Cristal

3 Chapter Three - Love? What that fuck?


– Em um aquário? Trouxe-me á um aquário?! – Berro, irritada. – Porra, Igor, há uma praia enorme em frente a minha casa, isso é tão capitalista!

Ele se encolhe.

– Queria apenas lhe fazer uma surpresa.

Já era terça-feira, cerca de quatro da tarde. O sol estava começando a cogitar a ideia de ser por e o merdinha do meu melhor amigo resolveu que deveria me dar "um pedido de desculpas" por ter me deixado falando sozinha ontem á noite. Era nítido que Igor definitivamente não sabia me agradar.

– Tudo bem, eu te absorvo de todos os pecados, agora podemos, por favor, voltar para casa? – Imploro entredentes.

– Ah, Cristal... – Tenta me convencer. – Acabamos de chegar, a entrada não foi barata e eu sei que você adora o mar!

– Eu adoro o mar, não criaturas vivas dele dentro de jaulas. – Rebato.

Igor ia voltar a argumentar, mas em meio de sussurros e fofocas percebo que todos em nossa volta estavam comentando sobre a mesma coisa.

– Qual será a atração? – Brinco e rio cochichando, e ele parece finalmente notar o que estava acontecendo.

– Eu acho que... – Olha pros lados assustado. – A atração é você.

Estico o pescoço curiosa na tentativa de entender o porquê da confusão. Só entendo onde ele quer chegar quando observo a situação e encaro os aquários que nos cercam: os peixes estavam todos acumulados, quase quebrando o vidro e em direção a mim. Tubarões, raias, espécies variadas, e até estrelas... Sem nenhuma exceção, as criaturas pareciam me seguir a cada respiração que eu dava.

– Eu... – Minhas pernas ficam bambas de repente e o ar some por alguns segundos, enquanto tento raciocinar. – Igor, me tira daqui.

Conheço o meu amigo o suficiente para saber que, pelo normal, não teria capacidade nem a astúcia de arrancar uma garota de um metro e sessenta do meio de um tumultuado de pessoas. Mas, na ocasião, não sei o que lhe deu na cabeça: saiu empurrando todo mundo com umas das mãos enquanto me levava agarrada no outro braço.

– O QUE FOI ISSO?! – Ele grita quando estamos em uma boa distância do aquário.

Nesse ponto eu já carregava minhas sandálias em uma mão só e pisava na calçada disforme ao meio de tropeços.

Meus pulmões de fumante berravam em desespero.

A rua em que estávamos era tranquila, vazia, serena... Passavam pouquíssimos carros e era cercada por casas baixas, então os berros de Igor chamavam mais atenção que meus tombos exagerados no caminho.

– Podemos parar de correr agora, – Peço com respiração ofegante. – por favor?

– Certo. – Ele freia imediatamente eu não aguento, caindo no chão feito fruta de árvore. O piso estava sujo e quente, por causa do sol. Mas a gravidade praticamente sentava em cima de mim, fazendo-me ficar paralisada.

– Estou exausta... – Anuncio melancolicamente e jogo a cabeça pro lado.

– Ah, poupe-me de seus pensamentos desnecessários. – Diz, com desembaraço.

E nesse exato momento percebo que Igor estava extremamente irritado.
Ele nunca havia falado neste tom comigo antes. Para seu ego inflar e a autoestima subir ao pescoço, sem sombra de dúvidas havia algo errado.

– Qual é o seu problema?

– Qual é o meu problema? – Ele repete minha frase agora reformulada e, dando ênfase no "meu", faz uma cara sarcástica que eu realmente não conhecia. – Desde que conheceu este surfista estúpido, você...

Ah, agora entendi. O problema era o Daniel.

Enquanto ele tagarelava sobre o quanto eu devia ter ido para casa no dia anterior, percebo que Igor se rasga de ciúmes da cabeça aos pés.

Por que eu nunca havia visto ele de outra forma, mas ele havia? Digo, Igor era um garoto atraente e... Eu não sei. Eu só não queria estragar uma amizade de tantos anos.

E é nesse momento que decido ativar o modo hormônios e demonstrar, explicitamente, meu melhor defeito: compulsividade. Agarro a barra da camisa de Igor com força e o jogo no chão, ao meu lado, grudando meus lábios nos dele.

