Cristal
2 Chapter Two - First Contact
– Sabia que você baba? – Sou sacudida por Igor no intervalo.
Ergo a cabeça desnorteada e pisco os olhos incontáveis vezes.
– Vai se foder. – Reclamo. – Faz quanto tempo que apaguei?
– Não sei, a aula da Clarice estava tão interessante, – Ironiza. – que mal pude prestar atenção em você.
Gargalhamos juntos durante os curtíssimos quinze minutos do lanche. Antigamente, durava cerca meia hora ou mais que isso. Mas parece que com passar do tempo a vaca da diretora pensou que nosso estômago ia gradualmente diminuindo de tamanho e ela tinha a liberdade de ir cortando os números do relógio.
Depois do intervalo, pelo que consta no horário de aulas, teríamos redação, com a tal professora tão odiada – uma morena baixinha e magrela de nome francês – que estampava nos olhos o ódio pelos alunos, em especial eu.
A “simpática” Aimeé levava consigo um óculos tartaruga perdurado na ponta do nariz e tinha as unhas redondas e compridas, as quais adorava torturar o quadro esfregando-as contra ele.
Aimeé sempre passava redações ridículas, do tipo “como foram suas férias”, dignas de primeira série, e ainda assim criticava rigorosamente texto por texto, fazendo questão de deixar claro que tinha odiado todos.
Não que a aula tenha passado rápido, – ela nunca passa – mas quando percebi já eram três da tarde e estávamos, finalmente, liberados daquela prisão.
– Vou dar um mergulho. – Anuncio para Igor na volta de casa, novamente com um cigarro entre os dedos. – Não quer vir comigo?
– Na verdade, meu tio Douglas chega hoje da Nova Zelândia. – Dá de ombros. – E, você sabe, meus primos pirralhos-pentelhos vêm juntos, tenho que dar atenção.
– Ah, que merda. – Estapeio o ombro dele, tragando. – Nos vemos amanhã, então.
Depois de desencontrar de Igor, passo em um quiosque e pergunto pelo banheiro, para colocar um biquíni.
Era quase uma rotina ir á praia depois da escola. Metade da população das garotas estava nos shoppings, e a outra metade fazendo lição ou estudando enquanto se lamenta sobre o quanto queria ter uma vida social. Mas eu, para quebrar o padrão, preferia a brisa marinha, é claro. "Tinha que ser neta do Antônio mesmo," minha avó resmungava, "não larga esse mar em troca de nada!".
Ah, de fato era verdade. Eu me sentia bem na praia. O barulho das ondas quebrando, a areia, o sal... Era tudo tão encantador.
Nesse ponto eu já tinha apagado o cigarro e estava morrendo de sede, então trato de pedir uma água de coco e sentar no chão, encarando o movimento. Não haviam muitas pessoas, na verdade, e era de se esperar. Apesar de a cidade ser tão minúscula a ponto de todo mundo ter quase o mesmo sobrenome ou ser parente, a urbanização realmente afastava, dominava, escravizava e roubava a população das raízes de seu lar que é, sem sombra de dúvidas, a praia. New Castle era quase uma vila, só chamávamos de cidade pelos grandes centros comerciais.
Quando levanto para jogar a casca fora, dou um esbarrão alguém e caímos com tudo na areia.
Por Deus, o que foi isso?!
Quando finalmente consigo abrir os olhos, me recuperar do susto e sair de cima da pessoa, identifico o individuo: e era melhor não ter nem ousado. O cara era um verdadeiro deus Grego. Malhado, alto, louro e com o cabelo pra cima, me encarava fixamente com aqueles olhos azuis e de mão estendida. Meu... Deus... Que.. Delícia. O ar fica completamente preso em minha garganta e eu só consigo soltar uns gurnidos sem sentido.
– Ei, está tudo bem? – Ele estala os dedos no meu rosto. – Ei? Guria?
Caio em si e tento reverter o papel de idiota, segurando a mão dele. Num pulo levanto e tento recuperar a dignidade que me resta.
– Cristal. – Limpo a garganta, me apresentando. – Desculpe por isso.
Ele ri e deixa a mostra todos os perfeitamente alinhados dentes e as covinhas, o que me faz babar novamente. Além de gostoso, era lindo. Me pego por um instante tentando achar algum defeito visual do garoto, por que era injusto alguém ser tão atraente quanto ele.
– Daniel. – Se apresenta, e só então percebo que carrega uma prancha na mão esquerda. – Pode deixar que eu cuido disso.
Depois de pegar o coco em minha mão e jogar na lixeira, ele se vira e sai correndo em direção ao mar, mergulhando em uma onda gigante. Volto a sentar e a encarar, com um sorriso impressionado no rosto, o louro. Eu podia ficar o resto da tarde, do dia, talvez até da semana observando ele surfar distraído.
