela vista que o cercava. Minha cama ficava em frente á janela, no segundo andar da casa, o que fazia que o mar ficasse perfeitamente visível. Não era só pela minha quedinha pelo mar, confesso. Dali dava pra fumar um cigarro sem minha avó encher a paciência.
Abro meu armário e jogo as coisas para cima em busca de algo para vestir, e logo dou de cara com meu rosto refletido no espelho.
Porra. Eu estava um lixo.
Ter quinze anos não é para qualquer um, não. Digo, todos costumam cuspir essa frase: "é apenas uma fase". Ah, tudo bem. A adolescência é realmente algo empírico, mas enquanto acontece, convenhamos... É complicado pra caralho.
Eu faria dezesseis em aproximadamente uma semana e ainda não me conformava com o fato de não ter uma festa. "Isso é só pra gente rica!", minha avó justificava. De qualquer maneira, estava acostumada a passar meus aniversários trancada no quarto ou no meio da praia, sozinha, dividindo uma garrafa de Vodca com Igor. Na verdade, só eu bebia. Ele é um babão-medroso da porra e ficava com medo dos pais descobrirem.
Remexo o espelho e fito minha imagem. Sempre fui ruiva, ruiva natural. Minha mãe também devia ser ruiva, pelas sardas – iguais as minhas – no rosto da foto que possuo.
Ah, a única foto que tenho e ainda tem que ser em preto e branco...
Suspiro e percebo que encaro a moldura em cima da estante. Antigamente, passava horas olhando aquela foto e chorando. Mas hoje tendo a me conformar com o que ocorrera. Ou, em uma crise de tristeza, cometer as loucuras que descrevi antes.
Depois de escolher uma roupa fresca – um short jeans desfiado com tachinhas combinando e uma camiseta estampada com a tão famosa foto dos Beatles cruzando a Abbey Road –, sento na cama e puxo uma escova, tratando de pentear meus longos cabelos avermelhados. Nunca os cortei. As pontas, na verdade, umas duas ou três vezes, mas nunca diminui de tamanho. Amava meus cabelos na cintura, compridos e brilhantes. Até por que, até onde eu sei, caras adoram uma ruiva. Puta mania irritante de acharem que toda ruiva é gostosa. E definitivamente não era meu caso. Quer dizer, eu até tinha peito e cintura fina, mas não era do tipo supergostosa que os garotos param pra ver a volta da bunda.
Assim, pronta, caminho em direção a porta de meu quarto, não antes de buscar em minha cabeceira meu anel favorito. Encaro a pedra reluzente, com certeza era de... Cristal. Irônico, não? Aquele anel tinha certo valor especial para mim. Alem da fotografia, era a única herança dos meus pais. Pertenceu a Sirina e minha avó decidiu que deveria pertencer-me agora.
– Finalmente! – Ela reclama quando chego á cozinha. – Dorme mais que a cama, onde já se viu?!
E toda a magnética vibração de bom humor que antes invadia meu ser é diluída sem piedade por a frase desnecessária de minha avó.
Dona Marlene organizava e reorganizava os potes, em fileira, em cima da prateleira da cozinha. Eu mandava um pão de queijo frio pra dentro e fazia um esforço mental enorme para não soltar um palavrão.
– Ah, Cristal, você é mesmo incorrigível... – Resmunga indicando o que mais odiava: sermão de familiares. Até por que o passatempo preferido de minha avó era, sem sombra de dúvidas, vaticinar a ideia de que eu seria o pior ser humano do mundo futuramente. Na verdade, ela já achava que eu era. Desde o dia que descobriu os cigarros, teve a certeza que eu seria dessas garotas que cheiram cocaína pela bunda.
Tudo bem: considerem uma hipérbole.
– Não começa! – Corto e bato uma mão na mesa com força, o que a faz latejar de dor. – Merda!
– Quem manda alterar o tom com a pobre vó. – Ergue os poucos fios de sobrancelha que tem e joga um olhar de "bem feito", amarrando um avental (lavado seis vezes á mão) na cintura e dando de ombros.
Que seja.
Levanto da cadeira e busco minha bolsa no chão.
– Vou á praia depois da aula! – Anuncio, berrando, enquanto atravesso a sala.
– Não volte tard- – Bato a porta com força e dou um sorriso vitorioso.
Logo ouso sentir a grama em meus pés e a areia quente que estava exposta ao sol desde cedo, estalo o pescoço e fecho os olhos. Era apaixonada pelo clima praiano.
Ao lado de nossa casa minúscula, rústica e confortável, há um segundo telhadinho. A loja era cercada por paredes de madeiras antigas, ocas e desgastadas. Na fachada, uma enorme placa:
“Worms — Aberto 12 horas por dia”.