Nunca beijei alguém tão estranhamente quanto Igor. Ele não deixava eu dançar com a língua em sua boca, ficava lá, parado, como se eu tivesse... Forçando o beijo.

É evidente que todo o lado "Igor machão" tinha evaporado: assim que o soltei e tentei ter uma troca de olhares decente, deu para corar do queixo á testa e a desviar os olhos para todos os cantos da rua, menos á mim.

Então era isso?!

Nem ao menos um "Finalmente que você notou!", ou simplesmente "Eu não sei o que dizer?”.
Filho da puta.

– Era de se esperar. – Solto em uma mistura de desapontamento com irritação, levantando do chão e marchando para minha casa, sozinha.

O mais interessante é que ele nem se deu o trabalho de vir atrás de mim. Ficou lá, esta talado, jogado na imundice da calçada.

Estava prestes a entrar em casa quando escutei uma onda grande e tentadora onda estourar atrás de mim. Viro o pescoço e sorrio sabendo exatamente a reação que este som provocaria: arranco a camiseta e corro em direção ar mar sem olhar para trás.

E, pela segunda vez, me pego submersa no clarão do fundo das águas. Desta vez não fico parada agarrada á uma pedra. Ouso nadar junto com os peixes, que insistem em me seguir como se eu fizesse parte daquele lugar maravilhoso. Ainda me encantava o fato de não sentir desconforto em abrir os olhos, ou com o a falta de ar simplesmente não causar absolutamente nenhum efeito em meu corpo.

O tempo parece voar mais rápido que da última vez: o único fato que me faz voltar para o topo é perceber que o céu parece ter ficado negro de repente. Assim que chego a superfície me vem a mesma sensação horrível como se o oxigênio me causasse algum tipo de alergia rara. Tusso incontrolavelmente até meu estômago implorar para aquilo acabar, latejando de dor. Jogada na areia e encarando céu estrelado, viro o pulso e encaro o relógio: nove da noite.

Eu estava fodida.

Tive que escutar o resto da noite sobre o quanto era perigoso ficar na praia ao anoitecer com os ocorridos de ultimamente, sobre o quanto deveria escutar os mais velhos, sobre o quanto tinha que assumir o controle de minha vida e adquirir responsabilidades e blá, blá, blá...

Toda aquela conversa maçante e clichê já me deixado anestesiada e depois de um tempo ela gritava comigo enquanto eu estava perdida em meus pensamentos.

Aqueles corais avermelhados feito chamas eram tão bonitos... Quem sabe devesse pegar umas amostras. Mas talvez os peixes simpáticos de olhos engraçados sentissem falta de um lugar para se esconder na temporada de pesca...

– Cristal? CRISTAL! – Pulo de susto e percebo que minha avó me chama desesperadamente.
Aperto os olhos com força e só então percebo que já é quase uma da manhã.

– Vó, eu já entendi, você está certa e eu mereço tudo isso. Mas está tarde e estou cansada, pode, por favor, me deixar dormir?

Ele me encara por uns instantes e dá um sorriso amarelo.

– Tudo bem se eu dormir aqui hoje?

Gargalho e puxo-a para perto do meu travesseiro, abraçando-a por trás.

– Eu te amo, dona Marlene. – Brinco e agarro uma de suas mãos.

– Também te amo, dona confusão.

E, depois de alguns segundos, apagamos juntas.

"NOVOS ATAQUES DE TUBARÃO FORAM REGISTRADOS NA NOITE ANTERIOR. DESTA VEZ UM CORPO DE UM JOVEM ESTUDANTE FOI ENCONTRADO Á BEIRA DA PRAIA, AOS PEDAÇOS. ESTUDOS MOSTRAM QUE..."

– Desliga essa porcaria. – Minha avó dá a ordem como se passasse uma cena imprópria na televisão.

Ah, poupe-me. Até parece que era a primeira vez que eu escutava esse tipo de notícia nos jornais.

A cidade enfrentava ataques de tubarão durante várias épocas do ano. Quase todo mês, durante cerca de uma semana, mortes horríveis aconteciam dentro dos mares de New Castle. Mesmo com todos os avisos, placas e notícias chocantes com direitos a imagens sem censura, as pessoas insistiam em nadar a noite, — no horário em que eles atacavam — e sempre acabava saindo um morto decapitado.