Decido então, finalmente, entrar na água. Depois de arrancar meu short, caminho até onde as ondas se quebram e sinto a água agradavelmente gelada em meus pés. Fecho os olhos por um segundo: estou em casa. Entro mar á dentro e quando água já está em meu pescoço, relaxo.
Meu descanso não dura muito tempo e ao sentir que uma onda enorme se aproxima me encolho. Mas, é lógico, é tarde demais: sou comida pela água que saí arrancando tudo e arrastada alguns metros. Só me vejo livre depois de vários segundos, quando percebo que tem algo faltando.
Ah, não...
A parte de cima do meu biquíni, o top, foi levado com a onda arrasadora. Sem saída e desesperada, até cogito a possibilidade de gritar o nome do surfista para uma ajudinha.
Mas, porra, EU ESTAVA PELADA!
Vejo um grupo de adolescentes entrar na água gritando e fazendo farra.
Péssima hora para isso.
Encurralada e sem saída, afundo na água e abro os olhos debaixo do mar.
E... Cara. Como está claro aqui em baixo!
Está tudo tão nítido, tudo tão perfeito... O azul é claro e sereno e o cenário me fascina: peixes, algas, conchas, corais de todas as formas e tamanhos...
É maravilhoso.
Abro um sorriso incontrolável e esqueço, ao menos por um segundo, do problema na superfície.
Não sinto nenhum ardor e muito menos desconforto. Na verdade, o sal parece gostar de minha pele e trás uma sensação incrível. Agarro uma pedra fincada na areia e fico ali, á espera de um milagre.
O conto de fadas começa a me assustar um pouco: eu já estava há minutos submersa e não sentia nenhuma necessidade de sair. "Muito justo", logo penso, "eu ter uma resistência ao oxigênio".
Absorta de todo o resto e fissurada no mundo submarino, sinto uma mão agarrar meu braço e, ao virar, percebo que é Daniel, que me puxa com brutalidade até a superfície.
Ao encontrar o ar lá fora, dou para tossir desesperadamente: mas não é uma tosse de quem recupera o ar, e sim de quem está com uma epidemia de gripe.
O que estava acontecendo comigo?!
Cada canto do meu corpo deseja voltar para aquela pedra, mas pelo visto devo explicações para a multidão de pessoas que se forma na beira da água.
– O que foi isso?! – Ele berra inconformado, me jogando em cima da prancha. De bruços, é claro, deito e o encaro enquanto ele me carrega de volta para a areia. – Todos achávamos que estava morta!
– O que? – Estranho. – Estava nadando e acabei perdendo a roupa de banho, só isso.
– Cristal, – Seu tom parece mudar e, de repente, se prepara para uma revelação: – fazem vinte e oito minutos que você está lá em baixo.
O QUE?!
Espanto-me e arregalo os olhos. Não parecia tanto tempo quando estava submersa!
Daniel veste sua camiseta em mim e me pega no colo, atropelando as pessoas que me lotam de perguntas. Depois de pegar minhas coisas no chão, ele faz questão de me carregar para longe dos quiosques e em pouco tempo estávamos na parte deserta da praia.
Ele me colocou no chão finalmente e me entregou a mochila e... O maço de cigarros. Arqueou uma sobrancelha.
– Se vai vir com um papo de câncer, pode ter certeza de que eu já estou informada disso.
– Na verdade, eu ia pedir um.
Arregalo os olhos.
– Finalmente alguém que me entendi! – Rio, dizendo pra ele ficar á vontade. Daniel acende um cigarro e eu faço mesmo, e vamos os dois andando em direção á minha casa. – De qualquer maneira... Obrigado. – Agradeço sorrindo e ele retribui.
– Tem alguma coisa especial em você. – Admite.
– A palavra é "esquisita". – Rio com ele.
– Por ventura já pensou em nadar profissionalmente?
– Ah, não, – Gargalho pensando na ideia. – é só um hobbie mesmo. Mas e quanto ao surf?
– Meus pais me matariam. — Bufa desapontado. – Eles sonham com meu futuro como advogado, médico, quem sabe... Vivem me mandando largar as ondas e meter a cara nos livros.
– Tem problemas na escola?
– Na verdade, sou ótimo aluno. Eles é que não se conformam em ter um filho surfista. É uma pena que nunca possa realizar meu sonho.
– Já tentou acatar a ideia de que talvez eles queiram seu melhor?
Daniel para e me lança um olhar de julgamento, arqueando as sobrancelhas.