Vivia perguntando para meu avô o que era o tal do Worms e ele insistia em responder: “É minhoca em inglês, Cristal”. “Ah, onde já se viu”, rebatia irritada, "nome americano para loja no Brasil!” Ele soltava uma gargalhada e afagava minha cabeça dizendo que assim era "mais chique.”.
O.k. Eu não era a rainha do patriotismo ou nada do gênero. Mas era bem nítido que desde pequena sempre defendi a ideia de que se nasceu em um lugar com características próprias, tradições fortes e um legado imutável, no mínimo se de respeito a ele. Um ótimo exemplo é o nome da minha cidade. Digo, por que eles têm essa mania irritantemente ridícula de colocar nomes estrangeiros em cidades do interior?!
Revoluçãozinha industrial filha da puta.
Eu me lembro de ter repintado essa tal placa com meu avô quando era bem novinha. Nós ficamos horas jogados na areia cercados de tinta vermelha por todos os lados.
– Bom dia, Chelle! – Atravesso a lojinha em direção ao balcão, onde já havia alguns clientes se apertando para serem atendidos primeiros.
Uma senhora de meia idade apressada, um garotinho mimado agarrando a barra da saia da mãe e um careca com seus quarenta anos na cara fazendo uma birra facial, bufando e murmurando, á fim de deixar bem claro que está extremamente irritado.
– Ah, não, Cristal, estou ocupadíssima. – Ela diz entrando na porta atrás da bancada em busca de algo, o que trás transtorno entre os clientes.
– Ah, vai se foder! – O careca esmurra o sininho na bancada, como se quisesse ensurdecer todos ali dentro e fosse fazer com que a vendedora voltasse mais rápido.
Ah, á propósito: Michelle é quem administra a loja, junto com minha avó e outro senhor, Matias. Michelle é nova, deve estar no auge dos vinte e cinco e muito bonita, confesso (e gostosa). Loura, magra e – para seu desgosto – baixinha, Chelle é uma irmã mais velha que eu nunca tive. Pra ela, sim, eu contava tudo. Desde o dia que perdi a virgindade até a cor do esmalte da unha.
Antigamente apenas Matias (um amigo de infância de meu avô) que cuidava das vendas, do caixa da loja de pescas, mas daí os clientes aumentaram e minha avó tratou de contratar uma nova funcionária.
– Para sua informação – Digo, quando ela volta. – eu só vim dar um “oi”. Você vive reclamando que nunca venho à loja.
Ela faz careta e me dá um beijo estalado no rosto, mas o cara irritadinho ruge e ela revira os olhos, indo atendê-lo.
Com os chinelo sem uma mão e um cigarro na outra, caminho em direção á avenida, e esbarro com Igor no caminho.
Todos os dias, exatamente ás seis, nós nos cruzávamos na praia e íamos para a escola juntos.
Igor sempre foi um cara tímido. Sem motivos, eu diria. Apesar de magrelo, era um garoto bonito, divertido, confiável. Os cabelos pretos, jogados de lado, davam um charme e um ar de doçura que encantavam qualquer uma. Igor é disputado, só não sabe disso ainda. É medroso demais para falar com as garotas. E sinceramente, nem sei se elas gostariam que ele o fizesse. Ele pode ser lindo, mas falta...
Falta intrepidez.
– Pensei que não te veria nunca. – Ele passa um dos braços sobre meus ombros do lado que não estava fumando. – Quando é que você vai largar isso, Cristal?
– Provavelmente... Deixa eu ver... Nunca.
Reprimo um sorriso.
Enquanto trocávamos abobrinhas pelo caminho, Igor me lança um olhar perdido vez ou outra. Depois de inúmeras risadas e piadinhas quanto ao jeito que ele me encarava, resolvo opinar:
– Acho que você tem uma quedinha por mim.
– O que?! – Ele se assusta e tira, imediatamente, os braços que envolviam meu pescoço.
Ah, porra, provoquei um tsunami.
Não só as mãos, mas todo o corpo do garoto começa a soar frio. Seus dedos tamborilam e seu rosto enrubesce tão rapidamente que mal posso acompanhar a mudança de cor. Não aguento e explodo.
– Não precisa virar um tomate, Igor Gomes, tenha um pingo de confiança!
Seu sufoco parece ter fim quando percebe que estamos em frente a escola e o sangue volta a correr em suas veias.
– Somos amigos... – Solta, acanhado, e então eu apago o cigarro em um poste. – Podemos ir para a aula agora?
Bufo e me conformo: Igor era, de fato, um covarde.
Nós caminhamos escola á dentro enquanto tento quebrar o clima feito por mim anteriormente.
Ah, desculpem-me se falo o que penso. Meu avô mesmo costumava dizer que eu tinha um gênio forte, e que tinha puxado dele. Ele era meu parceiro em tudo, á todo momento. Éramos realmente muito próximos. Quando ele morreu eu devia ter uns nove anos, fiquei arrasada. Já minha avó entrou em depressão e brotou assistente social até do tapete por minha causa.