Como se eu fosse um ótimo exemplo...

Minha avó tinha total razão em ficar irritada comigo e toda a bronca da noite anterior foi merecida. Mas por alguma razão eu me sentia totalmente segura dentro do mar e, confesso: esses ataques não me assustavam nem um pouco.

Depois de um café demorado e silencioso, parto em direção a escola.

A rotina do dia-a-dia já havia ficado extremamente entediante. Em meados de setembro, beirando o fim do ano, todos já estão de saco cheio dos dias úteis e imploravam de joelhos para que as épocas das festas começassem.

Eu não.

Natal e ano novo eram quase que uma tortura para mim. Sabe, sem levar para o lado religioso, mas essas datas não passavam de desculpas para os comércios atacarem e esvaziarem seus bolsos. Além do mais, enquanto todos passavam as ceias e as viradas do ano reunidas com a família, eu passava – se não em alguma reunião de família chata – trancada em casa escutando os lamentos de minha vó sobre as perdas dos últimos anos. Eu também gostaria que meu avô estivesse conosco e quem me dera meus pais, mas ao invés de passar todo o tempo reclamando e chorando, deveríamos tentar seguir em frente.

Não encontrei Igor em parte alguma da escola e fiquei durante todas as aulas verificando o relógio, de cinco em cinco minutos, na esperança de chegar atrasado.
Depois de um tempo finalmente percebi que o motivo da sua ausência era ridiculamente o beijo que lhe dei no dia anterior. Estava simplesmente boquiaberta de perceber que o comportamento imaturo de Igor tinha chegado á esse ponto.

– Marina! – Escuto Catarina berrar do fundo da sala, em meio das risadas e gritarias dos alunos.
Não me admira que ninguém respeite professores substitutos, afinal os caras ganham para fingir que sabem aplicar a matéria.

– Cristal. – Insisto em corrigir entre dentes. Meu nome é Cristal.
– Você podia passar lá em casa depois da aula, o que acha?

Ah, não...

Sinto-me praticamente em um tribunal prestes a ser julgada e condenada por um crime que não cometi.

– Não, obrigada. – Solto sem pensar e o juiz bate o martelo: CULPADA.

– Ah... – Ela abaixa a cabeça como se não soubesse o que dizer.

E, sinceramente, nem eu sabia.

– Cristal, eu entendo que não sejamos amigas tão próximas, mas se você não sair desse ninho as coisas vão se complicar no futuro.

– Desculpe.

E é só o que consigo dizer antes de Catarina suspirar desapontada e jogar um número na mesa. "Me liga se mudar de ideia", diz e sai da sala ao som do sinal de fim de aula.

– Não devia surfar se quer ter as duas pernas! – Dou um grito altíssimo, sentada na areia da praia, ao avistar Daniel sair do mar vindo em minha direção.

A praia estava muito mais vazia do que da última vez. Todo mês, durante os dias dos ataques, as pessoas ficavam apavoradas e não se aproximavam em um raio de quinze metros das águas salgadas. Apesar dos famosos tubarões só atacarem ao anoitecer, as praias ficavam vazias e silenciosas de seis ás seis.

– Não tenho medo de peixes. – Daniel diz, rindo e sentando ao meu lado.

– Deveria ter. – Rebato. Só então percebo que em sua prancha há pequenas, mas perceptíveis marcas de mordidas na lateral. – Ei, deveria ter mesmo.

Aponto para a falha e ele percebe do que falo.

– Foi atacado?

– Quase isso. – Explica. – Não sei se eram tubarões.

– O que? – Junto as sobrancelhas e imediatamente me interesso no assunto.
Daniel encara o céu pensativo e os raios de sol causam um reflexo em seus olhos, aqueles azuis turquesas perfeitos. Lindo. Ele era assustadoramente lindo. Eu poderia fazer uma lista, talvez até mesmo um livro somente com adjetivos o descrevendo, entretanto "perfeição" conseguiria resumir todos em apenas uma palavra.

Injusto. Tão injusto.