– Não podia escolher uma frase mais clichê?
– Ah, não seja tão exigente! – Exclamo em meio de uma risada. Porra, nem eu estava acreditando que tinha falado aquilo. – Estou tentando ser uma boa amiga!
Ele parece rir comigo e finalmente chegamos à frente á minha casa.
– Amiga? – Repete o que eu disse como se tivesse algo errado. – Não gosto muito dessa ideia.
– Empatamos, — Admito. — amizade também não é meu ponto forte.
– Parceiros, quem sabe. — Estende a mão e eu a aperto.
– Parceiros.
Encaro aqueles olhos por uns últimos segundos e me despeço, entrando em casa.
Na boa, "parceiros" não era exatamente o sinônimo do adjetivo que eu gostaria de ser dele. Na verdade, eu só queria que ele se desenrolasse daquela toalha e me jogasse contra a areia, tirando aquela camisa enorme de mim e me beijando até não sobrar uma única peça de roupa pra contar história.
– Onde se meteu, garota?! – Minha avó exclama, exasperada, a me ver cruzar a sala de estar. – Disse para não voltar tarde!
– Tive um problema com meu biquíni. – Apronto para a camisa de Daniel.
Ela me lança sua famosa expressão e põe uma das mãos sobre a cintura:
– Você não tem jeito mesmo. – E, sacudindo a cabeça, manda ir me lavar, enquanto corre até a cozinha para limpar desesperadamente o traço de água salgada que deixei pela casa.
Eu mereço.
Durante o banho, deliro pensando no mundo submarino. Sem sombra de dúvidas queria aquela sensação inigualável de volta. Nunca havia aberto os olhos, explorado, e tido a explosão de sentimentos antes de baixo da água. O que vi lá em baixo hoje é algo surreal. Totalmente desgarrado da realidade. E torno a me perguntar:
O que está acontecendo comigo?
Enrolo-me na toalha e pego o notebook na cabeceira, atirando-me na cama e abrindo a página do Google. Depois de uma pesquisa de pouco mais de cinco minutos, dou com a informação que faz minha cabeça explodir:
"O atual recorde mundial de apneia submersa é de oito minutos e cinquenta e oito segundos."
Ah. Não é possível...
Isso era aproximadamente um terço do que eu havia conseguido mais cedo.
Chocada e confusa, abro o chat com o Igor e conto o acontecido.
"Que história é essa de surfista sarado?", é a primeira coisa que ele demonstra se importar.
"Vai se foder, Igor! Eu conto que sou praticamente a filha de Poseidon e você está preocupado com o Daniel?!", digo indignada, "Queda por mim confirmada!", e, segundos depois de apertar enter, a janela se fecha indicando que ele ficou off-line.
Jogo o computador longe e agarro o travesseiro, irritada.
Ah, tenha a santa paciência, Igor, aja como uma pessoa normal!
– "Pessoa normal!" – Rio o do que pensei e repito pra mim mesma, sozinha. – Falou a garota que acaba de passar meia hora agarrada á uma pedra á quatro metros de profundidade.
Adormeço me livrando dos problemas, e só acordo com o sol se põe, á tardinha, cerca de seis da tarde.
Minha avó me espera com uma mesa pronta enquanto assiste à novela, vidrada na telinha.
– Acredita que a Felícia Eduarda não matou o pai do mocinho?! – Ela diz espantadíssima com a notícia.
Sempre detestei novelas. São chatas, cansativas, repetitivas e intermináveis. Não sei como a mulherada aguenta ver do início ao fim uma trama praticamente igual a das anteriores. Na mina modesta opinião, acho que é só para ter o que falar: no salão, na fila do supermercado, na sala de espera dos consultórios... É o assunto sagrados das mulheres, tendo doze ou cinquenta anos.
– Certo... – Digo, revirando os olhos.. – Eu precisava conversar com você sobre uma coisa que ocorreu hoje na praia, eu...
– Silêncio! – Ela me interrompe e pulo de susto. Ninguém ensinou pra ela que não se assusta fumante? Meu coração vai a mil, porra! – É o clímax.
Ah, já vi que não tem jeito.
Achei mesmo ao menos pro um segundo que minha avó me ouviria?
Jogo-me no sofá ao lado dela e finjo estar interessada no bloco quadrado responsável pelo alienamento do mundo, vulgo: televisão.
Julgo-me nesse instante e me castigo mentalmente por não confiar nas pessoas. Se confiasse não teria apenas um amigo e teria com quem compartilhar as bizarrices que acontecem comigo.
E, no meio de todos esses pensamentos confusos e situações complicadas, omito uma confissão: meu desejo era, incontrolavelmente, de voltar para água.
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