– Terá um show nesse final se semana, – Igor conversa. – não gostaria de vir comigo?
– Onde?
– Na praia, na verdade. São daqueles caras que estão fazendo sucesso no estado.
Ah, não. Isso era novidade. Ele me convidando para um show de rock pesado? Tem algo errado aí. Igor sempre teve um gosto excêntrico para música. Gostava de Beethoven, Mozart. Tinha paixão por música clássica. Mas era fissurado, também, pela coleção de discos de vinil velhos muito bem guardados em seu quarto, em uma pilha enorme. Elvis, Carl Perkin, Bill Haley, Johny Cash, Chuck Berry... Mas me surpreenderia ver um CD do Nirvana perdido no meio das tralhas.
Nós entramos na sala de aula finalmente, e eu jogo minha bolsa do meu lado.
Enquanto a professora Clarice pede silêncio fazendo gestos no ar e espancando a coitada da louça com o apagador, percebo que seu rosto está vermelho e inchado: nitidamente andava chorando.
Ah, mas é claro.
Haviam boatos por toda escola, — gente fofoqueira do caralho — de que a professora seria viciada em analgésicos. Em dezembro de dois mil e oito, Clarice desmaiou enquanto aplicava uma prova e foi parar no hospital com soro na veia. O resultado saiu e chocou todo o corpo estudantil: ela tinha catorze comprimidos de antidepressivos no corpo.
Na época, os diretores e professores caíram no preconceito e passaram a evitar a presença de Clarice. Passado dois meses, é claro, as coisas pareceram se normalizar. E depois de dois anos, era de se esperar que todos esquecessem o incidente dos remédios, mas a coisa se complicou quando a professora pegou o marido com outra na cama e caiu na depressão.
De qualquer maneira, o pretérito perfeito acabou virando presente e os alunos insistem em fazer piadinha com a mulher.
Eu sinceramente acho que se você não consegue manter relações com um cara, há de se convir que ele vai mesmo atrás de outras mulheres. Afinal, é um cara. Ou tlvez esses pensamentos só sejam ninfomaníacos demais.
Eu até poderia levantar e puxar assunto, mas ser a queridinha da professora não era lá o meu forte.
Nunca tive problema com notas, na verdade. Sempre fui uma aluna contentada com a média. Só arrasava em filosofia, literatura e redação, que eram, de fato, minhas matérias favoritas. Devia ser pela minha paixão pela escrita. Não que eu ficasse horas com uma caneta na mão, inventado mil histórias e vivendo no país das maravilhas. Mas quando não estava bem acabava botando tudo pra fora em um texto e ganhava um dez muito bem merecido.
– Ei, Marina. – Alguém me cutuca com o lápis. – Vai ao show na sexta-feira?
Se quer ter alguma moral comigo, não me cutuca, cara. É sério, isso me irrita pra caralho.
Só quem me chamava de Marina era, é claro, Catarina, que insistia em dizer que eu era idêntica a jovem atriz Marina Ruy Barbosa. Eu até podia ter uma semelhança ou outra, mas era um exagero afirmar que eu era o clone da adolescente.
De qualquer maneira, não adiantava negar ou fazer birra com Catarina: O que ela diz vira lei. Se achar dona da verdade podia até parecer um defeito, mas admito que desse até certo charme para a garota. De nariz empinado e enfeitado com uma pedrinha, Catarina era a garota mais bonita na sala. Loura, alta e com o ego maior que os peitos (e era difícil tal artimanha), vivia se exibindo e fazia questão de corrigir cada erro seu. Reza a lenda que Catarina era rainha do namoro, encontrava um em cada beco e vivia pulando de semana em semana com um garoto diferente. E, ainda completam a maldade dos boatos: Dizem também que, aos treze anos, ela tinha pagado um boquete pro professor de física pra conseguir um notão na prova. Eu não acreditava que ela fosse capaz de tal coisa, mas.. Vai saber. Apesar de tão presunçosa, eu gostava da menina. Ela sempre me fazia rir e, na hora de falar serio, era uma ótima conselheira. Entrou na escola no ano passado e somos "amigas" desde então. As aspas são pelo simples fato de eu não considerar ninguém – alem do Igor – um amigo de verdade. Não entremos no papo maçante de confiança de novo, não é?
– Hummm... Não sei, – Respondo. – na verdade acho pouco provável.
– Tem que parar de fugir das pessoas, – Ela aconselha. – ou vai acabar sozinha em casa, solteirona e com sete gatos.
Dou língua numa careta por que, se fizesse outra coisa, com certeza seria mandar ela ir a merda. Reviro os olhos, voltando a olhar pra frente.
As aulas da professora Clarice eram uma verdadeira tortura. Não só pelo fato de cada nervo do meu corpo detestar Biologia, mas ela era tão devagar e tão repetitiva que nos primeiros dez minutos eu já roncava na mesa.
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