– Faz cerca de um ano. – Limpa a garganta, resolvendo me contar. – Já era noite. Dez, dez e meia... Estava tudo escuro e sereno. Não achei que teria problema eu pegar uma onda ou duas. Mesmo com os ataques, ignorei todos os avisos e apostei com um amigo que surfaria por meia hora e ainda sairia vivo.

– E então?

– Eu consegui. – Sorri vitorioso e vira para me encarar. – Mas antes de sair da água eu senti... Uma mão. – Um calafrio passa por minha medula espinhal. Era como se suas últimas palavras injetassem uma substância em meu corpo não reconhecível. O efeito era alucinante. Parecia uma criança ansiosa, esperando para a continuação do episodio do desenho favorito no dia seguinte. Afobada, inquieta e até fantasiando com as mil possibilidades do fim de mistério. – Bom, é bobagem... Não sei se era realmente uma mão. Eu estava assustado, as águas negras, o mar agitado... Pode ter sido uma alga ou sei lá.

Não dou a mínima para o que ele acha que era. Tinha uma mão na água. Sabia que não eram tubarões.
Eu sabia.

– E quanto à prancha?

– Me livrei do que me agarrou com um chute e saí da água correndo. A Prancha ficou para trás e quando a retirei da água... Voilá.

Eu até cogitaria a ideia de falar alguma coisa, mas novamente me deu uma crise de tosse como das últimas duas vezes que saí da água. Daniel tentou me ajudar dando uns tapinhas, mas parecia aquilo não terminaria nunca.

– Vou dar... – Me esforço para falar entre as tossidas. – Um mergulho.

E enquanto ele grita algo no qual não presto atenção, corro em direção ao mar e me jogo de roupa e tudo. Imediatamente a tosse para a meu mundo fica colorido novamente.
Reconforto-me com o sal e deliro no fundo das águas. Os peixes se aproximam como se esperassem minha chegada. Aceno com uma mão.

Sinto-me tão em casa que já vou atrás dos corais vermelhos que me encantaram. Sento no fundo da areia e só então percebo que a gravidade não me puxa para cima como deveria. Ignoro este fato e remexo que o cerca até encontrar pequenas pedras cintilantes e conchas de formas variadas.

Realmente encantadoras.

Coloco algumas no bolso e desisto da ideia de pegar um pedaço dos corais ao perceber que os peixes dos olhos engraçados não querem que eu o faça. Não, eles não falaram comigo ou acenaram com uma nadadeira. Mas por algum estranho motivo, – tudo que tem acontecido é por estranhos motivos – sinto no olhar vazio que precisariam daquilo mais tarde.

Satisfeita com minha coleção e lembrando que Daniel me espera na areia, volto nadando até a superfície.

Previsivelmente a tosse volta, mas já estava tão acostumada com essa sensação de sufoco, que retorno correndo até onde estava sentado olhando fixamente para o relógio no pulso.

– Dezesseis minutos e vinte e oito segundos. — Anuncia como se contasse o tempo que eu estava submersa detalhadamente. – Menina, estou considerando rigidamente a hipótese de te mandar para o circo.

Dou uma risada e pego os chinelos na areia.

– Te vejo em breve, – Faço uma reverência. – nobre e corajoso cavalheiro contra as forças malignas marinhas.

– Até qualquer dia, dama misteriosa das águas do reino. – Ele reverencia de volta.

Reviro os olhos e depois de rirmos mais uma vez, volto para casa.

Assim que atravesso o corredor e abro a porta do meu quarto, dou de cara com quem eu menos gostaria de ver no momento sentado em minha cama esperando minha chegada: Igor. Já vou logo fechando a cara, cruzando os braços, bufando e apontando pra porta, afim não só de deixar bem claro que quero que ele suma da minha frente, mas mostrar o quanto estou irritada com suas ações.

– Eu posso explicar.

– Fora. – Corto, adotando sua política de não cruzar olhares com ele ao menos por um milésimo.
Igor leva a mão na nuca e coça, tentando achar palavras.

– Eu tive medo, Cristal.

– Que puta novidade. – Rebato ainda rígida. – Fora.

– Tive medo de não dar certo, de você não gostar de mim quanto eu gosto de você. – Explica. – Tive medo de te perder.

Nesse instante meu braço, antes apontado desesperadamente em fúria, despenca em queda livre e eu me jogo no chão do meu quarto, bufando e pondo as mãos sobre a testa.

– Onde nós fomos nos meter...

– Não fala assim, – Ele impõe. – não é justo conosco culpar-nos por algo que não se controla.

– O caso é que não era pra ser assim, Igor. – Finalmente tomo coragem e o encaro. – Você ainda é meu melhor amigo.

– E você ainda é minha melhor amiga! – Joga as mãos para o ar e desce da cama, agora vindo até mim e agarrando minhas mãos, o que me pega de surpresa. E, preparando-se para dizer a coisa mais profunda do mundo, fita-me pela primeira vez nos olhos sem desviar e solta:

– Eu te amo, Cristal.

E então paraliso.

Em que sentido ele quis dizer "eu te amo"? Saiba ele que "eu te amo" é uma frase fortíssima para ficar distribuindo pelos cantos.

Honestamente, uma frase nunca havia me impressionado tanto, nem mesmo "teus pais faleceram", quanto aquele "eu te amo" do Igor.

– Não vai falar nada? – Insiste em perguntar, como se quisesse afundar mais ainda a faca no meu peito.

– Hora errada, lugar errado, momento errado, vida errada. – Dou de ombros. – Não posso e não quero fazer isso.

Ele abaixa a cabeça.

– Pensei que aquele beijo tivesse... Ele parecia significar que... As coisas não...

E continua por um bom tempo tentando terminar frases na qual eu provavelmente sabia o final, mas nem um dos dois tinha coragem e ousadia de pronunciar.

– Chega. – Ordeno. – Toda essa cena está pior que as novelas da minha avó.

– Isso é o que acontece quando as pessoas não sabem diferenciar amizade de amor.

E lá vem ele usando a palavraamor novamente.

– Eu sei diferenciar, Igor, eu sei mesmo. Te beijei por que sinto atração por você. Te beijei por que queria ver sua reação. Te beijei pelo simples fato da única coisa que eu queria ter feito no momento era exatamente o que fiz. – Ergo a cabeça. – Te beijar.
– E isso não significa nada para você?

E antes que eu pudesse responder, ou pelo menos tentar, a porta de abre e minha avó estica o dedo para mim.

– Que história é essa que andam dizendo, mocinha? Você se afogou nesses dias e não me contou?

Reviro os olhos.
Ah, puta merda.

– Foi no dia que eu perdi o biquíni. Um surfista me salvou. Vamos esquecer isso, por favor, eu...

– A senhora está proibidíssima de entrar nesses mares durante um bom tempo! – Grita.

Esqueço qualquer outro problema ou pensamento nesse instante, por maior que sejam.
Ela disse mesmo isso?!

– O QUE? – Meus olhos saltam em desespero. – Tudo menos isso, vó!

– Não seja tão dramática, Cristal. É só até o fim da temporada de ataques de tubarão. Quem sabe assim aprenda a ter algum juízo. – E, antes de virar de costas em uma saída triunfal, completa: – Saia desse chão sujo. Não quero suas roupas muito menos você imunda.

Assim que bate a porta eu explodo.

– Quem ela pensa que é? – Chuto a cama irritada.

– Sua avó, oras. — Igor se mete e eu viro.

– Fora.

E, depois de alguns segundos esperando minha resposta, percebe que a situação está intensa demais e sai de fininho.

Me atiro contra a cama e abafo um grito que, se o travesseiro não impedisse, seria escutado por toda a vizinhança.

Eu não conseguiria ficar tanto tempo longe da água!

Puxo a escova na cabeceira e sento, penteando os cabelos com brutalidade.

– Que merda! Merda! Isso é injusto pra porra! – Repetia a frase inúmeras vezes soltando faíscas.

Depois de bons minutos consigo finalmente regular a respiração e jogar as conchas que peguei sobre a cama. De bruços observo-as uma por uma, forma por forma, cor por cor, maravilhada com a nova coleção.

Ah, Cristal... Você está no mundo errado.

E, sem perceber, acabo apagando ali mesmo, em meio de minhas pequenas preciosidades.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.